“Vamos primeiro abater a caça, depois a gente briga pelo filé”

Por em 29 de agosto de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #231, de 28/ago a 03/set/16)

 

Companheiros que carregam o pó da viagem,

Meu professor de oratória, o Prof. Dr. João Palermo Neto da Veterinária da USP, dizia que 70% do que “fica” para o ouvinte em uma palestra, não são as palavras, mas sim gestos, entonação, imagens, etc. Isto é bem verdade, temos aprendido na prática, ao longo das palestras que fazemos por aí. Mas algumas frases (as exceções) são tão marcantes que a gente nunca mais esquece. Um exemplo é a frase que dá o título a este exemplar do Notícias do Front (NF2R). Ela foi dita pelo brilhante Osler Desouzart há um tempo atrás, numa de suas apresentações, aqui em GO.

O atual cenário da pecuária é o retrato fiel desta frase, pois justamente o “sumiço” da caça (consumidor) é que está pressionando toda a cadeia, ou locomotiva, como temos o costume de dizer. No decorrer da semana recém-encerrada mais dois fatos chamaram a atenção e ambos têm tudo a ver com o assunto “coletividade”. Olhemos mais de perto!

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

O movimento iniciado na última semana ganhou força, ou seja: tivemos novamente uma semana com pressão leve no físico, mas com valorização dos fechamentos dos futuros na BMF. O indicador Esalq/BMF partiu de R$ 150,02/@ a vista (variando de R$ 147 a R$ 155,50) e fechou a semana em R$ 149,51/@ a vista (variando de R$ 147,50 a R$ 151,75). Desta forma, completamos a sexta semana de baixa, recorde de 2013 para cá! Outro fato repetido foram as discussões sobre o indicador, mas ressaltamos que desta vez a conversa foi bem produtiva. Falaremos adiante.

“Estabilidade” é o cenário predominante no físico, que tem em SP, portanto, o mesmo intervalo de negociação da semana anterior (negócios entre R$ 148 a R$ 150/@ a vista para o boi comum e até R$ 152/@ a vista para o boi EU). Perdemos R$ 1/@ de máxima, apenas. Pelas bandas do Mato Grosso do Sul, o cenário vai apertando demais, com escalas ”imediatas” de modo que preços de R$ 142/@ a prazo, ou R$ 140/@ a vista, são observados com muita frequência.

Na mesma toada dos preços, em SP, as escalas apontam para uma estabilidade mas agora enfraquecida (cheirando a reajuste na @). A maioria dos frigoríficos está com uma semana de agendamento de bois, graças ao ajuste de produção, mas já aparecem unidades bem mais apertadas, ainda para “dentro da semana”. Mantemos o dia “D” na segunda (05/set), com placar de 5 dias úteis. No “frigir dos ovos”, nada a ser alterado quanto ao status do beefradar:

20% de queda | 50% de estabilidade | 30% de alta

 

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Como me disse um comprador de boi gordo, amigo meu: “tudo parado feito água de cisterna tampada”. As indústrias grandes seguem com o preço balcão de R$ 137/@ a prazo (com prêmio EU de R$ 0/@ até R$ 2/@ e “personnalité” de no máximo R$ 1/@). Os frigoríficos menores chegam a ofertar R$ 138/@ a vista pois a mercadoria “boi gordo” está em falta! Via de regra, a oferta é crítica nestes preços e a compra é quase ZERO, mas as indústrias se mantém reticentes em pagar mais pela arroba, indiferentes à iminente e vertiginosa queda do volume de animais confinados no estado.

Um detalhe: a oferta está crítica, como dito acima em termos gerais, porém está mais crítica ainda para os bois comuns, já que o gado EU/Hilton segue desvalorizado por algumas empresas, notadamente as que tem mais bois de contrato/engorda confinada (onde o ágio é nulo para estes animais). Desta sorte, bois comuns tem escala para encaixes a partir da próxima terça, enquanto que os demais têm escala de uma semana pronta (às vezes até “folgada”).

O diferencial de base, segue o pouso suave e mantém a média semanal de -R$ 12,2/@. Depois de muitas semanas, o deságio da @ da vaca goiana ficou com a média semanal inferior a 4%, o que é natural, afinal de contas, entramos na fase mais crítica do ano desta métrica.

