Relato de uma incursão no “front” da demanda de carne paulista

Por em 18 de julho de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #225, de 17 a 23/julho/16)

 

Companheiros que carregam o pó da viagem,

Uma vez o Miguel Cavalcanti disse uma frase que eu nunca esqueci: “quem mais aprende numa palestra é o próprio palestrante”. Particularmente, entendo que esta frase tem um grande fundo de verdade, fato que pude constatar novamente na última quinta. Tivemos o prazer de termos sido convidados (eu e o Ricardo) para fazer uma palestra de mercado, e consequentemente tivemos a oportunidade de revisar o que ocorreu no “primeiro tempo do jogo da pecuária 2016”. Muita coisa “clareou na cabeça”, num momento importante: finalizado o primeiro semestre, é como se estivéssemos no “show do intervalo” do jogo pecuário “oferta x demanda”. Vamos ver na nossa “mesa tática NF2R” detalhes sobre o time que vem chamando a atenção: a demanda.

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Pela terceira semana seguida o movimento dos preços se repetiu: pressão forte na bolsa, porém pouco efetiva no físico, onde o cenário é de estabilidade/leve queda. A frieza dos números nos desvenda que após três semanas de quedas numéricas do indicador CEPEA/BMF, tivemos uma semana de variação positiva: partimos de R$ 156,08/@ a vista (variando de R$ 155 a R$ 157,50) e alcançamos na última sexta-feira o valor de R$ 156,29/@ a vista (variando de R$ 154,50 a R$ 158).

O nosso beefradar detectou a maioria dos negócios sendo feita entre R$ 153/@ a vista até R$ 155 – 156/@. Nota-se um intervalo de preços bem amplo, esparramado que nem dedo de pé em cima de chinelo. Este fato é fruto de uma situação interessante: os frigoríficos menores, com menos opções de comercialização, e, portanto, mais pressionados no atual cenário de demanda fraca do mercado interno, tem ofertado preços menores que as grandes indústrias exportadoras. No final da semana, os pequenos tiveram que pagar um pouco mais conseguir abastecer suas escalas… Estamos de olho. Consolidando o cenário de estabilidade, a máxima de mercado permanece no R$ 158/@ a vista (boi EU).

Pelas bandas do “Mato Grosso Molhado do Sul”, tudo parado entre R$ 141 a 143/@ a prazo, com variações regionais normais entre as praças do sul, de Campo Grande e do norte.

O sistema de escala “queijo suíço” (ou ajuste de produção branco) permanece e mantém o agendamento de bois adiantado: entre 25 (segunda) a 27/julho (quarta). O “dia D” manteve-se na terça (dia 26/07), com o placar de 4.89 dias (referência HAITONG).

Pelo fato do balizamento do indicador manter-se concentrado na banda de cima do intervalo de preços visto no mercado, mantemos o status do beefradar em:

50% de queda | 45% de estabilidade | 5% de alta

 2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Se pouca coisa mudou em SP, nas praças menos ainda! Em GO, a “marolinha de pressão” anunciada na semana passada, foi inerte. A referência segue ao redor de R$ 142/@ a prazo (com prêmio EU de R$ 2 a 3/@ e “personnalité” pontual). As escalas no estado são de uma semana. A única novidade é que uma grande indústria anuncia deságio de R$2/@ para bois “mal acabados” oriundos de pasto. Qual a métrica deste “mal acabado”? Fiquemos de olho!

Quanto ao diferencial de base e quanto ao deságio da arroba de macho para a de fêmea, nada de novidade: – R$ 15/@ e -5%, respectivamente. Em resumo: tudo parado feito água de poço!

 

3) HORA DO QUILO: “Se alguém teve dois dias iguais, desperdiçou um deles” (Hadith)

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: o futuro pensa em nos excluir? Veja duas matérias interessantes sobre o dia de amanhã: aerofazendas e carne de laboratório (infelizmente o link desta última não está em português):

http://www.beefpoint.com.br/cadeia-produtiva/giro-do-boi/fazenda-vertical-usara-95-menos-agua-e-tera-producao-75-vezes-maior-que-o-metodo-tradicional/

http://www.globalmeatnews.com/Products/Lab-grown-meat-to-revolutionise-food-sector#

 

5) BOITOGRAFIAS DA SEMANA

 

5.1) VII Encontro de confinamento de Novo Horizonte e região: cerca de 420 participantes, na sua maioria pecuaristas de qualidade, se reuniram na última sexta, um dia realmente diferente, reunindo gente e boi de extrema qualidade. Agradecimentos ao Fernando Nemi Costa e família, pessoas singulares que atuam em prol da pecuária com coração e total correção. Obs.: o transporte para os convidados conhecerem o confinamento da Usina São José da Estiva, foi um detalhe único.

