O boi 140/140/140 e o iminente “apagão das proteínas” no Brasil

Por em 23 de maio de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #217, de 22 a 28/maio/16)

 

Aos que carregam o pó da viagem,

A safra de bois de pasto encontra-se no seu “crepúsculo final”. Se fosse um paciente, daria para dizer que o último boletim dizia que ela “está na UTI, respirando com ajuda de aparelhos, com prognóstico reservado e em estado crítico”. Mais claro do que isto, impossível.

As atenções da indústria focam agora para o boi de semi-confinamento e o boi de confinamento. “Mas cadê os tais”, como diria o goiano?

Ousamos fazer uma “paródia numeral” do famoso boi 7 / 7 / 7, uma valorosa e histórica contribuição do Apta de Colina-SP, idealizada pelos mestres Gustavo Rezende e Flavio Dutra. A “paródia” retrata a situação singular que a estruturação dos custos da engorda intensiva está bem perto de apresentar, tendo como base o estado de Goiás, mas que certamente é exemplo para vários outros.

O navegador dos mares revoltos da arroba bovina brada ao alto, em límpido e cristalino som, a esperada boa nova: “alta a vista”. Comemoremos ou preocupemos? Vejamos…

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

A safra de animais terminados em pasto ainda está na UTI, mas a pressão de baixa definitivamente se encontra sete palmos abaixo da terra. Este movimento ainda não redirecionou, numericamente falando, o Indicador Esalq/BMF para alta, de modo que nesta semana, ele partiu de R$ 154,56/@ a vista (variando de R$ 151,50 a R$ 156,75) e caiu levemente para R$ 154,29/@ a vista (variando de R$ 151,75 a R$ 157,50). Mas, repare o movimento da mínima e da máxima… A direção do mercado é bem clara.

O nosso BeefRadar captou negócios entre R$ 153 a R$ 157/@ a vista em SP, portanto, entre R$ 1 a 2/@ de alta frente a semana anterior. Na terra da Guavira, vimos negociações entre R$ 140 a vista até R$ 142 a prazo e escalas encerrando a próxima semana, com alguma ajuda do feriado.

O feriado está ajudando, mas mesmo assim, ter a semana que vem fechada em termos de agendamento de bois não é a “realidade” mais comum em SP. As escalas estão, em média, com o DIA D” recuando de sexta-feira (onde estava antes) para a próxima quarta (dia 25). Desta forma, o placar cai vertiginosamente para 2.6 dias, na referência Haitong.

O STATUS DO BEEFRADAR ousou antecipar o mercado e agora radicaliza completamente (de maneira inédita) na direção da alta, apontando para:

5% queda : 30% estabilidade : 65% alta

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

No mesmo “trieiro” de SP, a arroba goiana encerrou a semana com o intervalo de negociações entre R$ 138 a R$ 140/@ a prazo, com mais R$ 2 a 3/@ para o boi EU (também mais R$ 1 a 2/@). As escalas estão entre a próxima quarta (25) até a terça (31), só reforçando a “ajuda” do feriado para algumas completarem a semana.

Qualquer mísera movimentação no DF “estratosférico” dá uma animada na gente aqui (comedora de pequi) do Goiás… A média semanal ficou em -R$ 18,34/@! Será que retorna a valores menores? Ainda não temos isto como definido… Quanto ao deságio da arroba de vaca, o qual não abriu ainda (nesta safra), achamos que fecha daqui a algumas semanas. É o que marca a bússola do nosso BeefRadar!

 

3) HORA DO QUILO: falamos muito aqui sobre gestão comercial de animais terminados. Ela precisa de dois requisitos fundamentais: gestão produtiva e gestão financeira, assuntos abordados com maestria pelo nosso amigo e consultor Rogério Lima neste material: http://www.beefpoint.com.br/radares-tecnicos/gerenciamento/gestao-produtiva-financeira-pecuaria-de-corte/

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: mais um lembrete do Confinar 2016. Neste evento será lançado o aplicativo “CEPEA BOI” a ferramenta que deverá revolucionar a coleta de preços da pecuária, aproximando, renovando e aprimorando o trabalho que arduamente o CEPEA tem feito ao longo de 23 anos junto à cadeia produtiva, sem falhar nenhum dia sequer (uma tarefa absolutamente louvável). É fato que em função do mercado ter mudado muito nos últimos anos, o levantamento de preços tem que ser renovado. E é isto que o CEPEA quer e está aberto a fazer, capitaneado pelo Sergio De Zen e equipe. A ferramenta, literalmente, estará nas nossas mãos:

http://confinar.net/portal/Modulos/processo/lancamento-nacional-do-aplicativo-cepea-boi-acontecera-no-dia-1o-de-junho-no-confinar-2016

 

5) BOITOGRAFIAS DA SEMANA

 

5.1) O pote de ouro atrás do arco-íris, foto de Luis Caires, no BeefRadar:

20160522 - milho x arcoiris

5.2) O lote de ouro atrás da porteira, foto de Ricardo Passos, no BeefRadar, clicada numa apartação da safra de bezerros:

20160522 - Apartação cria

 

6) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO

 

