Na comitiva do atacado, o dianteiro foi o ponteiro da valorização dos preços em 2015

Por em 16 de novembro de 2015

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #191, de 15 a 21/nov/15)

 

Aos que carregam o “pó da viagem”,

 

Chegamos na metade do mês de novembro, mês que nos últimos 5 anos, abrigou por três vezes o maior preço nominal da arroba dentro do ano. Nas outras duas oportunidades, o recorde nominal ocorreu em dezembro ou em janeiro.

Mas, em 2015, um fato inédito: abril segue sendo possuidor da maior marca da @ deste ano, com o preço de R$ 150,65 no dia 20, base à vista (indicador Esalq/BMF). Será que a marca cai? Ou teremos um fato inédito para 2015 (recorde em abril)?

Por falar em preço, o atacado mostra um comportamento antagônico e ao mesmo tempo revelador quando analisamos a dinâmica dos preços do dianteiro e traseiro em 2015. Além de reveladora e antagônica, a dinâmica de preços mostra algo esperançoso para o curto prazo. Vejamos…

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

E a tendência de estabilidade segue seu curso, indefinidamente… Na última semana, partimos com o indicador em R$ 148,51/@ (variando de R$ 147,50 a R$ 149,50) e finalizamos em R$ 148,62/@ (variando de R$ 147 a R$ 152), base SP, à vista. A estabilidade fica clara, ao se comparar o fechamento desta semana com a média dos indicadores dos últimos 30d (de 15/out para cá), que é igual a R$ 148,41/@. Apenas alguns centavos de variação entre o preço de sexta e a média dos últimos 30 dias!!! Bota estabilidade nisto!

Quanto ao físico visto por nós no encerramento da semana, houve variação na banda superior do intervalo de negociação em relação à semana anterior. Apesar de a maioria dos negócios concentrar-se entre R$ 147,50 a R$ 149/@, à vista, ainda há um persononalité de + ou de até – R$ 1/@ (“personalitè presente de grego”).

No MS, a “Terra da Guavira”, o preço do boi segue no R$ 140/@ ap, com escalas para 24/nov, aproximadamente (uma semana, com folga).

Segue a dicotomia quanto às escalas de SP: os frigoríficos menores seguem mais apertados, ainda precisando de boi para dentro da próxima semana e por isto pagando “para cima”. Já os maiores, seguem com folga, agendando bois para o meio da semana de 23 a 27/nov e alguns, com a força dos bois de contrato, já para início/meados de dezembro! Na média, o “DIA D” ficou em 24/nov, mantendo o placar médio em 6 dias (entre o acordo da venda e o dia do abate). O STATUS DO BEEFRADAR assume novamente estabilidade plena:

25% queda (leve) : 50% estabilidade : 25% para alta (leve)

 

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Seguimos com a mesma base: balcão de R$ 138/@ a prazo, mas também com o R$ 139/@ ap (com prêmio EU de +R$2/@ e personalitè MUUUIIITO comum de +R$ 1/@).

As escalas seguem com folga, estando em geral para o dia 25 ou 26/nov, ou mais. Igual a SP, há importante tranquilidade no agendamento de bois e mesmo assim, pouca ou nenhuma pressão para baixa. O motivador disto, explicamos, em nosso ponto de vista, mais para frente deste mesmo NF2R…

Entretanto, definitivamente esta safra não foi boa quanto à métrica “diferencial de base GO x SP”. A média desta última semana ficou em -R$11/@ e assim a @ goiana vai se distanciando da paulista novamente. Obs.: só para efeito de comparação, a média do 2º semestre dos últimos 6 anos foi de -R$6,85/@, sendo que a média do 2º semestre de 2015 está em -R$10,86/@.

A toada do diferencial fêmea para macho segue em 5%, denunciando que a safra de animais terminados a pasto está longe de ter se iniciado.

 

3) HORA DO QUILO: “Os hábitos de vida são investimentos imediatos e não para o futuro. O cigarro que você não acende protege o seu corpo imediatamente, aumenta seu fôlego já no final do dia e não só daqui a dez anos” (Fernanda Aranda)

