Na sombra, mais enigmas da pecuária – Pastagem

Por em 20 de setembro de 2014

Na semana passada, neste espaço, foram feitas várias considerações sobre a questão da sombra na produção de bovinos de corte[1]. Apesar de se restringir ao ambiente mais controlado do confinamento, ficou claro que esse tema, aparentemente simples, é, na verdade, bem complicado. Desta vez abordaremos a sombra no ambiente de pastagem, o que amplia bastante a complexidade da discussão, pois a luz é um fator de crescimento muito importante para forrageiras.

Um dos maiores trunfos desta nossa terra tropical, que nos permite sermos a potência agrícola que somos, é termos sol em abundância. Em geral, não nos damos conta da importância da luz, concentrando nosso foco em outros fatores de produção usualmente mais limitantes, como água e fertilidade.

Ainda assim, em solos de boa fertilidade e época de boa chuva, a produção pode se limitar pela incapacidade da planta captar mais luz. De fato, parte significativa do ganho obtido no melhoramento vegetal é fruto do efeito da seleção na arquitetura da planta que façam dela um “painel solar” mais eficiente. Em milho, por exemplo, a seleção levou a plantas cuja inclinação das folhas resultasse em menos sombreamento nas folhas inferiores, aumentando a energia captada e, consequentemente, a produção.

Assim, é de se esperar que, ao se colocar árvores no sistema pastoril, a mesma sombra que dá conforto aos animais, opere contra a produção de forragem. Isto foi comprovado em pesquisa realizada na Embrapa Gado de Corte, na qual se constatou redução de até 50% na disponibilidade média anual de matéria seca verde de capim-piatã entre sistemas de integração lavoura-pecuária (iLP) e integração lavoura-pecuária-floresta (iLPF ).

Em contrapartida, há melhoria no valor nutritivo da forragem que cresce na projeção da sombra. Assim, gramíneas entre as fileiras de árvores apresentam teores de proteína bruta 15 a 40% maiores que em pastagens em sol pleno, além de resultar em maiores valores de digestibilidade.

Em função da queda de produção de massa ser muito expressiva, pessoalmente acredito ser pouco provável que essa melhoria no valor nutritivo seja capaz de reverter a produção em arrobas por hectare. Assim, a produtividade em sistemas silvipastoris comerciais deve ser menor quando comparada com sistemas sem sombra. Importante reforçar que o valor nutritivo é melhorado apenas para a forragem que fica à sombra e não em toda a área,

Outro fator, menos evidente, que também joga contra o sombreamento em pastagens é a alteração na forma de crescimento das gramíneas em resposta a ter menos luz. Elas alongam o colmo, na tentativa de atingir um extrato mais alto e sair da sombra. Isto faz com que a massa de forragem ocupe um volume maior, ou seja, reduz-se a densidade da pastagem.

Ocorre que, ao ficar menos densa (ter menos massa por volume), ela dificulta a ingestão de forragem pelo animal, pois cada bocado que ele dá na pastagem capta menos forragem. Imaginando o animal como uma máquina, na qual a boca é um coletor com um determinado volume (o tamanho de bocado) e que realiza um número limitado de coletas por dia (o número de bocados por dia), fica fácil entender porque a densidade é tão importante. Assim, um animal em uma pastagem com o dobro da densidade do que outra, pode ingerir o dobro de forragem com o mesmo tempo de pastejo, pois cada bocado dele terá o dobro de forragem.

Aqui, ainda mais do que no confinamento, faltam dados de como a somatória destes efeitos, incluindo o melhor conforto térmico dos animais, interfere no desempenho animal. Nos próximos anos, mais dados sobre sistemas integrados devem ser publicados, de forma a permitir um melhor entendimento das várias interações que neles ocorrem e, consequentemente, uma maior capacidade de aproveitamento das suas virtudes, bem como estratégias para evitar suas limitações.

Por fim, vale sempre lembrar que prover sombra aos animais é um fator de bem estar animal, uma cobrança cada vez maior dos consumidores. Por isso mesmo devemos estudar formas de provê-la da maneira mais eficaz possível: Idealmente afetando pouco a produção de massa de forragem e, por melhorar o conforto dos animais, ajudando a obter maior produção de carne.


[1] http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2014/09/14/na-sombra-mais-um-enigma-da-pecuaria-confinamento/

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