Serviços ambientais ao se produzir carne: Quem ganha com isso?

Por em 30 de março de 2014

Ao contrário do que muita gente deve pensar, e conforme o dizer deles mesmos, “ninguém ama mais a paz do que o soldado, pois serão eles que deverão ir para frente de batalha caso ela seja interrompida”. De maneira semelhante, ninguém deve amar mais a natureza que o produtor rural, pois é dela que ele tira o seu sustento.

Na produção agropecuária, o homem altera o ambiente, causando um desequilíbrio que deve ter idealmente duas características: 1) resultar em produção eficiente e 2) ao cessar (ou terminar seu ciclo), permitir a restauração do equilíbrio original (ou algo suficientemente próximo disso, sem interromper os ciclos vitais da natureza).

A produção de alimento e de outros bens (madeira, lã, energia, etc.) é a compensação que justifica o desequilíbrio temporário. Já a restauração do equilíbrio, por sua vez, garante que a prática seja sustentável ao longo do tempo.

A “Revolução Verde”, nos anos 1960-70, resolveu a questão de produzir alimento para uma população mundial em acelerado crescimento. Todavia, com a prioridade máxima em “matar a fome” do Mundo, acabou em certa medida atropelando a ecologia. Foi por essa época, também, que a humanidade começou a ter aumentada sua percepção para a questão ambiental, hoje já tão bem difundida na maioria das sociedades. O lado ruim dessa boa notícia é que muitas vezes ela é usada de forma maniqueísta, por exemplo, contrapondo o produtor rural como “o bandido” ao ambientalista como “o mocinho”. Aliás, recentemente essa foi uma situação recorrente nas discussões do novo Código Florestal Brasileiro.

Hoje, felizmente, percebemos que é possível unir a geração de recursos agropecuários (o necessário!) com a manutenção de um ambiente saudável (o fundamental!). Há muito ainda a ser feito e uma das “colas” mais interessantes para ajudar nessa junção é o pagamento por serviços ambientais.

Serviços ambientais seriam processos naturais, como a produção de água, a polinização das plantas, a decomposição de resíduos, o controle de erosões e todos os demais processos naturais que viabilizam a vida na terra. A eles, podem ser atribuídos valores monetários.

Na produção rural, um dos casos pioneiros no pagamento de serviços ambientais no Brasil é o da prefeitura de Extrema-MG, com o programa “Conservador das Águas”. Apesar do sucesso do programa, que passou de 40 propriedades em 2008 para 150 em 2013, aumentando a área coberta de 1,2 mil hectares para 7,3 mil hectares, ainda são poucos os programas desta natureza no Brasil (Recomendo assistir o vídeo sobre o programa. Veja link abaixo).

A forte estiagem deste verão, que mantém com risco de racionamento de água a maior cidade do país e que gerou sério atrito entre os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, dá “momento” para a discussão sobre o tema.

O fato de ser um “extremo climático” também remete à questão das mudanças climáticas. Ainda que seja um evento não diretamente ligado a ela e, sim, aos ciclos naturais de altas e baixas na temperatura do Oceano Pacífico, conforme nos explica a meteorologia, ele nos dá uma amostra do que poderemos passar no futuro. Para evitar dissabores semelhantes devemos ser proativos em achar meios para mitigar os impactos ambientais da produção rural.

A pecuária, com os seus 200 milhões de hectares, pode dar um contribuição formidável para nossa segurança hídrica. Com a adoção de tecnologias já existentes, de uma só vez, podemos aumentar a produtividade e deixá-la mais ambientalmente amigável.

A lógica é a seguinte: Um dos graves problemas de pastos degradados é deixar o solo mal coberto, exposto à energia destrutiva dos pingos de chuva, o que leva à erosão dos solos que, além da perda desse importantíssimo ativo, resulta no assoreamento dos rios.

Assim, um pasto bem manejado, independente da produção animal, é vantajoso para a sociedade, pois ele presta vários serviços ambientais: controla a erosão, ajuda na “saúde” dos rios e, por facilitar a absorção da água no solo, ajuda a recarregar os depósitos subterrâneos de água que alimentam os corpos d´água com o quais matamos nossa sede.

Não bastassem todas essas vantagens, a maior produtividade animal também traz vantagens ambientais, pois há menor produção de GEE para cada quilograma de carne produzida e menor necessidade de área para uma mesma produção.

Fica claro que seria interessante para todos que os pecuaristas fossem incentivados a se tornarem produtores mais eficientes. A grande questão é como conseguir esse recurso e, ainda muito mais desafiador, fazer com que seu uso efetivamente mude a realidade.

Um dos passos para isso é dar valor a esses serviços. Recentemente, saiu na imprensa trabalhos sobre valoração dos componentes ambientais da produção de dendê e de soja (Veja link “Os lucros da produção sustentável”, abaixo), mostrando que isso é possível, ainda que possa haver muitas críticas sobre os valores em si.

Outro passo importante é dar conhecimento desta possibilidade aos provedores dos serviços (os pecuaristas, por exemplo) e para os beneficiários (a sociedade, como um todo). Ajuda a cumprir essa meta todas as iniciativas que, por acreditem que esse seja um caminho válido a ser explorado, ajudem a disseminar a informação (como esse texto!).

Por fim, o Estado, os governos e as instituições não governamentais devem ser demandados para ajudar com formulação de políticas públicas e outros mecanismos que criem segurança jurídica e parâmetros para a implementação mais efetiva de pagamento por serviços ambientais. Não há necessidade de ser algo grandioso, como prova a meritosa iniciativa de Extrema-MG citada acima, mas, quanto mais corpo tiver, melhor.

Reconhecer o valor de forma científica, difundir o conceito na sociedade e incentivar a todos para sua adoção pode ser um roteiro para fazer o pagamento por serviços ambientais uma realidade mais ampla no Brasil.

Hoje, as restrições ambientais à produção são um tormento para os produtores rurais, muitas vezes pressionando-os, via aumento de custo, para situações de piora no nível de manejo das propriedades, com agravamento do risco de degradação ambiental. O pagamento de serviços ambientais é uma esperança de reverter isso, em uma espiral virtuosa, onde o incentivo faz produzir melhor e a melhor produção ajuda à conservação do ambiente.

Nota: Agradeço ao colega Dr. Rodiney de Arruda Mauro pela sugestão deste tema e envio de notícia relacionada (que ainda vou usar!)

Links:

1)      Os lucros da produção sustentável:

http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-brasil,os-lucros-da-producao-sustentavel,179721,0.htm

2)      Vídeo sobre o pagamento de serviços ambientais na cidade de Extrema-MG

http://globotv.globo.com/rede-globo/globo-rural/v/trabalho-de-protecao-de-nascentes-ajuda-a-garantir-agua-em-mg/3150735/

3)      Informações sobre “Serviços Ambientais” na página do Senado sobre a “Reforma do Código Florestal”

http://www12.senado.gov.br/codigoflorestal/infograficos/servicos-ambientais

 

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