Testemunho de histórias esquecidas

Por em 19 de março de 2010

Eu nasci em Araraquara em 1975, e o que mais me lembra a primeira infância era o cheiro de suco de laranja que o vento trazia da fábrica da Cutrale, ali vizinha ao meu bairro. Mas muitas coisas aconteceram antes disso.
Meus primeiros antepassados paternos pisaram nesta terra há quase quatrocentos anos. Cheguei a encontrar em livros um longínquo x-avô que aqui aportou em 1676, vindo das ilhas dos Açores. Outros vieram depois. Nos trouxeram uma nacionalidade, a lígua portuguesa e a religião católica. Um ganhou a vida como tropeiro, levando e trazendo burros, mulas e cavalos entre as províncias sulinas e São Paulo. Outros conquistaram terras e viraram grandes fazendeiros de café, em Itu, Santo André, Araras. Algumas dessas terras estão hoje sob o concreto das cidades. A imensa árvore genealógica liga-me diretamente a figuras históricas da República Velha. De tudo aquilo conquistado, perdido em crises econômicas, batalhas políticas, jogos, negócios e disputas ficaram-me de herança as histórias e o sobrenome.
Minha família materna veio de outro capítulo importante de nossa história. Vindos dos rincões mais pobres e atrasados da Itália, chegaram aqui com uma mão na frente e outra atrás. Há pouco tempo atrás, em uma vila nas montanhas do Cilento, província de Salerno, na Itália, encontrei já velhinha a sobrinha de meu bisavô, que lembrava-se exatamente do dia em que fora despedir-se dele que embarcava para o Brasil no porto de Nápoles. Aqui progrediu e se instalou em terras de Boa Esperança do Sul, também plantando café. Criou nove filhos. Só os três mais velhos se formaram na universidade, porque a crise de 1929 veio, e a prosperidade acabou. Estoques de café sem valor nenhum chegaram a ser queimados nas locomotivas da Mogiana. Meu avô foi trabalhar no cabo da enxada. Casou-se, e minha avó, também italiana e de família pobre, mas acostumada com a vida boa da cidade foi para a fazenda onde aprendeu a carnear porco, fazer lingüiça e fritar a carne para ser conservada em barris de banha, já que não havia geladeira. Minha mãe passou a infância na fazenda. Anos depois, em sociedade com um imigrante libanês construíram uma fábrica de barbantes. Da fábrica de barbantes meus avós compraram um sítio para produzir laranjas. Mais ou menos na mesma época, seu José Cutrale, filho de um siciliano que vendia laranjas no mercado municipal de São Paulo, começou a fazer suco de laranja em Araraquara.
Meu pai, ainda jovem, acompanhava meu tio avô em viagens pelo Mato Grosso do Sul, que ainda era Mato Grosso. Meu tio avô, de Presidente Prudente, comprava gado lá do outro lado do Paranazão, e trazia de comitiva para os frigoríficos ingleses de São Paulo. Era um tempo onde não existia asfalto por ali. Todo mundo andava armado e onças e bandos de veados campeiros cruzavam o caminho nos campos do Bonito.