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: JÁ QUE VOCÊ FALA DE SEUS PREÇOS NO ZAP ZAP, PORQUE NÃO OS PASSA AO CEPEA? Continuamos com o pedido para quem negocia bois com frigoríficos: cadastrar-se no CEPEA e acima de tudo, informar as negociações feitas. Para tanto, basta enviar via e-mail (boicepea@cepea.org.br) o seu nome, telefone e e-mail preferencial para contato. Com tais informações, o CEPEA poderá entrar em contato com cada um de vocês e convidá-los para participar do levantamento de preços da arroba diário. Um cadastro simples será preenchido pelo próprio telefone e então você, pecuarista, passará a ser consultado diariamente sobre as efetivações, sejam elas de reposição ou de animais para abate. Esse cadastro é necessário também para que as informações do agente sejam consideradas pelo sistema CEPEA. O Cepea se compromete em manter sigilo das informações fornecidas pelos participantes do levantamento. Ressalto que é muito importante o cadastro e o fornecimento de tais informações, para que os indicadores de preços da arroba sejam fidedignos. Só para se ter uma ideia, de como isto é difícil de ser feito, vejam, nas palavras do Coordenador do Projeto, o Prof. Sergio De Zen, a situação de SP: “Temos 120 mil produtores de boi, segundo o Ibge. Destes, 73 mil vendem menos de 20 cabeças ano e representam menos de 3 % do mercado, 45 mil vendem entre 20 e 350 animais ano, com uma média de 2 negócios, representam 60 % do volume de abate e o restante do abate tem origem em 1800 produtores. Então para obter um negócio quando um pesquisador pega o telefone tem menos de 0,5% de acertar. Por isso a colaboração dos produtores é fundamental”. Conto com a comunidade NF2R!!!

 

5) FOTO DA SEMANA:

 

  • Foto de Alaor Ávila Filho, Acreúna-GO: a situação do capim das vacas contrasta com um excelente rotacionado para bois, sendo ambos os pastos, quase que lado a lado. Fica a pergunta: a culpa é da vaca??? Somos todos devotos da sua santidade, a vaca nelore, mas… Estamos a tratando bem? Não é à toa que cerca de 25 milhões de vacas passam um ano sem parir um bezerro. Veja:

20151115 - Vaca rapada 20151115 - Rotacionado top

 

  • Foto de Rodrigo Albuquerque, Goiânia-GO: Flamboyant em esplendor máximo

20151114 - Flamboyant

 

6) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO

 

* A safra de bezerros da desmama 2016, que será o giro de engorda 2016/2017 segue “caindo no chão” com força. A safra de bezerros da desmama 2017, que será a engorda 2017/2018, está sendo originada neste momento no ventre da sua “Santidade, a Vaca Nelore”, pois a temporada de IATF está a todo o vapor. Veja só… Estamos em nov/2015, mas a sorte da engorda 2017/2018 “está sendo lançada”… O bovino é de ciclo longo, quando pensamos desta forma, isto fica claro;

 

* Também as plantadeiras estão a todo o vapor jogando a semente da safra de verão, com maior área plantada de soja. Janela menor para safrinha… E perspectiva de “comida de confinamento” mais cara para 2016. A comercialização da safrinha já está sendo feita e o agricultor segue dando lição de gestão de risco para nós, da pecuária;

 

* No nosso calendário estratégico de atividades, é hora de se fazer o orçamento de gastos, receitas/investimentos de 2016. Da mesma forma, o desenho dos programas anuais de nutrição e sanidade. Já os fez? Caso você já tenha vacinado seu gado e aproveitou para o pesar, já tem condições de fazer a previsão de vendas para o ano vindouro. Isto é fundamental para montar a estratégia comercial de venda da safra 2015/2016;

 

* E a reposição? Já terminou a compra programada para 2015? A maioria que conheço, ainda não. Falando nisto começam a pipocar novas formas de comercialização… Da mesma forma que as esmagadoras compram o grão quando ainda nem foram plantados, tem recriador/invernista, fazendo proposta para comprar os bezerros que acabaram de nascer, ou nem foram concebidos. Este é um tema que vai evoluir muito e é consequência do rompimento quase secular dos patamares de ágio dos animais de reposição;

 

* Falamos no último NF2R em margens apertadas. Esta semana o “Informativo CEPEA – Análise Econômica Semanal” relata que o poder de compra do invernista diminuiu de 8% (região sul) a 10% no ano (regiões sudeste, centro-oeste e norte). Ainda segundo o informe, os invernistas têm “intensificado o uso de técnicas que proporcionam ganho de produtividade”, da mesma forma que os próprios criadores. A razão desta perda de margem, seria a oferta mais estreita de bezerros/garrotes, cuja razão seriam adversidades climáticas observadas desde 2013. Estas adversidades podem ter reduzido a fertilidade das matrizes, reduzido o ganho de peso dos produtos e aumentado a mortalidade, todos os fatores também levando a uma redução de oferta de gado gordo para as indústrias. Vivemos isto no nosso dia a dia. Perfeito!

