Os dez mandamentos da pecuária

Por em 21 de julho de 2014

Escrever uma coluna semanal é um desafio interessante, pois, mais dia, menos dia chega a hora em que o tempo fica apertado, não se pode escrever sobre o que se tem à mão[1], a inspiração é pouca e o sinal do prazo já está no amarelo, passando para o vermelho. Apelei, então, às tradições religiosas adaptando os dez mandamentos como mandamentos da pecuária. Não se trata de blasfêmia, mas usar a força das tradições para elencar pontos fundamentais para os pecuaristas terem uma atividade em sintonia com o Mundo. Quem for religioso, receba, por favor, esse texto como uma homenagem às suas crenças e, para todos, mesmo os não religiosos, que tenham fé que o trabalho bem feito na produção de alimentos sempre trará bons frutos na vida terrena.

Esses dez mandamentos da pecuária foram baseados nos itens do programa de “Boas Práticas Agropecuárias, BPA” e ofereço o link para texto da coluna sobre o assunto: http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2013/12/06/boas-praticas-agropecuarias-bovinos-de-corte-voce-conhece/, bem como ao longo do texto outros links que complementam cada assunto em questão. Serve também esse texto como uma homenagem pela recente concessão do financiamento do programa INOVAGRO do BNDES para as duas primeiras propriedades rurais do Brasil que implantaram o Programa BPA.

Vai uma sugestão (bem particular) de como seriam esses dez mandamentos:

1º – Capricharás na gestão sobre todas as coisas: A gestão da propriedade como um todo é muito importante, pois apenas planejando, controlando e avaliando o que se faz é possível decidir por ações conscientes para melhorar. Por vezes são atitudes relativamente simples. Registrar entradas e saídas, por exemplo, permite identificar pontos onde se gasta mais, priorizando-os em relação aos demais, cujos esforços para reduzir custos teriam menor impacto. Estender esses controles sobre os demais recursos da propriedade (solos, animais, mão-de-obra, etc.) só pode trazer, portanto, mais chance de aumentar a eficiência do sistema produtivo.

2º – Não deixarás que tua propriedade se torne vã, cumprindo a função social com responsabilidade social: A primeira questão aqui é cumprir a função social da terra, ou seja, ter o mínimo de grau de utilização da terra e grau de eficiência da exploração, pois, se eles não forem atingidos, ou a terra vai para a reforma agrária ou, em cinco anos, o proprietário pagou o equivalente ao valor da terra em impostos! Ao mesmo tempo, por ser local de trabalho e de trabalhadores, deve-se cumprir com a legislação trabalhista e, para se ter colaboradores de fato (e não apenas para chamar empregados por um termo politicamente correto), tentar sempre fazer um algo a mais, como abordado na coluna da semana anterior. (http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2014/07/11/mao-de-obra-um-assunto-que-da-cada-vez-mais-trabalho/). Investir na capacitação e qualidade de vida dos empregados cada vez é mais necessário e compensador

3º – Guardarás o ambiente como fosse seu corpo: O pecuarista tira seu sustento em uma parceria com a natureza e, assim como o corpo é a morada da alma, o ambiente é a morada da produção pecuária e, portanto, deve ser mantido o mais saudável possível. O Brasil tem uma das legislações ambientais mais exigentes do Mundo e, um dia, ainda entenderemos que, apesar dela custar caro, é melhor assim! Ao cumpri-la nossos produtores rurais dão imensa contribuição a toda sociedade e, talvez, devessem ser premiados por isso com pagamento de serviços ambientais (http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2014/03/30/servicos-ambientais-ao-se-produzir-carne-quem-ganha-com-isso/). Outro aspecto interessante é que, ao contrário de um pensamento geral, intensificar a produção é, frequentemente, mais ambientalmente correto do que querer voltar ao passado, sendo muito mais exigentes ambientalmente os sistemas altamente extensivos. A adoção de tecnologias modernas, que aumentem a eficiência, ajuda a reduzir a pegada ecológica da atividade. (http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2013/11/29/impactos-dos-sistemas-de-producao-intensiva-de-carne-na-sustentabilidade-ambiental/).