Meu pai foi estudar agronomia em Piracicaba, na Escola fundada no começo do século por Luiz de Queiroz, um industrial interessado em melhorar a qualidade do algodão que chegava em sua fábrica, o mesmo algodão que meu avô usava para fazer barbantes, vendidos principalmente aos frigoríficos onde meu tio avô vendia bois. Em Piracicaba conheceu minha mãe. Recém formado, em 1971, foi a Alta Floresta, quando Alta Floresta era um acampamento de pau a pique e lona preta. Uma empresa italiana queria plantar café ali, com incentivo e ajuda do governo brasileiro. A mata foi derrubada, 20 mil pés de café e 10 mil pés de cacau foram plantados. Minha mãe não se acostumava com onças rondando a casa. Foram a Campo Grande, de fusca. Campo Grande era um povoado cheio de imigrantes libaneses, japoneses, armênios e de índios e paraguaios. A cidade tinha algumas ruas de asfalto, e acabava ali na praça do Rádio. O bairro onde morei anos depois era ainda uma capoeira de mato em uma fazenda vizinha. A energia elétrica acabava sempre às sete da noite. Meu pai comprou terras em Bonito também para plantar café. Uma certa manhã o mundo amanheceu branco de geada, uma geada que ficou na memória dos mais velhos. O café e a fazenda acabaram-se, e eles voltaram a Araraquara. Minha mãe teve cinco filhos, e aí no meio eu nasci, sentindo o cheiro da fábrica de suco do seu José Cutrale. Meu pai pós-graduou-se em heveicultura. Em 1980 fomos em um Embraer Bandeirantes a Conceição do Araguaia, no Pará. Um de meus irmãos hoje trabalha de engenheiro na Embraer, ajudando a fazer alguns dos melhores aviões do mundo, bem melhores que aquele Bandeirantes. O governo ainda incentivava a derrubada da mata e a colonização da fronteira inóspita. Poucos anos antes índios haviam atacado a cidade matando alguns dos moradores a flechadas. Eram comuns histórias de assassinatos, tiroteios, brigas. Conceição também sofria com apagões e a falta de infra-estrutura. Certa vez um sujeito que havia tido a cara partida por um golpe de facão foi operado com luz de farol de carro no hospital da cidade. E sobreviveu. Mas eu e meus irmãos nos divertíamos pescando no rio, acampando nas praias, brincando nas rodas d’água da fazenda que meu pai gerenciava.
Em 1985, eu estava morando em Teresina, no Piauí. A 100km dali, uma grande empresa fazia um imenso projeto de arroz irrigado às margens do Parnaíba. O governo, através do Pró-Várzeas incentivava o aproveitamento do uso racional das várzeas de rios. Era engraçado ver a gauchada importada para implantar o projeto de arroz tomando chimarrão a um calor de 40 graus. A fazenda tinha 20 mil hectares. Nossa diversão era nadar no imenso canal central de irrigação e pular nos montes de palha de arroz. A soja avançava no Cerrado, e no fim daquela década chegaram os primeiros paulistas, vindos de Araraquara, para plantar no sul do Piauí. No vale do São Francisco crescia a fruticultura. Meu pai se apaixonara pela piscicultura, e foi também um pioneiro na criação de camarão da malásia no Brasil.
Fui estudar agronomia também na Esalq. Partilhei casa e comida e amizades com gente dos quatro cantos do Brasil, ricos, pobre, brancos, mulatos, pretos, japoneses, rurais e urbanos, todos apostando que na agropecuária estava o futuro do Brasil.
Eu e um grupo de colegas economizamos por três anos para patrocinar uma viagem destinada a conhecer a agricultura Européia. Andamos por campos, vinhas, criações, fazendas robotizadas, indústrias químicas, fábricas, bancos, universidades e até a sede da FAO, em Roma. Embora o mundo estivesse de olho na China, o Brasil despertava o interesse em todo lugar onde passávamos.
Voltei à Europa em 1999. Trabalhei em uma fazenda francesa, colhendo batata, milho, morangos, feijão. Meus patrões, donos de 60ha viviam de produzir sementes de milho, cânhamo e da feira de legumes do sábado. Estudei na Escola de Agricultura de Angers e com meus colegas franceses fomos a feiras de gados e viajamos por fazendas e frigoríficos irlandeses para uma pesquisa de campo. Virei estagiário de um frigorífico francês. Depois me ofereceram emprego. No final de 2000, uma vaca louca foi descoberta na linha de abate da minha empresa. Depois disso, a doença que até então estava restrita ao Reino Unido começou a aparecer na Europa toda, provocando uma enorme crise no setor de carnes do continente. Dali fui em 2001 para a Holanda, para trabalhar na importação e distribuição de carne brasileira, que minha intuição dizia, tinha um futuro muito mais promissor. Com o real desvalorizado desde 99, a economia estabilizada desde 94, a Europa fora dos mercados da Rússia e do Oriente Médio e a argentina sufocada por uma política suicida, as exportações brasileiras dispararam. Frigoríficos, todos já nas mãos de brasileiros se profissionalizaram. A velha geração de açougueiros e marreteiros de boi começou a dar lugar à segunda geração de tecnocratas, economistas e audaciosos homens de negócio que abriam ações na bolsa e compravam outras empresas no exterior. Nossas plantas não ficavam em nada a dever àquelas francesas e irlandesas que eu havia conhecido. Nem tampouco nossas fazendas, imensidões de pasto e espaço comparadas às granjas enlameadas de duas dúzias de vacas multicores dos irlandeses.