 

3) HORA DO QUILO: “Ache um mercado em que a premissa é falsa e aposte contra” (George Soros)

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: semanas atrás, elogiamos aqui a “Academia da Carne” do Friboi. Desta vez, o elogio da atitude vai para o Minerva, que enviou um e-mail para seus fornecedores com a seguinte mensagem: “O período de carência é o intervalo de tempo entre a última aplicação do produto veterinário e o abate do animal tratado. O respeito a esse tempo garante a ausência de resíduos de produtos veterinários em níveis acima dos permitidos, o que poderia causar prejuízo à saúde humana. Além desse aspecto relacionado à segurança do alimento, a presença de resíduos pode levar à perda de habilitações para exportação, causando prejuízo financeiro à indústria e aos produtores. É de extrema importância, portanto, realizar a correta aplicação de Produtos Veterinários, respeitando os períodos de carência. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) disponibiliza uma cartilha com orientações práticas sobre o tema. Para o controle de administração dos medicamentos, sugerimos aos nossos fornecedores o uso de uma planilha”. O e-mail disponibilizava links para download de ambos materiais. A iniciativa revela grande compromisso para com a cadeia! Contatos, para os interessados podem ser feitos pelo e-mail:pecuarista@minervafoods.com


5) BOITOGRAFIAS DA SEMANA (DA ESQUERDA PARA A DIREITA):

* Leilão de nossa amiga Clélia Pacheco, de Bonsmara, da Fazenda Santa Silvéria;

* Nota oficial importante no tocante aos conflitos fundiários no Mato Grosso do Sul;

* Inauguração da sede da Nova Assocon em SP, ao centro Marcio Caparroz;

* Painel de marcas de gado dos pecuaristas na sede da Nova Assocon. Muito bacana!

 

6) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO (os sinais importantes do Sr. Mercado):

* Converse com corretores de gado de reposição e com técnicos de assistência ao abate (o famoso “assistidô de peso”) e verá, respectivamente, a magnitude da falta de liquidez do mercado de reposição e do ajuste de produção (redução do abate) em curso;

* Falamos em seca nesta edição, no exemplar passado. Ela começa a afetar também a indústria. Veja o link: http://economia.estadao.com.br/noticias/negocios,dona-da-friboi-pode-parar-operacoes-em-mt-por-falta-dagua,10000071333

* inacreditável o que está descrito nesta matéria, relacionada à exportação, mas infelizmente é verdade. O grau da falta de gestão do governo anterior era impensável. Veja: http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/economia/negocios/brasil-nao-pode-exportar-carne-para-tailandia-pois-esta-ha-cinco-anos-sem-preencher-um-formulario/

 

7) O LADO “B” DO BOI: vamos primeiro abater a caça…

Antes de mais nada, para saciar a nossa sede de “mercado”, consolidamos cada vez mais a sensação de que a pressão de baixa da arroba tem tudo para estar no seu curso final. O que nos indica é análise sobre a situação dos elos da cadeia, cada um resumido abaixo em poucas linhas:

*atacado da carne bovina em recuperação: dentro do mês de agosto, a recuperação foi de 5%, ao passo que a arroba caiu 2,62%. O resultado foi uma melhora consistente da margem dos frigoríficos, apesar de que o nível anda é baixo historicamente (a margem atual, medida pelo indicador “Margem Equivalente Carcaça” da Scot Consultoria, está hoje 48% menor que há um ano atrás). Devido a isto, os frigoríficos ainda relutam em voltar a pagar mais pela arroba, mesmo com margens crescentes;

*ajuste de produção em curso: só para se ter ideia da magnitude do ajuste em SP, veja o dado que me foi passado por uma fonte de dentro da indústria: o estado de SP, habitualmente é o segundo em volume de animais abatidos, mas na parcial de agosto, encontra-se em 7º no ranking de abates. Mesmo com a enorme quantidade de animais que foram levados para serem terminados dentro do estado de SP em função do diferencial de base elevado das praças (animais oriundos de Rondônia, Minas Gerais, Goiás, etc) o abate caiu, sendo este o real motivo da pressão de baixa no indicador. O problema é que a oferta começa a dar sinais de ter entrado em um nível crítico, principalmente nas praças fora de SP, o que deve refletir no estado no seu devido tempo. Ofertas aos pecuaristas abaixo das referências, travam o mercado;

*reposição segue pressionada: sem muito horizonte de melhora no curto prazo, afinal de contas a seca em pleno curso (exceção ao MS) e o momento da arroba, assustam os compradores, de modo que mesmo com a queda nos preços, o mercado ainda se encontra retraído. Para nós, entendemos como uma janela de compras, para quem pode fazê-las;

*exportação segue decepcionando: na parcial de agosto, temos queda de 10% na avaliação YoY, mas em compensação, uma boa notícia: preços em recuperação de cerca de 7%. De toda a forma, os atuais números representam uma barreira importante ao preço do mercado interno da arroba, por dificultar o escoamento da carne;

*carnes alternativas seguem recuperando preço: aqui um fato bem positivo, pois a carne vermelha tem ganhado competitividade frente ao suíno e ao frango. Na avaliação YoY, a variação foi de +18% e de +17%, respectivamente, nos preços dos concorrentes.

