Dez pontos sobre resíduos na nutrição de ruminantes

Por em 2 de novembro de 2014

Uma das grandes vantagens do ruminante é poder sobreviver usando uma gama enorme de recursos alimentares, incluindo alguns bastante curiosos, como papelão ou sobras de fábricas de salgadinhos.  Abaixo, dez pontos que informam e/ou ajudam a decidir pelo uso ou não dessa alternativa de redução de custo alimentar da produção.

1)      Resíduo é diferente de subproduto:

Uma definição, sujeita a críticas, é que resíduo seria algo que sobra de determinado processo produtivo, mas que não tem valor comercial. Entenda-se por “não ter valor comercial” como não haver um valor reconhecido pelo mercado. Assim, o farelo de soja é um subproduto, pois, apesar de ser o resíduo que sobra da extração do óleo, é fácil descobrir seu preço e ele não varia muito entre fornecedores.  Já para uma pré-limpeza de soja, isso não ocorre. Todavia, um resíduo pode ser tornar um subproduto. O que mais limita para um produto passar de resíduo para subproduto (ou coproduto) é o que descrevemos no próximo item.

2)      Principal característica dos resíduos é apresentar alta heterogeneidade:

Resíduos são produtos que se caracterizam por elevada variação em sua composição, ou seja, eles não têm um padrão definido. Sendo heterogêneos, o valor nutritivo também é variável e esse é um dos motivos para eles não terem valor de referência no mercado. Ter o valor nutritivo variável dificulta também muito seu uso como ingrediente nas dietas. A recomendação óbvia é enviar uma amostra para determinação do teor de seus nutrientes em laboratório. E, aqui, continuam os desafios no uso de resíduos: fazer uma coleta que resulte em uma amostra representativa do lote como um todo. Recomenda-se coletar subamostras em, pelo menos, 10 pontos. Como os resíduos costumam apresentar material com diversa granulometria, ocorre a segregação (os mais densos tendem a ficar mais para baixo e os menos densos, mais para cima), sendo importante distribuir esses pontos por várias alturas na pilha de resíduos para ter uma amostragem representativa. Para mandar para o laboratório, deve-se proceder a mistura de todas as subamostras e retirar apenas uns 200-300 g de amostra, caso elas tenham pouca umidade. Se tiver muita umidade, aumenta-se a amostra de forma que, depois de seca, estime-se obter algo em torno de 300 g.

3)      Análise química pode ser de grande valia:

Fazer uma análise bromatológica completa permite a utilização mais racional do resíduo que se adquiriu ou, melhor ainda, evitar a compra de um resíduo que a análise demonstre não valer à pena. Neste caso da compra, é importante enfatizar que não adianta coletar uma amostra de uma batelada de resíduo. Tem que ser necessariamente o valor da análise referente ao lote que se quer comprar. Isto é assim, pois, se a compra for de outro lote (incluindo o lote amostrado adicionado de outras bateladas do resíduo), os valores obtidos não mais o representam.  Uma análise completa, incluindo as frações nitrogenadas ligadas à fibra, permite a estimativa do teor de energia (como nutriente digestíveis totais, NDT), o que ajuda muito a estabelecer seu valor econômico (mais bem discutido no item 10). Se a quantidade do resíduo que se deseja comprar for muito pequena pode não ser interessante enviar para o laboratório, pois o custo da análise pode representar um aumento muito grande no custo de aquisição. Por exemplo, se for comprar 1 tonelada de resíduo ao custo de R$ 150,00, caso a análise custe o mesmo valor, o custo final do produto passaria a R$ 300,00/t e, nesse caso, seria mais vantagem comprar outro produto mais nobre, que se possa fazer uso de valores de tabela, sem necessidade de análise. Uma opção à análise química é comentada a seguir.

4)      Análise macroscópica, uma alternativa a ser considerada:

Uma alternativa “caseira”, ao alcance de todos que tenham algum espírito de monge budista é fazer uma separação manual dos conteúdos dos resíduos desuniformes, como os resíduos de pré-limpeza. Em uma pré-limpeza de milho, por exemplo, bastaria tentar separar ao máximo todas as partes que faziam parte do grão e eventuais grãos inteiros. Se ao separar 100 g de uma amostra (significativa) do lote, restassem 50 g provenientes de grão de milho, mesmo sem uma análise química, pode-se considerar que essa amostra teria 50% dos nutrientes de mesma quantidade de grão de milho.  Isso é quase garantido, pois nos outros 50 g deve haver ainda materiais com razoável valor nutritivo, como pedaços de sabugo e das brácteas do milho (palha que envolve a espiga). Infelizmente, por ser resíduo pode haver também materiais indesejados, assunto abordado à seguir.

5)      Presença de corpos estranhos ou indesejáveis:

Mesmo sem fazer a separação física, muitas vezes é fácil reconhecer material não alimentar em resíduos, sendo comum haver terra e pedra em resíduos de pré-limpeza, que vamos chamar aqui de “corpos estranhos”. Já tive em mãos resíduos em que quase metade dele era de areia, mas que passou despercebida pelo interessado e cuja análise revelou haver 470 g de cinza/kg de MS do produto! Esse seria um exemplo de resíduo cujo uso (ou aquisição) pode ser descartado apenas por uma avaliação visual mais atenta de uma amostra do produto. Como material indesejável, podemos ter sementes de plantas daninhas, assunto comentado brevemente abaixo.