Vinte anos depois dos tempos de Sarney e Dílson Funaro, quando tivemos que importar o “Chernobife” russo que ninguém queria, o Brasil era o maior exportador de carne do mundo, e a Rússia nosso maior cliente.
A cada quilo de carne que eu vendia eu pensava estar ajudando a criar um emprego para alguém no Brasil.
Voltei em 2008 com saudades da terra, e fui para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Marquei gado, vacinei, brinquei, toquei boiada, aprendia a olhar a bosta para ver se cada um deles estava comendo bem…
Hoje meu trabalho é tentar descobrir a maneira de conciliar a produção de carne com a preservação ambiental. E nem é tão difícil, temos toda a tecnologia para isso. Podemos dobrar nossa produção de carne sem derrubar nenhuma árvore sequer.
Essa é, resumidamente, a minha história. E é uma pequena parte da história de como este país foi construído. Uma história esquecida por um povo que não se lembra sequer do escândalo do mês passado em Brasília. Um povo capaz de mobilizar 80 milhões de pessoas para tirar alguém do Big Brother e incapaz de fazer o mesmo para tirar um corrupto do Congresso.
Vivo do meu trabalho e do meu salário. Durante quatro meses do ano trabalho de graça para um governo que pouco ou nada me dá em troca. Mesmo assim quer determinar o que devo ler, escrever, comer e até pensar. Dá cartilhas de sexo, camisinhas e pílulas às nossas crianças achando que assim os educa melhor do que os pais. Defende ditadores e assassinos pelo mundo, enquanto se dizem democratas.
Se eu sou assaltado, dizem que a culpa é mais minha, por ter um relógio, do que daquele que me assaltou.
Minha religião, berço da democracia e do senso moral deste hemisfério está sob ataque, acusada de intolerância. Em nome da “tolerância”, pretende-se que seus símbolos sejam arrancados de todo e qualquer lugar público.
Não sou rico e nem latifundiário. Mas sou rotulado como parte da “elite branca” responsável por todos os males do país. Porquê? Porque acredito, como Lincoln, que a propriedade é o fruto do trabalho de um homem, é seu direito, e é a base de uma sociedade democrática? Certos setores da sociedade acham perfeitamente normal por exemplo que a propriedade da Cutrale seja depredada e saqueada pelo MST.
Nos dividem em brancos, pretos, índios depois de cinco séculos de miscigenação sob que propósito? Criar alguns cidadãos com direitos “mais iguais” do que outros?
Meu pai, aos 65 anos queria começar uma criação de camarões. Hoje, a promissora criação de camarão brasileira foi praticamente exterminada pelo ambientalismo militante. Espero que meu pai ainda não acabe seus dias na cadeia por insistir nisso. Ele que desmatou e plantou em várzea de rio hoje certamente mereceria prisão perpétua.
Meu filho vai nascer em junho. Estou feliz porque é tempo de festa junina, de comemorar a colheita na roça. Eu esperava que ele fosse desfrutar dessa imensa promessa de riqueza futura que é o agronegócio brasileiro.
Ao mesmo tempo não sei em que tipo de país ele vai viver. Nesse momento, como feto, a vida dele para alguns vale menos do que a de um mico-leão ou ovos de tartaruga.
Minha vida e minha história sempre estiveram de uma forma ou outra ligada à agricultura. Como esteve a história desse país. Hoje querem nos transformar em criminosos e vigaristas. Mas mantenho a esperança de que democraticamente iremos vencer essa tentação totalitarista que nos assombra por detrás de boas intenções.
Tenhamos fé.

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