Vale a pena fazer agronomia?

Por em 18 de novembro de 2014

Na semana passada, tive um convite inesperado para falar sobre a profissão de engenheiro agrônomo para adolescentes na escola da minha filha aqui em Campo Grande. O objetivo da escola foi trazer profissionais de vários ramos para relatarem aspectos gerais da profissão aos jovens estudantes que se deparam com a necessidade de definir suas escolhas profissionais.

Minha primeira preocupação foi deixar claro para eles que, mesmo me esforçando para fazer um panorama mais amplo, todo o meu discurso representa minha experiência e minha percepção e que, portanto, eles deviam: 1) Não considerarem nada dito como absoluto e 2) Aqueles que tiverem mesmo interesse, procurassem conversar com outros profissionais para ter outras visões.

Em seguida, fiz questão de compartilhar uma questão pessoal: Mesmo sendo uma pessoa que ama o que faz, de vez em quando surge o pensamento se eu não deveria ter feito este ou aquele outro curso. Enfim, essa dúvida que deveria ser típica e restrita à adolescência pode ressurgir por toda uma vida, sem que isso seja um drama. Isso porque o que importa mesmo são as escolhas que fazemos, que por serem as únicas reais, estão sempre certas! Tudo que imaginemos sobre os caminhos alternativos que não seguimos, será sempre só especulação.

No meu caso, inclusive, a agronomia começou a entrar na minha vida, primeiramente, por exclusão de muitas outras opções. Quando vislumbrei a possibilidade de me encontrar nela, bastou uma conversa com um parente para selar meu futuro no Vestibular da Fuvest do longínquo ano de 1985[i].

Uma das principais características do curso de agronomia é ser extremamente amplo e o aspirante a agrônomo estuda desde a estrutura molecular das argilas e os RNA mensageiros, passando pelas características morfológicas das plantas e questões de sociologia e economia rural, até detalhes sobre construções rurais ou do funcionamento de máquinas e implementos. Matérias das Biológicas, das Exatas e das Humanas, nesta ordem de ocorrência, preenchem um amplo espectro do conhecimento humano no caminho até se receber o diploma.

Essa amplitude de opções dentro de um mesmo curso permite com que a maioria das pessoas encontre algo que as interesse, o que é, por si só, uma grande vantagem da agronomia.  Mas, muito melhor do que isso, é que essa formação multidisciplinar faz do agrônomo um profissional que acaba tendo uma visão de Mundo mais ampla do que a média da maioria das profissões.

Em adição a isto, o fato de que, em várias disciplinas, sermos recorrentemente treinados em planejamento, permite ao agrônomo transformar-se num craque em planejar. Afinal de contas, atividades agropecuárias dependem muito de que as coisas ocorram, não apenas em sequência, mas de maneira bastante afinada no tempo (“Há a hora de plantar e a hora de colher!”).

Além dessas duas características, um último ponto em que há especial ênfase em se treinar o futuro agrônomo, é na questão de tomada rápida de decisões em situações de crise, pois a atividade rural lida com incerteza o tempo todo: a chuva que não vem no tempo esperado, uma praga que surge de repente, a doença desconhecida e assim por diante.

Formação eclética, boa capacidade de planejamento e competência na tomada de decisão é um conjunto de habilidades muito valorizado pelo mercado de trabalho nos dias de hoje em qualquer área. Isto explica porque tenho tantos colegas de turma bem sucedidos em outras áreas fora das agropecuárias, indo desde o mercado financeiro até as artes cênicas.

Concentrando naqueles que seguiram o caminho esperado, como eu, as áreas de trabalho em que é possível se colocar (como autônomo, empregado ou empreendedor) são inúmeras e muito variadas: academia (pesquisador ou professor), empresas de insumo e equipamentos, cooperativas, instituições financeiras, assistências técnicas, prestadores de serviço (exemplo: topografia), empresas de alimentos e muitas outas.  Tenho colegas em atividades tão diferentes quanto geoprocessamento, analista de mercado, consultor especializado em rosas e, o que mais invejo: um especialista em leveduras e fermentação que se tornou “mestre cervejeiro”!

Já com relação à remuneração, a agronomia não se notabiliza por altos salários, com uma média de vencimentos inferior às profissões mais valorizadas como Medicina e Direito. Isso não significa, contudo, que fazer agronomia levará a uma vida de privações materiais, inclusive havendo colocações no mercado de trabalho que remuneram regiamente.

Aqui, de forma bem pessoal novamente, chamo atenção para distinguir que sucesso não necessariamente é sinônimo de felicidade: Um salário muito alto é um indicador de sucesso, mas, se a pessoa odiar o que faz para recebê-lo, o trabalho acaba virando um pesadelo. O curioso é que muita gente acaba ficando preso nesta armadilha, afinal de contas, “…quem é louco de jogar fora um emprego desses, né?”. Quando, após décadas, se aposentar, a vida passou e trocou-se importante parte dela pela ilusão de que o conforto material preencheria os buracos da alma. Na verdade, é como se a alma fosse impermeável à maioria dos estímulos externos e, portanto, sua completude depende  muito mais do que vem de dentro.

A ideia é que, se a pessoa respeitar seus desejos internos, procurar descobrir e seguir sua vocação, ela desempenhará seu trabalho com boa vontade e, como não nos cansamos de fazer aquilo que gostamos, conseguirá ir além, alcançando o sucesso por consequência. Talvez, materialmente seja um sucesso relativamente menor, mas, como ele vem acompanhado de realização pessoal, a resultante é de genuína felicidade, algo que não tem preço.

Mas será que há futuro na profissão ou, como brincam, “no futuro, a agronomia será a profissão do futuro”?

Por coincidência, na véspera de falar para os pré-vestibulandos, o paraninfo da minha turma na ESALQ, o Dr. Roberto Rodrigues, foi o entrevistado do “Roda Viva” na TV Cultura (o link segue depois do texto). Ele terminou falando do desafio de alimentar os 9 bilhões de terráqueos esperados para 2050. Citou um estudo que diz a oferta de alimentos em uma década deve crescer 20% e que espera-se que 40% desse aumento seja realizado pelo Brasil. Difícil não acreditar, então, na profissão que mais pode ajudar a garantir esse resultado, lembrando que ela também pode contribuir com outros gargalos, como a produção de energia renovável e a necessidade do mundo por materiais, como madeira e fibra.

Concluindo, uma das estratégias que usei para fazer a apresentação aos alunos ser um pouco menos pessoal, foi pedir nas redes sociais aos meus colegas agrônomos que me dessem dicas do que eles não deixariam de falar, caso estivessem no meu lugar. Isso me ajudou muito a melhorar o material. Aqui, renovo o pedido, para que usem o espaço de comentários para darem sua contribuição aos potenciais futuros colegas. Como disse no dia para a turminha, que generosamente teve muita paciência comigo, meu interesse não era fazer propaganda, mas trazer informação para inspirar vocações latentes, daqueles que verdadeiramente possam se encontrar numa profissão que, de tantas formas, ajuda o Mundo a ser um melhor lugar para se viver.

 


[i] Sempre serei grato ao meu saudoso primo, meu Tio Marcos, filho do Prof. Salvador de Toledo Piza, um dos grandes mestres da ESALQ.

Link para entrevista no Roda Viva do Dr. Roberto Rodrigues: https://www.youtube.com/watch?v=KIu9sNN4Rg8

 

 

86 Comments

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.