Margens pífias ou negativas ao longa da cadeia: a locomotiva pecuária emperrou?

Por em 1 de agosto de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #227, de 31/julho a 06/ago/16)

 

Companheiros que carregam o pó da viagem,

Prezado leitor, precisamos de sua imaginação… Imagine uma maria fumaça com uma sequência enorme de vagões, transitando por uma via férrea onde se encontram duas montanhas separadas por um vale. Nesta analogia, a locomotiva seria a macroeconomia do Brasil, cada vagão representa um setor da atividade produtiva nacional e as ondulações desta nossa ferrovia imaginária seriam o nosso nível de atividade macroeconômica.

Em 2015, a maria fumaça brasileira mergulhava no profundo e tenebroso vale econômico da recessão, mas o nosso vagão ainda estava no alto. Descíamos, sim, mas víamos “de cima” os demais vagões mergulhados na crise. Isto porque o agro, o nosso vagão, é o derradeiro da fila e consequentemente, o último a entrar no vale quando a economia diminui seu ritmo. Parece que chegou a nossa vez de visitar o vale e sentir a mão pesada da crise econômica. Mas temos uma boa notícia, reservada para o final deste.

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Voltamos a ter uma queda leve no físico (cerca de R$ 1/@), acompanhada de uma queda de intensidade duplicada no mercado futuro (entressafra). O indicador Esalq/BMF, que orbitava nas máximas do intervalo de preços dos negócios vistos, agora corrigiu seu nível, estando bem “justo”: partimos de R$ 155,76/@ a vista (variando de R$ 152,50 a R$ 158) e baixamos para R$ 153,54/@ a vista (variando de R$ 150 a R$ 157).

O nosso BeefRadar, ou seja, mercado físico sinaliza que no encerramento da semana passada notamos a esmagadora maioria dos negócios entre R$ 152 a 154/@, com a máxima do boi EU a R$ 156/@ a vista. Negócios acima ou abaixo destes valores, até ocorrem, mas são absolutamente pontuais, não refletindo o mercado. No MS, novamente quase não tivemos alteração, ou seja: preços entre R$ 140 a R$ 142/@ a prazo.

Sobre as escalas, vale a lembrança de que há um ajuste de produção (redução de produção) em vigência, mas mesmo assim, há cerca de uma semana de agendamento de bois: as escalas estão entre os dias 08 (seg) e 09/ago (ter) em média, mas com a ressalva de que bois EU têm escalonamento muito mais longo, refletindo a oferta dos confinamentos paulistas. O “dia D” segue na terça (dia 09/08), com o placar de 4.67 dias (referência HAITONG).

Quem se altera é o status do beefradar, que agora foca na estabilidade:

40% de queda | 55% de estabilidade | 5% de alta

 2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Uma pitadinha da pressão paulista chegou na terra do pequi, de modo que o balcão mais comum passou a ser o R$ 141/@ a prazo (com prêmio EU, agora somente de R$ 2/@ e “personnalité” de no máximo R$ 1/@, bem pontual). O mercado segue com tentativas de deságio de R$ 2/@ sobre bois “mal-acabados” (deságio não homogêneo no mercado) e também com a ressalva de haver indústrias fora das compras para o boi EU. Em resumo, mercado meio “mornão/frio” em GO.

Foi confirmado o movimento de redução do diferencial de base com o boi de SP, pois a média semanal ficou em -14,42%, com a mínima semanal em -13,3%. Quanto ao deságio da arroba da vaca, este indicador segue perto de -4.5%.

3) HORA DO QUILO: se você estivesse com uma dívida milionária para pagar, teria coragem de montar uma empresa para vender um adubo chamado “bosta em lata”? Este é um belo exemplo sobre acreditar no seu negócio, característica fundamental para qualquer empreendedor, inclusive nós, do agro:

http://economia.uol.com.br/empreendedorismo/noticias/redacao/2016/07/27/apos-dever-r-1-milhao-empresario-aposta-em-adubo-chamado-bosta-em-lata.htm

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: uma bomba caiu sobre a pecuária do MS nesta semana com relação ao programa de incentivo da produção do novilho precoce: foi publicado um decreto sem tempo hábil para o produtor acomodar o seu sistema de produção frente as novas normas. Veja o link:

http://www.mnp.org.br/?pag=ver_noticia&id=459225

 

5) BOITOGRAFIAS DA SEMANA

5.1) Seu cocho de água é resistente? Sim? Igual ao Rubber Tank?

20160731 - Rubber Tank

5.2) Leilão Amigos de Rondônia: com a participação do nosso Amigo Alexandre Foroni e de outros companheiros de lá, esta é uma oportunidade para quem quer comprar reprodutores em Rondônia. Veja o link (http://www.amigosderondonia.com.br/) e a foto abaixo:

20160731 - Foroni

5.3) Uma homenagem aos produtores rurais: do nosso incansável companheiro José Mário Schreiner:

20160731 - JMario

6) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO (os sinais importantes do Sr. Mercado):

* dia 28/julho foi anunciado oficialmente o acordo “Brasil x EUA” com relação às exportações de carne e o assunto foi notícia na mídia:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/07/1796156-eua-removem-barreira-a-carne-bovina-in-natura-brasileira.shtml.