*mercado futuro em recuperação: normalmente, ele antecipa a tendência do físico. E a recuperação sustentada, embora ainda em intensidade leve, de duas semanas para cá, mesmo com o físico “de lado”, mostra que podemos ter uma forte retomada na bolsa, caso o mercado físico vá no caminho da recuperação de preços.

O que vemos, consolidando as frases acima, é que a pressão da arroba, ou melhor, a pressão na pecuária, está vindo do consumidor, da demanda, que após anos, assumiu o controle, mesmo que tenhamos uma oferta crítica e potencialmente explosiva de preços. Por isto, nada vem mais a calhar que a frase que dá o título a este NF2R.

Outro exemplo de que temos que pensar prioritariamente no coletivo, antes de pensar no “umbigo” do elo ao qual pertencemos, é o indicador de preços Esalq/BMF. Veja o exemplo dos EUA: lá eles também estão com problemas no indicador do mercado físico, mas a questão lá é que não há negociações em volume grande no mercado físico (as negociações no spot praticamente deixaram de existir) e consequentemente, há fraca sinalização da tendência de preços ao mercado futuro. O excesso de negociações em bolsa, complica o próprio mercado futuro. Veja mais no link:

http://br.wsj.com/articles/SB12325060321282123625004582260101261023244?tesla=y

Enquanto isto, no Brasil, temos a esmagadora maioria das negociações no spot, não lastreadas em bolsa, mas os dois negociadores não informam seus preços ao CEPEA: os pecuaristas informam muito pouco e dos três maiores frigoríficos, apenas um informa 100% de suas negociações. A consequência é a mesma que nos EUA: falta consistência ao indicador de preços de mercado físico e, ao final, todos perdem… Que tal, começarmos a pensar coletivamente e antes de defender o filé, começarmos a pensar em como podemos derrubar a caça em conjunto? Obs.: em tempo, se você tem sugestões sobre o indicador, mande para o CEPEA, pois ele está atento a todas elas. Temos que criticar, quando achamos necessário, mas também contribuir para melhorias, além de elogiar o que tem sido melhorado, como o aplicativo CEPEA Boi!

Neste mesmo sentido, nesta última semana surgiu em SP, o lançamento da Nova Assocon, que está se propondo, inspirada na NCBA, a ser a “porta-voz” da nossa cadeia. Tivemos o prazer de estarmos presentes na cerimônia, onde ficou claro que o objetivo da entidade para a ser o de congregar a cadeia, com todos os seus elos e Instituições já existentes. Os pilares desta nova Associação são a transparência, a defesa dos interesses da cadeia pecuária, a integração da cadeia produtiva, a representatividade, a criação de valor e a inteligência de mercado. Atitude muito bem-vinda, e que poderá ser mais bem avaliada por todos nós no Interconf, simpósio em setembro, organizado pela entidade (http://www.interconf.org.br/).

A empreita da “Nova Assocon” veio muito a calhar… Em pouco tempo, teremos que nos posicionar sobre o consumo de carne prime americana com tecnologias que não usamos aqui. Cada vez mais urge a necessidade de nos posicionarmos sobre a questão destas tecnologias, castração, classificação de carcaças, continuidade da produção de carne commodity, dentre outros. Todos estes assuntos têm como “pano de fundo”, a produção de carne de qualidade, ou seja, o pleno atendimento da expectativa do nosso consumidor, fato que tangencia o que chamamos de “caça” no título deste.

Uma boa sugestão para esta nova entidade seria adequar o nome para um outro que traduza verdadeiramente a tese de que “nenhum de nós é tão forte quanto todos nós juntos”! Até a próxima semana, se Deus nos permitir!

 

Rodrigo Albuquerque (boicom20@gmail.com) &

 Ricardo Heise (r.heise@hotmail.com),

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS:

boicom20@gmail.com

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