O futuro pertence a Deus, ao milho e ao nível da sua gestão

Por em 25 de abril de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #213, de 24 a 30/abril/16)

 

Aos que carregam o pó da viagem,

O ditado de domínio popular “o futuro a Deus pertence” ganhou uma nova versão em 2016, para quem confina boi, engorda frango ou cria suínos: “o futuro a Deus (e ao milho) pertence”. Obs.: agradecemos o nosso amigo Manoel Vaz de GO pois a frase do título deste, foi inspirada numa postagem dele no grupo de whatsapp “Agropecuária Goiana”.

Enquanto parte das lavouras do Rio Grande do Sul e da Argentina contam perdas devido ao alto índice de chuvas, boa parte do milho safrinha do centro-sul do Brasil está comprometida, justamente pela falta delas. Discute-se apenas o percentual de perdas, pois não resta dúvidas que estas haverão e em grande monta. O cenário descrito no último NF2R só piorou!

Se o futuro é opaco e incerto, cabe a nós dedicarmos então ao presente! E nada melhor que a “luneta” dos números para clarear a nossa visão. Vejamos na sequência…

 

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

O movimento de baixa tomou corpo e fez o Indicador de SP, durante a semana passada, sair de R$ 157,50/@ a vista (variando de R$ 155,50 a R$ 159,25) e descer até R$ 155,98/@ a vista (variando de R$ 153,25 a R$ 159), de acordo com a previsão do nosso indicador, o BeefRadar.

O intervalo de preços perdeu a sustentação da mínima, fato que é típico do início dos movimentos de baixa da arroba. Na última sexta-feira, o mercado físico paulista apresentava negócios entre R$ 153 a R$ 157/@ a vista. A baixa também foi detectada no MS, a “terra da guavira”, pois o intervalo de negociação mais comum para a arroba sul mato-grossense passou a ser entre R$ 140 até R$ 143/@ a prazo.

Um alento importante: as escalas paulistas não evoluíram bem, terminando a semana mais curtas do que finalizaram a anterior. Como dissemos aqui no último NF2R, “não acreditamos numa avalanche de bois”, desta forma, no recuo, uma venda menor é normal. Além disto, houve menos vendedores ativos em função do feriado, que atrapalha o fluxo natural dos negócios da semana. No “secar do bagaço”, finalizamos a semana com o DIA D” recuando para a sexta-feira (dia 29), e escalas variando entre 27/abril a 02/maio (placar em 4.5d – Haitong).

O STATUS DO BEEFRADAR iguala a probabilidade de ocorrência de queda com a de estabilidade, para esta semana, em função das escalas descritas acima:

45% queda : 45% estabilidade : 10% alta

 

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

No início da semana, foram vistas tentativas de compra de até R$ 137/@, o que derrubaria o boi em mais R$ 1/@ o intervalo de negociação do último NF2R, mas elas não prosperaram, de modo que no encerramento da semana voltamos a ter como padrão de balcão o intervalor entre R$ 138 a R$ 140/@ a prazo para o boi comum, com ágio EU de R$ 2 a 3/@ e “personnalité” (sobre preço) quase inexistente.

Na mesma linha que SP, as escalas não mostraram “aquela fluidez” e patinaram, permanecendo estacionadas nos mesmos dias em que foram citadas pela compra de boi no início da semana. Em geral, estão entre 03 a 06/maio, com um pouco mais de facilidade para o boi não EU. O boi EU “anda” mesmo bem mais escasso.

Quem não para de dar notícia ruim é o diferencial de base: -R$ 18,56/@, média semanal recorde histórico de minhas anotações. A vaca parece querer abrir o diferencial frente ao macho, mas nada ainda muito consistente (deságio médio semanal ficou em -5.4%).

 

3) HORA DO QUILO: o assunto aqui é a nossa maior preocupação e ele tem tudo a ver com o preço da arroba de boi nos próximos meses, apesar de estar bem longe da porteira de sua fazenda… Veja no link a seguir: http://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2016/04/20/pnad-trimestre-ate-fevereiro.htm. Os números impressionam: alta de 40,1% no número de desempregados comparando o trimestre dez-fev de agora com o do ano passado; pela primeira vez, o indicador de desemprego atingiu dois dígitos; pela primeira veza iniciativa privada emprega menos de 50% dos trabalhadores; nota-se aumento de trabalho próprio; desemprego de março/2016 é o pior em 25 anos; nos últimos 10 meses a taxa de demissões superou a de admissões; são ao todo 10 milhões de brasileiros procurando emprego… Falaremos disto mais adiante, ainda neste NF2R.

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: uma das piores notícias dos últimos meses: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/04/1762339-sem-verba-ibge-adia-censo-agropecuario-e-cancela-concurso.shtml. Um país que não sabe (e pelo jeito não quer saber) os números de sua agropecuária, mesmo sendo esta, a atividade de melhor performance econômica durante a maior crise da sua história, não pode estar no “rumo certo”… Infelizmente. Vamos corrigir a rota do destino desta nação!

