Uso eficiente e seguro da ureia em dez dicas

Por em 30 de agosto de 2014

A ureia é tão simples que foi a primeira molécula orgânica a ser sintetizada pelo homem, em 1828. Além da simplicidade na sua produção, ela é bastante concentrada em nitrogênio: A cada 100 g de ureia,  45 g são desta substância (45% de N). Essas características fazem dela a fonte mais barata que existe, em termos de custo por unidade de nitrogênio (R$/kg de N). Como, para ruminantes, nitrogênio é sinônimo de proteína, seu uso na nutrição animal é bem interessante. Todavia, deve-se fazê-lo com muito cuidado, pois a inclusão sem critério de ureia na dieta reduz a eficiência da sua utilização, pode piorar o desempenho e, em último caso, resultar na morte de animais. As dicas abaixo visam o uso mais eficiente e seguro deste ingrediente:

1)      Qual o objetivo, características e espaço de cocho recomendado para o sal com ureia?

O sal mineral com ureia é a alternativa de suplementação de menor investimento na seca, visando à manutenção de peso dos animais neste período. É necessário que haja boa disponibilidade de forragem, ainda que de baixa qualidade, como é o caso de pastos vedados para a seca. O espaço linear de cocho recomendado é de, no mínimo, seis centímetros por unidade animal (U.A., animal com 450 kg de peso). O consumo recomendado é de aproximadamente 100 g/ U.A., sendo que cerca de 30% dessa quantidade é de ureia.

2)      Qual seria um exemplo de mistura de sal com ureia para ser batido na fazenda?

Na Tabela 1, são apresentados dois exemplos de formulação de sal mineral com ureia, com a inclusão de diferentes fontes de enxofre. O enxofre é importante para auxiliar na composição de aminoácidos sulfurados. O objetivo é atender uma relação de 10 a 15 partes de nitrogênio para cada parte de enxofre.

Tabela 1 – Exemplos de formulações de sal mineral com ureia, tendo como base o sal mineral tradicional

Ingrediente

Formulação 1

Formulação 2

Sulfato de amônia (%)

3

Flor de Enxofre (%)

1

Ureia (%)

30

30

Sal Mineral (%)

67

69

Total

100

100

3)      Como usar o sal com ureia com segurança?

Os principais cuidados no fornecimento de sal com ureia são: (i) Não o utilizar em pastos com baixa disponibilidade de forragem; (ii) Misturar bem a ureia no sal mineral e fornecer continuamente (caso contrário, poderá ser preciso fazer nova adaptação); (iii) Fornecer a mistura, de preferência, em cochos cobertos, obrigatoriamente assentados em desnível e furados, para drenar a água da chuva, de forma a evitar a formação de poças que podem levar a ingestão excessiva da ureia solubilizada nestes locais e (iv) Realizar a adaptação dos bovinos ao consumo de ureia. Para isso, uma sugestão prática e bastante segura é fazê-la como mostrado na Tabela 2:

Tabela 2 – Exemplo prático de estratégia de mistura de sal mineral com ureia para adaptação de bovinos ao suplemento

Período

Sal mineral convencional

Sal mineral com ureia

Primeira semana

2 sacos

1 saco

Segunda semana

1 saco

1 saco

Terceira semana em diante

Apenas sal mineral com ureia

 

4)      Há “antídoto” em caso de intoxicação por excesso de ureia?

O antídoto é uma solução com entre 4-6% de ácido acético, que nada mais é do que o vinagre que usamos para temperar a salada em casa. É necessário fazer o animal ingerir 3 a 4 litros e, se não for alguém habilitado a fazer isso, a chance do vinagre ir pela via errada e atingir o pulmão, agravando a situação, não é pequena. Uma vez que o vinagre chegue ao rúmen, a acidificação que ele causa no ambiente faz com que se reduza a velocidade de absorção da amônia, o subproduto da degradação da ureia. Ocorre que o tratamento só é eficaz se aplicado logo que se observem os primeiros sintomas, o que normalmente não acontece. Em função disso, e de ser um tratamento complicado, o que resolve mesmo é caprichar nas medidas preventivas, citadas no item anterior.

5)      Quanta ureia incluir no proteinado?

