Você topa tudo por dinheiro?

Por em 22 de março de 2015

NOTÍCIAS DO FRONT

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

 (Edição #157, de 22 a 28/MAR/15)

 

Companheiros de lida,

Novamente, nesta semana estivemos no “pó da viagem”, ou mais precisamente no “barro da viagem”, pois choveu bem nas principais praças pecuárias do País (a enchente de São José não falha mesmo, graças à Deus). E a nossa andança, juntamente com a equipe FAEG foi no chão goiano molhado… ao todo mais 1.500 km e aproximadamente 800 ouvintes nas quatro praças pecuárias visitadas (Caipônia, Mineiros, Itarumã e Ipameri).

Você se lembra do Silvio Santos com o programa “Topa Tudo por Dinheiro”? O mercado futuro deu uma nova arrancada esta semana, renovando máximas para os “meses-base” da safra (maio) e da entressafra (outubro). E você, tomou alguma medida com relação à venda da sua produção (ou de parte), em função disto? Ou você “topa tudo por dinheiro”?

Esta semana conversei com vários pecuaristas, mas um deles me chamou a atenção e o que ele me ensinou tem tudo a ver com o programa do Silvio Santos.

 

1)      COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Nossa baliza, o indicador, partiu na semana passada de R$ 145,29/@ (intervalo de preços de R$ 143,50 a R$ 147) e chegamos em R$ 145,55/@ (intervalo de preços de R$ 144,50 a R$ 146,50), chegando a mais uma semana de alta (a 2ª seguida). Na nossa métrica, esta alta numérica foi na verdade “estabilidade” (variação menor que R$ 0,75/@ na semana).

Não são descartadas novas “puxadas para cima” nas referências de preços, pois a oferta reduzida de boiadas potencializa isto. Porém, as margens da indústria não dão fôlego para aumentos de preços. E esta “peleja” segue como tendência macro de curto prazo, à meses, por sinal.

A última sexta (20/março) fechou com intervalo de preços no físico paulista de R$ 145 a R$ 148 av, tendo sido observado pela primeira vez na história o boi de R$ 150/@ av na quinta-feira.

Nada de alteração quanto às escalas de SP, que seguem em geral entre a próxima quarta e a sexta, mantendo o “DIA D” na QUINTA (dia 26) e o PLACAR médio em 3 dias úteis (entre o dia do acordo da venda e o do abate). O STATUS DO BEEFRADAR segue:

35% queda (leve) : 40% estabilidade : 25% para alta (leve)

 

2)      E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Da mesma forma que SP, a referência de preços subiu, aqui até mais que lá, sendo o atual preço balcão mais comum o R$ 138av x R$ 140ap, com bônus EU de até +R$2/@.

Quanto às escalas, em geral estão entre a próxima quinta (dia 26) e a outra segunda (30), portanto, levemente melhores que SP, mas sem volume de oferta grande. Houve, entretanto, negociações de lotes grandes que alavancaram as escalas de algumas empresas de maneira consistente, ainda que os lotes grandes sejam poucos no mercado em geral.

O diferencial da base com SP, sinaliza que a fase mais aberta “já deu” e diminuiu, marcando a média semanal de – R$ 8,50/@, rompendo o suporte forte de –R$9/@ . A arroba de fêmea atingiu a média da semana de 7,14% de deságio frente ao macho, rompendo também a resistência dos -7% pela primeira vez, configurando o movimento normal para esta época do ano e sinalizando que realmente será um ano de pouco abate de fêmeas.

 

3)      HORA DO QUILO: a evolução do mundo ocorrendo aqui e agora, diante dos nossos olhos: http://www.tecmundo.com.br/carro/59004-primeiros-carros-voadores-devem-chegar-mercado-2016.htm

 

4)      TO BEEF OR NOT TO BEEF: Crise? Que crise? Ela não chegou ainda aos donos de touros de rodeio, que são comercializados a preços recordes: http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/felipe-patury/noticia/2015/03/touros-usados-em-rodeios-sao-bvendidos-precos-recordesb.html

 

5)      O LADO “B” DO BOI:

 

5.1.) RAPIDINHAS DO BOI

> Os dados do IBGE, finalmente: saíram os dados de abate do IBGE referentes ao 4º trimestre de 2014 e o consolidado do ano aponta para uma leve redução no abate global de animais de 2014 (-1.5%) e também na produção de carcaças (-1,3%). Esta leve queda na produção já era prevista em nossos radares e joga por terra aquela frase que foi muito dita no ano passado: “não está tendo boi”… Portanto em 2014: foi falta de boi ou demanda (interna e externa) acima da oferta, que estava estagnada pela primeira vez em quatro anos? O que também houve com certeza em 2014 foi uma leve queda da oferta de fêmeas ao abate (pela primeira vez em três anos). Os dois fatos listados acima (queda global do abate de animais e queda do abate de fêmeas) também são esperados para este ano, mas em percentual muito maior que no ano passado. E isto ascende uma outra questão para 2015: falta de boi ou excesso de abatedouros, ou ainda ambos juntos? Tem indústria grande com abate de apenas 50% da capacidade instalada atualmente… Talvez em 2015 haja os dois fatores no mercado, daí a sustentação enorme dos preços, em que pese a pressão na ponta da demanda (pressão esta que não havia em 2014) ser também muito grande.