 

7) E NA COMITIVA ATACADO, O PONTEIRO DE 2015 TEM SIDO…

 

Os frigoríficos são nossos clientes. Sim, clientes! Nós somos fornecedores do ponto de vista deles, mas do nosso ponto de vista, não. Eles são clientes, afinal de contas, cliente é uma “entidade que adquire bens e/ou serviços”, como está na definição disponível da internet. Eles compram a nossa produção, logo são nossos clientes. Simples, assim.

E este nosso cliente, compra os bovinos que produzimos e os desmontam. Aí começam as dificuldades, pois surgem vários tipos de carne de um mesmo animal. Imagina o que a falta de padronização oriunda dos mais variados sistemas de produção do nosso Brasil pode fazer em termos de produzir peças de carne com diferentes características!

São vários tipos de carne… Mas, alguns ainda dizem que há apenas 4 tipos de carne no Brasil: a de panela, a de bife, a moída e a de churrasco. Do ponto de vista tradicional de separação de cortes, temos o dianteiro, o traseiro e a ponta de agulha.

De maneira muito simplista, o traseiro reúne os cortes mais nobres e macios do bovino, com apelo forte no mercado interno, bem no gosto do consumidor brasileiro. Também apresenta os melhores rendimentos financeiros na exportação, porém pouco volume. Já o dianteiro e a ponta de agulha reúnem cortes menos valorizados tradicionalmente, mas, no caso do dianteiro, com boa aceitação em muitos mercados externos que compram carne magra. É o grosso do nosso volume exportado.

Neste ano, a exportação tem decepcionado, exceção feita aos dois últimos meses, de modo que no acumulado do primeiro semestre de 2015, a queda de volume exportado foi de aproximadamente 14%. Nestas condições, é esperado um relaxamento dos preços do dianteiro no mercado interno, pois a via exportação é normalmente importante para o escoamento da produção dele. Mas, veja no gráfico abaixo o comportamento de preços do dianteiro ao longo de 2015:

 

20151114 - Evolução 2015 D T PA

 

Este gráfico apresenta como “base 100%” o preço que o dianteiro, traseiro e a ponta de agulha tinham em 01/jan/15 e a partir daí a variação de cada um deles ao longo dos dias, até a data de 13/nov. Algumas coisas a se notar:

 

* do início de janeiro até o início de fevereiro os três conjuntos de cortes perderam preço violentamente, o que configurou talvez o pior cenário de margens brutas operacionais dos frigoríficos da sua história. Isto os fez tomar as medidas que já sabemos (encerramento de atividades de mais de 40 plantas frigoríficas no País). A perda de preço dos cortes ocorria em função da coexistência, naquele período, de uma oferta de produto em queda, porém ainda muito maior que a verdadeira necessidade da demanda, que apresentava-se também em queda, porém numa queda muito mais violenta em função da rápida deterioração de nossa economia interna;

 

* A partir de março/abril começou uma dicotomia de comportamento dos preços, ou seja, os cortes mais baratos (dianteiro e ponta de agulha) começaram a apresentar valorizações de preços, enquanto que o traseiro (corte mais caro) continuou a amargar deflação. Esta alta dos cortes mais baratos é ainda mais estranha em função de que o dianteiro não tinha nesta época a via exportação em bom volume para o seu escoamento. Certamente, houve impacto do ajuste de produção feito pela indústria, que preferiu reduzir o seu negócio a reduzir preços, limitando assim a oferta. Mas, a verdadeira força propulsora dos preços do “D” e da “PA” foi migração de consumo do mercado interno. O consumidor, pressionado pela menor renda, inflação, etc, migrou o consumo dos cortes mais caros do bovino para os mais baratos e isto foi tão forte, que mesmo tendo a via exportação muito limitada para escoamento, houve forte valorização destas peças. Este cenário se manteve até setembro.

