O bezerro caro é o barato… E o barato é o caro…

Por em 29 de setembro de 2014

NOTÍCIAS DO FRONT

A pecuária Goiana e Brasileira em uma visão de curto, médio e longo prazo, descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem” (Edição #134, de 28/SET/14 a 04/OUT/14)

Companheiros de lida,

“A chuva bate em nossas portas”. Esta frase estava no início do texto da semana passada. No decorrer da semana ela apareceu em praticamente todas as regiões produtoras do País. Em algumas delas, como no MS, já mais de 150mm iniciais que caracterizam a largada da safra de capim. E não foi só a chuva que chegou. O mês de outubro, mês padrão da entressafra se faz presente nesta semana que se inicia.

Também na semana passada o Front viajou com a “Comitiva Boiadeira”, um projeto do Ademar Leal, da Campo Rações (Acreúna) e Washington Mesquita. Com apoio da BOI_INVEST percorreram fazendas de pecuária intensiva do Sudoeste Goiano e Vale do Araguaia até o norte do estado, trocando experiências durante a semana toda com seleto grupo de 40 pecuaristas.

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Nesta missiva, vamos tratar de “um bom tema, que é muito importante e que não é bem medido” (nas palavras do Miguel Cavalcanti): a quantificação do valor da genética na reposição. Esta foi uma discussão que brotou de uma conversa no BeefRadar do Zap Zap na boca da noite de sexta (agradecimentos ao Alaor Ávila). Afinal de contas, “já que tá caro, tem que comprar um bom?” Será? É polêmico, é Notícias do Front…

1)      COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Saímos de “ausência de notícias” para uma “boa notícia”. Nada de euforia, de “rasgação de preço para cima”. Mas, nesta última semana, houve um leve encurtamento de escalas o que moveu a mínima, o indicador e os negócios pontuais para cerca de R$1 acima do padrão anterior. O indicador saiu de R$ 128,01 (de R$ 126,50 a R$ 130) e chegou em R$ 129,02 (de R$ 126,50 a R$ 132).

De toda a forma, interrompemos a perna de baixa de 2 semanas e cravamos mais uma de alta. O físico varia agora de R$ 128 a R$ 130/@ av, com negócios pontuais, agora na casa dos R$ 131 e R$ 132 para o boi EU. Um possível motivador para isto foram as escalas que agora estão entre quinta (02/out) e segunda (06/out), recuando o “DIA D” para SEXTA (03), e diminuindo o PLACARpara 3 a 5 dias úteis (média de 4d entre o dia da venda e do abate).

Na terra da chipa, segue o R$ 124 a R$ 125av, mas havendo um leve recuo de dias agendados de abate (escalas estão agora entre quarta e sexta desta semana).

Apesar do movimento “para cima” da semana, ele precisa “tomar mais corpo” para caracterizarmos “alta”. Seguimos com o STATUS DO BEEFRADAR em: “estabilidade (50%) / alta leve (50%)”.

2)      E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

O mercado em GO dá a impressão que está perto de se mover… As escalas ficaram muito heterogêneas. Estão entre as duas próximas quartas (dia 01 e 08/out). Tem indústrias que encurtaram a escala e tem empresas que alongaram as escalas. De maneira geral, elas alongaram, com exceção das plantas de grande capacidade de abate diário. Cremos que o boi de termo contribui muito para este cenário. É normal haver mais contrato para este mês.

Por ora, o preço segue R$ 120av x R$ 122ap, +R$2 para o boi EU, e sobre preço de até R$1/@ acima da referência citada, e alguns preços “personalizados” para cima.

O diferencial de base GO x SP, encontrou uma resistência perto de –R$7/@ e não quer fechar mais que isto. Da mesma forma, o deságio da vaca em relação ao boi permanece em aproximadamente –5%. Assim, O STATUS DO BEEFRADAR também se mantém: “estabilidade (50%) /alta leve (50%)”. 

3)      HORA DO QUILO: “Se você é o mais inteligente da sala, está na sala errada” (autor desconhecido, via Miguel Cavalcanti).

4)      O LADO “B” DO BOI:

4.1. A PREOCUPAÇÃO QUE NÃO CESSA..

Novamente o PIB foi revisado para baixo pelo Banco Central pela DÉCIMA SÉTIMA VEZ SEGUIDA. O BC agora aponta para míseros +0,3% para o PIB 2014. Vários sinais disto aparecem no noticiário, refletindo em queda de consumo, principalmente por parte da classe que impulsionou o consumo de carnes/celulares/eletrodomésticos recentemente. Veja os impactos no link. Impensável imaginar que isto não atinge ao menos em parte a nossa carne.

Em consequência, nos últimos 4 anos, o atacado da carne não esteve tão longe assim do preço da @ do gordo, como está agora, o que faz a margem da indústria sucumbir. Até a exportação de setembro, ainda positiva quando se pensa no ano como um todo, apresenta queda de aproximadamente 20% dentro do mês.

