Cinco dicas básicas para ter uma produção melhor em 2014

Por em 26 de dezembro de 2013

Um dos cacoetes de final de ano é a mania de fazer listas com resoluções de ano novo. Para não fugir à regra, esta última coluna de 2013 vem recheada com cinco dicas bem elementares, como sugestão de resoluções para o novo ano. São totalmente básicas e, talvez por isso mesmo, muitas vezes são menosprezadas.  Ao digníssimo leitor deixo o desafio de descobrir se, pelo menos alguma delas, pode ser adotada em sua atividade.

1)      Nutrição: Monitorar o consumo médio de suplementos.

A primeira dica é da minha área, a nutrição animal, e está ligada ao tema consumo de suplementos, que foi abordado  em setembro (http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2013/09/17/mineralizacao-de-animais-em-pastagem-assunto-encerrado/) , naquela ocasião sob o ponto de vista do desafio de se obter o correto consumo pelos animais.

A sugestão para o próximo ano, então, é conseguir melhorar o monitoramento do consumo dos suplementos pelos animais. Ter a informação do consumo médio de suplementos já é de grande valia. Ela pode ser obtida de forma muito simples, apenas consultando o uso do produto em determinado tempo e dividindo-o pelo número de animais que o consumiu multiplicado pelo número de dias em que isso ocorreu. Supondo uma fazenda que apenas usa sal mineral convencional o ano todo, esse cálculo seria feito conforme abaixo:

Consumo médio de sal mineral =
[(Estoque inicial – Estoque final) x Peso Saco]/[(Número médio de animais X 365 dias)]

Consumo médio de sal mineral = [(150 sacos  – 50 sacos) X 30]/[(10.000 Cabeças X 365 dias)]

Consumo médio de sal mineral = (3.000 kg)/(365.000 Cabeças X dia) = 0,082 kg/cabeça/dia

Neste caso, o cálculo pressupõe que não houve compra durante o ano. Se tivessem sido feitas compras, bastaria somá-las ao estoque inicial.

O resultado, equivalente à 82 g/cabeça/dia é uma boa referência que, no caso, indica um consumo médio aparentemente dentro da normalidade.  Obviamente, ele deve ser confrontado com o valor (ou os valores, se for mais de um produto) indicado pelo fabricante.

Se o consumo médio estivesse muito alto seria o caso de pensar em rever as práticas de suplementação para reduzir o gasto, sem perder desempenho.  Todavia, a situação em que esse valor nos dá a informação mais valiosa é quando esse consumo de referência está abaixo do que deveria ser o valor normal, pois é aqui que o prejuízo costuma ser maior. O que ocorre neste caso é que não se obtém todo o benefício da suplementação, uma vez que pode estar havendo consumo sub-ótimo dos minerais.

2)      Pastagens: Respeitar o resíduo mínimo de cada forrageira.

Essa dica foi abordada no segundo texto publicado este ano (http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2013/09/11/passa-a-regua/), no qual a falta em se deixar o resíduo mínimo de forragem foi destacado como o principal motivo para termos mais de metade das nossas pastagens com algum grau de degradação, bem como razão para as nossas baixíssimas médias de produtividade.

Incorporar a preocupação de manter uma altura mínima de pastejo específica para cada forrageira é muito importante. É fácil perceber que isso ainda não está na agenda da maioria dos pecuaristas do Brasil dos pastos que avistamos nas estradas. Para aqueles que adotarem a prática, os benefícios esperados são: 1) Melhor desempenho dos animais; 2) Menos invasoras na pastagem; 3) Maior longevidade das pastagens. No link abaixo, há uma lista  com alturas recomendadas para as principais forrageiras usadas no Brasil, bem como um instrumento para auxiliar a obtencão deste objetivo:

http://www.cnpgc.embrapa.br/publicacoes/folderusodaregua.pdf

3)      Ambiente: Priorizar a recuperação das matas ciliares.

Citamos as matas ciliares no texto de novembro (http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2013/11/29/impactos-dos-sistemas-de-producao-intensiva-de-carne-na-sustentabilidade-ambiental/), enfatizando o papel delas para evitar o assoreamento dos rios, algo cuja importância dispensa comentários.  Outro aspecto muito interessante das matas ciliares, segundo os estudiosos do tema, é que elas são importantíssimos como corredores ecológicos, ligando fragmentos de conservação e permitindo a troca de material genético entre os seres de um local e outro, evitando problemas de consanguinidade que minam a longevidade da vida em fragmentos isolados. Mas há, também, um fator de interesse produtivo ao cercar os acessos aos rios que passem pela fazenda: o pastejo fica mais uniforme, os animais andam menos e há menos problemas sanitários em função do uso de bebedouros.

Ao se cercar essas áreas, há duas possibilidades: Esperar a regeneração natural ou plantar forragens nativas. Qualquer uma das opções é melhor do que não fazer nada, mas obviamente os resultados são mais rápidos (e garantidos) quando ajudamos a natureza plantando as árvores. Além de serem nativas, há uma ordem em que as diferentes espécies devem ser plantadas, baseado principalmente na tolerância ao sombreamento. Em função disso, e de outros desafios deste processo, garante-se mais ainda o resultado contar com assistência técnica especializada.

