A Pecuária Virtuosa, os Solos e um Mundo menos Quente

Por em 11 de janeiro de 2015

A FAO, órgão das Nações Unidas para a alimentação e agricultura, declarou 2015 como o “Ano do Solo”.  Em um ano que começa com um certo ar de melancolia global, isso não deixa de ser um alento, pois sendo o solo preponderantemente a base da nossa produção de alimentos, talvez isso nos incentive a investir mais nos fundamentos de todas as atividades agropecuárias. Repensar as bases pode ser a garantia de fazermos desse novo ano um ano bem melhor do que o esperado.

O solo, para muitas pessoas, aparenta ser algo meramente físico (abiótico). Os mais íntimos, contudo, sabem que essa faixa entre a superfície e a rocha-mãe é exuberante em vida. Aliás, em grande parte, ele se forma em função de interação com seres vivos, a parte biótica.  Não por acaso, um grama de solos pode conter alguns bilhões de microrganismos.

O Homo sapiens, ao longo da sua caminhada terrestre, foi se apropriando dele de muitas formas.  Nenhuma delas mais intensa e mais abrangente do que pela agropecuária. Entre pastagens nativas e cultivadas, é a pecuária a principal cobertura de solo no Globo. A presença ampla e abundante, especialmente de bovinos, faz com que tudo que se relacione a eles, tenha implicações igualmente grandiosas. Nos últimos tempos, a pecuária tem sido extensivamente associada ao aquecimento global, pois ela contribui como parte dos gases de efeito estufa (GEE), causadores do aquecimento global (AG). A exata dimensão  da contribuição da pecuária aos GEE ainda é fruto de acalorado debate, ainda assim, por menor que seja, ela sempre poderá a ajudar na redução.

Neste ano do solo, então, é bastante significativo que exatamente no solo sob pastagem esteja depositada  a esperança de se obter boa parte da solução para os GEE, uma vez que os solos teriam enorme potencial de serem drenos de carbono (C). É o carbono em excesso na atmosfera que está retendo o calor que usualmente se perderia para o espaço, portanto, ter um local para drená-lo, retirando-o da atmosfera é uma das melhores soluções.

E de onde viria esse carbono a ser drenado para os solos sob pastagem? Viria, principalmente, da massa das raízes das forrageiras. No caso das gramíneas tropicais, a quantidade e profundidade das raízes podem ser bastante grandes. Como há uma relação estreita entre massa de raiz e massa de parte aérea, quanto mais houver produção de forragem, mais raiz haverá.

Interessantemente, quanto mais forragem há para o gado pastejar, mais nutritiva é a dieta que ele consegue selecionar, inclusive com maior digestibilidade. Por sua vez, quanto mais digestível a dieta, menor a emissão de metano, o principal GEE produzido na digestão do ruminante.  Reduz-se, assim, a produção de metano para cada quilograma de alimento consumido.

Além disso, uma vez que os animais estão mais bem nutridos, há maior ganho de peso e, portanto, é menor, também, a emissão de metano para cada quilograma de carne produzida.  Imaginemos, por exemplo, dois animais ganhando 0,5 quilogramas e que eles emitam, juntos, 320 gramas de metano/dia. Se conseguirmos, melhorando a nutrição, que apenas um deles ganhe 1 quilograma, teremos a mesma produção de carne e uma emissão menor, pois precisaremos de apenas um animal. Algum apressadinho já acharia que estaríamos produzindo a metade de GEE com só um animal (160 gramas de metano/dia), mas, na verdade, em função daquele efeito de redução de emissão por quilograma de alimento com aumento da qualidade da dieta (comentado no parágrafo acima), o resultado é melhor ainda e produz-se menos do que a metade, digamos 140 gramas de metano/dia.

Outros efeitos extremamente benéficos desta situação de cobertura mais generosa de forragem no pasto é que se reduz também a ocorrência de perda de solo (erosão) e melhora-se a capacidade de infiltração da água no solo. É essa água que vai se acumular nos corpos d´água subterrâneos e alimentar as nascentes dos rios. Enfim, economiza-se solo e produz-se mais água!

Até aqui nessa espiral virtuosa teríamos mais raízes, mais carbono no solo, maior produção de forragem, maior produção animal, menos erosão, maior produção de água e menor emissão de GEE. O que poderíamos querer mais? Maior lucratividade?

Sem dúvida e é, exatamente, o que deve ser obtido, bastando que as estratégias utilizadas tenham relação benefício:custo favoráveis. A boa notícia é que a maioria delas não decepciona neste aspecto.

Ainda que algumas intervenções, como a reforma ou recuperação de pastagens, necessitem maiores investimentos e demandem aumento de acesso ao crédito pelos produtores de forma a aumentar seu alcance para propriedades menos capitalizadas, algumas delas têm custo de adoção baixo (por exemplo, suplementação com proteinados na seca) ou quase nenhum custo, como é o caso de ajuste de lotação para evitar superpastejo.

Como um dos gargalos é a chegada destas informações para os envolvidos no processo de produção de carne, incluindo alguns que não estão diretamente na atividade produtiva, mas influenciam ou são responsáveis por criarem políticas públicas, há uma excelente oportunidade para se atualizar sobre esses assuntos no mês que vem em Campinas. Trata-se de um conjunto de eventos promovido por um projeto internacional que envolve vários países e que focará na nossa América Latina (Maiores informações deste evento estão logo após o final deste texto).

O que podemos adiantar destes eventos é que eles vão mostrar que, no caso do envolvimento da pecuária com o aquecimento global, a saída é produzir com maior eficiência e que o resultado disso será maior oferta de alimentos, menor impacto ambiental e, para alegria dos produtores, maior lucro. Esse é um bom exemplo que, não a toa, a sabedoria oriental relaciona “crise” com “oportunidade”!

 

INFORMAÇÕES SOBRE OS EVENTOS:

Curso em Produção Animal e Mudanças Climáticas

Local: Embrapa Informática Agropecuária – Campinas, Brazil

Data:  9 a 11 de fevereiro de 2015

http://www.animalchange.eu/Content/Brazil2015_pt.html

“Livestock and Climate Change” Workshop

Local: Embrapa Informática Agropecuária – Campinas, Brazil

Data:  12 a 13 de fevereiro de 2015

http://www.animalchange.eu/Content/Campinas2015_pt.html

IMPORTANTE:

Suporte financeiro
O projeto AnimalChange, financiado pela União Euroéia, disponibilizou recursos para apoiar a participação de 25 alunos de pós-graduação e pesquisadores em início de carreira, provenientes de países da Améria Latina, no curso e no workshop “Produção Animal e Mudanças Climáticas na América Latina“.
Critérios de seleção:

  • Ser proveniente de algum país da Améria Latina.
  • Estar envolvido em atividades relacionadas aos objetivos do Projeto AnimalChange de mitigação e adaptação de sistemas de produção animal às mudanças climáticas
  • Ser aluno de pós-graduação ou ter obtido título de doutor a menos de 10 anos.

Data limite para submissão do formulário para solicitação de suporte financeiro é 16 de janeiro de 2015, 17:00 GMT.

 

 

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