Confinamento a pasto: É o fim do confinamento?

Por em 30 de dezembro de 2015

Aumentar a velocidade de ganho de animais em terminação em pastagem é música para o ouvido do pecuarista. Por muito tempo, a “música” que tocava era o semi-confinamento, no qual o principal objetivo era fazer com que a forragem tivesse a maior participação possível na composição da dieta. A estratégia, portanto, era reduzir o uso de concentrado, mas não por economia, mas, porque o excesso de concentrados piorava o desempenho. Assim, existia um ponto ótimo de desempenho, ao redor de 1% de ingestão de matéria seca, cujo desempenho ficava entre 0,8 a 1,0 kg de ganho de peso. Ao aumentar o concentrado e ultrapassar esse limite, o desempenho caia!

As explicações clássicas para essa queda no desempenho, quanto se fornece grandes quantidades de concentrado, são: 1) Efeito de substituição da forragm pelo concentrado e 2 ) Piora das condições do ambiente ruminal. O primeiro fênomeno decorre do fato que, a partir de certa quantidade de concentrado, a quantidade que o animal consume a menos de forragem é maior do que a quantidade ingerida de suplemento. O resultado líquido é que o total consumido pasto + suplemento é menor do que o consumo apenas de forragem antes da suplementação. Já o segundo fenômeno é consequência da elevada taxa de fermentacão dos alimentos concentrados, que provocam a redução do pH ruminal, situação em que os alimentos ingeridos acabam sendo menos aproveitados, particularmente a porção mais fribrosa da dieta.

No caso do confinamento a pasto, no qual oferta-se 1,8% do PV do animal (na matéria seca, M.S.) ou mais, esse segundo efeito é pouco relevante, uma vez que a quantidade de fibra na dieta tem participação tão pequena que importa igualmente pouco que ela vá ser mal aproveitada. O consumo de forragem esperado não será muito maior do que 0,2% do PV (na MS). Para dar uma ideia, uma animal com 400 kg de PV receberia 7,2 kg de concentrado (na MS)

Ainda assim, há um terceiro desafio nesta situação que é a manutenção da sanidade dos animais. O ato de ruminar é importante pelo efeito físico da mastigação nos alimentos,  mas é ainda mais importante por estimular a salivação. As glândulas salivares dos ruminantes são potentes e produzem muitos litros de saliva por dia, cujos sais nela dissolvidos ajudam na manutenção do pH ruminal. O estímulo para a ruminação, nas pastagens, decorre da porção fibrosa das forragens.

Uma dieta com excesso de concentrado, portanto, por não proporcionar o estímulo à ruminação e produzir muitos ácidos graxos voláteis, desafia muito o pH ruminal. Se os ácidos produzidos na fermentação do concentrado exceder a capacidade de tamponamento ruminal exercido pela saliva, o animal pode ser levado à uma condição de acidose ruminal. Na melhor das hipóteses, o desempenho será menor. Na pior, a acidose pode agravar-se tanto que venha causar a morte do animal.

Algo que fundalmentalmente alterou esse cenário e permite-nos ir além hoje no fornecimento de altas quantidades de concentrado, foi o aparecimento de aditivos que ajudam a reduzir esse efeito. Os ionóforos (monensina sódica, lasalocida sódica) e a salinomicina tem presença garantida no confinamento a pasto, fazendo parte de uma dieta balanceada.

Para garantir o sucesso, todavia, é necessário fazer o correto manejo. Particularmente importante é fazer uma boa adaptação dos animais ao concentrado. Isso é feito sem grande dificuldade aumentando-se paulatinamente a quantidade do concentrado ao longo de 10 a 14 dias. Todavia, da mesma forma que o semi-confinamento, uma premissa básica é que haja espaço de cocho suficiente para que todos os animais se alimentem simultaneamente. Não havendo espaço para todos comerem, fatalmente os animais dominantes comerão mais do que os outros e, na adaptação, podem sofrer com acidose ruminal. Os submissos comendo apenas o que tenha sobrado, por sua vez, não se adaptam devidamente ao concentrado.