 

* Importante notar também que até o meio do ano, justamente até o final de agosto, o spread frango x carne bovina abriu muito e atingiu o seu maior valor, ou seja, o maior deságio do frango em relação a carne bovina no atacado. O frango, que tinha deságio médio de 30 a 40%, chegou a ser quase 60% mais barato que a carne bovina. O que está descrito para o frango também ocorreu com o suíno. Estes dois fatores também ajudaram a fazer o consumidor que gosta de carne bovina (a maioria do nosso mercado interno) optar pelo dianteiro, pois se não conseguia comer o traseiro, pelo menos “matava a saudade do boi” comendo uma “carninha de panela”, antes de ir para o frango;

 

* A partir de setembro, começou a ocorrer uma recuperação dos preços do traseiro. Além do fato de a carne bovina ter ganhado competitividade com o frango/suíno, sazonalmente a apreciação do “T” ocorre (melhor venda de traseiro no final de ano)! Mesmo em tempos de crise (e crise séria como a que vivemos), o gosto do consumidor é muito forte em direção à carne bovina, notadamente o traseiro (tem gente que diz que consumimos “irracionalmente” mais carne bovina do que deveríamos). Além disto, a exportação melhorou a partir de setembro (com a rápida e vigorosa deterioração do dólar), o que ajuda em dois sentidos: melhora o escoamento do dianteiro magro (maior parte de nossas vendas externas) e ajuda no escoamento de alguns cortes mais nobres para a exportação. Hoje, o preço do traseiro, praticamente recuperou a perda de preço com relação ao valor que iniciou o ano. No início de setembro, a carne bovina também voltou a ganhar competitividade com a carne de frango/suíno, pois estes sentiram mais rápido o aumento do custo de produção e tiveram recuperação forte e vigorosa dos volumes exportados (notadamente o frango).

 

Após analisar os pontos ressaltados acima, salientamos que estamos assistindo desde 2014 uma incrível disposição por parte da oferta de animais para abate (e para reposição) no sentido de piorar indefinidamente dia após dia. Assim, a arrancada do boi gordo no início do segundo semestre de 2014, levou a problemas de margens operacionais da indústria frigorífica, o que atingiu seu ápice em jan e fev/2015.

Isto porque, após as eleições, com o esclarecimento das mazelas dos nossos governantes para toda a população, com o aprofundamento destes problemas e início do ajuste fiscal, ocorreu a deflagração de uma crise econômica, retroalimentada positivamente por uma profunda crise política. Neste momento, notamos que a demanda resolveu embarcar na mesma empreita iniciada pela oferta, piorando dia após dia, culminando com o problema de margens da indústria citado acima, e consequentemente, com a atitude que eles tomaram para amenizar o fato: preferiram reduzir o negócio a reduzir seus preços.

Este direcionamento da cadeia toda, desde o setor de cria até a indústria, trocou consumo por preço elevado. Ajustamos a oferta, que estava reduzida, para uma demanda também em redução dia após dia. Atingimos uma situação em que uma se ajustou à outra, mesmo com ambas sendo ruins! E assim, conseguimos sustentar preços, mesmo com o agravamento da crise econômica.

Mas, apesar de termos preços sustentados, nem tudo são flores… Temos também desequilíbrio de margens ao longo da cadeia, desequilíbrio este que migrou do colo da indústria (onde se encontrava no primeiro trimestre de 2015) para o colo do invernista (onde se encontra agora e onde ficará nos próximos meses, até ser repassado para o próximo elo, a cria).

Porém, qual é a boa notícia? Neste momento, o lema do “quanto pior, melhor” que tanto oferta (de gado para abate e para reposição), quanto a demanda (de carne no atacado e no varejo) assumiram, deu “um tempo”, como diriam os jovens. Ou seja, a demanda resolveu melhorar um pouco, por dois motivos:

*pela exportação melhor, de setembro para cá, em função do dólar apreciado;

*pela sazonalidade anual, de melhorar a venda de carne de traseiro no último trimestre do ano, até o início de janeiro, que está ocorrendo, muito embora em menor grau neste ano.

Isto está permitindo os frigoríficos manterem margens mesmo com preço da @ perto da máxima histórica. A consequência é que mesmo com escalas um tanto tranquilas, no pico teórico da entressafra, não há pressão exitosa para baixar preço…

Muito bom! A consequência é o que estamos vendo: estabilidade para o boi, que navega no curto prazo de maneira calma, orbitando ao redor do maior preço histórico da arroba e com perspectiva de batê-lo, no vácuo de oferta que deve ocorrer em algum momento entre dezembro e o primeiro bimestre de 2016.

O até então solitário ponteiro que o dianteiro se tornou na “comitiva atacado”, acaba de receber um reforço: o traseiro! E assim seguimos no pó da viagem na nossa longa estrada da vida boiadeira.

Que você assuma o papel de ponteiro na “comitiva dos seus negócios e de sua vida familiar”, tocando o suave berrante, que no final das contas, chama a boiada, mais também o lucro para o seu negócio pecuário. Nos encontramos aqui na próxima semana, ou na próxima parada do cozinheiro, se assim Deus nos permitir. Abraços…

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) &

Ricardo Heise (@boi_invest),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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