6.1) A terrível situação da demanda: algumas notícias esta semana retratam o desolador cenário econômico da economia do Brasil, tais como:

*http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/05/intencao-de-consumo-das-familias-tem-menor-nivel-desde-2010.html: 65.9% das famílias afirma que está comprando menos do que 2015;

*http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/05/arrecadacao-recua-71-para-r-110-bilhoes-e-tem-pior-abril-em-6-anos.html: menor atividade econômica leva a menor arrecadação;

*http://veja.abril.com.br/noticia/economia/contas-de-agua-luz-e-gas-em-atraso-atingem-nivel-recorde: dispensa comentários;

*http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/05/governo-passa-prever-oficialmente-retracao-de-38-para-o-pib-em-2016.html: números reais, apesar de ruins, são importantes;

*http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/05/sem-medidas-desemprego-pode-chegar-14-diz-meirelles.html: quem dá conta de consumir desempregado?

 7) O LADO “B” DO BOI: o boi 140/140/140 e o iminente “apagão das proteínas”

 

No último NF2R, alertamos para a situação de “mercado de especulação” do milho e para o consequente reinado das emoções que assume o comando do processo decisório de muitas empresas neste momento. Durante a semana escutamos algumas frases totalmente de encontro neste sentido: “em 15 anos, nunca pensei que poderia parar minha fábrica de ração por falta de milho. Quase aconteceu, não por conta do preço, mas porque ninguém entregava a matéria-prima, independente do preço que me propunha a pagar, cada vez maior”; “notícias de abortos em porcas”; “o confinamento ‘x’ parou de receber animais, pois não está dando conta de honrar as dietas contratadas a preço menor e também por falta de milho”; “granja de aves do interior de SP comprou milho a R$ 57/sc para entregas até julho”, e por aí vai.

Nossa opinião é que devemos estar passando pelas 3 piores semanas do cenário de disponibilidade de milho da nossa história recente. Alguns prestadores de serviço de engorda terceirizada de bovinos em GO apresentaram na semana passada as suas dietas mais caras da história. Apelidamos esta tabela de preços de diária inflacionada de “tabela tiririca, pois pior do que está não fica” (aumento de 40 a 45% do custo da alimentação do confinamento na comparação YoY). Mas a dúvida continua sobretudo em duas perguntas:

*qual a quebra da safrinha? Resp.: produtores dizem números de quebra maiores do que associações, institutos de pesquisa ou mesmo do que o próprio governo, mas ao certo mesmo, ninguém sabe (pelo visto, o estado de GO terá as maiores quebras de safra);

*qual a viabilidade da exportação, fator “câmbio-dependente”? Resp.: ainda incerta. Sabe-se que um grande percentual da produção está vendido para as traders, mas qual a viabilidade de elas direcionarem este milho comprado para o mercado interno? Justamente agora, o dólar resolveu pegar uma maré de aquecimento embalado pela possibilidade de aumento da taxa de juros americana, fato que facilitaria a exportação…

Na nossa avaliação, a situação deverá ser atenuada em cerca de um mês ou um pouco menos. Mas mantemos o nosso entendimento: entendemos que o mais provável é imaginar que não teremos “comida barata” de jeito nenhum, porque esperamos apenas uma atenuação do problema.

O boi magro segue pressionado para baixo por conta da reduzida capacidade de suporte das pastagens e por conta de não estar havendo volume de demanda desta categoria no mercado (muitos confinamentos estão fora das compras, além da própria incerteza que o milho confere à engorda intensiva atualmente).

Seguindo o mesmo raciocínio do NF2R da semana passada, já que falamos do custo do trato e do preço do boi magro, falta agora o assunto preço da arroba. E para falar dele, vamos antes passar a limpo umas contas…

Compra-se hoje em Goiás um boi magro de 12.5 a 14.5@ pelo preço de R$ 140/@ (inclusive adquirimos alguns por este valor). O custo do trato do confinamento terceirizado hoje está bem próximo deste mesmo valor, para cada @ colocada no cocho (numa simulação real que fizemos aqui, deu um custo de R$ 142,89/@ colocada no período de confinamento). E o preço de venda de hoje é também muito próximo de R$ 140/@ (este alinhamento de preços no mesmo nível é difícil de ver). Ora, cadê o lucro desta operação? Caso coloquemos este animal sendo vendido no valor do contrato futuro da BMF, do mês de agosto (R$ 162/@), menos o diferencial de base para GO (estimado em R$ 16/@), com adição de premiação EU (R$ 2/@), teremos como preço de venda o valor de R$ 148/@. Assim, a rentabilidade seria de 0.8% ao mês, sem considerar a ocorrência de mortes e sem a remuneração do capital envolvido na operação.

Não considero a operação acima atrativa para a maioria das pessoas que eu conheço, o que me leva a concluir que, caso a BMF não passe por uma forte valorização, permitindo que se trave preços de venda superiores, haverá, em função do pouco estímulo para confinamento, uma grande quebra de safra de animais confinados. Detalhe: e os bois de junho, julho e da primeira quinzena de agosto? Estes meses terão baixíssima disponibilidade de bois, tal qual o milho agora. O volume de animais semi-confinados caiu muito, em nossa visão. O confinamento de primeiro giro idem… E os que existem, boa parte estão vendidos por contrato de termo, ferramenta que contribuirá para reduzir a disponibilidade de gado no físico (quem é contra o termo, terá um bom momento para repensar isto. Se o fato de se ter milho vendido sob contrato todo mundo acha que pode ajudar a sustentar o preço, porque com o boi seria diferente?).