Segundo nosso amigo Fernando Sampaio da ABIEC, “o processo de abertura tinha 2 fases. Uma … que dizia respeito a saúde animal. Essa terminou em junho do ano passado com a publicação da ‘Final Rule’ e que liberou 14 estados para a exportação de carne in natura. A outra fase é a determinação da equivalência dos sistemas de inspeção. O FSIS auditou o Brasil em novembro passado. O SIF auditou os EUA agora. É isso que está sendo finalizado agora. Para os primeiros embarques só falta finalizar o Certificado Sanitário e o MAPA habilitar as plantas”. Uma ótima notícia, não só pelos 6% de potencial incremento de nossos embarques, mas sim pelo status e abertura que nos dará em outros mercados. Independente disto tudo, nem no dia do anúncio a bolsa reagiu positivamente, tendo aberto e fechado o pregão em queda. Sinal dos tempos…

* a brincadeira de pressão no físico e derrubada do mercado futuro levou a BMF a colocar a cotação de out/16 de volta ao valor que tinha em janeiro, devolvendo toda a alta que estava à disposição do mercado. Caso isto se concretize mesmo, o maior preço nominal do indicador de 2016 terá sido R$ 159,49/@ a vista, dia 04/abril. Depois de muito tempo, a BMF cota o valor do fechamento da arroba do mês vindouro, abaixo, ou no máximo em linha com o mês presente. Sinal dos tempos…

* está em inglês, mas é uma notícia importante: o Minerva está mais internacionalizado. Veja no link:

http://www.beefcentral.com/news/who-is-minerva-foods/?utm_medium=email&utm_campaign=Beef%20Central%20News%20Headlines%20July%2026%202016&utm_content=Beef%20Central%20News%20Headlines%20July%2026%202016+CID_b8ed5a0ffba34c545f3172e03b718584&utm_source=eGenerator&utm_term=Click%20here%20for%20full%20story

7) O LADO “B” DO BOI: margens pífias ou negativas ao londo da cadeia

Nesta semana, rodamos vários “planos de vôo” da compra de animais de reposição neste momento por parte do recriador/invernista, para posicionar nossa estratégia de reposição daqui para frente. Esmiuçamos o resultado zootécnico e financeiro do ciclo produtivo “bezerro comprado em set/2016 – boi confinado out/2017”, do ciclo produtivo “garrote comprado em set/2016 – boi gordo de pasto maio/2017” e do “boi magro comprado em ago/2016 – boi gordo confinado out/2016”.

Desde 2013, sem nenhuma exceção, tínhamos resultados financeiros positivos na engorda! Mas nesta edição deste estudo, feita com custos atuais (tanto de aquisição de animais, quanto os custos produtivos), notamos que há um fato em comum em todos os ciclos produtivos citados acima: margens mínimas ou negativas da engorda. Em resumo: não há margem para os ciclos produtivos de terminação de 2016, ou para terminação em 2017!

Por exemplo: um boi magro comprado em 01/ago, no estado de Goiás, com os custos atuais de engorda terceirizada confinada e vendido pela cotação atual do mercado futuro em out/16 (com diferencial de base estimado de R$ 12,50/@), dá rentabilidade negativa de 1.16% ao mês. Vimos algo parecido em Rondônia, numa palestra recente que demos naquele estado. Para a praça de SP, nosso estudo apontou que a engorda para entrega no último trimestre de 2016 aponta para uma rentabilidade ainda positiva, mas pífia (0,25% ao mês), a qual certamente não estimula nenhum “vivente” a confinar.

A conclusão é que a oferta de gado gordo proveniente de confinamento no final do ano pode ser seriamente reduzida em volume, pois sabemos que poucos usam os mecanismos de proteção de preços (ainda que este volume de negociação seja crescente, é esperado termos boa parte desta produção em aberto e, portanto, exposta a esta abrupta perda de margem). As perspectivas, neste aspecto considerado, não são nada boas, quanto à oferta futura!

Por outro lado, temos a pressão pela falta de liquidez da venda do boi magro e pela falta de pasto em função da seca pronunciada, fatos que conferem ao confinamento a única forma de reaver o dinheiro do ativo “boi”, mesmo tendo margens baixas… Vamos acompanhar e ver o que pesa mais na decisão… A pesquisa mais recente do frigorífico Minerva, que sairá em breve, aponta para uma redução consistente no volume de animais confinados em 2016.