 

5) O FUTURO A DEUS (E AO MILHO) PERTENCE

 

Durante a última semana, algumas coisas chamaram a nossa atenção e de certa forma, o cenário vai clareando um pouco, na mesma linha que descrevemos na semana passada, mas com uma boa notícia que verá abaixo. Ainda que não seja uma realidade confortável, identificá-la já é alguma coisa… Vejamos:

*o dólar teve uma semana relativamente calma, sem fortes quedas, mostrando que o mercado já tinha se antecipado à decisão da Câmara do Deputados do último domingo. Por um lado, isto foi bom porque estamos tendo neste mês de abril um dólar mais fraco (3.50 a 3.60) e também tendo a média exportada de carne bovina consistentemente abaixo da performance vista no primeiro trimestre do ano (ao invés de aumentos da ordem de 30%, projeta-se uma ligeira queda em relação ao ano passado e uma queda de 25 a 30% em relação ao mês de mar/16). Será que este dólar mais fraco derrubará nossa exportação? Tomara que não!

*o car voltou a ser notícia: recebi uma ligação de um frigorífico dizendo que não abateria mais animais de fazendas sem o documento ambiental a partir de 05/maio. Em seguida, saíram notícias que geraram confusão, pois davam conta de que o CAR teria sido prorrogado, mas isto não é verdade… A Comissão Especial que analisa o CAR aparentemente deverá pedir a sua prorrogação (MP 707 foi Aprovada na Comissão e prorroga o CAR para a 31/12/2017), mas isto deve passar em plenário, o que de fato não ocorreu e dificilmente ocorrerá até a próxima quinta-feira (05/maio). O fato é: quem não tem CAR, poderá não conseguir abater animais de 06/maio em diante, o que é um problema para regiões de menor nível de profissionalismo. Isto poderá refletir no mercado nos próximos dias.

*o clima não sai da mídia: os piores cenários para a chuva do outono se concretizaram em função do enfraquecimento do El Niño, atualmente em fase de transição para o La Niña. Enquanto isto, na Argentina e no RS, o excesso de chuvas é quem causa estragos. Nas regiões que estão secas, é possível que haja algum retorno das precipitações nas próximas semanas, mas elas serão no máximo dentro da normalidade, ou seja: totalmente escassas. Os bloqueios atmosféricos continuam impedindo a chuva no Brasil central e provocando altas temperaturas, deixando a safrinha de milho em situação mais do que crítica. Resta saber o percentual de perdas, mas elas serão altas em regiões tradicionais como o sudoeste de GO, MS, MG e SP (entre 30 a 100%). No PR e em algumas partes do MT as lavouras estão ao menos parcialmente estabelecidas. Na segunda metade do outono, teremos o Centro-Oeste do Brasil com chuvas abaixo da média e com temperaturas também mais baixas que o normal, com potencial grande para geadas. Estamos em um “abril com cara de junho” ou agosto, para alguns… Nesta sexta-feira, em Campo Grande – MS, havia cheiro de queimada típico de setembro… O filme das severas secas de 2007 e 2010 veem à mente e identificamos como consequências imediatas: perda brutal e repentina do nível de suporte das pastagens e da sustentação do mercado físico do gordo/reposição. O cenário descrito semana passada infelizmente está se confirmando… Quem está secando mais: os pastos ou as tetas do PT?

*reposição pressionada, não homogeneamente: os preços estão sob pressão, mas ainda de maneira heterogênea, tanto em temos de região (algumas regiões estão mais ofertadas e com preços mais pressionados, outras ainda não), quanto em termos de categorias. Os bezerros, de maneira geral seguem com preços mais sustentados que os animais mais erados, notadamente bois magros. São reportadas quedas de preços na faixa de R$ 100 a R$ 150/cab, mais

*analisando a bolsa: a variação entre as duas últimas sextas-feiras mostra uma queda de aproximadamente R$ 0,50/@ para o contrato de maio e uma alta de R$ 0,80/@ para o contrato de out/16. Hum… Ou seja, ninguém quer “bater” na entressafra, fato que é um belo sinal que expõe a força que esta entressafra quase certamente terá, fato potencializado pelo preço recorde do milho e perspectivas absolutamente negras no sentido de oferta do cereal.

*analisando a bolsa (2): outra coisa interessante de se notar é que devido a abertura dos diferenciais de base (DF) das praças pecuárias, os meses de abril e maio/16, sinalizam para algumas praças (como é o caso de Goiânia), preços em linha ou até nominalmente menores que os de 2015. Sinal de perda forte do valor real da arroba, considerando que temos cerca de 7.0 a 7.5% de inflação prevista para o ano. Resta ressaltar que na média anual, salvo novas mudanças de patamares de DF, a bolsa ainda projeta alta para a arroba em 2016 da ordem de 8.4% para SP (portanto acima da inflação) e apenas de cerca de 5% para muitas praças pecuárias importantes, como Goiânia (portanto abaixo da inflação).

