O preço do boi vai “sair da mão” dos frigoríficos até o final do ano?

Por em 18 de outubro de 2015

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

 

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #187, de 18 a 24/out/15)

Aos que carregam o “pó da viagem”,

 

A pergunta que se vale de título deste interessa muito para você, amigo pecuarista, tenho certeza. No jargão de mercado, a expressão “sair da mão” se refere àquela situação em que a indústria não consegue impedir altas sucessivas dia após dia. E aí, vira “passageiro” na evolução do preço da arroba. Fica sentada do lado direito da direção do mercado.

Responderemos a esta pergunta no decorrer do texto. Mas, antes, permita-me: para aguçar ainda mais a sua atenção, pergunto-te:

*Você se preocupa com queda de preços? Obs.: lógico que preços são importantes, mas não são 100% determinantes para o êxito da sua vida financeira. Concorda? Ou não?

*Com quem está a “batata quente” da cadeia pecuária? Obs.: a “batata quente” se refere a qual elo da cadeia pecuária estaria com perda de margem operacional.

Vamos às respostas? Adiante!

 

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Está até chato dizer, mas o indicador não abandonou a estabilidade com viés positivo (de curta extensão). Nossa baliza mestre, o indicador Esalq/BMF, partiu de R$ 147,00/@ (variando de R$ 146,50 a R$ 148) e aterrissou no R$ 147,12/@ (variando de R$ 146 a R$ 148), base SP, à vista. Paradinho feito “zóio de santo”, portanto.

No final da semana, o mercadão físico paulista girava entre o R$ 145 a R$ 148/@ à vista, enquanto que no MS, a “terra da guavira”, o R$ 138 até 139/@ ap foram os preços mais comuns (escala do MS está para 23/out, no geral).

Em termos de escala, houve o que chamamos de “boca de jacaré”, pois há empresas que precisam de boi para o dia 21/out (próxima quarta), enquanto outras precisam apenas para o dia 03/nov (indústrias com mais boi de contrato). O “DIA D” segue na segunda, dia 26/out, o que deixa o placar em 6 dias (entre o acordo da venda e o dia do abate).

O STATUS DO BEEFRADAR não sofreu alterações:

25% queda (leve) : 50% estabilidade : 25% para alta (leve)

 

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Na semana passada falávamos numa tentativa de o balcão em GO ser baixado para o R$ 137/@ ap. Tínhamos dúvidas do êxito deste movimento e, de fato, o balcão mais comum ainda é o R$ 138/@ ap, com sobrepreços “personalitè” de R$ 1 ou R$ 2/@, vistos com razoável frequência.

As escalas seguem com relativa folga, entre 23/out (sexta) a 28/out (próxima quarta).

Quem não “guentou” de saudade e resolver voltar, foi o diferencial de base de R$ 10/@, que teima em não cair, impedindo uma alta mais forte na entressafra do boi goiano. Em compensação, o deságio das fêmeas, permanece nos confortáveis 5%.

 

3) HORA DO QUILO: quem cai primeiro? O Cunha, a Dilma, o Dolar, o Boi ou a chuva? De fato, o El Niño deste ano está se tornando importante. Vai fazer água “cair para valer” no sul do País (como de fato já está fazendo) e em compensação, no sudeste, no centro-oeste, no norte e no nordeste do Brasil só haverão chuvas volumosas e gerais à partir de novembro. A safra de capim vai atrasar. O plantio da soja está arriscado para quem já colocou a plantadeira para rodar. O nosso verão será de extremos. Por ora, quem está no estremo é a temperatura…

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: estávamos numa conversa sobre o estresse antes do abate no BeefRadar nesta semana. Lembrei-me de uma frase interessante: “o cio entra pela boca”, frase de autoria incerta. Se o cio entra pela boca, o estresse começa com a mão de obra. Ou seja, a reprodução da fêmea usa o paladar. Já o estresse pré-abate, não economiza nos sentidos e usa os outros 4 restantes (visão, audição, olfato e tato). É, portanto, a “anomalia dos 4 sentidos”. Faz sentido? Em tempo, o animal estressando antes do abate, é o que produz uma carne com pH 5.9 acima (carne escura, chamada de “dark cutting beef”, ou DCB, ou ainda “carne goiabada”, como é popularmente chamada pelos açougueiros). Um problema sério para o nosso consumidor e para quem exporta. Veja as fotos, de autoria do Prof. Pedro de Felício:

