Meio ambiente contra a fome

Por em 31 de janeiro de 2012

Luiz Silveira

A agropecuária é uma das atividades humanas mais vulneráveis ao clima. Um excesso de chuva em certo momento do ano ou uma seca um pouco mais longa que a normal já são suficientes para quebrar safras e diminuir a oferta de alimentos. À medida que as mudanças climáticas ficam mais evidentes, também fica mais claro que o agro precisa agir para diminuir seus impactos sobre o clima e antecipar-se às mudanças que ocorrerão no planeta.

Nesta quinta reportagem da série “Onze passos para alimentar 7 bilhões”, o Sou Agromostra como o agro deve adotar medidas de “mitigação e adaptação” às mudanças climáticas, no jargão sustentável. “A agricultura é a atividade econômica que mais pode ser afetada pelas mudanças climáticas, mas o Brasil pode ser ver como líder na busca por soluções”, diz Gustavo Pinheiro, coordenador para instituições internacionais da organização ambiental The Nature Conservancy (TNC).

Diminuir as emissões de gases causadores do efeito estufa e prever as adaptações necessárias para produzir em climas diferentes dos atuais são estratégias importantes para garantir a produção futura de alimentos. “Mitigar e se adaptar às mudanças climáticas são ações que se comunicam na agricultura”, afirma Pinheiro. Preservar matas ciliares, por exemplo, pode retirar gases de efeito estufa da atmosfera e, ao mesmo tempo, garantir mais água no solo em um futuro com menos chuvas na região.

Embora ainda seja difícil prever com exatidão como o clima vai mudar em cada região produtora, pesquisadores brasileiros já estão trabalhando para fazer essas projeções. Até porquê, não é apenas a planta que muda seu ciclo de desenvolvimento diante de alterações no regime de chuvas, na temperatura e na composição da atmosfera. Os insetos, fungos, doenças e ervas daninhas também mudarão. “Uma praga que hoje é muito nociva pode se tornar secundária no novo ambiente, enquanto aquele inseto que hoje é pouco significativo pode virar um grande problema”, explica o pesquisador Alexander Auad, da Embrapa Gado de Leite.

Auad é membro de uma rede de pesquisa chamada Climapest, que trabalha justamente em testes para prever como as pragas vão reagir às mudanças climáticas. Esses ensaios são importantes para direcionar a busca por plantas mais resistentes às pragas do futuro e por técnicas de manejo que controlem as ameaças do futuro. “Trabalhamos com cenários que podem mudar, mas nossas pesquisas animam outros pesquisadores a também se anteciparem”, acredita o cientista.

O desenvolvimento de uma nova variedade de planta pode levar mais de uma década, e até lá os desafios podem ser diferentes dos atuais. “Pragas e doenças são fatores limitantes da produção e, se não houver plantas resistentes, pode-se pôr tudo a perder”, alerta Auad. Alerta, aliás, é o termo que o pesquisador mais repete quando se refere às conclusões atuais e futuras do Climapest.

Alerta
Ao menos no Brasil, esse alerta parece ter sido ouvido. “Por mais que se faça em mitigação, já é fato que vamos sofrer mudanças climáticas nos próximos 50 anos”, opina Pinheiro. “Mas o Brasil está muito bem posicionado; todos levam o assunto a sério e não acho que estamos para trás”, diz ele.

Com base nos dados do Climapest, os melhoristas genéticos podem definir quais resistências devem ser priorizadas nas variedades que chegarão ao mercado no futuro. Outras projeções de como as mudanças climáticas afetarão o desempenho das lavouras em si também têm sido essenciais para direcionar a pesquisa agropecuária. A própria Embrapa já desenvolve variedades de plantas mais resistentes à seca, para enfrentar períodos mais prolongados de estiagem.

Além das novas tecnologias que podem surgir, como as originadas com as projeções do Climapest, o Brasil já tem um histórico de práticas conservacionistas. “A emissão de gases do efeito estufa pela agricultura não é tão alta, principalmente com o uso de práticas desenvolvidas no próprio Brasil, como o plantio direto na palha, a fixação biológica do nitrogênio e o plantio de duas safras por ano”, explica o coordenador da TNC.

São práticas tradicionais da agricultura brasileira que a colocam em uma posição de vantagem, mas que também precisam ser disseminadas dentro do País e para outras partes do mundo.

Além disso, Pinheiro ressalta a necessidade de se reduzir as emissões de gases de efeito estufa pela pecuária. No Brasil, o maior desafio está nas grandes áreas de pastagens degradadas, com baixa produtividade ou mesmo desocupadas. Nessas áreas, a pecuária acaba sendo uma emissora de gases do efeito estufa, enquanto que em pastos produtivos e com sistemas corretos a atividade pode até captar esses gases da atmosfera.

Ainda assim, o especialista da ONG acredita que a recuperação de áreas florestais e o controle do desmatamento ilegal são as principais armas do Brasil para garantir que o meio ambiente continue sendo uma força a favor da produção de alimentos, enfrentando os desafios climáticos.

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