“Somos todos devotos da sua Santidade”

Por em 29 de fevereiro de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #205, de 28/fev a 05/mar/16)

Aos que carregam o “pó da viagem”,

“Este ano será atípico”. É assim que começam boa parte das reuniões corporativas para a previsão do que vem pela frente. Meses atrás um alto executivo de uma renomada instituição financeira internacional disse que não acredita nas previsões quadrimestrais de fechamento de resultado que as empresas via de regra soltam no mercado. O prêmio Nobel de economia disse que o “futuro será sempre opaco”. O que nos resta? Resp.: resta-nos a dádiva do presente!

Então, lancemos nossos neurônios ao mar dos pensamentos. A tarefa não é fácil, pois estamos num ano absolutamente opaco para previsões… A névoa está baixa no horizonte e o mar ao nosso redor está revolto. Ótimo! Mar revolto é o melhor insumo para nos tornarmos bons marinheiros. Vamos tentar entender esta tormenta que traz à tona um oceano de dualidade de sentimentos: o boi está “firme” mas o pecuarista está preocupado; a oferta está curta mas o frigorífico faz investida para baixar preço… Este ano está sendo atípico! (risos)

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Entramos numa região pouco visitada quanto à variação semanal do indicador: completamos a sétima semana seguida de alta, pois a nossa baliza partiu de R$ 154,26/@ a vista (variando de R$ 153 a R$ 156) e chegou em R$ 155,57/@ a vista (variando de R$ 154,50 a R$ 156) na última sexta-feira. Nos últimos três anos, somente em três ocasiões o mercado subiu mais do que sete semanas seguidas… Estamos neste limite exatamente agora.

No final da semana passada, o BeefRadar captou a maioria dos negócios entre R$ 155 a R$ 156/@, com máxima de R$ 158/@ a vista no boi EU, sendo reportada uma “maior fome na compra” por parte das grandes indústrias (trataremos disto adiante). O preço da nota redonda (R$ 160/@) deu uma raleada… Na “terra do tuiuiú”, o MS, tivemos informações de preços de R$ 142 até R$ 145/@, tanto a vista, quanto a prazo (no sul do estado, a parte de cima do intervalo é mais comum), com escalas entre quarta (sul) até segunda (07/mar).

Em SP, o padrão de escala curta permanece, estando a maioria dos frigoríficos próximo à quarta-feira (02/mar). Assim, o “DIA D” segue congelado na quarta (02), com o placar de cerca de 3,5 d úteis. O STATUS DO BEEFRADAR segue inalterado:

15% queda : 50% estabilidade : 35% alta

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Aqui a tal da dualidade de fatos acentuou-se. O padrão de escala curto permanece em linhas gerais, mas com o boi da “nota redonda” (150/@) algumas empresas conseguiram escalar um pouquinho melhor (o que não quer dizer muita coisa, pois a situação estava péssima). De toda forma, isto tirou um pouco da “fervura do caldeirão” dos preços. O preço balcão está variando bem entre os compradores, fato pouco usual: de R$ 142 a 145/@ a prazo, com prêmio EU de +R$ 2/@. As escalas deram uma certa “desafogada”, agora ficando entre a quinta (03/mar) e a segunda (07/mar).

Como a coisa afrouxou um pouco no GO, o diferencial de base do boi (GO x SP) abriu para a maior média semanal dos últimos meses: -R$ 11,34/@. Até as vacas passaram para -6% em relação à arroba do macho. São dois movimentos em início, mas que já chamam a atenção.

3) HORA DO QUILO: nas próximas duas semanas, dois eventos imperdíveis: a Intercorte (http://intercorte.com.br), que realiza a sua primeira etapa em Cuiabá nos dias 02 e 03 de março e o 11º Encontro de Confinamento da Coan Consultoria (http://www.gestaoconfinamento.com.br), que acontece em Ribeirão Preto entre 08 a 10/março. Estaremos palestrando nos dois eventos e aguardamos você!

