Mineralização de animais em pastagem: Assunto encerrado?

Por em 17 de setembro de 2013

O fornecimento à vontade de misturas minerais nas pastagens é uma tecnologia consolidada em termos de seus benefícios e de ampla adoção. Então, o que levaria alguém a gastar mais tinta (ou pixels!) sobre suplementação mineral?

A resposta é simples, objetiva e direta: consumo!

Indicativos de que as exigências minerais que usamos atualmente não são limitantes são os altos desempenhos que podem ser obtidos em pastagens em que o único suplemento é o sal mineral. Isso não quer dizer que elas não possam ser aperfeiçoadas,  mas, pelas circunstâncias, não tem sido uma prioridade da pesquisa.

Hoje, toda a estratégia de suplementação mineral se baseia em oferecer elevadas quantidades dos minerais eventualmente limitantes de maneira que haja garantia que nenhum deles vá limitar o desempenho potencial que a energia e a proteína da pastagem permitirem. Esta estratégia se baseia na ideia que é melhor jogar fora minerais pelas excreções dos animais do que ter o desempenho limitado por um deles.

Os níveis de garantia expressam a concentração de cada nutriente na mistura mineral. Os que aparecem em maior quantidade (macrominerais), em geral, são expresos em gramas por quilograma de produto e, os em menor quantidade (microminerais), em miligrama por quilograma de produto ou partes por milhão (ppm). Como temos um milhão de miligramas em um quilograma, os valores expressos em mg/kg e ppm são equivalentes.

É comum o pecuarista comparar os níves de garantia dos produtos e escolher o “mais forte”, ou seja, aquele que tem maiores concentrações dos nutrientes com a ideia que estarão garantindo um maior aporte dos minerais. O quadro 1,  ilustra como a escolha apenas pelas concentrações pode ser enganosa, pois, apesar de todos os minerais serem mais concentrados no suplemento “B” (compare a coluna “teor” de cada um deles), o aporte (compare as colunas “g ou mg/cab.dia”) foi sempre maior para o suplemento “A”.

Quadro  1 – Comparação entre teores (g/kg ou ppm) dos minerais de duas misturas minerais e o aporte destes (g/cab.dia) em função de diferentes consumos

Mistura mineral

A

B

Consumo, g/cab.dia

70

50

Elemento

teor

g ou mg/cab.dia

teor

g ou mg/cab.dia

Ca, g/kg

120

8,4

130

6,5

P, g/kg

81

5,67

90

4,5

S, g/kg

15

1,05

17

0,85

Na, g/kg

140

9,8

200

10

Cu, ppm

1235

86

1500

75

Zn, ppm

5000

350

6000

300

I, ppm

130

9

150

7,5

Co, ppm

150

11

160

8,0

Se, ppm

15

1

18

0,9

 

Portanto, como esse exemplo deixa bem claro, o consumo da mistura mineral é tão importante quanto a concentração na determinação de quanto de cada mineral estará nutrindo o animal.

Mas será que estamos nos saindo bem em disponibilizar os minerais aos animais?

Resultados obtidos na ESALQ/USP pela equipe do Prof. Moacyr Corsi ilustram que o desafio do adequado consumo de suplementos minerais talvez seja ainda mais complicado que nossa crença nas médias de consumo possam estar nos indicando. Na tese de doutoramendo do Dr. Ricardo Goulart (“Avaliação de antimicrobianos como promotores de crescimento via mistura mineral para bovinos de corte em pastejo”, disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/11/11139/tde-17032011-171637/pt-br.php), foi feita uma interessante avaliação do consumo dos minerais utilizados, como um pré-teste para o objetivo final da tese que foi avaliar a efetividade de aditivos no sal.

A metodologia para avaliar o consumo pelos animais é baseada na mistura de sulfato de lítio à mistura mineral de forma que, se o animal consumi-la, o lítio aparecerá no sangue  em determinada concentração que não possa ser explicada de outra maneira que não pela ingestão via o sal marcado com o sulfato de lítio.

O quadro 2 é uma adaptação dos dados originais, mostrando apenas a variação da mistura mineral sem aditivos.

Quadro  2 – Consumo (g/cab.dia) individual em duas datas de sal mineral em diferentes pastagens determinadas pela marcação do mineral com lítio (Goulart, 2011).

