O boi gordo reescreve sua história após 1440 longos dias

Por em 25 de outubro de 2014

NOTÍCIAS DO FRONT

A pecuária Goiana e Brasileira em uma visão de curto, médio e longo prazo, descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem” (Edição #138, de 26/OUT/14 a 01/NOV/14)

Companheiros de lida,

A chuva “deu o ar de sua graça” esta semana. Alívio para a temperatura escaldante que vínhamos sentindo. E ânimo para agricultor e pecuarista. Ambos iniciando o plantio. O primeiro jogando semente no chão, já o segundo, soltando o garrote na braquiária.

Sempre fazemos comparações com a aviação. Na aviação, o termo stall é usado quando a aeronave perde sustentação, ou seja, um avião em stall (ou “estolando” no jargão dos aviadores) não está voando, mas sim caindo. O relógio que controla a altitude fica igual a máquina de caça níqueis, girando sem parar…

Na linguagem caipira o “tar” de stall é também visto quando o gavião carrapateiro ataca pintinho no fundo do quintal. Mas, o que isto tem a ver com o bovino? Imaginem um “stall reverso”… Não para baixo, mas para cima…  É o que está ocorrendo. Deu para entender?

20141025 - Altimetro

Você se lembra daquela pergunta da semana passada: “a arroba está em alta, ou em recuperação de preço?” Você se lembra do Tadeu da novela Pantanal? Explicações adiante…

1)      COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Havia considerado a semana retrasada como inédita, mas esta última foi mais ainda. Da mesma forma que a anterior, em todos os cinco dias de mercado houve quebra de recorde de preço (nos últimos 13 fechamentos de mercado ocorreram quebra de recorde).

Mas ocorreu um detalhe importante nesta última semana: na terça, dia 21/out/2014, HOUVE QUEBRA DO RECORDE REAL DE PREÇOS.

Em 11/nov/2010, o boi havia atingido R$ 114,48 av, livre, valor que, deflacionado pelo IGP-DI de set/2014, marca hoje R$ 134,94/@. Portanto, o preço de R$ 135,20/@ de 21/out/2014 finalmente superou o preço que era até então o recorde real da arroba no Brasil, segundo o CEPEA. Tem políticos que estão tentando reescrever a história. O boi conseguiu após 1440 dias corridos ou 984 pregões!!!!

O indicador Esalq/BMF, base SP, à vista, saiu de R$ 133,72 (de R$ 131,50 a R$ 136) e chegou em R$ 137,49 (de R$ 134,50 a R$ 140), uma alta de quase R$4/@ na semana, muito forte e difícil de ser vista, completando a 5ª semana de alta seguida da arroba.

Na sexta, os negócios no físico concentravam-se de R$ 135 a 140/@ av, enquanto que no MS, mantiveram o R$ 128av x R$ 130ap. Com relação às escalas, elas estão estáveis com leve encurtamento, estando entre quarta (22/out) e segunda (03/nov), o que traz o “DIA D” para QUINTA (30), e o PLACARpara 2 a 5 dias úteis (média de 3,5d úteis entre o dia da venda e do abate).

O STATUS DO BEEFRADAR quem fez esta semana foi o Tadeu da novela Pantanal: “Sei lá”… Lembram-se do “sei lá” dele? É a melhor opinião para o BeefRadar!

20141025 - Tadeu Pantanal

2)      E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Por aqui, só tá tendo o pequi, já que o físico do bovino de GO marca preços de R$ 127 a R$ 130 av, com +R$2 para o boi EU, ainda com a ESCALA DENTE DE CACHORRO”, heterogêneas, mas de modo geral, andaram um pouco, estando entre quinta (30/out) e segunda (03/nov).

O diferencial de base GO x SP (base CEPEA Goiânia) abriu mesmo e já marca a média semanal de –R$9,29/@. Seguimos com diferencial  boi x vaca, de -5%.

3)      HORA DO QUILO: “A coragem no caminho permite que o caminho se manifeste” (Paulo Coelho)

4)      O LADO “B” DO BOI:

4.1. O MILHO ACORDOU…

A relação de troca “@ x sacos de milho” se mantém alta, mas agora com o milho acompanhando o boi na escalada pois esta semana despertou na bolsa…

4.2. A ARROBA ESTÁ EM ALTA?

AGORA, FINALMENTE SIM! No texto da semana passada chamávamos a atenção para o fato de que a “alta” só seria reconhecida por nós após o rompimento da resistência do recorde real da arroba. Pois bem, isto ocorreu na terça. O bovino “patrolou” o referencial e agora, até onde vai? De novo o Tadeu da novela Pantanal opinou: “Sei lá”!

4.3. A VOLTA DA BALINHA…

Será que o R$ tá fácil de achar? Reparem. Na padaria, no Front da economia, aquela velha prática está voltando ao comércio varejista: “aceita uma balinha como troco?” Sabem porquê? O Banco Central, com restrições de orçamento para emitir as “pratinhas” (como dizem os mineiros), só está atendendo a cerca de 1/3 dos pedidos de moedas dos bancos. Sim, você escutou direito: o Banco Central quer restringir orçamento para emitir as moedinhas… Precisa falar mais alguma coisa?

Falando em economia, ela está travada, no aguardo do resultado do processo eleitoral. A BMF idem. O mercado de ações e dólar flutua fortemente ao sabor dos boatos e mentiras veiculadas por aí. Esta volatilidade do mercado (encarecendo as opções do BGI) e sobretudo a variação do dólar (impacto na venda de carne externa) podem interferir em alguma medida no mercado de curto prazo da arroba. Vamos aguardar.

