Quem faz a diferença: o cavalo ou o peão?

Por em 4 de abril de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

 (Edição NF2R #210, de 03 a 09/abr/16)

 

Aos que carregam o pó da viagem,

O título deste é um clássico dilema das finanças. Nesta analogia, o conjunto cavalo/cavaleiro representa, respectivamente, o negócio e o gestor do negócio.

E pensando neste conjunto, os dois integrantes estariam em equilíbrio quando pensamos na média da pecuária brasileira??? Minha resposta: sim! A média do negócio “pecuária brasileira” (o nosso cavalo) apresenta índices produtivos e financeiros bem modestos e, na nossa opinião, também muito alinhados aos modestos níveis médios dos seus gestores (os pecuaristas).

E o conjunto “cavalo/peão” do SEU sistema de produção? Como está? Deixamos você com este questionamento inquietante e vamos nos ater aos acontecimentos da semana.

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

A nossa bússola do mercado é o indicador Esalq/BMF, que reflete o mercado físico das quatro praças de SP (Araçatuba, S. José do Rio Preto, Baurú/Marília e P.Prudente). Ele iniciou a última semana em 157,25/@ a vista (variando de R$ 153,50 a R$ 159,50) e a finalizou em R$ 157,99/@ a vista (variando de R$ 155,75 a R$ 160).

A banda mínima do intervalo de negociação foi quem realmente mudou, elevando-se consideravelmente e escancarando uma melhoria no mercado físico paulista, tal qual o BeefRadar havia indicado (aumentamos o percentil de chance de alta no último NF2R). Em resumo: a pressão de baixa se foi e cravamos mais um novo recorde nominal da história de nossa arroba. Quem pôde postergar a venda de boi, como foi sugerido, fez bem. E mais uma vez o mercado não caiu na “trucada” tangenciada numa estratégia de pressão descabida… Saíram com o “zap colado na testa” (também como previsto).

O mercado terminou a semana com compras entre R$ 156 a R$ 159/@, com negociações máximas de R$ 160 a R$ 161/@ para bois com aprovação EU. No mercado do MS, a baliza mais frequente passou a ser o preço de R$ 145/@ a prazo no boi comum.

Contudo, “no mesmo trieiro” da melhora de preços, também houve uma leve melhora no agendamento de abate de boiadas, pois agora estamos com o placar da escala em aproximadamente 3,5d úteis (fonte: Haitong) e com o DIA D” na quinta (07/abril, variando entre a próxima terça e sexta). O STATUS DO BEEFRADAR minimiza as suas apostas de queda, mais ainda:

10% queda : 50% estabilidade : 40% alta

 

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

A notícia não é plenamente boa para Goiás. Se por um lado, passamos a ter ofertas de compras de até R$ 145/@ a prazo no boi comum, com prêmio EU de até R$3/@ e personnalité de até +R$2/@ (o que dá na sua máxima precificação o valor de R$ 150/@, ocorrido pontualmente nesta semana), ainda temos ofertas de compra entre R$ 142 a R$ 143/@ ap no boi comum, para os frigoríficos que estão com “menos fome”.

Em suma, vimos uma maior dispersão das ofertas de compras, com preços acima da semana anterior, mas também vimos o diferencial de base SP x GO atingir incrivelmente o deságio médio semanal de R$ 16,99/@ para o boi goiano (isto é o maior valor de nossa base histórica de preços). Entretanto, nada muda para o deságio de fêmeas, que segue entre 4.5 a 5%. Atenção: a abertura deste deságio pode ser o gatilho para uma eventual pressão de baixa.

 

3) HORA DO QUILO: “Nada fala mais alto que resultados” (Miguel Cavalcanti)

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: “Minerva exporta 80% da produção, somos ao contrário do Brasil. Somos sul americanos exportadores da commoditie ‘carne bovina’. Os principais mercados do mundo querem gado de 36 meses abaixo, de 19 a 23 arrobas (quanto mais perto de 20 a 23 arrobas, é bom para produtor e indústria), com um mínimo de cobertura para o frio (3 a 4 mm, do escasso para o mediano) e pH abaixo de 5.9 (pH é nosso o maior desafio nosso). Isto é o boi commoditie, que atende a maior parte do mercado importador da nossa carne. E importante: commoditie não é porcaria” (Fabiano Tito Rosa, em palestra na Expopec em Porangatu-GO, no dia 01/abril).

