Nutrição de bovinos de corte em sistemas de integração lavoura-pecuária

Por em 29 de setembro de 2014

Sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) têm obtido enorme exposição nos últimos anos e não é para menos. Eles são fonte aparentemente inesgotável de boas notícias. A lavoura ajuda à pecuária, bem como a pecuária ajuda à lavoura. Há várias situações em que o resultado obtido com as atividades integradas é melhor do que a soma dos resultados que seriam obtidos caso fossem realizadas separadamente. Os resultados mostram que a produção pecuária aumenta no sistema e, a cultura depois da presença dos animais, também é melhorada. Somam-se a isso, as complementariedades das atividades, como a redução de riscos. por ter os bois, ativos reais de alta liquidez, e o aumento da rentabilidade, pela exploração dos grãos.

Do ponto de vista da nutrição de bovinos de corte, no sistema de ILP temos as seguintes situações: (i) Aumento na disponibilidade de concentrados na propriedade pela produção de grãos; (ii) Disponibilidade de restos culturais e resíduos e, especialmente vantajoso para a pecuária, (iii) aumento na disponibilidade e qualidade do pasto.

Com relação à pastagem de ILP, os conceitos da suplementação permanecem os mesmos, mas deve-se considerar que a maior disponibilidade permite maior seleção da forragem, o que leva a uma dieta de maior qualidade sendo ingerida pelo animal. Isso faz com que a suplementação faça menos diferença para se obter desempenho. Alternativamente, se há maior massa de forragem, podemos aumentar lotação, que acarreta em menor possibilidade de seleção pelos animais. Esse aumento de lotação, se bem conduzido, pode garantir ainda um bom ganho individual, mas com maior ganho por área.

Na falta de dados da ILP, ilustramos o efeito da melhor qualidade da pastagem na suplementação com dados comparando pastagens de Decumbens e Tanzânia, ambos com o mesmo suplemento (2 g/kg de Peso Corporal). No caso do Tanzânia, o diferencial entre o suplementando e o controle (que recebia apenas sal mineral) foi 13% menor, do que o mesmo diferencial para Decumbens. Já para ilustrar a questão da disponibilidade, dados de animais em Braquiarão mostram ganhos de 330 g/cab.dia para oferta de 1,4-2,6 t MS/ha e 550 g/cab.dia para 2,2-4,3 t MS/ha. Fazendo uma simulação, seria possível ter uma produção por área (@/ha) 20% maior, mantendo o desempenho de 330 g/cab.dia, no caso da lotação mais alta.

Outra situação que ocorre em ILP é ter grande quantidade de animais na mesma área, em função das altas lotações que podem ser usadas neste sistema. Assim, num pasto de 100 ha, com lotação de 7 a 10 cabeças/ha, temos entre 700 e 100 cabeças para fornecer o suplemento. Isso leva ao desafio de ter uma boa estrutura de cochos e uma boa logística de fornecimento, para a qual bons equipamentos para distribuição ajudam muito.

As estratégias de suplementação para ILP são as mesmas usadas em sistemas solteiros, com a escada da intensificação começando com o sal com ureia, que é a de menor investimento, mas que leva aos menores ganhos (ou, mais comumente, a manutenção de peso), seguindo pelo proteinado, que leva aos melhores retornos por Real investido e terminando em dietas de semiconfinamento, em geral, usadas para terminar os animais. Neste ponto, é importante frisar que, caso a avaliação da pastagem de ILP demonstre que ela tem qualidade muito superior àquela solteira na seca, optar pelo proteinado parece ser a opção mais interessante, pois, por ter melhor qualidade, ao se usar dietas de semiconfinamento, deve haver elevada taxa de substituição da forragem, ou seja, o animal troca parte da forragem pelo concentrado, o que reduz a eficácia da suplementação.

A decisão por qual estratégia utilizar deve ser feita por uma análise de benefício: custo. Há uma ferramenta disponível em (http://cloud.cnpgc.embrapa.br/ilpf/downloads/bcss_beta_04_04_2011/). Adicionalmente, pode-se baixar na Play Store do Google o aplicativo para Android, Suplementa Certo, que também auxilia nesta tarefa.

As dicas para um bom resultado não diferem dos sistemas convencionais, também:

  1. Fazer sempre que avaliação indicar benefício:custo favorável;
  2. Suplementação estratégica na seca depende de elevada massa de forragem, algo que se obtém com maior facilidade na iLP;
  3. Dar conforto aos animais, com oferta adequada de espaço linear de cocho e boa distribuição dos mesmos;
  4. Fornecer o produto continuamente .

Entre as vantagens em se usar resíduos da ILP na produção animal temos: (i) Menor competição com o homem por alimentos; (ii) Facilitar relação benefício:custo favorável na suplementação, (iii) Ajudar na sustentabilidade ecológica e econômica da produção e (iv) Permitir o aumento na lotação nas pastagens (Maior ganho individual nelas e maior ganho por área na propriedade como um todo).

Como resíduos da produção agrícola temos as palhadas, os resíduos de Pré-limpeza e outros, como grãos de cobertura verde, a exemplo do Nabo forrageiro e do Pé-de-galinha.

O pastejo de resíduos culturais faz com que não seja necessário se preocupar com a colheita da palhada. Além disso, tem outras vantagens como não ter custos de estocagem/distribuição do alimento, manter os restos culturais na área e, por fim, o aproveitamento do esterco, ainda que ocorra distribuição desuniforme.

Um dos desafios do pastejo de restos culturais é a variação muito grande no valor nutritivo que ocorre, em função de vários fatores como:  Composição percentual  das partes da planta, genótipo, colheita (maturidade), etc. O manejo da cultura também interfere, como no caso de melhoria na qualidade com adubação e piora quanto ocorrem doenças. Um fator que é interessante explorar é a colheita antecipada dos grãos, pois ela ajuda na qualidade. Fazer a silagem de grão de milho úmido é interessante, pois há além do adiantamento na colheita, esse produto é mais bem aproveitado pelos animais.

Uma estratégia interessante para áreas logo após a colheita de grãos é colocar animais nela com vistas a aproveitar os grãos residuais que sobram na área após a colheita. Grãos residuais da cultura do milho, por exemplo, podem perfazer entre 2 e 8 g em cada 100 g de MS residual pós-colheita. Se houver boa lotação, eles são 100% consumidos. Inclusive nas primeiras três semanas de pastejo não seria necessária a suplementação. No caso da silagem de sorgo, ela tem uma vantagem interessante, pois, na maturidade fisiológica, não morre – mantém melhor qualidade do que outros cereais.

A ILP, apesar dos desafios impostos à suplementação, trás, também boas oportunidades para melhorar a produção de bovinos de corte. Ainda melhor que estamos apenas engatinhando e temos muito que aprender e melhorar.

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