*o ceral dourado, valendo ouro: até onde vai o preço do milho? Como disse o Ricardo Heise: “está igual a cerveja em navio de cruzeiro: quem tem para vender, pode pedir caro, pois não tem alternativa”. E olha que tem gente caçando alternativa… Esta semana li sobre silagem de andropogon e até silagem de abacaxi, esta última como forma de substituir o milho (http://www.portaldbo.com.br/Revista-DBO/Noticias/Silagem-de-abacaxi-e-alternativa-ao-milho-para-confinamento/16162). Mas o abacaxi, quem se tornou mesmo foi o próprio milho! Em algumas regiões simplesmente não haverá safrinha pelo motivo de clima exposto acima. O governo acaba de zerar os impostos para a importação de 1 milhão de ton de milho (http://br.reuters.com/article/idBRKCN0XG2P9) visando atenuar o problema da falta do milho disponível, situação crítica e inédita em nosso País… Jataí em GO, um dos municípios que mais planta milho no Brasil, declarou estado de emergência (http://www.verdevale103.com.br/noticia-1469026734-camara-de-jatai-requer-situacao-de-emergencia). Há avicultores que querem importar milho dos EUA para o Ceará (http://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/milho/172236-milho-dos-eua-e-ofertado-para-granjas-do-ceara-pode-chegar-em-conteineres.html#.VxufVnrf_Mt)! Nesta semana o governo de GO anunciou medidas para sobretaxar a exportação do milho e da soja, infelizmente… As notícias borbulham neste momento e o mercado “opera clima” como diz o jargão do mundo financeiro. Parece que podem haver chuvas nos próximos dias, mas não há esperança de recuperação das lavouras.

 

Trocando tudo isto em miúdos, entendemos que o cenário descrito aqui no NF2R da semana passada vai se confirmando e as próximas quinzenas tem tudo para termos a seguinte combinação: reposição pressionada, boi gordo pressionado (pela perda da sustentação das pastagens) e milho sem previsão de baixa. Até aí, pouca novidade…

A principal mudança que captamos em nosso radar nesta última semana foi um sinal de “fadiga precoce” na pressão do físico de gado para abate. Muito mais precoce do que imaginávamos até então…

Os sinais desta fadiga são: a BMF mantendo firme o mês de outubro/2016 e as tentativas frustradas de quedas adicionais nos preços da arroba vistas nesta semana, além das escalas patinando…

Desta forma, pensamos que a pressão no mercado do boi gordo no final de abril e em maio, pode estar mais relacionada à demanda fraca de carne (tanto no mercado interno, quanto no mercado externo, vide dados da exportação de abril) do que pela oferta de animais prontos.

Em nossa visão, o “olho do furacão” da oferta de gado, turbinado pelo clima seco (e frio que se avizinha), parece já estar passando, ao contrário da piora da demanda de carne, vide os dados do desemprego que expusemos aqui.

Temos agora uma boa sequência para a venda de carne no mercado interno: um feriado seguido de um final de mês e do dia das mães, contrapondo esta exportação decepcionante de abril.

Em resumo: a oferta concentrada de final de pasto parece estar realmente relacionada a clima e já se mostra perdendo força. O fiel da balança deve voltar a ser a ponta final da cadeia pecuária. Este é o ponto importante!

Se extrapolarmos que a alta do milho dificilmente retrocederá consistentemente dado os problemas climáticos da safrinha, o cenário de compra de boi e vaca gorda se mostra como negro para as indústrias para o segundo semestre. O cenário de quem engorda também, pois não temos mais pasto e os custos do confinamento estão aviltantes em função do milho. Da mesma sorte, o elo da cria/recria, cada vez mais sinaliza que inicia um ciclo de preços pressionados…

E aí? Desanimai-vos??? Não!!! Em todos os elos da cadeia pecuária vemos a mesma situação (estreitamento de margens) e a saída que indicamos é a mesma para todos os elos: são cada vez mais necessárias melhorias dos indicadores de gestão (produtiva, comercial, administrativa e financeira) das atividades pecuárias! O seu futuro depende disto…

Portanto, como está no título deste, além de Deus (sempre em primeiro lugar), o nosso futuro pertence ao milho (no curto prazo) e ao nível de sua gestão (no médio e longo prazo). Mãos à obra! Desanimar, jamais!!!

Nossos fundamentos econômicos não estão sólidos, sabemos disto e inclusive, como está acima, o fato está atingindo a nossa cadeia. Não somos inocentes, nem ignoramos isto. Mas o que determina o nosso fôlego sobre os negócios não são os fundamentos econômicos. O verdadeiro fundamento é “a percepção da realidade, e expectativa sobre ela”, como nos ensinou a Empiricus nesta semana.

Que o sopro de uma melhor expectativa sobre o futuro, vindo do início de uma longa e árdua caminhada em direção à uma maior dignidade em nosso País, sopro este que flamulou nossas esperanças com o passo dado no domingo passado, possa nos encher de ânimo. Este insumo é mais do que necessário para enfrentar os próximos meses de 2016! Para quem flertava com o abismo, isto já nos basta! Até a próxima semana!

 

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) &

 Ricardo Heise (@boi_invest),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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