> Quebra de recordes, mais uma semana dourada: nesta semana, houve recordes de preços de reposição e do boi gordo. Na terça o indicador bezerro (MS) bateu pela primeira vez acima dos R$ 1.400,00/cab, ou R$ 7,123/kg de peso vivo. Na sexta foi a vez do bezerro da praça de Goiânia (levantamento ESALQ) bater a resistência dos R$ 1.300/cab, valor jamais alcançado. E na quinta, o boi gordo não deixou por menos, rompendo o recorde nominal de nov/2014 (que era de R$ 145,48/@, av). O boi atingiu R$ 146,22/@ justamente no dia de São José (19/março).

> Exportação: a medida que o mês de março avança, crescem as preocupações com o volume exportado do ano de 2015. O mês de março ensaia uma recuperação dos embarques, pois as prévias apontam para uma menor queda no comparativo 2015 x 2014 do que a ocorrida no primeiro bimestre (ou até em linha com o ano passado), mas ainda é um valor muito abaixo da previsão do ano (aumento de aproximadamente 10% dos embarques). Olho atento. Falando nisto, a tão propagada alta do dólar não foi capturada em termos de melhora de resultado econômico pelos frigoríficos brasileiros, segundo o informativo World Beef Report que saiu nesta semana. Segue notícia que corrobora isto: http://www.feedfood.com.br/margem-do-frigorifico-diminuiu-306-em-um-ano/ . É fato que a disparada do dólar deixa a exportação mais atrativa, mas o preço do boi continua subindo, bem como os custos. E o dólar em R$ 4, deixará nosso consumidor “de 4”, pelo aumento da inflação, o que diminuirá o nosso poder de compra do mercado interno (que consome 80% de nossa produção).

> Uma prova cabal: no texto da semana passada o tema central era o “artigo de luxo” que o boi gordo de pasto virou nesta safra (retenção de bois + tendência ao “safrismo”). Enfocamos os porquês que desencorajam a venda de boi agora… Eles são: os pastos estão em potência máxima de produção, os preços estão firmes/subindo (em plena safra), a relação de troca com gado de reposição está nos piores níveis das décadas recentes, a relação de troca com pacote tecnológico (notadamente nutrição) continua bem interessante e os custos estão subindo. Estes cinco fatores nos chamam a atenção e escutamos de vários pecuaristas nas duas últimas semanas que eles estão deixando boiadas gordas para “vender mais para frente”. Uma prova cabal disto: o abate de gado do MT, em fevereiro/15, foi 26,17% menor que janeiro/15 (dados do IMEA, mostrando que o abate foi o menor desde nov/2010, mês do nosso antigo recorde histórico da arroba). Não caiu uma bomba atômica na pecuária do MT que justifique isto. Para mim e o Ricardo Heise, o dado é uma prova cabal da retenção de animais, por mais que o ano seja muito provavelmente de oferta enxuta de “fora a fora”.

> Uma prova cabal (2): a tendência ao safrismo e aumento de oferta de confinamento: Assocon informa aumento de 7.7% de intenção de confinamento para este ano. O número é corroborado por vários analistas, com previsões que variam de 5 a 10% de aumento. Para mim, o primeiro giro será com certeza muito maior que o ano passado, mas o segundo giro, eu ainda não dou como martelo batido… Acho ainda muito cedo. Mas acredito ser mais provável um aumento mesmo, pela relação de troca favorável com a nutrição.

> Crescendo igual a rabo de égua de viúva: a popularidade da nossa Presidente. Cerca de 86% das pessoas consideram o governo federal regular, ruim ou péssimo… Dá para governar assim?

 

5.2.) TOPA TUDO POR DINHEIRO

Esta semana conversei com um pecuarista de aproximadamente 55 anos, que era office-boy aos 16 anos, e que começou a trabalhar desde cedo. Foi empregado assalariado e depois de alguns anos, propôs ao antigo patrão ser remunerado pelo resultado financeiro do negócio que militava e não por um salário. Isto o fez dar um salto na vida e poder virar empreendedor rural. Ele quebrou uma vez, quando o sucesso subiu na sua cabeça. Hoje, após 38 anos de batalha, ele tem 2 propriedades rurais no sudoeste goiano, um dos melhores bezerros desmamados de Goiás e acaba de comemorar a formatura de duas filhas como médicas. É um homem realizado.

