“Um é muito; dois é péssimo; três é inviável”

Por em 11 de abril de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

 (Edição NF2R #211, de 10 a 16/abril/16)

 

Aos que carregam o pó da viagem,

Quem engorda o bovino tinha tomado uma “paulada” no final de 2014/2015. Em dezembro do ano passado tomou a segunda e agora, a terceira. O que será da margem operacional dos invernistas?

Nos estudos de viabilidade produtiva e econômica que temos feito, ainda existem boas possibilidades de termos margens positivas na engorda em 2016, mas muito menores que as dos últimos dois anos. Para sair desta “sinuca de bico”, tem que ser cavaleiro (gestor) dos bons.

Vamos ver quais foram estas três “pauladas” a seguir… E o pior… parece que a quarta “einvéim”… Calma, não fique assustado “igual a véia em canoa”. Prefira o esclarecimento dos números. Vamos a eles!

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Quanto ao indicador, tivemos mais uma semana de alta em SP: partimos de R$ 157,99/@ a vista (variando de R$ 155,75 a R$ 160) e alcançamos R$ 158,84/@ a vista (variando de R$ 156,75 a R$ 160) na última sexta. De quebra, novamente renovamos o recorde nominal da história da nossa arroba na segunda-feira passada (R$ 159,49/@ a vista).

Entretanto, terminamos a semana com uma sensação não muito positiva. Detectamos em nosso BeefRadar o intervalo de preços de R$ 155 a R$ 158/@ a vista no final da sexta, sendo que o boi da “nota redonda” raleou bem e o “fantasma da pressão de baixa” voltou a nos rondar.

Este movimento, ainda não foi escancarado no indicador, mas as escalas mais folgadas nos dão o sinal amarelo, potencializado pela falta de chuvas (a qual deixa o pecuarista menos “valente”).

Mesmo com ofertas levemente reduzidas, são reportadas compras em volume bom (a melhora nas compras já havia sido reportada aqui na semana passada). O placar das escalas subiu para 4,5d úteis (Haitong) e o DIA D” evoluiu para sexta, variando entre a próxima quinta (dia 14) e terça (dia 19). Cuidado… Quando o agendamento encontrar o feriado do dia 21, as escalas vão alongar artificialmente e apesar disto, é comum este fato causar rearranjo de preços (tomara que não ocorra desta vez). O STATUS DO BEEFRADAR muda consistentemente:

45% queda : 45% estabilidade : 10% alta

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Enquanto SP apenas “sentia” uma possibilidade de queda, em GO, o “trem” era fato durante meados da semana passada. As ofertas de compra se alinharam na banda de baixo dos negócios que ocorriam até então. O balcão marca agora R$ 140 a R$ 142/@ a prazo para o boi comum, com ágio EU de R$ 2 a 3/@ e personnalité escasso.

As escalas mudaram mais radicalmente que os preços, estando agora entre os dias 25 a 29/abril (tem frigorífico quase fechando o mês). É possível algum “buraco” e não se deve esquecer do feriado do dia 21/abril, mas é inegável reconhecer que houve um aumento abrupto de magnitude inesperada. Com isto, o diferencial de base potencialmente ganha fôlego para aumentar mais um pouco (está em R$ 16/@) ou pelo menos se consolidar neste nível recorde, quase o dobro da média do ano passado. Por ora, tudo na mesma quanto ao deságio de fêmeas (entre 4.5 a 5%).

3) HORA DO QUILO: um resumo do trabalho espetacular feito pelo nosso amigo Mateus Arantes: http://www.portaldbo.com.br/Revista-DBO/Noticias/Sistema-Sao-Mateus-25-de-carne-e-62-sacas-de-soja-ha-ano/16043

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: o contrafilé é um dos campeões de alta acumulada de preços do plano real para cá, com 710%, você sabia? Estamos passando por um fenômeno de preços, onde a comida fresca está encarecendo mais rapidamente que os alimentos industrializados. Veja em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/04/1757109-comida-fresca-encarece-mais-rapido-e-empobrece-alimentacao.shtml

 

5) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO

 