Para um proteinado com consumo de 1 g/kg de peso vivo, recomenda-se cerca de 12% da mistura como ureia, apenas como um valor de referência. Esta quantidade de ureia equivale a 33,6 unidades percentuais de proteína bruta (12 g ureia/100 g de proteinado X 2,8 g de proteína/g de ureia). Como esse proteinado tem 50% de proteína bruta, esses 33,6% equivaleriam a cerca de 2/3 da proteína do produto. Se o consumo for de 2 g/kg de peso vivo, basta dividir tudo pela metade, se for 3 g/kg de peso vivo, divide-se por três e assim por diante.

6)      Como incluir a ureia em dietas de confinamento?

Em dietas de confinamento, a melhor forma de incluir a ureia é baseando-se no limite de nitrogênio não proteico (NNP) da dieta. O NNP não deve ultrapassar 2/3 da exigência de proteína degradável ruminal (PDR) que, por sua vez, deve equivaler a 13% dos nutrientes digestíveis totais (NDT). Deve-se lembrar em considerar os NNPs dos demais ingredientes no cálculo do NNP total da dieta. O teor de NNP da ureia, por exemplo, é 100%, ou seja, toda proteína bruta dela é NNP. Na maioria dos alimentos concentrado, o teor de NNP costuma ficar próximo a 10-20%. Nos alimentos volumosos, é bastante variável, podendo chegar a mais de 60% em silagens, por exemplo. Alternativamente, mas menos desejável, pode-se usar a recomendação prática: (a) Dietas com baixa energia (exemplo: volumosos de menor qualidade): até 0,5% da matéria seca (MS); (b) Dietas com energia média (exemplo: Silagem  + concentrados): até 1% da MS e  (c) Dietas com alta energia (exemplo: Dietas de alto grão): até 1,5% da MS. Essa alternativa é menos desejável, pois acaba, muitas vezes, usando menos ureia do que o ideal do ponto de vista econômico.

7)      Há problema em se misturar ureia com alimentos concentrados?

Sim. Apesar de ser possível fazer misturas da ureia com vários ingredientes concentrados sem qualquer problema, com a soja crua, após um ou dois dias, já pode-se perceber um forte cheiro de amônia. Além de, obviamente, representar uma perda de proteína, na forma de amônia, os animais refugam essa mistura por conta do mau cheiro. Isso pode ocorrer com qualquer outro ingrediente que tenha atividade apreciável da urease, a enzima presente na soja crua (ou mal tostada) que quebra as ligações dos grupamentos amina da molécula de ureia. Isso pode acontecer, inclusive, com o farelo de soja, caso o processamento térmico que ele sofre tenha sido brando demais. Todavia, a ocorrência é rara, pois o processo de tostagem costuma ser monitorado, aliás, pela própria avaliação da atividade da urease (atividade ureática).

8)      Qual o nível tóxico da ureia?

O nível tóxico considerado para a ureia é definido por uma faixa entre 40-50 g para cada 100 kg de peso vivo.  Isso significa que uma UA, poderia ingerir entre 180 a 225 g de ureia por dia, no máximo. Um animal já há mais tempo adaptado pode resistir a níveis ainda maiores, não querendo com isso estimular usos acima do limite, pois isso deve ser usado como uma folga de segurança.

9)      O uso da ureia pode atrapalhar os índices reprodutivos?

Desde que a ureia seja utilizada dentro das recomendações, sem exagero, não há qualquer prejuízo, pois o que pode comprometer mesmo o desempenho reprodutivo é o excesso de nitrogênio, independente de qual ingrediente ele tenha origem. Importante comentar que, mesmo vacas prenhas que apresentaram sintomas de intoxicação, não tiveram problemas com o parto ou problemas reprodutivos nas prenhezes seguintes, o que demonstra que o problema de excesso de nitrogênio é reversível.

10)  Posso usar a ureia agrícola?

O uso da ureia agrícola para alimentação animal é proibida por lei, pois é a única registrada no Ministério da Agricultura para esse fim. Por ser mais barata, a tentação em usá-la é grande, mas deve-se lembrar de que o uso de produtos não registrados pode trazer grandes inconvenientes. Como essa questão é importante do ponto de vista da credibilidade da produção de carne e leite, será tema de um texto inteiro, em breve.

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