Quem começa a pesar na economia é a falta de água em SP. Começam relatos de impactos na atividade industrial. Péssimo. Tomara que a chuva que começa a cair amenize o problema. Qualquer pequeno impacto em SP tem profundo reflexo no Brasil:

http://economia.uol.com.br/noticias/bloomberg/2014/10/24/falta-dagua-paralisa-unidades-da-rhodia-e-afeta-negocios-em-sp.htm

Mais um detalhe: falamos aqui na volta de um pouco de otimismo na economia. Não estávamos enganados. Saiu uma matéria nesta semana. Infelizmente relata que o fato pode ser positivo para a manutenção do atual governo:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/191890-otimismo-com-economia-aumenta-e-ajuda-dilma-na-disputa-eleitoral.shtml

4.4. MARGEM DE FRIGORÍFICO EM STALL

Se o boi está no mais novo termo do caipirês aeronáutico inspirado no gavião carrapateiro, o “stall reverso” (para cima), a margem de frigorífico esta no stall aeronáutico verdadeiro mesmo (para baixo). Acompanhamos diariamente a diferença entre o valor pago pela indústria e o valor obtido pela venda dos produtos oriundos da “desmontagem” do boi. Esta diferença não é o lucro, pois não estão computados os custos, mas representa a margem da comercialização deles.

Usamos os Equivalentes do Scot para tal acompanhamento, principalmente o Equivalente Scot Carcaça, monitorado diariamente por nós. Os menores níveis que vi destes índices ocorreram nesta semana, justamente na terça. Foi o recorde negativo do período de anos que eu acompanho, o famoso stall aeronáutico, perda de sustentação pura. Veja no círculo vermelho no gráfico abaixo:

20141025 - Margem SCOT Carcaça

Veja como até 2011/2012 as margens foram mais “gordas” e caíram de patamar de lá para cá, recuando rapidamente por ora. Feliz das empresas “multiproteínas”, pois aparentemente o frango e o suíno está com melhor margem de operação. Frigoríficos de menor porte e com menos acesso ao crédito (escasso hoje) estão sofrendo. Aliás, todos estão.

As exportações até ago/14 ajudaram muito, mas em setembro tivemos queda violenta dos volumes embarcados. Os números de outubro estão melhores, mesmo em função da disparada do dólar pelo processo eleitoral (nesta semana atingiu o maior valor desde 2005). O mercado trabalha com a possibilidade de manutenção da moeda americana em patamares elevados caso não haja troca de governo. Caso haja, deverá haver forte recuo do dólar, o que contribuirá para dificultar o escoamento da produção pela exportação. Uma das consequências é um provável excesso de oferta de dianteiro no mercado interno…

A saída para a carne, portanto, aponta para a necessidade de enxugamento dos estoques de produção da indústria, pois a sustentação dos preços altos (acima da inflação) que ocorrem no varejo, tem poucas chances de se manter em função do consumo interno (estamos longe de termos um consumo pleno, vocês já sabem, em função de nossa recessão).

Independente disto o boi segue seu caminho, no “stall reverso”, para cima, e agora com a tão esperada chuva no lombo, boa para os pastos e nem tanto para o confinamento. Vamos ver o comportamento dos próximos dias.

Não há como prever o mercado, principalmente para quem pensa em fundamentos, rompidos e ignorados a tempos. Se por um lado o Tadeu da novela Pantanal apareceu aqui no Front, tem um que não quer aparecer de jeito algum, que é o bovino. Conseguimos tirar uma foto dele. Foi muito difícil, ele anda muito sumido:

20141025 - Veio do Rio 2

Duas fontes vão responder a pergunta do momento para a @: “até onde vai?” A bolsa fala que sobe mais R$ 4,50/@ até o final do ano e aponta para nível de R$ 140/@ para jan/15… Pode ser uma boa hora para a compra de puts para o início do ano.

A segunda fonte que vai responder a pergunta acima, por sinal tem a mesma opinião que eu… Adivinha quem é? Pela resposta dele, você saberá: “Sei lá”!

Tomara que o Brasil possa fazer igual ao bovino e reescrever a sua história a partir deste domingo. Que Deus proteja a nossa Pátria e a nós, neste domingo e também por toda a semana que se inicia!!!

Rodrigo Albuquerque & Ricardo Heise,

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

Contatos:

Twitter @fazendaburitis, boicom20@gmail.com

Twitter @boi_invest , r.heise@hotmail.com

3 Comments

  1. Lucas Farias Oliveira

    3 de novembro de 2014 at 18:39

    Prezado Rodrigo,

    Parabéns pelos belos artigos que sempre escreve, acompanho semanalamente. Gostaria apenas de perguntar como faz o cálculo do preço deflacionado, pois não está batendo com a calculadora do site oficial do Banco Central (https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/exibirFormCorrecaoValores.do?method=exibirFormCorrecaoValores).
    Uma arroba de R$114,48 em novembro de 2010, equivale a R$142,12 hoje – IGP-DI (setembro de 2014), segundo o cálculo do site.

    Agradeço o esclarecimento da questão.

    Abraço!

    • Rodrigo Albuquerque

      9 de novembro de 2014 at 10:30

      Prezado Lucas, o valor que usei foi o divulgado pelo informativo semanal do CEPEA. Uso muito o site do Banco Central que você cita.

  2. Pingback: O que muda no ciclo de preços do boi gordo? | Qualinutri

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