Boi gordo segue seu vôo de beija-flor nas alturas

Por em 25 de janeiro de 2015

NOTÍCIAS DO FRONT

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

 (Edição #149, de 25 a 31/JAN/15)

Companheiros de lida,

Chegamos à última semana de janeiro, praticamente do mesmo modo que iniciamos este ano. A escala de boi já rompeu o primeiro mês do ano, enquanto isto, o boi segue parado lá em cima… Vejamos o porquê… Uma dica: tem a ver com a situação da famosa lei de oferta e demanda.

 20150125 - beijaflor

1)      COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Saímos  na última segunda-feira com o indicador em 142,67 (variando de R$ 141,50 a R$ 145,50) e chegamos em 142,92 (variando de R$ 141 a R$ 145) nesta sexta passada. Uma perda de R$ 0,50 na mínima e na máxima, mas que pela concentração de negócios na parte de cima do intervalo, houve uma leve alta do preço semanal, interrompendo a sequência de duas semanas em queda, que vinha ocorrendo até então. Devemos continuar com o cenário de estabilidade/leves quedas, apontado aqui a algumas semanas.

Com relação ao mercado físico paulista da última sexta-feira, de maneira idêntica à semana passada, o valor comum é de R$ 142 (frigoríficos grandes) a R$ 145 (pequenos), à vista, mas surgem tentativas (por ora ineficazes) de implantar preços menores (R$  141/@ ap). Na “terra do tereré”, o MS, o mercado trabalha com o R$ 138/@, ap.

Quanto às escalas, também seguem sem alteração, estando de maneira geral na segunda 02/fev, ou seja: “DIA D” na SEGUNDA (02/fev) e o PLACAR médio de 5 dias úteis (entre o dia do acordo da venda e o do abate). Desta forma, o STATUS DO BEEFRADAR continua em:

45% queda (leve) : 45% estabilidade : 10% para alta (leve)

2)      E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

O preço da semana passada, que é o R$ 135av x R$ 137ap continua, mas com variação de R$ 1 para cima ou para baixo (de acordo com a indústria), além do bônus EU de +R$2/@.

Tudo parado, portanto, igual ao mercado paulista, inclusive por conta das escalas, que seguem para a segunda, dia 02/fev, na maioria dos casos. Até o diferencial de base com SP congelou próximo de -R$ 7/@.

Aparentemente, a maior alteração é o preço da fêmea, que parece assumir a tendência de ficar mais longe do preço do macho, pela primeira vez alcançando o deságio de 6%, ocorrido nesta sexta. Vamos acompanhar, mas indica o início da entrega de animais de pasto realmente. Vi oferta de picanha com gordura amarela em gôndola de supermercado neste final de semana, o que é típico de animais terminados à pasto.

3)      HORA DO QUILO: A crise hídrica de SP trás a tona a discussão: a cidade é ambientalmente insustentável? Quem é o responsável, São Pedro ou o poder público? Há quem diga que a cidade deveria ter parado de crescer a muito tempo atrás. Isto foi dito pelo então prefeito Figueiredo Ferraz, que foi deposto do cargo pela ditadura, pois naquela época, isto era um verdadeiro absurdo com a “menina dos olhos” da indústria… Será que ele estava errado? SP deveria ter parado de crescer? Obviamente isto escancara o caos que é o planejamento público, pois já tivemos seca como esta em 1970. Veja o projeto que este visionário fez a muitas décadas atrás, na Avenida mais famosa do País: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/11/06/com-ciclovia-em-estudo-avenida-paulista-ja-teve-obra-para-virar-calcadao.htm

4)      TO BEEF OR NOT TO BEEF: a discussão está chegando. Prepare-se para ser questionado: água x agropecuária… Veja:

FECHE A TORNEIRA DO AGRONEGÓCIO: Em nível mundial, o agronegócio consome 70% da água, enquanto a indústria e mineração consomem 12% e, para nosso consumo direto é destinado apenas 4% dos recursos hídricos. O agronegócio faz uso intensivo de água com o sistema de irrigação, que promove um grande desperdício. Além disso, a super utilização de fertilizantes e agrotóxicos contaminam rios e lençóis freáticos. O agronegócio é, portanto, um dos grandes responsáveis pela crise da água no País. E não é o grande responsável por nossa alimentação, pois é voltado para exportação. Segundo o governo federal, é a agricultura familiar que leva 70% dos alimentos à mesa dos brasileiros e que promove 80% dos trabalhos no campo. Para preservar nossa água e garantir nossa soberania alimentar precisamos fortalecer a agricultura familiar e adotar outras medidas: substituir o uso de agrotóxicos e pesticidas por fertilizantes, compostos e matéria orgânica, fazendo com que a água, o ar e os solos não sejam contaminados; utilizar a micro-irrigação para fazer uso racional da água e evitar o desperdício e implementar sistemas de armazenamento de água da chuva. Fonte: PNUD – ONU | Ministério do Desenvolvimento Agrário  (‪#‎EquipeMarceloFreixo)