20151018 - goiaba

5) FOTO DA SEMANA:

  1. Foto de Márcio Lupatini, Fazenda Canabrava, Vila Rica-MT. O nome da foto é o “pó da viagem”:

20151018 - pó da viagem

  1. Foto de Lucas Lieberknecht, Agropecuária Porongos, Santa Bárbara do Sul, RS:

20151018 - foto rs

  1. Foto de Rogério Lima, de Goiânia, lembrando-nos que a safra do pequi (e da jabuticaba) já iniciaram. A “goianada está tudo sem cabelo no peito”, assim como eu, numa hora dessas:

20151018 - pequi

6) O LADO “B” DO BOI:

 

6.1.) “O PREÇO DO BOI VAI ‘SAIR DA MÃO’ DO FRIGORÍFICO”

 

Os próximos parágrafos vão tentar dar a nossa visão para a pergunta que dá o título a este NF2R, bem como as outras duas do início dele. Assim, você tem o catalisador para você montar as suas respostas…

Começamos, então, pelos jornais da última sexta-feira. Um prêmio para quem achar alguma notícia boa. Só “trem atravessado”, não é mesmo? Vimos anúncio de pressão sobre o Ministro da Fazenda, inflação acima do esperado, China abaixo do esperado, nova revisão da meta fiscal e por aí vai… O cenário só se deteriora, manchete após manchete.

Isto me chamou a atenção para uma frase de Jim Rogers, sócio de George Soros (dois dos maiores investidores do mundo): “quando o cenário piora e, apesar disso, os preços não caem, é sinal de que podem estar no fundo do poço”.

E o que está ocorrendo com o “bovino brasileiro”? Resp.: justamente isto! Temos o cenário econômico e de demanda interna cada vez pior, mas com uma resiliência de preços jamais vista. Deveremos terminar o ano com uma alta de 11 a 17% em relação ao preço médio de 2014!

A resiliência (ou teimosia) do boi em não cair de preços (independentemente da nossa grave crise atual), caem como uma luva na cabeça do pecuarista, que está “altista” com relação à expectativa da arroba daqui para o final do ano. De fato, a entressafra que estamos passando pode até acentuar ainda mais a forte restrição de oferta, o que permite inferir algo assim. Pensando até aqui, só com base na oferta (a qual tem sido e de fato será) restrita, a conclusão é lógica: o boi vai subir e “sair da mão” do frigorífico.

Mas, as coisas não são tão simples assim, muitas vezes. Os preços podem de fato estar no fundo do poço, mas desconfiamos que este poço não tenha mola para fazer o bovino dar mais um pulo. Ou seja, ele pode até não cair (como não cairá no curto prazo em nossa opinião), ficando imune à crise brasileira, mas outra coisa é subir.

O nos faz pensar assim é que o atual nível de preços não pode ser considerado como baixo. Em segundo lugar, o panorama setorial da indústria frigorífica atualmente não é de crescimento, mas sim, de manutenção da sua margem operacional. Segundo algumas fontes, a indústria não irá titubear em fechar mais plantas de abate, caso os bois raleiem mais ainda daqui até o final do ano (esta semana duas plantas frigoríficas foram fechadas, uma em SP e outra em GO).

Este fechamento de plantas, ocorrido no T2 e no T3 de 2015, foi, nada mais que a adequação da produção, ajustando-a ao nível de redução de demanda que vivenciamos (para quem acha que não temos redução de demanda atualmente, basta ver o que ocorre num supermercado que corta os preços pela metade, numa data comemorativa: http://economia.uol.com.br/album/2015/10/16/supermercado-corta-precos-pela-metade-e-multidao-invade-lojas-no-rio.htm?abrefoto=6).