20160717 - Nemi 5 20160717 - Nemi 4 20160717 - Nemi 3 20160717 - Nemi 2 20160717 - Nemi 1

5.2) Rondônia, nos vemos logo mais! Imperdível. Estaremos rodeados de amigos em breve neste local de pecuária pujante em que mais uma família atua fortemente: a família Foroni. Segue o convite:

20160717 - Foroni

5.3) A força da natureza, na selva de pedra: dois ipês, um em Goiás* e outro na selva de pedra em São Paulo, mostrando a resiliência da natureza. A cidade de São Paulo está tendo uma bela florada de ipês:

20160717 - Ipê SP 20160717 - Ipê GO

* foto do grupo de whatsapp BoiInvest

6) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO (os sinais importantes do Sr. Mercado):

* “para boi inteiros terminados a pasto, paga-se R$ 2/@ a menos”. A frase correta do comprador de boi, dita nesta semana, deveria ser: “para boi inteiros terminados a pasto, com acabamento deficitário (definido pelo critério não subjetivo xxxxxxxxx, verificado no ato do abate) paga-se R$ 2/@ a menos”. Sinal de oferta baixa, porém acima da atual demanda fraca?

* “para o final de outubro/2016, não fazemos mais boi a termo, a não ser para parceiros de longa data”. Sinal de oferta baixa, porém acima da atual demanda fraca?

* “este boi a termo para novembro, tenho que ver com a exportação, não estou fazendo mais pela bolsa”. Sinal de que o boi sucumbiu na BMF?

* ”em GO, boi magro de R$ 145 para pesar, compra bem demais, enche fazenda”. Sinal de que a seca é forte e a atratividade do confinamento é fraca demais?

* “entre Goiânia-GO e a divisa com SP, vi inúmeros focos de fogo em pasto e nenhum pasto de qualidade ao menos satisfatória”. Sinal de que a seca 2016 será forte demais?

* “o milho saiu da mão novamente. Já tem diária de boitel subindo novamente”. Sinal de que a o segundo semestre será negro para quem demanda o cereal?

7) O LADO “B” DO BOI

Neste final de semana, passando uns dias com a família em SP, me hospedei na casa da minha sogra na região do “ABCD paulista”, mais precisamente em São Bernardo do Campo, berço da indústria metalúrgica e automobilística do estado e, portanto, importante termômetro do que acontece no maior centro metropolitano consumidor de carne do Brasil.

Na semana passada, o título do NF2R retratava que a demanda havia pego as rédeas do direcionamento de preços da cadeia pecuária, de modo que não poderia desperdiçar uma oportunidade de checar isto no front.

Começamos visitando uma casa de carnes (“açougue elite”) de um bairro de classe média/alta. Logo na entrada deste estabelecimento, visualiza-se o anúncio da promoção:

?????????????

Conversando com o gerente do estabelecimento, ele nos relatou que todo o comércio da região perdera volume de vendas em 2016 e com as carnes não teria sido diferente. Relatou-me queda nas vendas da ordem de 20 a 25%, com uma dificuldade adicional para os cortes de maior valor agregado, motivo que tem levado a casa a fazer promoções para estas peças. A tradicional picanha agora se chama “picanha promoção”, até nas etiquetas:

20160717 - Empório Jardim 2 (picanha promoc)

                Notei que as peças promocionais de cortes nobres despertam muito interesse dos clientes, pois são as únicas que foram procuradas em quanto estava na loja, notadamente por homens. Nota-se também a presença de picanha do Paraguai que chega a preço bem competitivo complicando mais ainda a saída do tradicional corte brasileiro:

20160717 - Empório Jardim 3 (py)

                A presença de cortes de valores absolutamente fora dos padrões de acessibilidade da maioria do mercado são justificados para dar “atratividade” à loja, mas são demandados verdadeiramente pelo restaurante “a la carte” da empresa, que fica ao lado da loja:

20160717 - Empório Jardim 4 (WAGYU)

                A crise econômica do Brasil, segundo o funcionário teria sido o principal motivo da queda das vendas, fato que se intensificou, segundo ele, no final do primeiro bimestre de 2016.

Quanto aos cortes premium, as peças à vácuo são recebidas do frigorífico e várias delas são desembaladas e novamente embaladas de maneira personalizada pela loja (carne com a logomarca da loja). Estas embalagens personalizadas não têm nenhuma informação sobre a origem da carne, apenas o nome da loja e a data de validade do produto. Trata-se de uma tentativa do estabelecimento de fixar a sua marca na carne junto ao cliente. Eu questionei ao funcionário sobre o frigorífico, fato que causou estranheza a ele. Disse-me que esta preocupação não é comum aos seus fregueses.