 

5) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO

5.1) O nosso cavalo mudando, o clima: o clima do segundo trimestre é “o mistério” da safrinha de milho e também pode criar oportunidades no mercado de reposição. Pesquisando em um dos sites mais renomados (INPE), verifica-se que a maior indicação de chuva acima da média para o segundo trimestre fica no extremo sul e que o contrário (chuva abaixo da média) fica no extremo norte, numa faixa que vai do norte do Pará até o leste da Bahia (posição bem alinhada para anos de El Niño, notando-se ainda a presença da influência deste fenômeno, ainda que esteja perdendo suas forças). Na maior parte do Brasil Central (berço do Brasil pecuário), há “baixa previsibilidade” para a ocorrência de chuvas no trimestre (http://clima1.cptec.inpe.br). Entretanto, afirmam que neste ano as frentes frias vão avançar com maior facilidade do que no ano passado, potencializando geadas. No entanto, outro renomado instituto (Somar Meteorologia) aposta em redução drástica das chuvas no outono e prejuízos para o milho safrinha do norte, além de ocorrência de frentes frias mais pujantes no interior do País (posição bem diferente do que vimos nos últimos anos, onde o outono foi mais chuvoso). E o pior: com estiagem de 20 a 30 dias entre abril e maio. E no segundo semestre, o inverno deverá vir mais seco, pela influência da La Niña (águas do oceano estão mais frias). A Somar afirma: “é ano em que as chuvas cortam mais cedo”. Pelo jeito, a previsão da Somar está bem certeira… Cadê a chuva??? Isto muda o mundo pecuário… No segundo trimestre enfraquece o pecuarista mas no segundo semestre, tende a dificultar para o frigorífico…

5.2) O nosso cavalo mudou, o milho: nos últimos dias nota-se também bastante imprevisibilidade no cenário de milho. Alguns analistas, como a Agroconsult, acreditam que não haverá trégua consistente no preço do cereal devido aos seguintes motivos: a safrinha já teria 65% do seu volume previamente comercializado; há a possibilidade de problemas de chuva durante o outono; deverá haver manutenção da boa condição de exportação do grão devido a sua competitividade mundial. Em posição contrária, os que acreditam que o milho possa baixar de preço apostam suas fichas justamente na perspectiva de uma safra americana recorde, o que ampliaria o nível dos (já elevados) estoques americanos (isto já fez o milho cair ao menor valor em dólares dos últimos 9 meses nesta semana). Além disto, o volume disponível grande, faria os EUA recuperarem os mercados que passaram a importar do Brasil. Finalmente, também pesaria o fato da Argentina estar em condições internas mais favoráveis para exportar milho ao nosso País. Em resumo: deve haver uma queda de preços para os próximos meses. A questão aqui é sobre a magnitude desta queda. Está todo mundo ansioso “igual a anão em discurso”.

5.3) O nosso cavalo mudando, o ICMS: por enquanto nada de definitivo. Na última quinta venceu o decreto que concedia o benefício do ICMS e, apesar das negociações estarem intensas, nada foi resolvido em definitivo. Em função disto, continuam interrompidas as negociações à termo de algumas indústrias. Caso o benefício seja realmente eliminado, uma alta na arroba de SP é esperada, assim como um aumento no diferencial de base das praças pecuárias. O abate em SP pode ser reduzido, colocando em risco uma grande quantidade de empregos, pois o aumento potencial de 12% na carne não encontrará respaldo com os consumidores neste atual momento de crise. Uma alternativa é a vinda de carne de outros estados, o que dificultará a vida dos frigoríficos pequenos, que não tem esta alternativa. Desta forma, estes podem ser empurrados para a ilegalidade (busca de animais para abate fora do estado de maneira ilegal, além de terem uma situação de caixa menos favorável). Temos definitivamente um “bode na sala”, pois SP é atualmente a segunda maior indústria da carne do País (maior exportador, consumidor e segundo maior produtor), além de ser um importante confinador. Para tanto, depende da “importação” de animais de outros estados, seja boi magro, seja boi gordo (tem frigorífico com até 60% do abate proveniente de animais de fora do estado, mas na média, algo como 40% deve vir de fora). Portanto a lambança, no longo prazo, pode levar à inviabilidade da pecuária paulista. Nosso palpite é que o benefício será mantido, porém com menor amplitude.