Por outro lado, não é só a engorda que enfrenta este problema de margem. Este problema está em todos os elos da cadeia…  Leia as frases que escutamos recentemente de integrantes de vários elos:

*cria: “os leilões estão com baixíssima liquidez e as vendas em fazendas também. Tive que me apertar e optar por recriar meus bezerros, pois não aceitei a redução de preço que me ofertaram na desmama. O mercado esfriou”.

*corretor de gado: “está tendo muita oferta, está bom para comprar, mas quem tem pasto? Intermediei recentemente pouquíssimos negócios. Está tudo parado igual água de poço”

* leiloeira de gado: “estamos tendo liquidez baixíssima. Vendedor sentindo o baque e comprador atrás do toco, parado”

* recriador/invernista: “estou com dinheiro na conta para repor um pouco. Mas será que faço agora? Não estou vendo viabilidade. Vou esperar um pouco”

* boitel: “estou dispensando boi, pois os que eu peguei, em função da loucura do milho, estou tendo quase prejuízo e também a conta não tá fechando para o meu cliente”

* frigorífico (mercado interno): “a carne derreteu em julho. Nem o final de mês ajudou. Estamos tentando baixar a arroba para girar a carne, pois a recomposição de margens nem começou. Estou prevendo postergar abates por falta de espaço em câmara fria”

* frigorífico (mercado externo): “interrompemos as exportações em julho, saímos das vendas. Vamos esperar para ver como o mercado se estabiliza, pois em alguns cortes, está sendo até preferível vender aqui dentro. Estamos também fora das compras de bois EU”

* frigorífico (carnes alternativas): “vi várias operações de integração de frango da XXX paradas”.

* agricultor (venda de milho): “saímos das vendas. Vários companheiros fizeram isto”

* varejo (açougue de bairro de SP): “minhas vendas caíram entre 25 a 30%. É a pior crise que já passei aqui no meu açougue”

* varejo (churrascaria): “o restaurante xxxx de Goiânia parou de servir rodízio, pois a sobra de carne estava grande demais. Agora, ele vende por quilo. E o fornecedor de carne dele ofereceu carcaça casada pelo mesmo preço de agora, até o final de agosto”

Nota-se acima, que os fenômenos “margem apertada” e “redução do volume de negócios” está presente em toda a cadeia, desde a cria até o varejo, fato que retrata o que expusemos no início deste: a cadeia está sentindo o peso da crise (entramos no vale em que já estavam os vagões à nossa frente).

Porém, trabalhamos com a hipótese de que o consumo de carnes estará em recuperação do meio para o final do segundo semestre. Ainda que esta recuperação seja lenta e de baixa magnitude, acompanhando a nossa macroeconomia (a locomotiva macroeconômica do Brasil começa a dar sinais de que está começando a flertar com a estabilidade, como já dissemos aqui anteriormente).

Só nos resta saber se esta suposta melhora da demanda interna virá, além de dar maior giro aos nossos estoques de carnes, mas também a ponto de recuperar a margem das indústrias frigoríficas e a partir daí, também aquecer o preço da arroba e consequentemente isto permear para a cadeia como um todo.

Ressaltamos que no final do segundo semestre, supostamente haverá maiores dificuldades de oferta de animais terminados pois não há margem para engorda confinada com início agora.

Da mesma sorte, nunca é demais lembrar que a volta das chuvas também terá papel decisivo, após uma seca de magnitude extraordinária, quer seja dificultando a retomada das ofertas de pasto da safra 16/17, ou mesmo, levando ao abate antecipado de animais para alívio de pastagens após a volta das chuvas… Os efeitos desta seca ainda não estão precificados em nossa opinião…

Por fim e mais importante: a boa notícia é que, diferentemente do momento da descida, quando o agro é o último segmento afetado, na subida, somos o primeiro segmento a melhorar, pois nada é mais salutar do que voltar a comer carne muito antes do que pensar em trocar a geladeira… Tomara que a decisão (e a possibilidade) da nossa população voltar a comer carne nos níveis anteriores ocorra em 2016 e não somente em 2017!

Aguardemos os próximos movimentos do mercado em paz e saúde abundantes! Até a próxima, se assim Deus nos permitir…

 

Rodrigo Albuquerque (boicom20@gmail.com) &

 Ricardo Heise (r.heise@hotmail.com),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS: boicom20@gmail.com

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1 Comentário

  1. Alvaro Jose Sanches

    2 de agosto de 2016 at 0:51

    Boa noite!
    Rodrigo, foi muito bom essa analise que você fez, fico feliz que no final a uma luz, RSRSRS.
    Mas estava tudo vindo muito bem ante abril, depois só desandou! Hoje o milho na minha região (Presidente Olegário – MG) esta chegando a R$ 52,00 um aumento que nunca achei que chegaria. esta caro ate mas que em SP. Tenho 7 anos que estou trabalhando com Confinamento e estou sentindo como esta difícil engorda boi em 2016.
    Obrigado.

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