O mercado físico da arroba no curto prazo: a tempestade perfeita

Por em 2 de maio de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #214, de 01 a 07/maio/16)

 

Aos que carregam o pó da viagem,

 

No sábado (30/abril) à tarde fui a um shopping em Goiânia. Ao ficar em dúvida se compraria ou não um produto, pensei em voz alta, perto da vendedora: “amanhã talvez eu volte aqui, até lá resolvo”. A vendedora prontamente me disse: “Porque você não compra agora mesmo? Amanhã é dia 01/maio, as lojas estarão fechadas, domingo será feriado. É por isto que está todo mundo alegre, amanhã a gente não trabalha. O Sr. não percebeu”?

Fiquei por uma fração de segundos pensando se eu daria uma “ensaboada” daquelas na vendedora… Pensei em perguntar se ela queria trocar de lugar com algum dos 10 milhões de desempregados que estão por aí, Brasil afora. Mas não o fiz, estava com pressa… Me arrependi!

O que aquela moça precisa, justamente, é de trabalho! E o remédio dela, é o mesmo para a turma da pecuária. Explico mais adiante. Antes disto, vamos aos indicadores do mercado.

 

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Completamos a terceira semana de baixa da arroba paulista e a última vez que isto ocorreu, foi praticamente há um ano atrás (15/05/15). Incrivelmente, faz um ano que o indicador Esalq/BMF não caia por três semanas seguidas. Nesta semana, o movimento foi: partimos de R$ 155,98/@ a vista (variando de R$ 153,25 a R$ 159) e descemos até R$ 154,65/@ a vista (variando de R$ 151,50 a R$ 158).

Chama a nossa atenção a resistência que a máxima do intervalo de negociação de preços apresenta para “pegar descendo” a ladeira dos preços. Isto mostra que o movimento de baixa, apesar de real e consistente, não está com “uma mão tão pesada”.

Mas, não se engane: novos recuos são possíveis (45% de chance), muito embora, em nossa visão, nem tanto pela oferta (que aumentou, sem dúvidas frente aos últimos meses), mas sim pela demanda, como veremos adiante e foi ventilado aqui no último NF2R. Ademais, entrou em cena mais um fator baixista: o frio! Ele ainda faz a diferença… Apesar de ele ser mais conhecido do que a “reza do padre-nosso”, a sua chegada ainda faz estrago na valentia do invernista.

O nosso BeefRadar encerrou a semana apontando para o físico entre R$ 152 a R$ 156/@ a vista nas terras paulistas. No MS, o intervalo de negociação mantem-se entre R$ 140 até R$ 143/@ a prazo.

As escalas seguem fluindo, mas não no estilo “caminhão sem freio na baixada”. O pico das escalas ocorreu no meio do mês de abril e agora, temos cerca de 30% a menos de dias agendados. Mas ainda assim, acima do que vimos nos últimos meses.  O DIA D” manteve-se na sexta-feira (dia 06), variando entre 05 e 10/maio (placar em 3.5d – Referência Haitong).

O STATUS DO BEEFRADAR mantem-se inalterado:

45% queda : 45% estabilidade : 10% alta

 

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Após 10 anos vivendo em GO, quase ¼ da minha vida, acho que virei mesmo goiano, com muito orgulho: nem casaco de frio em tenho. E a “nossa turma”, quando encontra o frio não tem jeito: fica com “mais medo do que cascudo atravessando galinheiro”. Desta sorte, o físico de GO, sentiu o golpe e agora aponta para o intervalo de R$ 135 a R$ 136/@ a prazo para o boi comum, com ágio EU de R$ 2 a 3/@ e “personnalité” (sobre preço) praticamente inexistente.

O maior motivador foi o estrondoso avanço das escalas que estão com mais de uma semana fechada, no mínimo. O agendamento está entre o dia 10 a 18/maio, “bombado” pelos bois de contrato das escalas.

Por fim, mais duas notícias ruins, para azedar o pequi do GO: o diferencial de base atingiu pela primeira vez na história R$ 20/@, fechando a semana com a inimaginável marca de -R$19,67/@. Até onde vai? E o deságio da arroba de vaca em relação ao macho indica cada vez mais uma tendência de que estaria iniciando um movimento de abertura, embora ainda timidamente, fechando a semana entre 5.5 a 6% (um amigo notou o mesmo em MG).

