O calorão que nos faz pensar…em aquecimento global!

Por em 19 de outubro de 2014

Essa última semana foi de temperaturas extremamente elevadas em praticamente todo o Brasil. Nela, recebemos a notícia que o mês passado, segundo a NASA, foi o Setembro mais quente desde 1880. O ano de 2014 vai se candidatando a ano mais quente da história. Isso, associado às notícias do estado crítico da maioria dos reservatórios de água na região Sudeste e o fato de alguns importantes rios, como o Piracicaba e o Mogi-Guaçu, poderem ser atravessados quase a pé, estão fazendo muitas pessoas, antes céticas, a se perguntarem se não deveriam dar mais ouvidos àqueles que alertavam sobre os perigos do aquecimento global (AG).

Apesar de, a bem da verdade, deixar claro que essas ocorrências poderem existir dentro da variação normal do clima e, portanto, não provarem o AG, elas se somam a muitas outras fortes evidências, como na lista abaixo[1]:

1)      Elevação do nível do mar: Nível global do mar na última década subiu a uma taxa quase duas vezes maior da que ocorreu no século passado.

2)      Aumento da temperatura global: Todas as três grandes reconstituições de temperatura da superfície global mostram que a Terra se aqueceu desde 1880. Todavia, a maior parte desse aquecimento ocorreu desde a década de 1970, com os 10 anos mais quentes concentrados nos últimos 12 anos. Isso, mesmo com um declínio da atividade solar na década de 2000, com um mínimo solar extraordinariamente baixo entre 2007-2009, período em que as temperaturas da superfície terrestre continuaram a aumentar.

3)      Aquecimento dos oceanos: Os oceanos absorveram grande parte desse aumento de calor, com os primeiros 700 metros de oceano, mostrando o aquecimento desde 1969.

4)      Encolhimento das camadas de gelo: A Groenlândia e as camadas de gelo da Antártica diminuíram em massa. Segundo dados de experimento da NASA,  a Groenlândia perdeu de 150-250 quilômetros cúbicos de gelo por ano entre 2002 e 2006, enquanto a Antártida perdeu cerca de 152 quilômetros cúbicos de gelo entre 2002 e 2005 .

5)      Declínio do gelo do mar do Ártico: Tanto a extensão como a espessura do gelo do mar do Ártico diminuiu rapidamente ao longo das últimas décadas.

6)      Recuo dos glaciares:  Glaciares estão a reduzindo em quase todos os lugares ao redor do mundo: Alpes, Himalaia, Andes, Montanhas Rochosas, Alasca e África.

7)      A acidificação dos oceanos: Desde o início da Revolução Industrial, a acidez das águas superficiais do oceano aumentou em cerca de 30%. A quantidade de dióxido de carbono absorvido pela camada superior dos oceanos tem aumentado em cerca de 2 bilhões de toneladas por ano.

8)      Redução da cobertura de neve: Observações de satélite revelam que a quantidade de cobertura de neve na primavera no Hemisfério Norte tem diminuído ao longo das últimas cinco décadas e que a neve está derretendo mais cedo.

9)      Eventos extremos: Eventos extremos de clima são aqueles considerados anomalias do clima, isto é, ficam fora do esperado. Nos EUA, desde 1950, o número de eventos de altas temperaturas recordes tem aumentado, enquanto o número de registro de eventos de baixa temperatura tem diminuído. Esse país também tem testemunhado um número crescente de eventos de chuvas intensas. Esse padrão se repete ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

Se ainda insistirem no contra-argumento que os EUA e a China, os maiores poluidores, não foram signatários do “Protocolo de Kyoto”, não se comprometendo com a redução de suas emissões, é importante que todos saibam que eles estão entre os países que mais tem investido em alternativas para redução de emissão de gases de efeito estufa (GEE), ou seja, também estão preocupados com as consequências das mudanças climáticas em função do AG.

E por que o AG ocorre?

O AG é decorrência de um aumento da intensidade do efeito estufa. O efeito estufa é um fenômeno muito desejável causado pela atmosfera terrestre, sem o qual nossa vida na terra seria impossível. A atmosfera funcionaria à semelhança dos vidros em uma casa de vegetação (estufa), deixando os raios solares entrarem e aquecerem seu interior, mas retendo o retorno desta radiação. É esse o mesmo motivo do interior do carro aquecer tanto quando estacionamos em um local sem sombra.

Não fosse pela presença da atmosfera, o calor do sol absorvido durante o dia seria rapidamente perdido à noite, o que causaria temperaturas extremamente baixas, as quais, junto com temperaturas ainda mais altas durante o dia, criariam um enorme diferencial de temperatura que não permitiria a vida como ela se desenvolveu na Terra.

Alguns componentes da atmosfera contribuem para a retenção de calor, em especial, o vapor d´água, o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH2) e o óxido nitroso (N2O). O vapor d´água por ter pouca influência do homem em sua presença, não tem sido considerado e são os outros três gases que incluem o grupo sempre referido como gases de efeito estufa (GEE).

Temos níveis estimados destes gases na atmosfera para tempos bem anteriores à provável época do surgimento do Homo sapiens. Isso é possível, pois num momento muito sapiens mesmo, alguém teve a brilhante ideia de mensurar as bolhas de ar presas nos glaciares. Uma vez que, quanto mais fundo for a coleta da amostra, um tempo mais remoto no tempo ela representa, foi possível estimar a atmosfera muito antes de a respirarmos.