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: reportagem muito boa sobre a pecuária do nosso querido Mato Grosso do Sul: http://g1.globo.com/mato-grosso-do-sul/noticia/2016/02/cuidado-sanitario-na-producao-de-carne-vai-do-campo-ate-o-mercado.html

 

5) PORTA RETRATO DA SEMANA:

 

5.1) Esta eu mesmo tirei na BR153, em GO. Em ano de margem estreita, a questão é otimizar, inclusive o frete:

20160228 - BR153

5.2) “Este tríplex é meu” (João de Barro):

20160228 - Triplex

5.3) Foto de Fernando “Huber Tank”, tirada em Dourados-MS, no sábado, durante o Dia de Campo na Fazenda do Rogério Goulart, comemorando 13 anos de Carta Pecuária, um verdadeiro legado para a pecuária. Ao Rogério, nosso muito obrigado!

20160228 - Goulart

6) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO

6.1) o milho acordou: na semana recém-encerrada o milho deu mais um “pulinho para cima”. E as diárias de confinamento? Hum, cada vez mais complicada a situação…

6.2) o selo sumiu: agora não há dúvidas: nenhuma das três agências internacionais manteve o selo de bom pagador para o Brasil. Mais uma “obra do governo”. Enquanto isto: quem será o dono do sítio e do tríplex?

6.3) um artigo que vale a pena: como sempre o Antônio Chaker nos brindando com um belo material: http://www.portaldbo.com.br/Revista-DBO/Super-manchete/Como-chegar-ao-topo-da-eficiencia-na-producao-animal,-por-Antonio-Chaker/15501

 

7) SOMOS TODOS DEVOTOS DE SUA SANTIDADE, A EXPORTAÇÃO

A pergunta que todos fizeram no início da semana passada após a abertura de preços balcão mais baixos em vários locais, é como isto poderia estar ocorrendo, com a oferta curta? E se isto “vai pegar” mesmo… Temos que considerar o seguinte:

* em termos de semanas seguidas em alta, estamos bem perto do máximo histórico;

* com os bois das “notas redondas” (R$ 160/@ em SP e R$ 150/@), houve alguma melhora na escala, ainda que de forma pontual, como por exemplo em GO, o que não é uma maravilha, pois o nível de agendamento estava péssimo, mas de toda a forma, houve um pequeno alívio;

* Paralelamente ao pico histórico do boi, novamente renovado nesta última semana (R$ 155,88/@), está havendo queda na demanda do atacado, principalmente do traseiro (com e sem osso). Com isto, os estoques de carnes na indústria começam a aumentar consistentemente, apesar da exportação estar muito firme. Temos notícia que isto está ocorrendo no norte do País e até em GO, hoje, na segunda, uma grande planta do estado não vai rodar por vários motivos, inclusive pelo estoque das câmaras frias;

* Além da questão de demanda complicada, os preços do atacado sofrem pressão de baixa pela venda de carne oriunda de estados com diferencial de base aberto, tal qual MS e MT (notícias chegam de várias fontes, responsabilizando a não monetização do ICMS como um dos grandes motivadores destes “DF” de base abertos);

* Os fatores listados acima levaram a indústria a ter redução de margem consistente de 15/fev para cá, estando agora próximos dos baixos níveis de 2015. E o que dá para perceber, é que este jogo de margem mais estreita, os frigoríficos não querem voltar a jogar. Eles estão com atitude.

* De toda forma, a amplitude de um possível “chacoalhão” no mercado é pequena, pois a oferta continua reduzida, pois temos agora pouco boi de pasto, de confinamento (ao contrário de 2015 onde a dinâmica de envio para bois de cocho era outra) e a reposição, embora, começando a patinar, não cedeu ainda;

* Por menos exitosa que possa parecer, este retrocesso nos preços, como vistos agora em GO, nos parece que faz algum sentido para os frigoríficos pois se configura com a “estratégia do susto”, fazendo as indústrias ganharem tempo até aparecerem mais vacas na escala e mesmo mais bois de pasto (poucas pessoas acreditam que a oferta não deva melhorar até maio, ao passo que deve piorar a demanda). Além disto, esta “estratégia do susto”, cria o marco de resistência na cabeça do pecuarista, esperando produzir a mensagem: “hum, o boi bateu em R$ 160/@ em SP e retornou, na próxima ida lá vou vender”. Outro fato é que este “susto” testa a “coragem do pecuarista” em segurar o boi. Por fim, os frigoríficos já estavam numa situação complicada, com pouquíssimo agendamento, portanto, não tinham muita coisa a perder…

