Como a sustentabilidade pode ser sinônimo de rentabilidade

Por em 24 de junho de 2013

A leitura de um recente artigo publicado na revista norte-americana Beef Magazine, de autoria de Burke Teichert, intitulado “Seven Keys to Ranch Profitability”, estimulou-me a formular algumas sugestões para um melhor desempenho na pecuária bovina brasileira.

Este assunto tem especial importância porque são raríssimos os períodos em que o valor da arroba bovina sobe na mesma velocidade que o preço dos insumos e equipamentos utilizados para sua produção intensiva. Dessa forma, o pecuarista deve priorizar sistemas de produção sustentáveis, que otimizem os benefícios da luz solar, da chuva e do próprio solo, em vez de apelar para processos altamente dependentes da utilização de insumos.

Na tomada de decisões sobre que caminhos seguir, o pecuarista brasileiro tem de enfrentar diferentes questões, bem como alguns mitos. Alguns deles parecem-me básicos:

Tamanho da fazenda – Muita gente pensa que, na pecuária de corte, somente grandes propriedades conseguem ser rentáveis. E acredita que o fator escala é indispensável. Não é verdade: pequenas propriedades podem gerar lucro, e bom lucro. O ponto central é o equilíbrio. Operações grandes, quando deficitárias, resultam em grandes prejuízos.

Número e capacitação dos funcionários – São fatores importantes no controle dos custos e, portanto, fundamentais para a produção racional. Fazendas com bons funcionários permitem, sem grandes dificuldades, manter a relação de um trabalhador para cada 400 e até 600 animais.

Hectare por vaca – Para aumentar o número de divisões de pasto, entre comprar mais terras e melhorar a distribuição de água prefiro a segunda opção. Com isso, aumenta-se o número de pastos e melhora-se o seu monitoramento, ampliando a capacidade de suporte, o que permitirá otimizar o número de animais por hectare. Esse número ideal será determinado pelo ponto “ótimo” da produtividade (maior lucro por unidades de arrobas produzidas).

Pastagens e ração – Quase sempre, melhores pastos com menos ração serão mais rentáveis que o inverso. Na minha propriedade, por exemplo, sai caro fazer reserva de volumoso para a seca (com a utilização da renovação da pastagem associada ao plantio de milho ou sorgo para silagem). Essa prática aumenta os custos da renovação em até três vezes mais que o capim solteiro. Assim, é melhor investir em calcário e adubo para ampliar a manutenção do número de pastos: o gado ganhará alimentação mais farta e de menor custo nos meses de seca.

Financiamentos – Convém avaliar bem a tomada de empréstimos para financiar o investimento em melhorias na fazenda. Nem sempre eles compensam, mesmo com os chamados “juros baixos ao produtor”. O preço da arroba é deflacionado nos ciclos e, por melhores que os juros pareçam, eles podem tornar-se caros nessa hora.

Equipamentos e instalações – Vale a pena comparar a possibilidade de terceirização de várias atividades mecanizadas com a manutenção de tratores e equipamentos próprios. E devem-se prever apenas as edificações e instalações realmente indispensáveis; elas concorrem para aumentar custos de mão-de-obra e sempre acarretam custos na sua conservação.

Otimização da margem bruta – Essa deve ser uma preocupação constante do pecuarista. A margem bruta é o resultado das vendas menos os custos diretos. Se os custos estão sob controle, a lucratividade vem de quantas unidades você é capaz de vender, e vender bem. Além disso, a margem bruta é melhorada pelo uso “equilibrado” de insumos. Assim, o segredo está em investir em tecnologias e benfeitorias com retorno garantido.

Lotação e pressão de pastejo – Manter um monitoramento adequado sobre os pastos é uma ferramenta poderosa para aumentar a sua capacidade de suporte. Isso melhora a produtividade e a eficiência do desempenho animal, reduzindo a necessidade de suplementação alimentar.