5)      O LADO “B” DO BOI:

5.1. AS MANCHETES ANTECIPADAS…

Falamos na dupla carne e energia no domingo passado… O título do “Notícias do Front” passado antecipou várias manchetes desta última semana. Veja uma delas, ligadas à carne: https://www.facebook.com/radiocbn/posts/849783911734655

Também estava na cara que ia ocorrer um problema de energia, pois vivemos num país com reservatórios que estão em níveis críticos e que tem uma matriz energética altamente dependente de hidroelétricas. No domingo passado, escrevemos: “é bem provável de que 2015/2016 seja um ano com problemas seríssimos de falta de energia. E olha que a demanda industrial, um consumidor em volume, está em baixa. Infelizmente, tudo indica que teremos problema não só de qualidade (já vivenciado atualmente em níveis inéditos, mesmo em SP), mas também de disponibilidade”.

Infelizmente, estourou o primeiro problema no decorrer da semana passada… Apagão em boa parte do País, com dólar subindo e bolsa caindo… Tudo isto foi destaque na mídia.

Falamos também da dificuldade dos economistas e dos climatologistas em se prever os rumos de ambos, economia e clima. A manchete do dia seguinte ao Front nos confirmou: http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/01/19/analistas-consultados-pelo-bc-nao-acertam-previsoes-do-pib-desde-2008.htm

Em resumo, este pano de fundo de economia e clima são “drivers” que podem nortear os rumos do preço do boi neste ano, de maneira consistente.

5.2. A DEMANDA NÃO ESTÁ INDO BEM…

A demanda está intimamente ligada à economia e do ponto de vista interno, começaram as ações que a Dilma disse que só a oposição ia fazer, mas que ela (sabiamente) pelo menos sinaliza que vai fazer. O primeiro pacote do Ministro Levy saiu aumentando tributos de importação, de crédito e de combustíveis. O nosso PIB foi previsto pelo FMI em 0,3% nesta semana.

O esperado “desafio maior” para o consumo interno da carne começa e se escancara com as vendas fracas de carne que os frigoríficos estão sentido neste meio de mês. Já ocorreu postergação de abates em função de acumulo de carnes nas câmaras frias e frigorífico “socando” carne de R$ 8,20/kg (boi casado) no mercado, para desovar produção. Vamos ver se com a volta às aulas, que ocorrerá agora, algo melhor nas vendas no varejo.

No final de out/14 atingimos os menores níveis dos indicadores de margens dos frigoríficos e já começamos o ano muito próximo dos mesmos valores. Já ocorre diminuição de abates e maior resistência por parte das indústrias na hora da negociação…

Do ponto de vista externo, o primeiro trimestre deve ser bem desafiador, apesar de a ABIEC estar prevendo aumento de aproximadamente 10% no montante arrecado com vendas externas para o ano de 2015. Vamos ver… Saiu um dado importante esta semana, que é a China ter crescido o menor índice dos últimos 24 anos (7,4% em 2014). Olho atento.

Em resumo, o título do último texto do Front de 2014, que foi “piora a perspectiva da demanda”, vai se confirmando, infelizmente e fica mais claro ainda no link: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/01/1579956-pib-pode-afundar-mais-de-1-neste-ano-e-empurrar-economia-para-recessao.shtml

5.3. A OFERTA NÃO DESLANCHA…

Se do lado do consumo, as nuvens negras se aproximam, do lado da oferta, a coisa parece não “enleirar para o lado do desmantelo” de preços.

Numa país que abate 90% de seu gado proveniente de pasto, o clima tem que ser colocado em primeiro plano… Pois dele depende o pasto.

Obviamente, é possível, no curto prazo estarmos com alguma venda antecipada em função das preocupações com a safra de pastagem, principalmente nos estados de MG e GO. Aliviar pastos neste momento é importante e necessário. A produção do capim deu uma parada forte. Quem tem pasto rotacionado, sistema intensivo, já teve que aliviar a carga dos pastos em pelo menos uns 40%… Alguma entrada de animais para confinamento de maneira antecipada também é bem possível. Uma certa fraqueza do produtor em negociar pode ocorrer neste momento (dependendo do nível do aperto de cada um). Isto pode “pingar” também na reposição, o que por agora, não está acontecendo…

Além do pasto, é fato que a chuva mudou drasticamente a safra da agricultura 2014/2015, mas de maneira heterogênea, pois estados como SP, MG, BA, PI, MA e GO estão sofrendo com verão menos chuvoso, enquanto estados do sul, MS, MT e TO estão indo bem.

