Calendário do manejo nutricional: Uma sugestão para fazendas de recria e terminação

Por em 3 de janeiro de 2014

Uma boa opção para esse começo de ano é tentar organizar as tarefas que temos a fazer ao longo dele. No caso do manejo nutricional, ano após ano, algumas providências são essenciais e tem o tempo certo para serem realizadas. A não obediência a estes compromissos, trazem prejuízo e arrependimento.

Com a intenção de relembrar os principais compromissos nutricionais para fazendas de recria e terminação, propõe-se o calendário abaixo. Importante destacar que é uma mera sugestão e sua adoção total ou parcial depende da realidade de cada fazenda, tanto do ponto de vista administrativo, como do ponto de vista de características regionais (especialmente, características climáticas).

Mês a mês, a sugestão com os principais pontos a se considerar seria:

JANEIRO:

Avaliação dos resultados do ano 2013

No mês de Janeiro, não foi identificado nenhum ponto em particular para esse calendário. Dessa forma, a sugestão, seria juntar os dados disponíveis para avaliar o desempenho da fazenda no ano anterior.

O interessante é tentar usar dados que sejam informações importantes e que cuja análise permita a realização de ações corretivas. Esse é  caso do consumo de suplementos e de gastos, conforme comentado no último texto da coluna, na semana passada.

FEVEREIRO:

Diferimento 1/3 da área para uso Junho/Julho

O diferimento das pastagens se não for feito no tempo certo, compromete sobremaneira os resultados da suplementação na seca. Não importa por qual tipo de suplementação o pecuarista vai optar, se a massa de forragem for baixa, a perda de peso é praticamente certa. Apenas lotações muito baixas resultam em ganho de peso na seca, o que não é vantagem pela baixa produção de carne por hectare.

Para este mês, recomenda-se diferir um terço da área que se pretenda usar na época da seca. Para que a forragem acumulada não fique com seu valor nutritivo (VN) ainda mais depreciado, por conta do seu envelhecimento, essa pastagem seria usada com de 120 a 150 dias de vedação.

MARÇO:

Diferimento 2/3 da área para uso Agosto/Setembro

Neste mês, seria repetida a operação de diferimento, mas agora dos restantes 2/3 da área que se pretende usar na época da seca. Essa área seria usada para os dois últimos meses que tipicamente tem ainda menor índice de chuvas, das quais  espera-se um retorno mais consistentemente em Outubro.

Apesar da idade média de diferimento destes pastos ser a mesma que o 1/3 diferido em Fevereiro, como a forragem tem crescimento mais lento, pode-se esperar um VN ligeiramente superior para essa segunda área de diferimento.

Essa diferença, na prática, não muda o resultado, ao contrário da escolha certa das cultivares a serem usadas para vedação. Devem ser usadas forrageiras que perdem mais lentamente o VN, como as braquiárias e os capins-estrela, por exemplo, e evitar as forrageiras de crescimento em touceira (Panicuns, Andropogon, etc.).

ABRIL:

Início da suplementação da época da seca

Apesar de estar escrito acima, com todas as letras, “início da suplementação da época da seca”, evidentemente, isso se aplica para o regime de chuva predominante no Brasil-Central pecuário, no qual, como na música de Tom Jobim, as chuvas de Março fecham o verão!

Deve-se adaptar esse início ao regime de chuva local, adiantando ou atrasando a implementação da suplementação. Cabe aqui lembrar que a proposta de diferimento colocada acima considera que a época da seca vai de Abril a Setembro e as águas, de Outubro a Março.

Se ficar na dúvida entre adiantar ou retardar o uso do suplemento da seca, em geral, é preferível adiantar. O uso antecipado pode ter o prejuízo de aumentar o custo da suplementação, mas tem o bônus de já ir adaptando os animais ao suplemento e a suplementação. O atraso, por sua vez, só trás prejuízo com a perda de desempenho superior que a suplementação proporciona.

MAIO:

Início Primeira rodada  do Confinamento

Esse pode ser um bom mês para iniciar o confinamento, pois, teoricamente, há apenas um mês de seca. Os animais a serem confinados, em Abril, podem já começar a receber o concentrado no pasto, que serve como uma pré-adaptação ao confinamento. Essa técnica tem sido utilizada e, apesar de seus reais benefícios ainda precisarem ser comprovados em experimentos controlados, ela tem fundamento, especialmente para acostumar os animais com a alimentação nos cochos. Se adotar essa prática, lembrar que todos os animais devem ter acesso simultâneo aos cochos.

Considerando o confinamento típico brasileiro, com 90-100 dias de duração, os abates se concentrarão entre meados de Setembro e Outubro, época em que é possível haver já algum diferencial de preço por estar na entressafra dos bois terminados provenientes de pastagem, ainda que esse diferencial seja cada ano menor.

JUNHO:

Entrada dos animais no pasto diferido

De acordo com a programação deste calendário, os animais seriam conduzidos aos pastos vedados em fevereiro, onde eles ficariam por dois meses. É claro que, dependendo do acúmulo de forragem e da lotação de animais que colocarmos esse tempo pode ser alterado.

Como é uma época mais de falta de opções do que o contrário, é mais comum ser necessário estender o tempo de uso, com prejuízo para o desempenho. Para que isso não seja necessário e, caso ocorra, para que os prejuízos não sejam tão grandes, a lotação de 1 unidade animal/hectare é recomendada como referência básica. Uma unidade animal equivale a um bovino de 450 kg de peso.

