Gratidão

Por em 9 de outubro de 2014

Há pouco mais de um ano, tenho usado esse espaço para textos eminentemente técnicos. Pois bem, nesta semana peço licença a minha meia dúzia de leitores para escrever uma coluna francamente pessoal como uma homenagem à instituição centenária a quem devo tanto: à minha querida Escola de agronomia, à centenária Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, à ESALQ! O que me leva a isso é estar prestes a celebrar 25 anos de formado, ainda que seja difícil aceitar que, do dia que cruzei os portões e me deparei com a grandiosidade do gramadão até hoje, já tenham se passado quase três décadas!

Só tenho esse privilégio, pois um dia, muito mais por intuição do que por convicção, decidi fazer agronomia e, algum tempo depois, em janeiro de 1985, precisei ler várias vezes meu nome em letras miúdas naquela lista do jornal para acreditar que tinha sido aprovado e era um novo Uspiano! Muito mais que isso, era um Esalqueano recém-parido! Dividia essa conquista com outros 199 nomes, de gente que viria a fazer parte da minha vida, por um breve período, por todo o curso, como amigos para toda a vida e, nem desconfiava, alguém bem mais importante: como poderia prever naquele momento que a mulher da minha vida, estava lá entre a “Denise Nascimento” e o “Edson Minoru Hakamada”?

Antes do ingresso, a ESALQ  se resumia a duas grandes referências para mim: Meu querido avô materno, o Vô Zezé (José Estevam Teixeira Mendes), formado em 1928, que fez uma vitoriosa carreira como pesquisador no Instituto Agronômico de Campinas, e meu caro Tio Dodô (Salvador de Toledo Piza), formado em 1921, cunhado deste meu avô, uma sumidade em várias áreas da zoologia, sendo um dos professores mais queridos e respeitados da “Gloriosa”. Enfim, tinha esses dois exemplos de grandes produtos da Escola bem próximos de mim, o que certamente me influenciou.

Em fevereiro de 1985, veio o batismo, quando me tornei o bicho Frizer. Daí em diante, essa instituição mitológica iria começar a se tornar uma experiência real e muito mais transformadora do que eu poderia supor. As pedras se transformaram em rocha, as rochas em solo, os solos em seus horizontes, que foram transformados por adubos, cujos nutrientes, com ajuda do sol, foram transformados em tecido vegetal, que foi rasgado pela língua do boi, transformando-se em substrato para a microbiota do rúmen, que virou proteína para o dono do rúmen, que virou commodity com alta elasticidade, que virou receita, logo trocada por um saco de semente, que já não eram meros grãos, mas “malas” de informações genéticas, levando a promessa da continuidade da vida, da própria planta, das suas pragas, seus fungos, bactérias, de toda vida, enfim. E foi nesta linha de mudanças que esse ser vivo escrevente se transformou de um analfabeto agrícola, no final de 1989, em mais um agrônomo.

Quanta coisa teve seu sentido original para mim invertido completamente: o solo, que antes parecia inanimado, explodia em vida, os insetos e microrganismos deixaram de ser apenas aborrecimento e doenças e se tornaram companheiros de viagem, com a esmagadora maioria se revelando grandes e fundamentais parceiros e, particularmente, me surpreendi ao descobrir que muita gente que parecia estar querendo ajudar o ambiente, atrapalhava, e os supostos vilões ambientais selecionados por essa gangue é que eram os verdadeiros defensores. Um pouco mais para frente, foi possível começar a diferenciar, dentro dos ambientalistas, aqueles que eram legítimos defensores, os que, apesar da boa-fé, se equivocavam e, por fim, o grupo das intenções hipócritas e vis. Nada era mais tão simples como antes e a vida ganhou novas dimensões, se tornando muito mais interessante!

A maior parte de toda essa transformação é resultado do trabalho dos professores que tivemos, alguns que, principalmente pelo exemplo de dedicação, ensinaram muito além do que ciência e tecnologia. Todavia, a escola não se resume aos professores. Ela é uma máquina que roda dia após dia com o trabalho e dedicação de muita gente. Vai desde o pessoal da segurança (que fizeram campana fora do expediente para pegar ladrões de bikes, na época), passando pela turma da biblio, pelas “Tias” do Rucas (o restaurante universitário), até tanta gente que, apesar de nunca ter visto seus rostos, dos bastidores, permitiram que o bicho Frizer e seus colegas de turma se metamorfoseassem em agrônomos!

Não menos importante neste processo foi o clima da Escola, as amizades, os trabalhos em grupo, as festas, as brigas políticas entre “azuis” e “vermeios”, em época dos estertores da “Guerra Fria” em que o mundo ainda era polarizado entre americanos imperialistas e soviéticos totalitaristas, mas já com o muro de Berlim trincado e caindo pelo seu próprio peso. No Brasil, foi a segunda parte da “década perdida”, numa economia lenta e com preços cada vez mais fora de controle, o que levou a maioria dos brasileiros depositar suas esperanças num jovem “caçador de marajá”, de tão triste lembrança!

Deste caldo de cultura, feito numa panela de alta pressão, de conteúdo lodacento e pleno em crise, saiu essa turma, “uma legião denodada…que aspira vencer…bem armados de são ideais” e que, 25 anos depois, se orgulha em ter ajudado a construir essa potência do agronegócio que é nosso Brasil. Mas como diz a “Ode à ESALQ”, escrita pelo meu Tio Dodô, de onde retirei as partes entre aspas acima, “ao cantarmos nossas conquistas, numa vida de intenso labor, outra coisa não temos em vista, que pagar-te um tributo de amor!”. Obrigado, Luiz de Queiroz! Obrigado, ESALQ!

 

Nota: Há uma gratidão prévia, isto é, antes de entrar na ESALQ, que devo fazer aos meus pais, que viabilizaram os caminhos para me tornar agrônomo, além de tantos bons exemplos. A propósito, gostava sempre de rever a foto da formatura do meu pai que meus avós tinham na casa deles, especialmente por conta da dedicatória: “A escola dá o título, o direito de usar a beca, mas os verdadeiros princípios, os aprendi em casa, onde sempre, generosamente, comigo dividiram“. Agora, é minha vez de agradecer e dividir, generosamente, mais bons ensinamentos para minha filha!

 

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