Demanda nutricional – Buscar a sincronização da demanda nutricional do gado com a capacidade das pastagens durante o ano é fundamental para o processo produtivo. A razão é simples: quanto mais tempo o pecuarista utilizar o que a natureza fornece, mais facilmente conseguirá melhorar a sua margem de lucro, pois poderá dispensar a necessidade de suplementar com ração. Um modo eficaz de disponibilizar proteína ao gado, quando as pastagens estão nos seus piores níveis (o que dificulta a digestibilidade da fibra endurecida do capim), é associá-la estrategicamente à mineralização.

Suplementação do gado – Como regra, esse recurso só deveria ser necessário, quando a severidade da seca tornar impossível o desempenho almejado na pastagem. Ainda assim, sugiro cautela nos gastos, pois o bovino selecionado no pasto suporta condições severas com mais competência do que em geral se estima, sem comprometer a meta de produção anual da fazenda.

Tamanho dos lotes – Ao contrário do que muitas vezes se pensa, grandes lotes podem comprometer a rentabilidade, pois dificultam o desempenho individual e o cuidado com os animais. É mais fácil e mais rápido vistoriar cinco lotes de 30 vacas paridas do que um único lote de 100 delas. O fundamental é ter o número suficiente de pastos para uma melhor distribuição do rebanho. Um lote grande dificulta o monitoramento das condições de saúde e desenvolvimento de forma individualizada dos animais.

Cruzamento industrial – Opção muitas vezes enaltecida como forma de otimizar os benefícios da heterose ou vigor híbrido, esse tipo de exploração merece um estudo detalhado para cada fazenda. Em geral, a heterose é mais eficaz onde a seleção é menos eficaz. Assim, muitas vezes, o cruzamento é buscado para tentar reverter no curto prazo prejuízos, mas não é garantia de melhoramento genético ao longo de gerações. Entendo que apenas a seleção rigorosa é capaz de proporcionar um aumento estável do patrimônio genético real e da sua produtividade.

Aquisição de touros – Não basta escolher o reprodutor; é preciso que o selecionador dos touros esteja alinhado com a sua visão de pecuária de corte. Ele deve ter uma noção exata dos seus objetivos. Só assim será capaz de escolher reprodutores aptos para atingir tais metas. São os touros (ou seu sêmen) que determinam o que será um rebanho – para melhor ou pior – em poucos anos.

Descarte/abate das fêmeas – Encarado, em geral, como uma operação marginal, esse pode ser um grande diferencial na rentabilidade do negócio pecuário. O segredo está em combinar o descarte com a identificação das melhores fêmeas, para que se eliminem as vacas-problemas e vazias, permitindo estabelecer uma estação de nascimentos planejada, com bezerros uniformes, que serão muito mais valorizados. Com o passar do tempo, o rebanho ganha em qualidade, com o que também reduz a necessidade de mãode-obra para a lida com o gado. Em suma, descarte de fêmeas é também seleção.

Boas práticas de manejo – A adoção de um adequado programa de manejo melhora a produção e diminui o risco de acidentes com os animais. O próprio mercado mostra-se cada vez mais exigente nesse aspecto: chega-se até a rejeitar produtos que não respeitem as normas recomendadas de produção.

Integração negócio-venda – Negociar animais ou levá-los para o abate não é apenas a última etapa do negócio pecuário. Toda a gestão da fazenda deve estar pensada em como vender os lotes da melhor forma possível. É interessante, por exemplo, agrupar os animais conforme sua idade e uniformidade de tipo para uma melhor comercialização.

Por fim, penso ser conveniente um alerta, válido para qualquer negócio: a atividade pecuária precisa ser acompanhada de perto. A rentabilidade não é resultado de uma ideia genial, mas sim de um trabalho contínuo. O olho do dono pode não engordar o gado, mas certamente vai evitar que ele emagreça por deficiências no manejo do rebanho e das ferramentas necessárias à produção.

2 Comments

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.