Sabemos que está havendo um “certo” represamento da venda de bois (que pode ser considerável), muito favorecido pela comida barata (grãos energéticos) e com o intuito de ajudar na reposição, que está cara. Sinal disto é confirmado por contatos nossos que nos revelaram que o comparativo de pesos de bois de set/2014 x 2013 aponta para aumento de 1,5 a 1,8@/boi abatido.

É possível (e provável) vermos melhora nas escalas até o final de outubro. Isto seria normal, até mesmo em função das chuvas que podem favorecer uma saída de bois para confinamento mais concentrada (set já apresenta o dobro de chuvas de nossa média histórica). E aí, é igual a fila de banheiro… O confinamento tem uma só porta de saída, igual ao banheiro que tem uma só porta de entrada… Alguém pode passar apertado na fila…

Neste momento, a bolsa volta a dar boas taxas, fixando preços entre R$ 130 e 132 para os próximos vencimentos. Pode ser uma oportunidade…

4.2. A REPOSIÇÃO QUE NÃO CEDE…

É fato, o ciclo pecuário em ação: o valor da reposição mais alto aumenta a retenção de fêmeas e leva a restrição de abates. Com isto, o ambiente de @ é firme. Portanto, “a trama é pouca” (trama=oferta de reposição) e a euforia existe (@ firme=invernista eufórico). Neste cenário, a reposição bate recordes… E os “gambireiros” estão sumidos… Para comprar gado, prepare-se para pagar atualmente cerca de R$ 100 a R$ 200 a mais por cabeça do que você gostaria. Os leilões seguem travados. A pedida dos vendedores é nas alturas e os compradores sumiram. Estivemos em um neste domingo (Goiânia), com apenas 40% do gado esperado.

Sobressai a pergunta: qual o tipo de reposição, comprar? Didatica e “sertanejamente” falando, há 5 tipos de tipos de reposição: “picolé” (gado de criadores de tecnologia, com genética avaliada em programas de melhoramento); “extra” (gado de nível genético muito bom, mas sem avaliação); “comercial top” (gado bom, mas com pouco investimento em genética); “sertanejo, caipira ou comercial” (gado de padrão inferior com vários cruzamentos e sangue leiteiro leve, pode ser predominantemente branco ou até “colorido”) e “gabiru” (gado sem padrão racial definido e com grau de sangue leiteiro considerável).

Veja a tabela abaixo, valores reais de negociações recentes de REPOSIÇÃO:

20140928 - PRECIFIC DE BEZERROS

A primeira conclusão que chego é que não sabemos precificar os bezerros ainda, com exceção do sul do País. A maioria pensa em R$/cab e não em R$/kg ou R$/@, que seria o correto. Ora, se vendemos em R$/kg (@=“conjunto” de quilos), temos que comprar na mesma base. No sul, isto é rotina.

A segunda é que não valorizamos a nossa genética adequadamente. É fácil um bezerro “sertanejo” custar o mesmo que um bezerro top de raça britânica, em R$/kg, se o anelorado vier mais leve do que você imagina (veja as três primeiras linhas).

A palavra acima “imagina” revela a terceira conclusão que chego, outro grande pecado da compra da reposição: não haver uma balança envolvida na maioria das negociações. Absurdo! Até o pãozinho de padaria é vendido no peso. Já falamos isto aqui…

A quarta é que estes animais de R$/cab mais altos (raças britânicas) se encaixam muito bem em programas diferenciados de qualidade, pois se caírem na “vala comum” do preço da @, a conta fica mais apertada. E mesmo porquê, produzem uma carne diferente, merecendo esta destinação diferenciada. Infelizmente não é raro vermos animais angus em confinamento, sem trava e sem estar ligado a nenhum programa de qualidade. Aí, é “galinha na manguara”.

Só um detalhe: a recepção de todos estes animais, para cálculo dos nºs acima deve obedecer o mesmo procedimento padrão, ou seja, identificação, pesagem e aplicação do protocolo sanitário nos animais, após 4 a 7d de sua chegada na Fazenda (prazo de 7d para animais oriundos de leilão e/ou maior distância). Este é o procedimento que usamos.

Bom, mas “noves dentro, noves fora”, qual a diferença entre comprar animais de criadores de alta ou de baixa tecnologia? Vamos aos fatos de cada lado:

  • Bezerros oriundos de criadores de tecnologia:
    • Pontos positivos: animais são selecionados e apresentam maior eficiência/conversão alimentar; permitem explorar ao máximo o sistema de produção (mais @/cab  e principalmente @/há).
    • Pontos de atenção: possuem valores de aquisição em R$/@ superiores ao “gado comercial top” (1ª x 4ª linha da tabela), que hoje chegam fácil a 40-50% de ágio sobre a @ do boi gordo. Isto exigirá não só um sistema de produção diferenciado, mas uma comercialização diferenciada, ou seja, tudo terá que ser diferenciado, já que a genética foi (gestão, sistema produtivo, comercialização e foco financeiro);
  • Bezerros oriundos de criadores de menor nível de tecnologia:
    • Pontos de atenção: pode limitar o desempenho financeiro em função de limitação da eficiência produtiva.
    • Pontos positivos: animais são adquiridos com ágio sobre a @ do gordo menor (entre 30 e 40% sobre a @ do boi gordo).