 

6) 2016: O MESMO FILME DE 2015?

Nos últimos três anos, o “calcanhar de aquiles” da indústria frigorífica foi o primeiro trimestre, período de tempo onde houve oferta (intensamente) restrita acompanhada em vários momentos também de queda na demanda de carne/atacado. Destarte, em 2015, a arroba seguiu firme até o final de abril e daí, até o meio de agosto, amargou uma queda de R$ 10. Após esta fase de baixa nova fase de alta se iniciou brindando toda a oferta de confinamento com uma arroba novamente firme. Durante a fase de baixa citada, foi executado um grande ajuste de produção com o fechamento de quase 50 plantas frigoríficas no País, fato que contribuiu para o arrefecimento da arroba naquela oportunidade. Resgatada a nossa história recente, perguntamos: veremos o mesmo em 2016?

Em 2016, novamente tivemos um primeiro trimestre com preço de arroba firme devido a oferta de animais para abate restrita e vimos um atacado de carne em baixa (após o carnaval). Ao menor sinal de descolamento do preço do atacado em relação ao preço da arroba (o que significa margem operacional dos frigoríficos em queda), houve tentativa de derrubada do mercado, com algumas paralisações de abate (início de março). Porém, o ajuste desta feita foi de menor amplitude e ocorreu num momento de bom suporte das pastagens, não sendo exitoso.

A trajetória da arroba no segundo trimestre será a mesma do ano passado? Bom, vamos aos fatos: temos hoje uma produção de carcaças muito ajustada à demanda, em função das interrupções de abate feitas no ano passado. Ambas, demanda e produção, estão em níveis cada vez mais baixos. Só não estamos mais pressionados no mercado físico porque a exportação está escoando fortemente nossa produção (em 2015, isto não ocorria, mas a demanda interna ainda não tinha acusado o golpe da crise, em contrapartida). A consequência disto é uma estabilidade no preço do atacado e uma grande resistência da arroba contra quedas, emplacando até uma “altinha” em 2016, embora menor do que a ocorrida nos últimos dois anos.

Fora questões de ordem maior (como o ICMS), neste ambiente “justo”, um aumento na produção de carcaças pode reduzir o preço do atacado, o que potencialmente tem forte impacto no preço do gado físico. Entre abril e junho não imaginamos ver uma enxurrada de animais ao abate, mas não temos dúvida de que deveremos ter um aumento de oferta e consequentemente dos abates. Apesar de termos menos animais de confinamento na comparação com o ano passado, os animais a pasto deverão sair de maneira crescente de agora até junho (este é o meu caso, inclusive). Uma parte da safra de bois de pasto está inclusive represada devido à “trucada” não exitosa do início de março (tentativa forçada de queda de arroba postergou a venda de parte dos animais). Não custa lembrar que há previsão de “corte nas chuvas mais cedo” o que poderá enfraquecer a posição de venda do pecuarista neste outono, que promete ser mais seco no Centro-Norte do País, em comparação aos anos anteriores.

Novamente: não esperamos nenhuma avalanche de bois, mas ofereceremos pela primeira vez em 2016 uma produção de carcaças crescente frente a uma demanda ruim. Qual o efeito disto? Potencialmente pouco, caso a retenção de fêmeas e a exportação continuem firmes. Como exportação depende de dólar, que deriva de economia, a qual por sua vez, resulta da política, recomendamos não arriscar. Ainda não temos dados de abate para sabermos com certeza que a retenção continua firme, mas, esta é a nossa aposta em função do “pó das nossas viagens”. Entretanto, um bom seguro de preços (feito com o frigorífico ou diretamente com a bolsa) é que estamos executando para nossas boiadas.

Nesta semana observamos uma leve melhoria na escala, mas nada ainda consistente e talvez reflexo dos preços maiores vistos no mercado. Por outro lado, a carne com osso está se mostrando ainda muito firme.

A conclusão é agir com prudência, caso a receita da Fazenda seja importante para o fluxo financeiro dos seus negócios em 2016, afinal de contas, a imprevisibilidade impera no atual cenário de pecuária.

Em outras palavras e, retornando ao dilema do início deste, o negócio pecuário que é o cavalo que estamos cavalgando em 2016, tem a fama de ser “refugador e caborteiro”, um verdadeiro “cavalo passarinheiro”. O peão para ficar firme neste arreio não pode ser “do pé pesado”.