4º – Honrarás seus animais, garantindo-lhes bem estar: Das parcerias que o pecuarista faz com a natureza, a mais estreita delas é aquela que tem com seus animais. É moralmente elevado aquele que reconhece a importância de fazer o bem porque é o certo a se fazer. Em geral, descobre-se também que, fazer o bem, faz bem. Ainda assim, mesmo os corações mais empedernidos, devem fazê-lo pelo simples fato que, animais bem tratados produzem mais. Abordamos isso ao fazer um relato do BeefSummit Bem Estar Animal, que tem várias dicas para melhorar a relação pecuarista-bovinos (http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2014/05/15/bem-estar-animal-nunca-perca-uma-oportunidade-de-fazer-o-bem-mesmo-lucrando/).

5º – Não matarás seus animais de fome: Um dos pontos mais importantes do bem estar animal é não deixá-lo passar por um dos piores sofrimentos que um ser vivo pode passar: a fome. Na nossa realidade pecuária, a melhor maneira de se evitar isso é cuidar bem das pastagens e não deixar ocorrer o super-pastejo, conforme abordado logo no segundo texto desta coluna (http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2013/09/11/passa-a-regua/). Como podemos observar pela alta frequência de pastagens estilo “campo de futebol”, esse é um dos grandes problemas da nossa pecuária. Cuidar da pastagem como cultura (desde sua implantação), investir em manejo e respeitar os limites das forrageiras, junto com uso de suplementação estratégica, garante animais que, longe de terem fome, pagarão todo o investimento feito e deixarão o lucro que garante a sustentabilidade econômica da atividade.

6º – Não suplementarás aleatoriamente: O uso de alimentos suplementares pode trazer benefícios de produção e ambientais, mas devem ser feitos sempre à luz de uma boa avaliação de custo:benefício. Para a avaliação pontual, já descrevemos uma ferramenta gratuita que esta à disposição de todos (http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2013/10/09/avaliando-o-beneficiocusto-da-suplementacao-na-seca/). O importante é expandir essa análise para o ciclo de vida total dos animais a serem suplementados para garantir a melhor tomada de decisão técnica e econômica.

7º – Não se furtarás a identificar seus animais: Há duas vantagens aqui. Uma é com relação a dar segurança à cadeia produtiva, pois permite rastrear eventuais falha e corrigi-las. A outra, mais palpável, é permitir um melhor controle dos animais em relação à sua produtividade, bem como usar como ferramenta de manejo individualizado. Apesar de essa segunda vantagem ser ainda um privilégio de poucos, o barateamento das tecnologias fará ser algo cada vez mais comum nas fazendas brasileiras.

8º – Não levantarás falsos positivos e cuidarás da saúde dos animais: O “não levantarás falso positivo” é só para ficar mais parecido como mandamento original, mas, sério mesmo, é cuidar da saúde dos animais. Mais uma vez porque ter animais saudáveis é básico para boas produções, mas de maior importância ainda porque algumas doenças podem comprometer seriamente nosso acesso aos mercados externos. Só essa semana, por exemplo, a China tirou um embargo por uma ocorrência de suspeita de “doença da vaca louca” registrada em 2012! Vale lembrar que ter animais bem alimentados é uma das melhores formas de ter animais saudáveis e que resistam aos desafios sanitários (Sim, o autor do texto é nutricionista animal!).

9º – Não desejarás os índices reprodutivos dos outros: Se a grama do vizinho está sempre mais verde, suas matrizes devem ter melhor condição corporal e, consequentemente, ter melhores índices reprodutivos! O fato é que (e aqui fala, de novo, mais alto o viés do nutricionista) é que grande parte dos resultados ruins em reprodução advém de pura falta de “boia”. Com touros e vacas em boas condições temos a base sobre a qual o correto manejo reprodutivo e o uso de tecnologias cada vez melhores garantam a obtenção de elevados índices reprodutivos e, se alguém for pecar pela inveja, que seja seu vizinho.

10º- Não roubarás o futuro dos teus filhos: Seguindo os nove mandamentos anteriores, esse décimo fica praticamente garantido. Deixar um propriedade pecuária em boas condições para as próximas gerações é o conceito da sustentabilidade posto em prática.

Na esperança de não ter cometido nenhum grande pecado e disposto a espiar algum que tenha escapado, termino por aqui, rezando para que os leitores sejam piedosos em identificar minhas boas intenções e livrá-las de que encham ainda mais o inferno, nem que eu faça a elas companhia!


[1] Pois comprometeria questões de propriedade intelectual.

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