 

3) HORA DO QUILO: direto do Rally da Pecuária, nosso General Maurício Palma nos manda as seguintes informações: “Com 8.730 km cobertos, equipe 3 chega ao final. Foram 28 visitas em propriedades rurais e 83 pastos amostrados. Ao todo, 390 produtores nos eventos e 168 questionários coletados.Amanhã, a equipe 4 dá a largada em Dourados (MS). Participe do Rally da Pecuária, respondendo ao questionário pelo nosso site. Com isso, terá acesso ao relatório e concorrerá a uma viagem para um trecho, com as despesas pagas, na edição 2017. Interessados, podem responder a pesquisa aqui: https://docs.google.com/forms/d/1UHQkblsFRM66uVyu4mSzCvMFb6aaNQkHgqsx3PPGZ_c/viewform. No dia 06/maio, o Rally apresentará seus eventos em Goiânia, às 18h, dentro da FAEG: imperdível!

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: as propriedades rurais na sua esmagadora maioria são um negócio familiar, dos mais complexos. Vemos que grandes patrimônios familiares estão expostos atualmente ao desafio da sucessão familiar, com um grave problema: pouquíssimos estão, de fato, preparados para esta empreita. Já pensou em investir um pouco do seu tempo no assunto? Está aqui uma oportunidade imperdível: http://sucessaointeligente.com.br/semana-da-sucessao

 

5) BOITOGRAFIAS DA SEMANA:

 

5.1) CNA JOVEM: foto do nosso amigo Rafael Gratão, destacando a equipe composta de 27 jovens do MS em treinamento no Programa CNA Jovem. Um belo exemplo a ser seguido:

20160501 - CNA JOVEM

5.2) EVENTO 4X4: Maurício Garcia, no seu evento em Chapadão do Céu – GO fará mostra de animais Brangus SAGA e também oferecerá três palestras técnicas, além de um churrasco com uma novilha engordada a pasto e devidamente trabalhada pelo mestre churrasqueiro Arildo Flores. Veja os detalhes:

20160501 - SAGA

5.3) POR DO SOL: sob as lentes do nosso xará Rodrigo Spengler, em Rio Verde-MS. Simplesmente uma obra divina:

20160501 - POR DO SOL

 

6) O LADO “B” DO BOI – A TEMPESTADE PERFEITA

Vamos parar, deixar a correria de lado e pensar um pouco: tudo que é bom para elevar o preço da arroba, está enfraquecido, ao passo que todos os fatores baixistas, encontram-se em ebulição neste momento. É o que chamamos de tempestade perfeita. Vejamos:

  • Vacinação: na última semana, às vésperas da vacina, a pressão de vendas normalmente aumenta, seja pela vontade do produtor economizar, seja por antecipar a venda que em geral cai nos primeiros dias da campanha da etapa de vacinação (isto atinge tanto a reposição, quanto o gado gordo);
  • Clima: além dos problemas de falta de chuva, desde a última terça, convivemos com temperaturas bem mais baixas do que normalmente temos visto no outono. O frio trouxe até um pouco da chuva que estava em falta, mas contribui para a drástica redução da capacidade de suporte das pastagens, o que empurra o produtor (de reposição e de gado gordo) para a venda;
  • Dólar: vem rodando a vários dias bem mais abaixo dos meses anteriores, com pregões nesta última semana abaixo de 3.50, o que diminui a competitividade da nossa venda externa;
  • Reposição: está enfraquecida, o que é, obviamente, um fato ruim para quem vende animais desmamados ou recriados, mas também representa um efeito deletério no animal acabado, ao reduzir a resistência do invernista em vender por um valor um pouco menor. Isto ocorre porque o invernista pode manter a sua relação de troca, pelo efeito compensatório da reposição menos “salgada”. Portanto, a reposição em queda (de 5 a 7% ou de R$ 100 a R$ 150/cab, frente aos valores correntes vistos até então) costuma ser mais um fator de arrefecimento da arroba;
  • Milho: no seu atual cenário de preços altos, dificulta a suplementação mais arrojada como forma de terminação dos animais, ou mesmo como forma de complementar o pasto que falta (pela estiagem e pelo frio). Muito utilizado nos dois últimos anos, esta ferramenta tem atualmente seu uso mais limitado, contribuindo também para o enfraquecimento da arroba e da reposição, pois o invernista agora não tem mais esta “porteira” de saída;
  • Confinamento: este sistema de alimentação, agora potencialmente com menor margem de lucratividade (muito em função do milho), deixa o mercado de reposição mais frouxo, notadamente das categorias mais eradas. Tampouco representa uma alternativa consistente para alívio de pastagens de modo geral. Em resumo: mais frouxidão no físico. Obs.: ainda há alternativas de engorda terceirizada com potencial de resultado financeiro interessante, mas a maioria do público pecuário desconhece, infelizmente;
  • Bolsa de valores: tivemos uma semana de quedas, principalmente para o mês de maio, refletindo o atual cenário de pressão no físico. Entretanto, o mês de outubro, a entressafra, até então poupada desta pressão, nesta última semana também foi atingida, conferindo um tom adicional de incerteza quanto aos preços futuros e, consequentemente, retirando mais resistência do mercado físico;
  • Deságio da arroba de fêmeas: inicia uma sinalização que pode aumentar um pouco, ajudando na “esfriada” do preço do boi gordo;
  • Diferencial de base: já bastante discutido aqui, por vários motivos, está contribuindo para o enfraquecimento dos preços das praças pecuárias, notadamente do Brasil Central (em GO, por exemplo, há um ano, o deságio da arroba goiana era de aproximadamente 6%, enquanto que hoje “beira” os 13%);
  • Oferta de gado acabado de final de safra de pasto: é inegável que pela primeira vez desde o ajuste de produção feito pela indústria em junho do ano passado, estamos oferecendo ao mercado comprador de carne, uma produção em alta, como por exemplo em GO. O real impacto disto, num volume de abate menor, ainda é incerto, mas com certeza nebuloso no curto prazo;
  • Exportação: foi fundamental no primeiro trimestre deste ano, quando alcançava volumes muito acima dos vistos em 2015 (fato fundamental para o escoamento da produção de carne e consequente sustentação interna de preços). Entretanto, em abril, houve queda de aproximadamente 25% na comparação MoM (abril x março), pois os volumes embarcados ficaram pela primeira vez em 2016, no mesmo nível de 2015 (volumes muito reduzidos). Certamente o dólar menos valorizado citado acima teve impacto aqui;
  • Demanda do mercado interno: este é o ponto que mais nos preocupa e que reflete com exatidão a fragilidade da nossa economia. Pela primeira vez em 2016, o relatório Focus do Banco Central prevê que a recessão deste ano será maior que a de 2015 (-3.88, maior que os -3.80 de 2015). Em 20/12/2015, postamos aqui: “será que em 2016, teremos saudades de 2015”? Infeliz nos parece ser esta frase uma sentença de nosso destino… Com a deterioração cada vez maior da economia, desde o início de abril o atacado da carne bovina caiu 4.1%. Neste mesmo período, a arroba caiu 2.1%. Portanto, mesmo com a arroba em queda, a margem operacional dos frigoríficos vem piorando (medida pelos índices da Scot Consultoria, a margem operacional da última semana foi menor que a média do primeiro semestre do ano passado, um período negro para a indústria). Qual o problema disto? A história nos mostra que neste cenário, mais pressão sobre o físico é comum de ocorrer, independentemente do nível de oferta. No NF2R da semana passada, relativizamos a questão de oferta maior neste final de safra, mas ressaltamos a questão de margem operacional dos frigoríficos, a qual é ligada à demanda: “o fiel da balança deve voltar a ser a ponta final da cadeia pecuária”! Infelizmente, é o que está ocorrendo.

 

Bom, mas é daí? O que fazer? Vamos ficar “chiando igual a uma locomotiva no cio”? Não… Quando se tem um problema, aparentemente com poucas saídas (tal como o mercado de curto prazo da arroba do curto prazo), há algumas coisas a se fazer, sim! Recomendamos:

 

  1. Caso tenha animais para vender, e possa segurá-los, analise as questões técnicas e financeiras desta opção. Havendo viabilidade de ambas, esta é a nossa recomendação;
  2. Caso tenha mesmo que vender animais, faça em conta-gotas e sobretudo use esta “esfrega” (venda a um valor de arroba mais baixo) como aprendizado para as próximas boiadas (é o tal: “sempre esqueça o erro, jamais a lição”);
  3. Ignore a “tempestade perfeita” e vá fazer coisas que te agrade e te distraia, como engordar o bovino, como trabalhar. Diferentemente das “moças de shopping”, o trabalho é alegria para nós! Ao se distrair, que para nós significa trabalhar em busca da eficiência, você perceberá, que de repente, a tempestade vai passar (entre junho e julho, deverá haver um novo cenário de tendência para a arroba, bem mais favorável, quiçá antes um pouco).

 

Portanto, “mão à obra”, afinal de contas este último domingo foi o dia do trabalho, dia também em que o Ayrton Senna nos deixou, muito embora o seu legado de ensinamentos continua vivo. Um deles, tem tudo a ver com a “tempestade perfeita” do bovino: “Somos insignificantes. Por mais que você programe a sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar”. Fique tranquilo, a tempestade vai passar, “tudo pode mudar”. Até a próxima semana!

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) &

 Ricardo Heise (@boi_invest),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS: boicom20@gmail.com

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