6)      Disseminação de daninhas, mais um risco a se considerar:

O uso de resíduos pode ajudar a disseminar plantas daninhas na pastagem e esse é um risco que deve ser considerado, caso o produto seja usado em suplementos para animais em pastejo. Há uma recomendação para moer finamente o resíduo para que as sementes sejam destruídas. Há dois aspectos complicadores aqui: (a) sementes de daninhas podem ser pequenas o suficiente para escaparem ilesas do processo de moagem e (b) o próprio investimento com a moagem pode não se pagar, em função de um eventual valor nutricional muito baixo do resíduo.

7)      Umidade acima do ideal de conservação é a regra:

Resíduos com mais de 15% de umidade não se conservam por muito tempo e, quanto maior a umidade, menor o tempo de conservação. Gastar dinheiro com secagem, além de ir contra a proposta de redução de custos (e poder, simplesmente não valer à pena) esbarra na questão de granulometria muito variável dos componentes do resíduo, o que dificulta a regulagem dos parâmetros de secagem. Se estes forem regulados para serem mais intensos, visando secar bem as partículas maiores, há a queima das partículas muito finas, o que reduz seu valor nutricional. Na hipótese da regulagem ser feita com o intuito em preservar o “fino”, mantém-se a umidade das frações mais grosseiras, o que predispõe o desenvolvimento de microrganismos que iram degradar o resíduo. Além de reduzir seu valor nutricional e, pior ainda, podendo resultar na produção de toxinas, como discutiremos em seguida.

8)      Micotoxinas, risco real e de difícil manejo:

Alguns fungos, ao se desenvolverem, produzem toxinas que podem causar grandes prejuízos, incluindo até a morte de animais. É mais comum, contudo, que essas micotoxinas (mico = fungo) passem despercebidas, sem sintomas clínicos aparentes.  Mesmo assim, por reduzirem o desempenho, o prejuízo pode ser grande. Por isso, deve-se evitar o uso de qualquer alimento que cheire mofo e tenha outras evidências de contaminação, como a ocorrência de colônias de fungos. A presença de micotoxinas nos alimentos é de difícil diagnóstico e, existem kits apenas para algumas micotoxinas. Além disso, mesmo quando bem utilizados podem resultar na decisão errada. Isso porque as micotoxinas tem ocorrência concentrada, o que pode fazer-nos condenar um lote bom (Por azar, mais pontos com ocorrência da micotoxina são medidos) ou aceitar lote ruim (medem-se, involuntariamente, mais pontos sem ocorrência da micotoxina)! Claramente, então, sobra como opção a prevenção, usualmente o melhor remédio mesmo.

9)      Uso expedito, uma necessidade:

Pelo exposto nos dois itens precedentes, fica claro que, quanto antes o resíduo for utilizado, maiores as chances dele não ter perdido suas qualidades nutricionais ou de haver muita micotoxina. Assim, a própria unidade produtora do resíduo seria a melhor usuária dos resíduos, bem como fazendas próximas a ela, que podem internalizar o produto com fretes mais frequentes.

10)   Atribuindo valor econômico ao resíduo:

Apesar da definição de resíduos ser exatamente relacionado com ele não ter valor comercial, o fato é que eles são comercializados. As tentativas de atribuir valor econômico aos resíduos, em geral, buscam relacioná-los com as alternativas de alimentos convencionais. Um exemplo de atribuição de valor a um resíduo seria, como no caso da separação física comentado no item 4 acima em que, se ele tem em sua composição metade como grãos de milho, poderia se atribuir a ele, no máximo, metade do valor de mesma quantidade de milho. Seria o teto do valor a se considerar, mesmo que o restante ainda fosse rico em sabugo e brácteas, pois ele trás os riscos comentados nos itens 5, 6, 7, e 8.  Outra forma, bem mais técnica, seria quando do uso do resíduo em dietas de confinamento com o resultado de sua análise química. Nesse caso, seria atribuído ao resíduo um preço elevadíssimo (R$ 9.999/t, por exemplo) e rodada a dieta de custo mínimo. Por conta desse preço estapafúrdio, ele ficaria de fora da dieta resultante e, assim, teríamos o “preço-sombra” dele, que vem a ser o valor máximo que ele poderia ter para fazer parte de uma nova dieta de custo mínimo. Analogamente ao exemplo precedente da separação física, ele seria um a referência de preço máximo. Basicamente, é fundamental que o resíduo, de fato, reduza os custos de produção, caso contrário os riscos acabam eliminando a vantagem.

Para finalizar, é bom lembrar que a utilização de resíduos pode aumentar a eficiência e a sustentabilidade dos sistemas produtivos. Conta muito a experiência de usuários frequentes de resíduos na alimentação que se espalham pelo Brasil afora. Seria bom conhecer mais sobre essas experiências, para replicar as de sucesso, lembrando que, por vezes, retornar matéria orgânica diretamente para o solo pode ser mais negócio do que ter o boi como agente intermediário.

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