Este conceito de quebra de safra de bois foi comentado por Maurício Palma no evento Expopec, de Porangatu-GO, no início de abril. E o que está para ocorrer no mercado físico é exatamente isto: uma quebra de safra de animais de semiconfinamento (que estimamos ser da ordem de 25 a 40%) e uma quebra de safra de confinamento em 2016 da ordem de 15 a 30%, em nossa visão, ao menos por ora. Se a BMF não subir, o problema de falta de bois vai se estender até mais para frente…

Esta semana o contrato de outubro da BMF rompeu a importante resistência dos R$ 167/@ na terça, mas nos últimos pregões da semana voltou a ficar abaixo deste valor. Acreditamos que nas próximas semanas/quinzenas haverá uma grave crise de oferta de animais terminados (sem precedentes para o mês de maio), fato que nomeamos de apagão do boi, e que poderá durar até agosto (também podendo ser acompanhado de restrição de oferta de outras proteínas como o frango e o suíno, em função do milho). Isso deverá fazer os contratos futuros reagirem, voltando a viabilizar o confinamento. Obs.: quem negociou antecipadamente e conseguiu contratos a valores de diferencial de base bem mais atrativos do que os que estão vigorando nas praças pecuárias, ainda consegue rentabilidade razoável neste momento.

Portanto, sobre o assunto “preço da arroba”, nossa expectativa é que haja uma reação, em função do apagão do boi que está para se tornar uma realidade.

Mas, você pode me perguntar: como o preço do boi vai subir com a situação da demanda no mercado interno? Pois bem… a notícia não é confortável para a indústria frigorífica, que tal como ocorrido em 2015, deverá ficar entre a falta de matéria-prima (boi) e a dificuldade do consumidor em pagar o produto “carne” mais caro. Só para se ter ideia, nesta semana os indicadores da margem operacional dos frigoríficos estão bem menores do que os valores vistos em 2015, pouco antes da deflagração do ajuste de produção das plantas. Só falta a péssima margem de 2015 causar saudades às indústrias…

Independentemente da caótica situação do consumo, deverá haver elevação do preço do atacado simplesmente pela escassez de produção que deve se iniciar agora. Após este estoque de carne proveniente do abate do final de safra de capim ser eliminado, prevemos a chamada “inflação pela oferta” no atacado, o que ajudará a indústria, mas irá em desfavor do consumidor.

Vejo este cenário como um grande limitador para a alta, que será a rota natural do preço da arroba nas próximas semanas/quinzenas (pensando na ponta da oferta). Portanto, a recomendação é de aproveitar todas as oportunidades de venda que aparecerão na tela do BeefRadar nos próximos momentos, porque esta alta não está vindo confortável para todos os elos da cadeia, pois quanto mais próximo do consumidor, menor é a chance de se conseguir repassar aumentos de preços. Alguém vai ficar espremido aí… Ou talvez, todos um pouco, como aliás está sendo com toda a economia. E não podemos reclamar de nada, muito pelo contrário, pois nosso setor é geralmente menos atingido que a economia em geral. Só não dá para pensar que não seremos afetados, mesmo porque, já estamos sendo, é fato!

A boa notícia é: quem for eficiente na produção, na gestão financeira e na gestão comercial vai conseguir fazer dinheiro! Uma notícia excelente, em uma economia que deverá encolher quase 4% novamente neste ano. Só não haverá mais espaço para amadorismo, como aliás, temos dito aqui repetidamente.

Finalmente, a resposta para a pergunta do último parágrafo da introdução deste NF2R (“comemoremos ou preocupemos”?) é: “preocupemos”! Explico melhor: apesar da limitação econômica, provavelmente, a arroba bovina e o atacado experimentarão altas de preços nas próximas semanas/quinzenas, ainda de intensidade a ser definida. Só que estes aumentos de preço refletem desequilíbrios na cadeia pecuária e/ou no suprimento de insumos, não sendo provenientes de robustez econômica. A cadeia pecuária pode enfrentar extremos, como a falta de animais para abate, jamais vistos. Movimentos extremos são sempre preocupantes.

A mensagem aqui deixada não deve ser encarada como pessimista, mas sim como uma mensagem de alerta, afinal de contas, oportunidades irão aparecer, sem dúvidas, mas somente serão captadas por aqueles que estiverem preparados e em estado de alerta máximo.

Uma boa semana para você, sua família, seus funcionários, com muita luz e sabedoria para enfrentar as adversidades e sobretudo aproveitar as oportunidades nos negócios e na vida em família. Até a próxima, se Deus nos permitir!

 

Rodrigo Albuquerque (boicom20@gmail.com) &

 Ricardo Heise (r.heise@hotmail.com),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS: boicom20@gmail.com

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