Esta adequação da oferta de carne (via redução dos abates) permitiu que os frigoríficos recuperassem (com folga) as margens de 2014 e de 2013, épocas em que o País crescia mais e tinha menos inflação. Em alguns momentos, como atualmente, o atacado tem condições de ter firmeza de preços ou até de alta, mesmo que a condição de demanda sinalize que o caminho seja na direção oposta. Até o varejo se beneficiou com isto e recuperou níveis de margens superiores aos anos citados acima.

Os frigoríficos estão fazendo igual as incorporadoras de apartamento, que lançam poucos empreendimentos, mas os vendem melhor. Os frigoríficos abatem pouco, mas vendem mais caro a carne.

A exportação segue ainda como uma boa esperança, reacendida pelo atingimento dos níveis embarcados em set/15, que pela primeira vez no ano, foram superiores aos níveis exportados do mesmo período de ano anterior. Quiçá, em 2016, teremos enormes melhorias, o que pode ser motivado pela China, que mesmo crescendo menos que outrora, é um oásis de potencial medonho, mesmo que haja pressão de preço em dólares. Mantemos boas expectativas quando à exportação. Mas isto é mais para 2016 do que para 2015…

O fato de estarmos no fundo do poço (ou seja, de não prevermos quedas de preços no nosso radar de curto-médio prazo), mesmo com o cenário de queda de demanda, já é por si uma excelente notícia.

Quem sabe a mola propulsora do fundo do poço aparecerá no primeiro trimestre de 2016, com o start das exportações fortalecidas e a enorme falta de bois de pasto que imaginamos ser realidade neste breve futuro (ainda mais com o atraso do start da safra de pastagens). Cremos que comprador de boi vai ter que “pisar miudinho” no início do próximo ano…

Mas, estar no fundo do poço (portanto imune a quedas), seria algo para se comemorar mesmo? Mesmo este “fundo de poço” se localizando em um nível bem interessante de preços e ainda assim com alguma “altinha adicional”? Em outras palavras, “preço” é tão importante assim?

Lógico que é um bom indicador, mas qualquer negócio se mantém, se sustenta, com lucro e não com preço. Portanto, não me preocupo demais com preços em queda ou em bom nível. Preocupo-me verdadeiramente com o lucro!!! Lembram-se da frase do Heise no NF2R da semana passada? (O BOM VENDEDOR NÃO É AQUELE QUE VENDE NO MAIOR PREÇO, MAS AQUELE QUE VENDE COM LUCRATIVIDADE”)?

E aí vem o meu maior receio: independente desta manutenção e até leve alta nos preços (a partir de patamares já elevados), estamos vendo o nosso lucro quase desaparecer, o lucro de quem recria e engorda! Afinal de contas, os custos de aquisição da reposição estão nos maiores níveis da história e são de fato os maiores componentes de custos de uma fazenda de engorda! Façam as contas e apertem os cintos! É só fazer a conta!

Quem está pressionado neste momento na cadeia de pecuária de corte é o recriador-invernista. Com ele está a batata quente da queda de margem operacional. A indústria estava segurando esta batata quente até abril-junho/2015, mas a repassou para o elo que a antecede na cadeia da carne bovina. Qual a saída para o engordador? Resp.: aumento de produtividade e gerenciamento de risco. Só assim teremos fôlego para seguir até 2017, ou um pouco mais (ano em que o aumento de oferta de reposição tende a reduzir este problema).

Tudo será assim mesmo? Sei lá. Afinal de contas, só saberemos se este é o fundo do poço dos preços, após termos passado por ele. Até a próxima semana, se Deus assim desejar! Muita saúde e luz até lá! Que não “saia da sua mão” as rédeas da felicidade!

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) &

Ricardo Heise (@boi_invest),

Num trabalho feito a 4 mãos…

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS: boicom20@gmail.com

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

1 Comentário

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.