Em seguida, me direcionei a um outro açougue, este estabelecido num bairro de São Bernardo do Campo/SP de classe média/baixa. É um tradicional açougue de bairro, de propriedade de um simpático imigrante “português PO” (Adão), que conhece todo mundo do local há mais de duas décadas. O local é bem típico e o nome do açougue remete às suas origens:

20160717 - ADÃO INTERNA 20160717 - ADÃO FRONTAL

                Na entrada da loja já vemos alguns freezers desligados e na primeira conversa ele nos relata o motivo: queda de 25% nas vendas, o que mostra que a crise atingiu a todas as classes. Segundo ele, “esta é a pior crise que já viveu” e que quase optou por fechar o estabelecimento há poucas semanas, mas decidiu seguir um pouco mais. Relata que compra somente traseiro e dianteiro com osso, pois “prima pela qualidade, mas que as carnes estão vindo com pouco acabamento de gordura e apresentam maciez abaixo do ideal, muito duras”. Ainda segundo ele, “o consumidor não está recebendo a qualidade que gostaria de entregar”.

O Adão também nos informa que o problema mais sério de sua loja teria começado no início de 2016 e se intensificado recentemente. Relata migração de consumo do traseiro para dianteiro e mais recentemente para o frango. “Tinha cliente que todo sábado pegava 1,5 kg de mignon ou de contra-filet, mas agora, sumiram”, ele nos disse.

Admite que perdeu muitos clientes fixos e que a inadimplência subiu muito, o que o fez tomar uma “atitude errada e radical” (segundo ele), mas que se mostrou muito necessária: interrompeu a “venda fiada” pela primeira vez na sua história comercial:

20160717 - ADÃO FIADO

Esta nossa incursão retrata no front o que entendemos ser hoje o grande limitante de preços do mercado da arroba e motivador desta pressão no físico/BMF: a perda de sustentação do mercado interno, responsável por 80% do nosso consumo. Como “desgraça pouca é bobagem”, há perda de volume e de margem na exportação de maneira concomitante.

O que eu vi no front coincide com a leitura do varejo que fizemos para a palestra de Novo Horizonte/SP e que também foi retratada com maestria por esta fala do Alexandre Mendonça de Barros, dita recentemente: “os dados de consumo estão horrorosos … regredimos 15 anos, estamos em 30kg/hab/ano, ou um pouco menos. Em 2015 o consumidor migrou do traseiro para o dianteiro e depois para o frango. Em 2016, até o frango está em queda, o que é um fato inédito”.

A nossa revisão sobre o assunto após os primeiros seis meses do ano revelou algo interessante: a margem operacional do varejo está menor que os níveis de cinco anos atrás, mas está hoje maior do que o mesmo período do ano passado. Em nossa visão, o aproveitamento da “onda inflacionária” permitiu a estes negócios recompor parte de sua margem perdida.

Estamos, sem dúvidas, passando pela nossa pior crise histórica de demanda, e concomitantemente, temos uma oferta maior que a esperada para o mês de julho (maior que a esperada, mas ainda pequena). Isto resulta na atual pressão do mercado físico paulista.

Porém, devemos então chorar? Não! O áudio da CBN a seguir mostra que não. Escute: http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/carlos-alberto-sardenberg/2016/07/13/CONSUMIDOR-NAO-FEZ-COMPRAS-QUE-PODEM-SER-ADIADAS.htm

Os dados do IBGE sobre o varejo divulgados esta semana mostram que as vendas estão em queda quando comparamos os números de hoje com os de um ano atrás (-7.5%). Mas quando se compara com o mês anterior, os números indicam estabilidade (-1%). Fundamentalmente isto significa que estamos no fundo do poço, mas paramos de cavar. E a recuperação, apesar de extremamente lenta por não gerar empregos no seu início, tende a ocorrer primeiro no nosso negócio, ou seja: alimentos. Muito antes de voltar a comprar geladeira, voltaremos a comer melhor (leia-se mais carne). Como disse uma vez o Leandro Pinto, pecuarista: “as crises do agronegócio não duram mais do que seis horas. É o tempo que a gente leva para ter fome depois de uma refeição”.

Portanto, agora é hora de ter calma e esperar que a oferta curta reassuma o controle da aeronave bovina brasileira. Que tenhamos uma semana produtiva e alicerçada em valores dignos nos nossos negócios e junto à nossa família, nosso maior tesouro.

 

Rodrigo Albuquerque (boicom20@gmail.com) &

 Ricardo Heise (r.heise@hotmail.com),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS: boicom20@gmail.com

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1 Comentário

  1. Eduardo

    18 de julho de 2016 at 18:13

    Excelente o artigo acima. O futuro a curto prazo é previsível mas indefinido.

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