Graças a isso, sabemos que, por 650 mil anos, o teor de dióxido de carbono ficou entre 150 e 300 ppm, nunca superando o valor superior. A revolução industrial e toda a queima de combustíveis fósseis que persiste até os dias atuais mudou essa realidade e, quase dois séculos depois, chegamos a uma concentração de 399 ppm e com forte viés de alta!

Essa maior concentração de dióxido de carbono (e dos demais GEE) faz com que uma parte extra de calor fique retida na Terra, causando o AG. Assim, temos a causa e o efeito perfeitamente alinhados e devidamente descontados de outros fatores (como a atividade solar), explicando o AG. Assim, o grupo de pesquisadores céticos fica cada vez mais isolado, ainda que seja sempre positivo ter o contraditório, por forçar a maioria a não se acomodar e aumentar nosso conhecimento sobre o assunto. Por exemplo, todas as nossas estimativas de aumento de temperatura para o futuro são feitas em termos de probabilidade, o que significa que há chance dela não ocorrer conforme previsto. Todavia, o grande investimento em pesquisa, permite que tenhamos um grau de acerto cada vez maior.

Em que pé estamos e quais os riscos para o futuro?

De 1950 para cá, estudos mostram um aumento na temperatura média da superfície terrestre próximo a 1º Celsius. Um grau parece pouco, se pensarmos em uma jarrinha de leite aquecendo no fogo, mas imagine a quantidade de energia para aumentar a temperatura do nosso planeta inteiro! Além disso, há todo um equilíbrio climático que está em jogo. Assim, recordes de frio (apesar de mais raros em relação aos de calor) seguem ocorrendo, mesmo porque podem acontecer por influência no aumento de temperatura em outro local, que bloqueia a dispersão de determinada massa fria.

Um equilíbrio ainda mais delicado que já está sendo afetado é o da vida sobre a terra. Um caso interessante envolve o cereal mais produzido no mundo, o milho. Para que ele pendoe e, assim, complete seu ciclo reprodutivo, é necessário que haja um estímulo que depende de determinada variação de temperatura, em geral satisfeita pelo resfriamento noturno. Ocorre que um dos efeitos do AG é haver noites mais quentes. Dependendo da intensidade desse efeito, determinados locais que hoje são grandes áreas produtoras de milho podem ter sua produção inviabilizada.

É claro, também, que outras regiões em que o frio limitava o crescimento de determinadas culturas serão beneficiadas, com um bônus extra de maior concentração de dióxido de carbono, que pode aumentar a produção vegetal. O problema é que a mudança de maneira muito rápida, não nos deixa tempo de nos adaptarmos a e, assim, o resultado líquido entre perdas e ganhos, tende a ser negativo.

Os riscos se expandem pela acidificação dos oceanos, que pode inviabilizar a vida marinha, o aumento de doenças, em função do aumento na população dos vetores das doenças (como os pernilongos), maior número de casos de enchentes, secas prolongadas e desastres naturais causados por fenômenos climáticos (ciclones, tornados, furacões, etc.).

A agropecuária é importante no AG? O que ela pode fazer para ajudar na solução do problema?

O setor agropecuário tem sua parcela de contribuição com o GEE, no que se refere principalmente ao metano e ao óxido nitroso. Em 2005,  a agropecuário nacional era responsável por 20% das nossas emissões. Atualmente, a participação aumentou para 35%, muito menos em função de o setor ter aumentado suas emissões, mas por conta de uma drástica redução no desmatamento, que, reduzindo sua participação no bolo, fez a proporção dos demais aumentarem.

No caso da pecuária, há uma grande chance enfrentar esse problema com ganhos de eficiência com tecnologias já consolidadas (melhoria das pastagens, suplementação, aditivos, uso de engorda confinada, etc.), com a vantagem de terem relação benefício:custo positivas, ou seja, não só ajudam a resolver o problema ambiental, mas melhoram o retorno financeiro da atividade. Isso já foi tema deste espaço em outras oportunidades, discutido com mais detalhes[2].

Outro aspecto que tem ficado mais claro é que, quanto se contabiliza o sequestro de carbono pelas raízes das pastagens, a emissão líquida é reduzida. Como o crescimento das raízes é proporcional ao crescimento da parte aérea, em muitas situações de maior crescimento de pastagem, o valor do sequestro de carbono pelas raízes pode ser grande o suficiente para gerar um balanço líquido negativo de carbono, isto é, termos nas pastagens um dreno de carbono. Esse tema foi, também, apresentado anteriormente neste espaço: http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2014/01/07/nao-comer-carne-bovina-aumenta-ou-reduz-o-aquecimento-global/.

Ainda é preciso algum tempo para que os dados de pesquisa em andamento sejam divulgados, revisados pela comunidade científica e uma vez validados e aceitos, possam mudar o discurso contra a atividade agrícola e, especialmente, à atividade pecuária realizada no Brasil. Isso não significa que o setor pecuário deva se acomodar, mas, muito pelo contrário, precisa continuar a trilhar o caminho virtuoso de aumento de eficiência que vem trilhando nas últimas décadas.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.