“Tá tudo caro e ninguém tá ganhando dinheiro”

Por em 9 de maio de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #215, de 08 a 14/maio/16)

Aos que carregam o pó da viagem,

Será que uma onda avassaladora de pessimismo invadiu o mundo pecuário impiedosamente, sem deixar nenhuma mísera fresta para a luz do otimismo? Seria a contaminação de nossas mentes pelo “mar de lama” que vivemos no ambiente político-econômico dos últimos meses? Eu não sei ao certo, mas a frase que dá o título a este NF2R, a qual escutamos de um sujeito que trabalha na compra de bois de um frigorífico, define com muita propriedade o momento em que estamos vivendo na pecuária…

Falando em caro… E o milho, “hein”? Como diz o Ricardo Heise, “o milho virou cerveja em navio, pode pedir caro que o comprador não tem opção”. Mas o problema agora nem é mais o preço… O problema agora é que o estoque da “cerveja” está acabando… Vamos aos fatos e números da semana!

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Esta, que iniciamos, e a próxima semana serão decisivas para dimensionarmos a “fundura” desta onda de pressão na arroba. Completamos a quarta semana seguida em queda. Desde que o bovino começou a se valorizar nesta fase de alta do ciclo pecuário, do final de 2013 para cá, não tivemos mais do que cinco semanas de pressão. Pois bem: iniciaremos a quinta agora.

A sexta-feira passada se encerrou com o indicador Esalq/BMF em R$ 154,02/@ a vista (variando de R$ 152,50 a R$ 158), portanto, com uma leve queda frente ao valor da sexta retrasada, que havia sido de R$ 154,65/@ a vista (variando de R$ 151,50 a R$ 158).

Na tela do nosso BeefRadar, o físico paulista encerrou a semana entre R$ 151 a R$ 154/@ a vista, o que dá sinais de que o indicador pode cair mais um pouco, pois tanto a mínima, quanto a máxima, citadas, ainda não foram captadas pelo CEPEA.

As escalas seguem relativamente estabilizadas com o DIA D” na segunda-feira (dia 16), variando entre 13 e 17/maio (placar em 4.13d – Referência Haitong). O STATUS DO BEEFRADAR em função do intervalo captado atualmente pelo CEPEA, altera-se levemente para:

50% queda : 40% estabilidade : 10% alta

 

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

O físico do GO segue frouxo, dentro do intervalo de R$ 134 a R$ 135/@ a prazo para o boi comum, com ágio EU adicional de R$ 2 a 3/@ e “personnalité” (sobre preço) de R$ 1/@.

As escalas seguem longas, ainda. Mas, percebe-se claramente que deixaram de fluir folgadamente, não estando mais “com a roda livre” (estão, em sua maioria, entre 16 a 19/maio).

A boa notícia da semana (se é que é boa mesmo) é que o diferencia de base GOxSP parece ter “topado uma laje” e parou de subir (está girando, estabilizado, próximo de R$ 19/@). Da mesma sorte, o deságio para arrobas de vacas, que havia dado sinais que poderia abrir, não quer largar o nível de -5%, o que significa certamente uma consistente retenção de fêmeas em 2016.

 

3) HORA DO QUILO: marque na sua agenda… O Confinar 2016 vem recheado com uma programação singular, o que fará de Campo Grande-MS, a capital da pecuária nacional em maio. Veja no site: http://confinar.net/portal/Modulos/processo/home-principal.html

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: abaixo, veja duas matérias muito interessantes, nos links:

1) A tecnologia da comunicação invade o campo sem volta: http://www.portaldbo.com.br/Revista-DBO/Destaques/Pecuaristas-conectados-pelo-Whatsapp/16154

2) Sobre o Rally da Pecuária, matéria do nosso amigo Antonio Pereira: https://www.youtube.com/watch?v=dsj454Lt2Yk&feature=youtu.be

 

5) BOITOGRAFIAS DA SEMANA:

 

5.1) CARNE VERDE: cada vez mais, este apelo “verde” ronda a carne bovina. Encontrei à venda em Goiânia:

20160508 - Picanha Pantanal

5.2) CARNE RASTREADA: você agora pode saber de qual fazenda veio a carne do seu almoço, foto de Alexandre Scaff Raffi, da Associação do Novilho Precoce do MS:

20160508 - Fraldinha ANP 20160508 - Safetrace 2 20160508 - Safetrace 1

6) O LADO “B” DO BOI – “Tá tudo caro e ninguém tá ganhando dinheiro”

 

Vamos dar um “giro” na cadeia pecuária e ver alguns dos destaques desta semana, que corroboram com o título deste NF2R:

  • Milho: o indicador de preço atingiu o recorde nominal de R$ 50,01/sc à vista, FOB Campinas-SP (maior valor real desde 2007, segundo a Scot Consultoria). Isto derrubou a relação de troca para 3.08 sc de milho/@ de boi gordo (uma perda de quase 50% em relação ao início de junho/2015, quando este índice atingiu 96 sc/@). Resta saber quem vai ter o produto para vender… Já há milho da safrinha que está tendo a sua colheita antecipada, contando com a ajuda de armazéns para secagem e aproveitamento do momento favorável de preços, mas por ora, o “cereal dourado” está com disponibilidade baixíssima, tal como a vacina de H1N1 (há relatos de abatedouros de frangos em início de férias coletivas). Se eu fosse agricultor com milho à venda, eu trataria de ir aproveitando estes preços, sem titubear, pois o pecuarista está atrás do milho igual à galinha de tapera, que “vança até em botão de camisa amarelo”. Não se fala em outra coisa. Porém, na nossa opinião, este é um problema sério, mas não o pior para a pecuária, ao menos agora;
  • Reposição: segue “cada dia com a baliza mais baixa e menos liquidez, compradores tradicionais com pouco (ou nenhum) apetite, já os vendedores mais dispostos a “bambear”. Média de liquidez de 45% (muito inferior a média)”. As palavras de um amigo leiloeiro do MT são bastante claras: reposição cara e ninguém (vendedor, nem comprador) fazendo dinheiro com a mercadoria, como fazia antes;
  • Exportação: a média de volume exportado em abril não obteve os mesmos incrementos na comparação YoY (2016×2015) como no primeiro trimestre. Ao invés de aumentos de aproximadamente 30%, o índice verificado foi de +4%. Os exportadores são mais um elo que não está fazendo o mesmo dinheiro como antes, em função da apreciação do dólar ocorrida nas últimas semanas, mas também em função da volatilidade do câmbio, fator que tem atrapalhado até mais que o seu valor em si;
  • Arroba em queda: para alguns estados, como é o caso de GO, onde o diferencial de base abriu muito na comparação YoY, o mês de abril teve queda de preços nominal e real. A média da @ na praça de Goiânia, na condição a vista, caiu 05% no YoY. Se for para colocar na conta a inflação média de 10%, a perda real já passa, sem dúvida nenhuma, dos dois dígitos. O boi é mais um que está caro, mas que não está permitindo que tenhamos a mesma margem que antes. E olha que nem falamos do incremento de custos, capitaneado pelo milho, que valorizou muito mais que a inflação… A boa notícia é que a BMF sinaliza que de junho em diante, a tendência dos preços da arroba, não será mais de queda, o que está alinhado com as nossas previsões.
  • Os frigoríficos preocupados: a arroba em queda pode nos levar a imaginar que a indústria estaria “tranquila” agora… Entretanto, isto não é verdade, por dois motivos: primeiro que a carne no atacado tem caído mais que a arroba e segundo porque a perspectiva é de escassez de matéria prima, após o final desta revoada de oferta potencializada pelo início de seca precoce e abrupto… E olha que isto não está longe de ocorrer… O atacado é, portanto, mais um elo que embora esteja vendendo com altos preços, também não está conseguindo a mesma margem operacional de outrora. Nem o início de mês, seguido do Dia das Mães (que é a segunda melhor data de venda de carnes) fez o atacado reagir;

Diante deste cenário de preços caros e de margem estreita, ao longo da cadeia pecuária inteira, recomendamos, do ponto de vista dos pecuaristas o seguinte:

  1. Quanto aos bois/vacas já terminados: há uma única saída frente ao momento de pressão do físico, que é a postergação de venda, caso seja factível do ponto de vista produtivo e financeiro (ao menos fazer a venda em conta gotas);
  2. Quanto aos animais de reposição: devem ser ofertadas ao mercado as “primeiras fornadas” da desmama 2016. É fato que os vendedores devem encarar um contexto diferente das últimas vendas, mas elas ainda estarão em valores interessantes, muito embora reduzidos em termos de valores reais;
  3. Quanto aos bois magros (de 11 a 14@ hoje), mas com possibilidade de abate dentro do ano, as seguintes opções existem:
    1. Semi-confinamento (arraçoamento com 1% de ração): este sistema de terminação exige a preparação dos pastos, para que tenham muita massa, notadamente folhas agora. Portanto, na prática, quem não se planejou, não tem mais esta opção, pois a antecipação do clima seco, não permite na maior parte das situações termos tempo de “preparar um pasto” para o semi-confinamento a partir de agora. Quem o fez e tem bom desempenho produtivo nesta via de terminação, mesmo com preço alto do milho, ainda tem condições de ter rentabilidade interessante neste sistema de engorda. Temos feito várias análises para clientes e isto é contundente;
    2. Confinamento em pasto (arraçoamento com 2% de ração): aqui o problema é justamente o preço do milho, ou pior, a falta dele. Para quem o tem (pouquíssimas pessoas), é uma opção. Neste caso, o “cereal dourado” pesa mais, embora ainda haja alguma viabilidade;
    3. Venda para terceiros: esta decisão depende de opção pessoal e também da região (preços são regionais). Mas que optar por esta via de escoamento da produção de recria deve facear com um mercado ofertado e com ágio em queda;
    4. Engorda terceirizada: mesmo com o atual mercado de grãos, em virtude do profissionalismo destas operações de confinamento, não raro, elas representam uma saída viável para os bois magros de agora, basta procurar e ser bem orientado (em GO, isto fica claro nas avaliações que temos feito para um boitel do sudoeste do estado);
    5. Engorda em confinamento próprio: somente recomendamos para quem tem um “n” mínimo (de 1.500 – 2.000 cab) e a mais absoluta capacidade de gestão técnica, financeira e comercial da operação, caso contrário, pode ser um “tiro no pé”;
    6. Postergar os animais para abate em 2017: muito frequentemente uma opção escolhida, mas, sinceramente a que mais fico temeroso: haverá pasto para suportar a seca e a Fazenda entrar “pesada” nas águas 16/17? Qual a certeza de condição de preço para o ano que vem? A duração de um ciclo mais longo não lhe diminuirá a rentabilidade mensal a ponto de inviabilizar o negócio que já está com margens estreitas? Antes de optar pela letra “f”, sugiro fazer muitas contas com a ajuda de um nutricionista para programar com bastante assertividade a relação carga-suporte futura dos seus pastos, visto estarmos entrando provavelmente na pior seca dos últimos 10 anos, onde deverá haver falta de capacidade de suporte de pastos e até mesmo de água em muitas fazendas. Muito cuidado aqui. Este, para nós, é um problema pior até mesmo que o milho caro… Mas o milho é a névoa (dourada) que ocupa a mente de todos agora… Atenção!

Por fim, seja lá qual for a sua opção, escolha-a sem paixão e com o devido suporte das análises zootécnicas, financeiras e comerciais que anteciparão as prováveis consequências da sua escolha, para que os erros decisórios não ocorram e sobretudo não sejam repetidos. Afinal de contas, os “mercados por vezes aceitam novos erros, mas não toleram erros repetidos” (Empiricus).

Ainda falando ainda em “decisão”, lembrei-me da frase do Maurício Palma Nogueira, dita no Rally da Pecuária, em Goiânia, a qual cabe muito bem aqui: “não tomem uma decisão impulsiva que pode comprometer o longo prazo”, notadamente, para o caso de redução do pacote tecnológico da criação em 2016, possibilidade que recomendamos “tirar de sua cabeça”, independentemente de qual será a sua opção, entre as elencadas acima.

Tomara que você tenha tido um ótimo “Dia das Mães”, neste último domingo e que na próxima quinta-feira possamos amanhecer num País com esperança renovada para cumprir o árduo caminho de “limpeza” do País, que apenas começará na próxima quarta!

Na próxima semana, analisaremos os resultados de um estudo que apresentou as mudanças de comportamento do brasileiro em meio à instabilidade econômica e as preferências por produtos e categorias quando vão aos supermercados. Até lá e que Deus nos abençoe!

 

Rodrigo Albuquerque (boicom20@gmail.com) &

 Ricardo Heise (r.heise@hotmail.com),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS: boicom20@gmail.com

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