Um fato interessante no fornecimento do concentrado é que, a princípio, seria interessante particioná-lo em várias refeições, de forma que o rumen fosse sempre menos desafiado por menores quantidades de alimento chegando em cada tempo. Os colegas da Apta de Colina descobriram, contudo, que a oferta em refeição única tem sido bem sucedida, pois o animal acaba se auto-regulando. Ainda que isso, provavelmente, ocorra por uma acidose subclínica (sem sintomas evidentes) que traz algum desconforto ao animai (que para de comer), os desempenhos obtidos tem sido suficientemente bons. A economia em mão-de-obra compensa alguma perda de desempenho, mesmo porque, provavelmente seriam necessárias realizar 3 a 4 refeições para haver algum efeito positivo.

Com essa opção de alto ganho em pastagens, seria o fim do confinamento?

O que ocorre é que cada um deles tem vantagens e desvantagens, benefícios e limitações. Assim, a melhor opção é usar um ou outro conforme o caso e, muito provavelmente, melhor ainda será usar ambos de forma complementar.

Abaixo um quadro comparando o semi-confinamento, o confinamento a pasto e o confinamento convencional:

Item semi-confinamento confinamento a pasto confinamento Observação
Participação da pastagem na dieta Cerca de 50% do consumo. Cerca de 10% do consumo. 0% Ao excluir a pastagem, o confinamento fica mais caro, mas permite ser muito mais previsível.

 

Participação de concentrado na dieta Cerca de 50% do consumo. Cerca de 90% do consumo. Em geral, entre 60 a 94% do consumo No confinamento, vai depender de análise econômica

 

Desempenho De 0,7 – 1,0 kg/cab.dia De 1,2 – 1,4 kg/cab.dia De qualquer valor a mais de 2,0 kg/cab.dia O desempenho no confinamento é escolhido em função de maximizar o lucro e define a relação concentrado: volumoso

 

Riscos de quebra de ganho Moderado, principalmente em função da qualidade da pastagem. Moderado, em função do risco de problemas metabólicos  (i.e. acidose) Baixo, em função do maior controle sobre a dieta e do manejo alimentar No caso do semi, deve-se antentar para não usar o mesmo piquete por mais de 60 dias, pois na seca não há crescimento da forragem

 

Influência dos gastos com atividade física no desempenho Alto Moderado Quase nulo Um aumento de, pelo menos, 20% no gasto de energia é comum no semi

 

Necessidade de estrutura Baixo Baixo Alto O confinamento envolve estrutura de cochos e fornecimento maior, especialmente por incluir o volumoso

 

 

Exigência gerencial  e de planejar Baixo Baixo Alto Improvisar no confinamento é prejuízo na certa. Para os demais, pode  ser lucro

 

Escala Difícil terminar um grande número de animais. Possibilita terminar mais animais, mas um grande número pode ser desafiador. Permite mais facilmente ganhos em escala. A estrutura de confinamento facilita o manejo de grande número de animais

 

Essa tabela deve ser entendida de forma genérica, apenas para dar ideia. Aceitando que ela satisfatoriamente reproduz a realidade, percebe-se que o confinamento ainda tem a grande vantagem de permitir um grau de planejamento maior, bem como ter um resultado muito mais previsível. A eficiência alimentar também é maior, pois há controle total da dieta e seu fornecimento, além do menor gasto com atividade física pelo animal. Assim, ele continua imbatível como ferramenta de manejo na propriedade, especialmente por ser o mais eficiente para realizar o ajuste de lotação das águas (mais alta) para o período das secas (mais baixo).

As opções com uso de pastagem são interessantes pela sua versatilidade. Pode-se fazer um semi-confinamento ou confinamento a pasto de última hora. Basta apenas uma análise da relação benefício:custo seja feita e mostre que o fornecimento de concentrado seja viável, comprar os insumos e ofertar cochos para todos os animais comerem ao mesmo tempo.

Há, portanto, espaço para todas as estratégias de terminação apresentadas, feitas em uma mesma propriedade e na mesma entressafra. Eventualmente, um bom “mix” das três opções pode ser a escolha que traga o melhor resultado. Afinal, não importa a cor do gato, desde que ele cace o rato!

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