5.1) A (possível) volta dos que (ainda) não foram, o ICMS: o benefício do ICMS foi até a sala de embarque para partir em definitivo, mas parece que não vai “viajar” por completo… Pelo visto, tem tudo para ocorrer o nosso palpite dito aqui no último NF2R: “o benefício será mantido, porém com menor amplitude”. Parece que o governo quer liberar o benefício apenas parcialmente (metade), mas as conversas ainda estão ocorrendo, como me confirmou uma fonte da indústria neste final de semana. O setor ainda não se deu por vencido com a proposta. Portanto, o diferencial de base das praças pecuárias, atualmente nas suas máximas históricas (quase o dobro de um ano atrás), continua tendo a pressão da menor recuperação do benefício sobre o imposto…

5.2) O milho dando alerta de “stall”: na semana passada falamos em desafio de clima. Vimos isto na prática, percorrendo esta semana o sudoeste do estado de GO. Há várias lavouras em situação crítica pois a chuva se mantém afastada há praticamente duas semanas. O outono de 2016 vai se mostrando completamente diferente dos anos anteriores… Comentários de geadas começam a aparecer mais fortemente nas previsões e nas conversas dos agropecuaristas. Isto se traduz numa péssima notícia para a safrinha do milho e consequentemente para o confinamento. Em outras palavras: sinal baixista para o boi no final da safra de pasto e altista para a entressafra.

5.3) Dolar em “Soft landing” (“pouso manteiga”)? O dólar terminou a semana cotado a R$ 3,597. Olho atento, pois a sua variação, altamente exposta ao cenário econômico-político incerto, é outro fator que terá profundo impacto no preço do milho (e consequentemente também do boi) até o final do ano. O mercado não está para iniciantes… Apertem os cintos, pois ninguém sabe ao certo como estará o dólar no final do ano, muito menos o caminho que ele percorrerá até lá. Ninguém!

5.4) Bezerro em “Soft landing”? Sim, este podemos afirmar que está sim! Quando olhamos a média do ágio da @ de bezerros frente o boi gordo referente à 2015 e comparamos com 2016, a conclusão realmente é o “pouso suave”. Entre o mês de janeiro até início de abril de 2015, o ágio do bezerro em GO foi de 46,5%. Neste mesmo período de 2016, foi de 44,5%. Pela primeira vez desde 2013 estamos vendo o ágio do bezerro cair, suavemente, num verdadeiro “pouso manteiga”, como dizem os pilotos de avião ao realizarem um pouso de aeronave sem o menor dos solavancos. Mais importante que a mínima variação numérica é o que vemos no mercado: produtores estão “sem fome” de repor o bezerro após vender a boiada gorda ou então após vender a garrotada recriada. Um relato do início da semana do Ricardo Nicolau retrata um leilão com este mesmo enredo: “destaque foi para os garrotes e bois erados bem disputado por terminadores fortes do MT, mas num mercado mais “pé no chão”! Boa parte dos vendedores respeitaram o mercado e entregaram por menos que a expectativa!
Sinto que a reposição (bezerros/as) está entrando suavemente numa curva descendente…
Um bezerro de 180/200kg valer 10@ de boi significa pico da categoria e já estamos a um ano nestes patamares” (ver mais no link: ricardonicolauleiloes.com.br).

5.5) A alta do boi em “Soft landing”? Sim, também podemos afirmar que está! No início do ano a maioria dos analistas, inclusos neste time o “2R” que vos fala, previa que o boi continuaria em alta em 2016, mas uma alta mais amena. Findo o primeiro trimestre, os números sinalizam exatamente nesta direção: frente ao mesmo período do ano passado, o boi em 2016 subiu 6.37%, base Indicador Esalq/BMF. Uma alta um pouco abaixo da inflação e muito menos pujante do que a vista em 2014 e 2015, quando o boi subiu 23% e 15%, respectivamente. Isto é uma notícia ruim? Para nós não! Poderia ser bem pior se não fosse a fase atual do ciclo pecuário (retenção de fêmeas) e a exportação de 2016.