Mesmo que a opção seja apenas cercar as áreas de mata ciliar, o investimento já é grande. Todavia, como no caso da caminhada de mil passos que só pode ser concluída após o primeiro passo, pode-se ir fazendo esse processo aos poucos, na medida do possível.

4)      Social: Valorização dos empregados.

A valorização dos empregados na fazenda foi um tema central dos palestrantes do Beefsummit em Ribeirão Preto que mostraram casos de sucesso, como parte importante para obtenção de resultados superiores. Relatei isso em um texto em duas partes com os pontos altos deste evento que podem ser acessados na página da coluna. Esse tema também foi um dos destaques do texto publicado no início do dezembro sobre o programa Boas Práticas Agropecuárias, da Embrapa Gado de Corte ( http://sites.beefpoint.com.br/sergioraposo/2013/12/06/boas-praticas-agropecuarias-bovinos-de-corte-voce-conhece/) no qual, inclusive, comentamos sobre um caso de ganho de disputa trabalhista na justiça por conta de capacitação de empregados.

A dica óbvia seria sugerir o pagamento de salários acima da média e, de fato, quando queremos algo melhor do que a média, seu custo costuma mesmo ser acima da média. Porém, está fartamente comprovado que o salário é apenas um dos itens que faz com que a pessoa permaneça no emprego. Algo citado como muito importante pelos empregados para se manterem em uma empresa é sentirem-se valorizados. Atitudes simples, como reconhecimento por algum trabalho bem feito, mesmo que com um simples elogio contam.

Outra forma muito interessante de valorizar seu empregado é dando oportunidade dele se capacitar. Ao ser selecionado para fazer algum curso, automaticamente há uma percepção de ser valorizado por ter sido escolhido e porque lhe dá confiança que poderá continuar crescendo na empresa. Esta interessante perspectiva de um futuro melhor é um poderoso estimulante para manutenção do empregado.

Com cursos bem escolhidos, tanto em termos de área em que se qualificar, bem como na competência de quem os ensina, vem o benefício de ter uma mão-de-obra mais qualificada, algo de importância crescente, a medida que tudo vai ficando mais tecnológico e complexo. O resultado, ao final, deve ser que  o pecuarista terá verdadeiros colaboradores e não pessoas assim chamadas apenas para ficar no politicamente correto.

Cabe lembrar aqui um grande aliado do produtor que faz um trabalho excelente, mas cujo potencial ainda não foi totalmente aproveitado pelos pecuaristas: o SENAR.

5)      Gestão: Anotar saídas e entradas.

Independente da empresa, só há chance de reduzir custos se estes são conhecidos. No caso de fazendas de pecuária, o padrão é não existir ou ser feito de maneira muito elementar. O caso é que, no caso da bovinocultura de corte, esse controle é muito mais importante. Isso, por conta de o preço ser determinado pelo mercado, sem interferência de quem produz. Nesta situação, a única saída para aumentar a margem da atividade é através da redução de custos.

Uma ferramenta que gratuita disponível é o ControlPec que pode ser baixado no endereço: http://www.cnpgc.embrapa.br/produtoseservicos/ControlPec/index.htm .

O que temos certeza é que, quem iniciar esse exercício com a necessária disciplina, deverá se surpreender com alguns itens que ele considerava irrelevante mostrarem-se, na soma ao final do ano, bem maiores do que o imaginado. Outra análise muito importante que isso propicia é identificar os gastos mais relevantes e, dentro deles, àquele o qual mais vale à pena direcionar esforços para reduzir e, portanto, priorizar.

Sinceramente, esperamos que, pelo menos uma destas dicas possa ajudar algum dos nossos leitores a fazer um 2014 melhor. Aproveito para agradecer a todos que fizeram essa experiência de escrever semanalmente algo extremamente gratificante. Isso inclui os inúmeros elogios, as poucas críticas (que sempre serão bem-vindas!) e, de forma muito especial, o que cada um dos leitores investiu do seu tempo para nos prestigiar com sua leitura.

Desejo a todos que achem, como eu encontrei neste espaço, muitos motivos para fazer desse ano novo um tempo muito produtivo e enriquecedor, no sentido mais amplo do termo, fazendo todos nós seres humanos melhores e o Mundo um lugar cada vez melhor para se viver!

5 Comments

  1. rita de cassia viaes

    9 de abril de 2014 at 23:29

    Muitooo bom Sergio e acrescenta muito, pelo menos para mim que estou iniciando a atividade pecuaria.

    • sergioraposo

      11 de abril de 2014 at 3:33

      Rita, muito obrigado! Boa sorte na atividade!

  2. Sidiney

    20 de outubro de 2017 at 13:19

    bom dia doutor Sergio.
    sou aqui de tocantins e estou querendo começar uma fabrica de raçoes e sais minerais.
    gostaria de saber existe algum curso voltado para essa area,sobre formulaçoes?
    sera que poderia me ajudar?

    • sergioraposo

      22 de outubro de 2017 at 23:06

      Sidiney, não conheço cursos dessa natureza. Todavia, na página da Embrapa Gado de Corte, procure publicações com as palavras chave “minerais” ou “mineral” e “formulação”

  3. aluisio puglia de azevedo

    3 de agosto de 2018 at 22:21

    Considero todos os comentarios do artigo muito oportunos e importantes.
    parabens

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