Situação muito diferente de 2014 e mesmo de 2015, onde a “toada do nosso cavalo era mais macia que colo de moça”. Pense no sujeito que tinha bezerros e garrotes para vender durante 2014 e 2015. Com a alta da mercadoria, o recriador mesmo tendo o seu desempenho produtivo não muito eficiente, teve lucro, pois bastava estar em “cima” da mercadoria, que a alta pujante do gado, o levava para um destino financeiro interessante.

Mas… agora são outros tempos. Da mesma forma, que o peão troca seu cavalo dia após dia, o mercado muda ano após ano. Acho que temos que melhorar o nível dos nossos cavaleiros, os gestores da pecuária. A nossa montaria agora é outra…

Alguns dos nossos pangarés (fazendas com produção anual de 6@/há ou menos) ainda persistem caminhando por aí, devidamente “muntados” pelos seus respectivos “peões quarta-feira”. Melhorando o peão (gestor), poderemos elevar o status do nosso pangaré para alazão, pense nisto! Como está o seu conjunto?

Esta reflexão é importante, pois, como disse a Empiricus: “quem sou eu sem meu cavalo? O que será dele sem mim? Talves dois seres perdidos, a vagar pelo capim”. Até a próxima, se Deus quiser e nos permitir!

 

 

Por fim, deixamos abaixo a resposta da FAEG ao absurdo que tivemos o dissabor de ver na mídia na semana passada (incitação à invasão de propriedades em cerimônia no Palácio do Planalto pelo responsável da Contag). Segue:

 

FAEG REPUDIA INCITAÇÃO DA CONTAG AO CRIME DE INVASÃO

A sociedade brasileira assistiu atônita à solenidade da Presidência da República do Brasil no Palácio do Planalto, com incitação pela CONTAG, ao crime de invasão de casas e fazendas, visando atemorizar toda a sociedade brasileira que clama por justiça, demonstrando um flagrante desrespeito à lei e a ordem. O Governo Federal deve zelar pela constituição, e não permitir a propagação de práticas que promovem o ataque à nossa Lei maior, ao direito de propriedade e a livre iniciativa, ações que demonstram total descaso pela democracia, arduamente conquistada, e ampliam o sentimento de impunidade e insegurança.

 

Não é razoável que a CONTAG, aplaudida pelo Governo, possa coagir toda a sociedade brasileira com ameaças criminosas como defesa para um processo legal de apuração do crime de responsabilidade atribuído à chefe do poder executivo. Imaginar que essa incitação à barbárie possa amedrontar o Congresso Nacional, demonstra um total descaso às leis vigentes.
A invasão das residências e fazendas é um ato de terrorismo e selvageria, que atropela as leis vigentes. A sociedade espera dos poderes constituídos, o respeito ao mínimo direito de propriedade, à inviolabilidade da residência e o repúdio à violência como instrumento de apoderamento.


Essa ameaça de invasões pela CONTAG se apresenta como clara incitação ao crime, merecendo por parte das nossas autoridades do Ministério Público e da Segurança a imediata apuração e responsabilização, como única forma de manter o estado de direito.
Por sorte as Instituições Brasileiras funcionam, e tanto o Judiciário tem ordenado reintegração de todas as propriedades invadidas, quanto os órgãos de Segurança do Estado de Goiás tem cumprido as determinações judiciais e restabelecido a ordem em todos os casos que ocorrem.


Mentes doentias pregam a balbúrdia e a incitação da violência como forma de sobrepor à grande parcela da sociedade que trabalha muito, paga impostos, gera empregos e riquezas para a nação, respeita as leis e vem conquistando reconhecimento internacional graças ao suor e perseverança.


A FAEG repudia com veemência, toda forma de violência contra os produtores rurais e a sociedade, e estará tomando todas as medidas administrativas e judiciais para impedir que atitudes dessa natureza sejam levadas a efeito. Conclamamos a sociedade em geral para ficar unida, atenta e vigilante nestes momentos difíceis, e não nos intimidaremos perante tamanha agressão.

 

Confiamos em nossas Instituições, nas leis vigentes e na força das pessoas de bem, que trabalham de forma honesta, construindo o País do respeito e dignidade.

 JOSÉ MÁRIO SCHREINER

Presidente da FAEG

 

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) &

 Ricardo Heise (@boi_invest),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS: boicom20@gmail.com

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