Está certo para nós que não podemos desprezar o avanço e o valor da genética, pelo contrário, tudo vem dela. Está aí a avicultura, suinocultura e agricultura para nos provar a lição diariamente. Questões raciais à parte, não é razoável achar que um bezerro geneticamente diferenciado não é o melhor, pelo contrário… E é bom que o bezerro seja caro, pois assim também o será o garrote e o boi gordo, afinal de contas o teto do boi é o bezerro (como nos ensinou o Goulart). Entretanto, isto não quer dizer que não sejam importantes as respostas para as três perguntas a seguir:

  • Quanto a mais de desempenho e eficiência produtiva o bezerro de genética diferenciada carreia para dentro do sistema produtivo em comparação a um animal de menor seleção genética, mas de mesma idade?
  • E até mesmo em consequência da primeira resposta, qual o limite de preço à mais que pode-se pagar pela genética de ponta, para que este ágio adicional sobre a @ do boi gordo não faça este animal virar um mico do ponto de vista financeiro?
  • E comparando-se a rentabilidade financeira, o que seria melhor, comprar um animal de boa seleção genetica de 8m de idade (p.ex. 2ª linha – “picolé nelore”, ao preço de R$ 160 a R$ 190/@) ou um animal de genética inferior, mas mais erado (p.ex. 5ª linha ou mais erados ainda, ao preço de R$ 125 a R$ 160/@)?

O fato é que: fenótipo (peso vivo) = genótipo (perfil genético) + ambiente (sistema de produção). Sendo assim, é claro que só vale investir em genética se houver a pré-condição estabelecida de um ambiente corrigido (nutrição, sanidade, manejo, incluso gestão com foco financeiro), etc. A agricultura, suinocultura e avicultura montaram os seus modelos de sucesso nesta equação acima. O ponto de partida é a genética diferenciada. Não é razoável esperar que no bovino seja diferente. Mas temos que responder as três perguntas acima.

Obviamente, não adianta dar este ambiente corrigido para um animal ineficiente. Seria o mesmo que dar um patinete para um saci.

Infelizmente, parte dos animais “picolés” são criados em sistemas que valorizam mais os adjetivos do que os números… Precisamos gerar informações (números) de animais “picolés” inseridos em sistemas de produção que tem o foco produtivo como um meio e o financeiro como um fim, a fim de quantificar o valor real da genética.

Embora com respostas ainda por vir, um valor o animal de reposição mais caro já entregou à pecuária, seja ele de que genética for: “ele vai ser o melhor professor de gestão e eficiência na pecuária brasileira” (frase de Miguel Cavalcanti). Que Deus nos proteja nesta semana que se inicia!

Rodrigo Albuquerque & Ricardo Heise,

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

Contatos:

Twitter @fazendaburitis, boicom20@gmail.com

Twitter @boi_invest , r.heise@hotmail.com

4 Comments

  1. Bárbara Fernandes Barros

    30 de setembro de 2014 at 17:58

    Olá Rodrigo. Boa tarde
    Primeiramente, gostaria de agradecer pelo material disponibilizado para nossa leitura e parabeniza-los pelo excelente trabalho.
    As negociações de animais de reposição vêem se comportando de maneira parecidas em praticamente todas as regiões de expressão do país. Dessa maneira, gostaria de sua opinião sobre o mercado em questão nas microregioes no estado do Pará (Marabá, Redenção e Paragominas). E aproveitando a oportunidade, se puderes fazer comentários sobre o sistemas de produção recria-engorda e do mercado na Região de Marabá.

    Desde já agradeço a atenção e tempo dispensados.
    Bárbara Barros

    • Rodrigo Albuquerque

      6 de outubro de 2014 at 2:24

      Prezada Barbara,
      confesso humildemente que não conheço a fundo as regiões citadas, desta forma, não consigo dar um parecer de maneira específica. Grato, Rodrigo

  2. Gilberto de Biasi

    3 de outubro de 2014 at 14:57

    Vejo muito claramente que da forma de comercializaçao de bezerros fora do RS, que é feita exclusivamente no kilo vivo, é muito mais vantajoso comprar cruz industrial de ponta, o picolé como disseram acima. Pois o seu peso maior limita o numero de compradores com coragem para pagar $1400,00-$1500,00 por um “bezerro”. Eles acabam sendo vendidos na faixa de $1200,00 e seu preço por quilo acaba sendo abaixo de bezerros de qualidade bem inferior.
    Na verdade esse bezerro de alto potencial de desempenho, pesando acima de 230kg, é um boi magro para efeitos de comparaçao, pois será abatido pesado no ano seguinte com o manejo minimamente adequado.
    Esses bezerros estao na maioria das vezes subavaliados pelo compradores, que economizam $100,00/cab e depois perdem um ano para abater, ou adicionam 90 dias de confinamento na conta dele, que sao $630,00.
    Melhor amigo do pecuarista chama-se calculadora, parece que nem todos usam.

  3. januncio azevedo

    5 de outubro de 2014 at 2:20

    Parabéns. Esse assunto merece ser mais difundido, mas valorizado

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