Com os fatos listados acima, concluímos que temos que tomar cuidado com o mercado no caso de termos aumento de oferta exposta num mercado consumidor como estamos agora. Os frigoríficos mostraram que estão dispostos a tomar atitude rápida se tiverem que diminuir a margem para viabilizar o escoamento da produção. Olho atento no maio/junho… Provavelmente, teremos piora da demanda com o desenrolar da nossa crise econômica no final do primeiro semestre…

E finalmente, se não fosse a exportação, que vem forte com parciais de alta de cerca de 30% no YoY (fev/2016 sobre fev/2015), estaríamos em situação bem mais complicada. A venda externa tem enxugado o dianteiro, que está sendo também mais demandado pelo mercado interno, em função da migração de consumo (a migração de consumo é de tal magnitude que o frango subiu cerca de 13% neste mês).

Mercados como EU e Chile tem ficado bem compradores e a valorização do real tem feito a diferença, compensando o dólar em queda em alguns mercados. Portanto, somos todos devotos da sua Santidade, a EXPORTAÇÃO, neste momento.

Como nos ensinou a Bel Pesce na semana passada, “uma atitude mediana na hora certa dá mais resultado que uma atitude excelente tomada tardiamente”. Esta é a principal fundamentação do aparente antagonismo de, mesmo com oferta pequena, haver tentativa de pressão no físico. ATITUDE é o remédio, boiadeiros!

Até a próxima, se Deus quiser e nos permitir! Que você possa ser um instrumento de paz e de bondade neste nosso mundão. Deus nos presenteou com um dia a mais em fevereiro, aproveitemos este dia da melhor forma.

Por fim, reproduzimos aqui uma valorosa e inestimável obra prima de um leitor do NF2R que nos enviou esta crônica, a qual nos inspirou quanto ao título deste. Trata-se do nosso amigo (ouso chamá-lo assim, apesar do não convívio pessoal), o Sr. Elder Antônio, de Anápolis-GO. Vale a pena a leitura…

 

Sua Santidade, “Vaca Nelore”

A primeira impressão: irreverência.

Qual nada!

Sou católico, nascido em Anápolis-GO. Batizado, primeira comunhão e crismado feitos na Catedral de Sant’Anna. Ali nas Antas.

Então, por quê?

Reconhecimento.

Cresci entre os campos do Paracatu, Rio Escuro e o São Marcos. Amadureci nos vertentes do Caiamar, veredas  do Crixás às Matas Rio Dos Dois. Sou Homo Cerratensis (Paulo Bertan). Conheci os curraleiros, pé duro de de aspas longas. Literalmente vi o primeiro caminhão desembarcar 14 novilhas Girolandas prenhes, em 1969 compradas por meu pai em Lorena, no Vale do Ribeira.

Anos 70, o Brasil fervilhava…era expansão da fronteira agrícola para o Centro Oeste.

Em 1972 inauguração Parque Agropecuário-  vi presidente Medici ao lado do Gov. Leonino entregar a escarapela de campeão ao Chumak.  Estava havendo uma mudança. Aqueles CR$500.000,00 não foram apenas para alimentar fogueira de vaidades. Era o mercado. Ávido. Ele sempre percebe antes.

Já havia presenciado manejos de curral de cerca de “correntes” (varões, intercalados por cepos e extremidades fixadas em mourões  de aroeira entalhados) boi, laçado, ajojado e contido nas voltas e contra voltas no mouco de Centro  (também talhado em pé de taça) mosquetões, laços de couro cru, de três pernas torcidas. Bois com talões aparados e frieira  curadas  com “creolin” .

Evoluímos, formação e informação. Jovens veterinários, agrônomos, projetos de integração. Emater e a saudosa Engopa. Goiás Rural.

Mineralização. Sanidade.