 

Data 1

Data 2

Animal

Colonião

Mombaça

Tanzânia

Xaraés

Colonião

Mombaça

Tanzânia

Xaraés

1

0

17

0

206

0

0

156

0

2

0

3

128

0

93

0

66

36

3

0

0

0

0

41

0

39

0

4

0

0

0

16

13

0

45

0

5

86

2

35

22

28

0

0

20

6

24

9

47

0

7

0

63

47

7

0

20

39

49

8

0

17

0

7

9

0

26

10

0

0

No quadro 2, chama a atenção a quantidade de animais que não consumiram o produto. Das 60 observações de consumo, 29 são de animais com consumo igual a zero (48%). Além disso, é a enorme variação de consumo, de 2 g/cab.dia até 146 g/cab.dia. O consumo médio de 24 g/cab.dia, portanto, pode estar perto do consumo desejado e ser reconfortante, mas representa pouco do que realmente aconteceu.  Os dados completos com os outros três tratamentos são muito semelhantes a estes que selecionamos. Por exemplo, o número de animais que não consumiu foi de 47%.

Para nosso espanto (e para preocupação de todos), mesmo numa condição tida com adequada em termos de espaço linear de cocho, praticamente metade dos animais não consumiu o suplemento!

O que esses dados mostram é que temos que ter uma enorme preocupação  com o fornecimento do suplemento e que, talvez, tenhamos que repensar se nossas recomendações de espaço linear mínimo de cocho não devam ser revistas ( 6 cm/animal 450 kg) , bem como todas as demais recomendações de fornecimento de minerais.  Certamente, precisaremos de novas avaliações como a feita nesta tese.

4 Comments

  1. Ricardo Ferreira da Silva

    19 de setembro de 2013 at 12:18

    Pelos dados acima, pode-se tirar alguma conclusão sobre consumo mineral e tipo de pastagem?
    Se não estou fazendo uma leitura errada dos dados, em alguns capins houve maior quantidade de zeros (“0”) ou traços (“-“). Isso poderia significar que determinados capins induziram/estimularam maior consumo? Poderia-se concluir que alguns capins são melhores que outros, e fornecem/atendem melhor as necessidades minerais dos animais? As plantas espelham exatamente as características do solo, suas qualidades e deficiências? Qual a relação entre características do solo, solo melhor ou pior, e consumo de mineral?
    Obrigado, Ricardo Ferreira

    • sergioraposo

      19 de setembro de 2013 at 17:38

      Ricardo, muito obrigado pela excelente observação.Respondendo um a um seus questionamentos: (1) esse experimento não foi delineado para comparar o consumo dos animais em função da pastagem. Na verdade, eles rotacionaram os animais nas diferentes pastagens para retirar o efeito destas. Isso implica em dizer que os animais de cada uma daquelas datas, num mesmo capim, não são os mesmos. Se desconsiderarmos isso e formos avaliar os zeros em cada capim (e só os zeros, porque os hífens não contam, pois eles apenas completam os espaços dos dados com menos animais), na média eles não são muito diferentes, exceto para o Mombaça, em que pesou uma das datas em nenhum animal consumiu. Como o conjunto dos dados mostra que a variabilidade é muito grande, portanto, até um dia em que nenhum animal consome é possível e, mais importante, poderia ter ocorrido em outros pastos, caso houvesse mais datas em que o consumo tivesse sido avaliado. (2) Com relação ao valor nutricional existem sim capins melhores do que outros, mas o capim melhor faz o animal ter maior desempenho e, portanto, aumenta as exigências de minerais, ou seja, não necessariamente ele vai reduzir a necessidade de suplementação. (3) Plantas que crescem num terreno mais fértil costumam ter maiores concentrações de minerais, mas nem sempre as relações são tão diretas assim. Um dos fatores que pode mudar isso é que, exatamente por crescer mais, a planta pode diluir alguns minerais e ter menor concentração do que se ele tivesse o crescimento limitado. (4) Ainda que possa haver interação de desempenho (que, quanto maior, mais aumenta a necessidade de minerais), comentado em (2) e dos fatores de crescimento da planta, comentado em (3), e, portanto isso não ser uma verdade absoluta, espera-se que quanto pior o solo, maior o consumo de minerais.

      • Pedro

        2 de janeiro de 2015 at 15:33

        Noto que, na troca de piquetes, conforme o estado da pastagem o gado se concentra em comer e não liga para o mineral. Conforme a velocidade da rotação e se o gado consumiu bastante mineral anteriormente, pode passar um dia sem ir ao cocho tranquilamente para aproveitar o pasto, ainda mais em piquetes pequenos em sistema voisin.

        • sergioraposo

          4 de janeiro de 2015 at 15:07

          Pedro, obrigado pelo seu comentário. Gostaria de saber se está sua afirmação é baseada em observação ou se você mediu o consumo mesmo. Você mediu?

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