De quem é a culpa da carne de cavalo?

Por em 12 de março de 2013

O escândalo da carne de cavalo que se alastra pela Europa evidentemente não é bom para a indústria da carne. Afasta o consumidor em primeiro lugar.

É uma fraude, um crime obviamente. Mas crimes dessa natureza nascem de “oportunidades de negócio”. Não seriam cometidos se não fosse lucrativos.

Qual a principal razão para que carne bovina fosse substituída por criminosos por carne de cavalo em algum ponto da cadeia? A escassez e por consequência a alta de preços da matéria prima original.

As crises de vaca louca em 1996 e em 2001 contribuíram para que a Europa passasse de exportadora a importadora de carne bovina, e a produção não cessa de diminuir desde então.

Preços de carne bovina tem subido na Europa nos últimos 10 anos, uma alta que foi acelerada especialmente depois que medidas foram colocadas em prática para controlar os volumes importados principalmente do Brasil.

Depois das crises de vaca louca, a Europa, forçada por um lobby bem organizado, achou por bem impor ao Brasil exigências de rastreabilidade compatíveis com as regras impostas aos produtores europeus, embora se tratassem de situações, realidades, sistemas produtivos e riscos sanitários completamente distintos.

As exigências culminaram com a publicação da Decisão 61, que criou a famigerada Lista Traces que exigia que propriedades rurais no Brasil, rastreadas, dentro da área habilitada para a exportação à Europa, tivessem a aprovação dos veterinários europeus para que pudessem exportar, uma afronta à soberania brasileira, tecnicamente desnecessária e que criou uma burocracia cara e inaceitável para a maioria dos produtores brasileiros.

De 15.000 propriedades aptas à exportação, restaram no início de 2008 cerca de 300, que passaram em alguns anos a pouco menos de 2.000 propriedades. O Brasil tem mais de 3 milhões de explorações pecuárias e exporta carne a 138 países, nenhum deles com exigências parecidas com as que a Europa impõe ao Brasil e a mais ninguém.

O efeito disso é visível na curva de preços do bovino europeu, onde há um salto no início de 2008, seguido de uma queda entre outubro de 2008 e outubro de 2009, efeito da crise financeira internacional, mas que retoma o crescimento acelerado em seguida.

Em 2007 também, Romênia e Bulgária celebraram sua entrada na União Européia. Os dois países, tradicionais produtores de embutidos e carnes processadas, compravam mais de 120 mil toneladas de carne brasileira, em sua maioria cortes de segunda para processamento.

Este comércio foi interrompido. Não é de admirar que a Romênia apareça como uma das fontes de carne de cavalo. Como compensação, o Brasil ganhou 5.000 toneladas a mais de quota Hilton. No entanto, foi imposta à cota Hilton brasileira uma definição anacrônica, que não condiz mais com a realidade produtiva brasileira, e esta definição aliada às exigências de rastreabilidade fizeram com que o Brasil gradativamente deixasse de cumprir a cota, enquanto a Comissão Européia se recusava a negociar uma nova definição para a mesma.

Outro exemplo é o do corned beef. A Europa tem uma legislação com requisitos padronizados de qualidade para o corned beef importado, mas nenhum para o corned beef fabricado no continente. O resultado é que os europeus podem fabricar e vender como corned beef um produto que não é corned beef, competindo deslealmente com o produto brasileiro, que tem muito melhor qualidade.

A carne bovina tornou-se cara e rara para o consumidor europeu. Gradativamente restaurantes tiraram o filé mignon de seus menus. As famílias passaram a consumir menos. E criminosos passaram a vender cavalo por boi.

Em um encontro em Bruxelas entre brasileiros e europeus, uma representante britânica de uma importante associação comercial perguntava: “será a carne bovina o novo cordeiro? Algo que era comum nas mesas de todas as famílias da Inglaterra e que hoje só vemos em dias de festa?”.

Se há uma lição a ser tirada dessa crise, é a de que o comércio internacional serve para balancear o mercado. É preciso que a Europa entenda que a primeira vítima das restrições comerciais impostas a outros é sua própria indústria.

Os Estados Unidos perceberam isso há muito tempo. São grandes exportadores e grandes importadores de carne. O fluxo traz lucro e traz equilíbrio para a indústria agroalimentar.

O Brasil é importante destino de carne ovina e de alguns cortes bovinos para seus parceiros do Mercosul.

A Europa, para proteger um pequeno lobby organizado de produtores que sobrevivem de subsídios e que sem o perceber luta contra seus próprios interesses, penalizou 500 milhões de seus consumidores.

Penalizou-os tornando a carne cara, especialmente em um momento de crise e desemprego. Com a pressão por preços cada vez mais baratos por parte do varejo, e a falta de matéria prima nas indústrias, penalizou-os novamente fomentando o maior esquema de fraude já visto no continente.

Há 15 anos, a União Européia era o destino de 56% da carne bovina exportada pelo Brasil. Hoje representa menos de 10%. Poderia reverter este quadro com uma maior liberalização do comércio e um maior equilíbrio no mercado. Mas provavelmente, o que vai acontecer é que virá com novas exigências para o Brasil, resultantes de sua própria incapacidade de controle. Mesmo que o Brasil já tenha há alguns anos mecanismos mais eficientes de controle em prática. É o que a experiência nos diz.

Esperamos estar equivocados desta vez.

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