JULHO:

Semi-confinamento tático

O semi-confinamento tático seria aquele não definitivamente programado para ocorrer, mas que no caso de haver um conjunto de situações que favoreçam sua adoção, pode ser realizado. Assim, se o  houver animais faltando uma ou duas arrobas para terminarem, pasto diferido disponível, baixo custo dos ingredientes e gado valorizado, decide-se por semi-confinar.

Essa versatilidade do semi-confinamento é algo extremamente interessante, pois, ao contrário do confinamento, que uma vez presente no sistema fica quase obrigatório de ser feito, sua realização ou não pode ser decidida de última hora, sem grandes dramas.

Com resultados médios de desempenho de semi-confinamento em que se usa suplementação com 1% do Peso Vivo do animal, essas uma ou duas arrobas seriam ganhas entre 45-60 dias, resultando em concentração de abate dos animais assim terminados entre meados de Setembro a final de Outubro.

AGOSTO:

Entrada dos animais nos pastos diferidos em Março / Início da segunda rodada do Confinamento

Com relação aos animais entrando nos pastos diferidos em Março, eles estariam sendo deslocados dos pastos diferidos para uso nos dois meses anteriores. Uma boa ideia é checar nos lotes com animais mais pesados se, pelos menos, a ponta da boiada não teria o peso mínimo para entrar na segunda rodada do confinamento.

Apesar de ser provável que essa rodada de confinamento tenha valor médio de arroba (R$/@) maior do que o primeiro, eventualmente, se o cenário estiver muito ruim, pode-se confinar menos animais. Em função do confinamento ser muito usado também como ferramenta de auxílio no manejo das pastagens, permitindo lotações mais altas nas águas por absorver animais na seca, dificilmente alguém que planeja dois turnos de confinamento deixa de fazê-lo.

Além disso, uma grande vantagem de ter dois turnos de confinamento é que pode-se terminar até o dobro de animais que o máximo da capacidade estática permite, o que dilui os custos fixos com a estrutura física do confinamento.

SETEMBRO:

Final da Suplementação da Seca

Novamente lembrando que esse calendário pressupõe as condições predominantes no Brasil-Central pecuário, pode-se tomar como último mês a suplementar com produtos formulados para época. Estender o uso para os meses seguintes, fica por conta da observação dos caprichos de São Pedro.

OUTUBRO:

Início da Suplementação com a linha branca (sal mineralizado) e o controle de seu consumo

Uma vez que as chuvas voltem e os pastos comecem a rebrotar, os suplementos da seca deixam de fazer efeito e seu consumo é apenas mais uma forma de jogar dinheiro fora. É possível a obtenção de ganhos de peso muito satisfatórios apenas com o sal mineralizado com as pastagens das águas, o que permite produzir uma arroba com custo muito interessante.

O mais importante é ter consciência que é nas águas que a suplementação mineral faz mais diferença e, portanto, todos os esforços para que ele seja bem feita são recompensados. A sugestão é, de alguma forma, fazer o controle de consumo para identificar se o consumo do mineral está próximo ao consumo-alvo, que é aquele determinado pelo fabricante ou técnico que formulou o sal. Esse controle deve ser feito por todo o período das águas.

Deve-se ter clareza que o consumo acima do consumo-alvo é desperdício de recurso, e deve ser evitado. Todavia, o maior prejuízo é quando o consumo fica abaixo do adequado, pois, nesse caso, é provável que o animal esteja deficiente em algum dos minerais que limitará o desempenho do animal.

NOVEMBRO:

Abate dos últimos animais confinados

Neste mês, os animais da segunda rodada do confinamento teriam entre 90-120 dias de confinamento e a maioria deles deve ter chegado a um bom ponto de terminação. Considerando esta hipótese, recomenda-se que eles sejam abatidos, pois animais terminados pioram enormemente a conversão de alimento em ganho.

Assim, insistir em manter animais terminados no confinamento na esperança de aumentos no preço da arroba, de forma geral, não é compensador. Isso, obviamente, vale para os animais da primeira rodada, mas a questão é mais crítica aqui por conta do clima.

Com a volta das chuvas e do calor, o manejo do confinamento fica mais complicado e os animais mais sujeitos a fatores que levam a redução do consumo. A diminuição na ingestão pode ser por uma circunstancial dificuldade de acesso ao cocho pelo acumulo de água e lama defronte a ela ou porque a lama, ao dificultar as trocas de calor, resultam em estresse térmico.

DEZEMBRO:

Planejamento 2014

No mês de Dezembro, não foi identificado nenhum ponto em particular para esse calendário, mas como último mês do ano pode ser usado para ratificar/retificar o planejamento das atividades do próximo ano.

No quadro abaixo, um resumo do calendário.

Mês

Atividade

Janeiro

Avaliação dos resultados do ano 2013

Fevereiro

Diferimento 1/3 da área para uso Junho/Julho

Março

Diferimento 2/3 da área para uso Agosto/Setembro

Abril

Início da Suplementação da Seca

Maio

Início Primeira rodada do Confinamento

Junho

Entrada dos animais no pasto diferido

Julho

Semi-confinamento tático

Agosto

Início segunda rodada do Confinamento/ Entrada dos animais nos pastos diferidos em Março

Setembro

Final da Suplementação da Seca

Outubro

Controle Consumo Minerais

Novembro

Abate dos últimos animais confinados

Dezembro

Planejamento 2015

 

Conforme já mencionado, ele é apenas uma sugestão de calendário. Você identifica algo que pode ser aprimorado? Atividades relevantes foram esquecidas? Seria bom saber o que podemos mudar para deixá-lo mais completo e consistente. Antecipadamente agradeço qualquer crítica ou comentário.

 

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