São esperadas quebras da 1ª safra nestes estados citados (GO espera quebra de soja de 15%, segundo uma conversa que tive com a FAEG) e pode ocorrer diminuição do plantio do milho safrinha. Caso a baixa pluviosidade continue em abril/maio, pode haver comprometimento também da produtividade da segunda safra. O que é quase certo é uma queda da margem do lavourista este ano.

Olha o tamanho do problema das grandes cidades, com relação à água, regiões metropolitanas que abrigam ¼ da população do nosso País: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/01/1580032-seca-ja-atinge-5-das-10-maiores-regioes-metropolitanas-do-pais.shtml

As indústrias também estão sendo afetadas, veja a que nível está chegando: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/01/1580053-fabricas-de-sao-paulo-recorrem-ate-a-agua-de-ar-condicionado.shtml

No caso do pasto, o comprometimento da produção de animais gordos é tanto maior, quanto mais intensivo foi o uso do pasto, sendo que deve haver um aumento de consumo de suplementos nutricionais, fato que estamos sentindo já na pele.

Porém, fora os problemas de curto prazo deste verão menos chuvoso, que são baixistas para a arroba, no médio prazo, estes mesmos fatos se apresentam como resistências para a baixa da arroba, justamente por dificultar a produção (lembre-se de que 90% de nosso gado abatido é proveniente de pasto).

E mais uma coisa nos chamou muito a atenção neste momento: o aumento do rebanho do MT (base vacina/2014) veio bem abaixo das expectativas… Vamos provavelmente abordar isto em outro texto após analisar com calma os dados do IMEA, que faz um excelente trabalho.

Qual a conclusão disto tudo? Resp.: a oferta de boi gordo, se não está em um nível suficiente para fazer “derreter” o preço da arroba, já foi pior. Mas não tem perspectiva de deslanchar… A demanda de carne, do nosso passado recente, já foi bem melhor que hoje em função do período de ajustes que estamos vivendo.

Com esta perspectiva de oferta estável no curto prazo / desafiada no médio prazo, combinada com uma demanda desafiada no curto e médio prazo, a consequência mais provável é que seja difícil o boi arrancar de preço ou mesmo derreter demais, por mais que a margem de frigorífico esteja (e realmente está) bem pressionada.

O mercado sinaliza isto. Faz 60 dias que nada ocorre, apenas pouca coisa para cima e para baixo, em termos de preço do arroba. A média do indicador de 01/dez/14 até a última sexta é de R$ 143,06/@ à vista, apenas R$ 0,14 a mais que o nosso preço de sexta… Até a BMF entrou na dança da estabilidade, e projeta para maio (pico da safra) um preço apenas R$ 2/@ abaixo do atual…

Porém, lembre-se, isto tudo são previsões… E já nos ensinaram os economistas e os meteorologistas, que previsões são coisas bem difíceis de serem feitas… Portanto, trate de desenhar e implementar sua estratégia comercial para a safra 14/15… O beija flor pode se cansar uma hora…

Uma boa semana para você, sua família e seus empregados. Que você irradie apenas bons valores a quem cruzar o seu caminho nesta semana abençoada que se inicia.

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis)

&

 Ricardo Heise (@boi_invest),

 

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS EM 2015: boicom20@gmail.com

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3 Comments

  1. Josmar Almeida Junior

    26 de janeiro de 2015 at 10:15

    Parabéns pela coluna. Sempre acompanho.

    Economistas e metereologistas são profissionais com uma fé inabalável…kk

    Abraço

  2. Nestor Jardim

    26 de janeiro de 2015 at 12:39

    No item 4 , que está acima, para fazermos uma avaliação correta temos que comparar o que representa cada setor no risco ambiental a simples demonstração numérica sem analisar o que cada numero representa em relação ao meio ambiente nos leva a uma interpretação fictícia. Na minha região se o boi for beber toda água que está a disposição e indo fora para o Prata, vai morrer afogado.

    • Rodrigo Albuquerque

      1 de fevereiro de 2015 at 18:42

      Perfeito. Concordo, mas este questionamento, sem qualidade, vai vir até nós. Temos que estar preparados para responder…

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