 

6) “UM É MUITO; DOIS É PÉSSIMO; TRÊS É INVIÁVEL”

No NF2R #210 (última semana) deixamos a pergunta inquietante para você: “a trajetória da arroba no segundo trimestre de 2016 será a mesma do ano passado”? E falamos: “entre abril e junho não imaginamos ver uma enxurrada de animais ao abate, mas não temos dúvida de que deveremos ter um aumento de oferta e consequentemente dos abates”. Citei também que isto nos preocupava, porque num “ambiente justo, um aumento na produção de carcaças pode reduzir o preço do atacado, o que potencialmente tem forte impacto no preço do gado físico”. Ressaltamos também que tínhamos “observado uma leve melhoria na escala, mas nada ainda consistente”. Hum… O mercado está recebendo uma nova trucada?

Apesar de estar no nosso radar, este aumento de escala repentino e de magnitude importante, surpreendeu o mercado na última semana. Todo o cenário descrito no NF2R #210 para o segundo trimestre pode estar mesmo se desenhando, potencializado pela chuva “sumida”.

Além disto, nesta semana também ganhou força o fator baixista anunciado acima: o atacado frouxo, um movimento que se iniciou muito timidamente no início de abril. Hum… Equivalente físico em queda e arroba em alta (vários recordes nominais históricos da arroba ocorreram entre 01 e 15/abril) é a pior combinação para a indústria e tem precedido atitudes fortes na precificação balcão, o que agora está alicerçado pelo aumento das escalas… O quadro está montado. Tomara que estejamos errados.

Sobre o aumento de escalas: ele ocorreu fortemente nas praças pecuárias, encabeçado inicialmente por GO, seguido do MT, MS e MG, principalmente. Em SP também ocorreu, mas com menor intensidade. Por lá, as ofertas estão ainda heterogêneas e os preços balcão também, mas já diminuiu a frequência de negócios na banda de cima do intervalo de negociações vigente há uma semana atrás. Quem lida com a BMF diz que “todo mundo quer vender na bolsa agora”.

A nossa intuição (2R), já anunciada aqui, reforça-se. Ela nos diz que o mercado tem a tendência de seguir mais frouxo até junho (resta saber o quanto intensa será esta possível “frouxidão”). E, já que é para “treinar” a futurologia, imaginamos que um provável cenário seja de termos entre julho e agosto, uma inversão forte nesta direção, pois o ingresso de animais no confinamento está sendo muito postergado. Um hiato entre a safra de pasto e o confinamento à vista…

Neste sentido, talvez o mês de setembro surpreenda com relação à oferta grande de bois terminados em cocho e outubro/novembro/dezembro também, porém nestes três últimos, talvez a surpresa seja de baixa saída de animais gordos via confinamento. Será que isto vai ocorrer mesmo? Resp: eu não tenho a mínima certeza! Mas, a nossa estratégia comercial está desenhada justamente para contrapor os movimentos de baixa que imaginamos passíveis de ocorrência e que foram citados aqui.

Como está no título deste, quem engorda bois está sofrendo com uma tríade terrível:

*Ágio das arrobas de reposição: desde o final de 2013, aumentou cerca de 130%;

*Milho: nos últimos 12 meses sofreu um aumento de aproximadamente 60%;

*Diferencial de base (nome dado ao deságio da arroba das praças pecuárias com relação ao preço do mercado físico de SP): aumentou 80% de um ano para cá, principalmente nos últimos 90 dias, considerando um levantamento que fizemos da média de algumas praças pecuárias tradicionais de MG, GO, MS e MT;

Olhe que interessante: o ágio impactou a margem da engorda, na entrada dos animais. O milho, por sua vez, impactou o processo de engorda em si. E, finalmente, o diferencial de base agora impacta a venda (de quem tem boi fora de SP). Estas são as três “pauladas“ que atingiram a margem operacional da engorda: uma no início, outra no meio e agora uma no final do processo…

Por isto, a única certeza que eu tenho é que você, mais do que nunca, deverá rever seus custos e (re)definir a sua margem desejada, não deixando de efetivar os negócios que atendam à estas necessidades, na velocidade que melhor convir ao seu gerenciamento de risco… É o que temos feito para o nosso gado.

Afinal de contas, “um foi ruim, dois foi péssimo e três nos tornou inviáveis”. Até a próxima, se Deus quiser e nos permitir!

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) &

 Ricardo Heise (@boi_invest),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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