A primeira lavoura de Decumens, as vertentes do João Leite, ali no Nerópolis. Depois  humidícula  Brizanta, andropogan (o capim amigo) Mas quem pisava infante a isto, quem lastreava o custo dos CBT’s, correntões, agrimensores.

Quem cortava solene, os varjões do Cocalinho, tabocais da Mata Laranjeiras (esquivada pelos bandeirantes ao sertão Amaro Leite).

Digeria a tenra canarana da Ilha com  a mesma diligência que enfrentava a palha esturricada dos gerais, rabo de burro, membeca, marroquinha e nos setembros e outubros sem fim e sem chuva, escavava os minadouros até surgir a água. Sorvi-a e continuava quase sempre, cria ao pé, outra no Ventre.

Cruzando a travessão do Rio Das Mortes de cascalheira e LANAJET, as Perdidas destas ao colueno e daí a pontes de Lacerda.

Da serra da Bodoquena ao Beni no sopé da Cordilheira.

Do baixo Araguaia ao Xingu.

Deste ao Novo Repartimento.

Toda fauna e toda flora lhe fizeram reverência.

Com os catetos, queixadas, capivaras e cervos compartilhou o pasto. Com os guarás e as mitológicas pintadas, o sono; alguns subtraíram suas crias.

Mas não raro, ainda hoje, encontramos logradouros puídos por finca-pés, touceiras reviradas, murirós partidos, estrumes aspergidos; no centro uma cria inerte…. Não precisa perícia, ali foi palco do encontro de titãs e como sabemos a morte não é coisa momentânea, é um processo, travessia, como disse J.G. Rosa.

A venta gotejando um vermelho escarlate, ladeados por espuma seca das comissuras! Os chanfros e ganachas com lanhos paralelos e múltiplos, tiras de couro suspensas. Masseteres expostos como condecorações de batalha. Mas quase sempre não permite que se fartasse do prêmio de suas entranhas , não antes que cadaverina ofuscasse o cheiro do ente querido.

Tinha que ser assim, pois não conheço nenhum outros dois seres viventes com tamanha “Honor Maternalis” .

Sem pecar por esquecimento. Fabulosa faculdade de bioidentificação. Reconhecer a cria em meio a centenas e então interpô-la entre o ventre e as guampas e conduzi-la com um soluço  de entranhas, misto de suspiro e bufo! Isto é único.

Foi no desenrolar dos confrontos, escaramuças com alaridos na juventude, misturando o odor ocre suave ao nosso suor que lentamente fomos compreender, não era besta-fera. Era brio. Brio dos que valem a existência. E quando a colocávamos a prova o limite da honra, não lográvamos êxito algum.

Compreende-la como mãe. Entende-la como bando e família, preferência, afeição e até solidariedade com os seus e intolerância para com os intrusos.

“Esse bicho parece gente”. Só então começávamos a tratá-la com pompa e circunstância merecidas.

Das diversas versões da teologia hinduísta de sagração dos bovinos a que mais nos identificamos é aquela que descreve um ciclo de agruras que se abateu sobre o povo, pois haviam sacrificado o gado em prol de lavouras de grãos e iguarias e uma seca medonha sobreveio, calcinando os campos e somente os que haviam persistido com o gado é que sobreviveram. Doravante decretaram sacrilégio matar qualquer vaca.

Estes escritos não são laudos,não é técnico. É meramente passional. Como acredito que foram: Torres Homen, Dico, Joãozico, Rubico, Totó, JR Cavalcante, o notável Prata, Flores; não me importo em citar nomes. Os grandes homens quando preteridos sabem do próprio quilate.

Mas até mesmo na vida pessoal, quem conseguiu tornar permanente, consubstanciou em patrimônio, união estável entre suor e sonho foi ELA. E por tudo isso e para hoje e sempre serás sempre BENDITA – Vaca Nelore.

 PS- agradeço a esposa e filhos pela companhia de tudo isso. E ao amigo Chico Bastos de Uruguaiana que me ensinou: Eu não vivo mais do cavalo, eu vivo para o cavalo. “esse cavalo tem um caráter…”    (Elder Antônio)

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) &

Ricardo Heise (@boi_invest),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS: boicom20@gmail.com

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