Fiz duas perguntas à ele, após uma longa conversa. Veja:

* O que o Sr. não abriria mão de fazer ou de ter, se tivesse que percorrer novamente o mesmo caminho? Resp.: “eu não abriria mão de ter a mesma honestidade que sempre tive. Com isto, consegui comprar tudo a prazo e sempre trabalhei com o dinheiro dos outros. A melhor coisa do mundo é ter crédito na praça”.

* O que o Sr. faz comercialmente na venda dos seus animais que o coloca sempre no mais alto patamar de preços da região? Resp.: “quando se comercializa algo, tem que ser resolver duas coisas na negociação: o preço e a mercadoria. Eu só vendo coisa de primeiríssima qualidade, servindo da melhor forma possível o cliente, pois agindo assim, eu só preciso resolver uma coisa com o comprador dos meus bezerros: o preço. Desta forma, metade do caminho para se fazer uma boa negociação já foi resolvido. Quando entro numa negociação, posso discutir o preço à vontade, mas jamais a mercadoria. Isto facilita em mais de 50% o meu trabalho de venda”.

Este homem não topa tudo por dinheiro. Em hipótese alguma abre mão de usa honestidade ilibada. Ela vale mais do que qualquer coisa. Ele é um exemplo para os políticos do Brasil. E para nós, comercialmente falando. Que lição simples e fantástica ele nos proporcionou. Faça as suas reflexões.

Finalizo fazendo-te a mesma pergunta. Você topa tudo por dinheiro? Este era o jogo da TV que mais retratava gestão de risco. Como está a sua? Você faz gestão de risco? Esta semana a BMF deu muita oportunidade, como aliás vem dando. Preços remuneradores para a safra e entressafra (maio aproximadamente R$ 148/@ e outubro a R$ R$ 157/@, base SP).

Nós continuamos a vender, em conta-gotas, aproveitando os preços, fazendo média para cima. Ou então seguimos comprando puts, pois não topo tudo por dinheiro. Não topo arriscar meu lucro por um dinheiro que não sei se vem. Esta turma aí da capa da DBO também não. Vale a pena dar uma conferida.

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Tenha uma ótima semana, produtiva e com equilíbrio entre corpo, mente, espírito, trabalho e família.

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis)

&

 Ricardo Heise (@boi_invest),

 

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS EM 2015: boicom20@gmail.com

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4 Comments

  1. Márcio Braga de Resende

    22 de março de 2015 at 21:01

    Boa tarde Rodrigo, eu estava na sua palestra pela FAEG em Ipameri dia 20/03,tive que sair após a palestra para voltar a Cristalina . Gostaria de ter deixado o número de meu tel. pois você disse de alguém que quer comprar fêmeas meio sangue angus, eu gostaria de ter o tel da pessoa pois dentro de poucos meses vai ter desmama.Se possível passa o meu tel 061-9983-6650/ ou 061-3612-1923 em horário comercial.Obrigado e parabéns pela excelente palestra Márcio Braga.

    • Rodrigo Albuquerque

      5 de abril de 2015 at 2:55

      Opa, Márcio, muito obrigado,

      desculpe pela demora em responder. Vou repassar as informações para ele.

      Grato,
      Rodrigo

  2. Paulo

    23 de março de 2015 at 9:57

    Rodrigo, bom dia !
    Tudo bem ?

    Parabéns pelos textos, ferramentas e opiniões que nos ajudam muito toda semana.
    Gostaria de falar sobre mercado externo.
    Moedas de países que importam carne brasileira perderam muito valor em relação ao dólar. Carne brasileira se tornou muito cara (pois dólar se valorizou muito em relação às outras moedas) e muitos importadores estão fora do mercado. Esses importadores estão buscando alternativas, isto é, importando de outros fornecedores, estão também “deixando” de lado a carne importada para trabalharem com carne local enquanto preços não se encaixam na realidade do mercado. Momento é muito complicado para frigorífico brasileiro e também para importadores russos, árabes, asiáticos e europeus. Acredito que esse ajuste à nova realidade levará um certo tempo. Não acredito que importadores voltarão a comprar volumes consideráveis no curto prazo.
    Russos e árabes (compradores de grandes volumes, principalmente de dianteiro) compram carne para indústria e nesse momento complicado o preço conta muito. Ninguém trabalha para “perder” dinheiro.

    Abraço e ótima semana !

    • Rodrigo Albuquerque

      5 de abril de 2015 at 2:58

      Concordo com praticamente tudo o que disse!

      Abs, Rodrigo

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