Derrama no pasto e pinga na escala

Por em 25 de janeiro de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #200, de 24 a 30/jan/16)

Aos que carregam o “barro da viagem”,

Mudamos a nossa saudação. O “barro” (e não mais o pó) está, por ora, mais adequado ao nosso momento… E por falar em saudação, a tradicional pergunta, feita na sexta para um comprador de boi gordo teve uma resposta não usual. Veja: “Alô, boa tarde, fulano. Como está o batido do boi por aí”? A resposta dele não trouxe uma proposta de preço, ou mesmo um intervalo de negociação, mas sim, outra pergunta: “Boa tarde! Depende… Como é o embarque na fazenda”?

Este diálogo real retrata com fidelidade a situação atual do mercado do boi gordo. Mesmo com as dificuldades que os fartos volumes de chuvas no trazem no tocante a pontes e estradas (especialmente num País que arrecada com eficiência, mas não investe com a mesma vontade em sua logística), a água que cai do céu é sempre uma bênção.

Uma das consequências deste “derrame de água abençoado” é a potencialização da restrição da oferta de gado gordo, por vários motivos. Estamos vivenciando isto, vejamos.

 

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Nesta última semana, partimos de R$ 148,89/@ a vista (variando de R$ 147,50 a R$ 151) e alcançamos R$ 150,49/@ a vista (variando de R$ 148 a R$ 153) no indicador Esalq/BVMF.

No mercado físico, o BeefRadar identificou a variação de R$ 150 a 154/@ à vista nos negócios do final da sexta passada. Não se compra boi a menos de R$ 150, em resumo. Devagarinho, a banda de cima do intervalo de negociação vai “abrindo frente”. Enquanto isto, no MS, a coisa vai melhorando um pouco, com preços entre R$ 138 a 140/@, o que ainda escancara um diferencial de base nas máximas da história, e que faz, por exemplo, o preço de Goiânia estar acima de Campo Grande, quebrando uma relação de preços de décadas.

As escalas da “terra do tuiuiú” estão, de fato, um pouco mais tranquilas que as de SP. Enquanto a semana do MS inicia com a agenda de abate praticamente cheia, a de SP está com o “DIA D” na próxima quarta, dia 27/jan e o placar cravado em 3 a 4d úteis. Quase ninguém está com a semana fechada em SP (escala, em geral, entre terça e sexta). Assim, o STATUS DO BEEFRADAR, considerando o indicador, mantem-se firme, igual a manco de aroeira:

15% queda : 45% estabilidade : 40% alta

 

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Devagarinho, o bovino goiano vai “supitando prá riba”, seguindo a macro tendência do mercado em geral. O balcão mais comum passou a ser o R$ 141 ou 142/@ a prazo, com prêmio EU de +R$2/@ e “personalitè” bem fácil de achar, igual a “bolo na casa de avó”.

As escalas estão em meados da próxima semana, entre quarta e sábado, com conforto pequeno para a compra de boi, de modo geral. Permanecem estáveis, tando o diferencial de base com SP (em -R$ 10/@), quanto o deságio da @ de vaca em relação ao macho (4,5%), mostrando que a safra de animais de pasto, não começou.

 

3) HORA DO QUILO: se uma imagem vale mais que 1.000 palavras, neste link tem pelo menos umas 30.000 que farão você pensar: http://misteriosdomundo.org/30-anuncios-poderosos-que-farao-voce-parar-e-pensar/

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: a frase de Leandro Pinto, o rei do ovo, é magnífica e reflete a pujança e a importância do agronegócio na economia: “as crises no agronegócio não duram mais de 6 horas. É o tempo que a gente leva para ter fome depois de uma refeição e a voltar a consumir alimento”. Quem quiser ler mais: http://exame.abril.com.br/revista-exame-pme/edicoes/58/noticias/o-empreendedor-do-galinheiro

 

5) FOTO DA SEMANA: parece uma foto em preto e branco, mas não é. É a maravilha da chuva, que nos brinda com um janeiro que há muito tempo não víamos: “invernado”. Local: Fazenda Buritis, Jussara-GO.

20160118_184704 - Buritis P&B

 

6) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO

6.1) Reposição firme, o mesmo filme: de uns meses para cá, na hora de comprar animais para engorda, começamos a sentir alguma abertura para apartação, alguma abertura para compra com prazo de pagamento e alguma melhoria de oferta, mas, preço em baixa, não. O cenário de absoluta firmeza continua;

6.2) Diferencial de base aberto, o mesmo filme: neste indicador, também, nada de mudança. Em alguns estados, como é o caso do MS e outros mais ao norte, como Rondônia, o diferencial está no nível mais aberto dos últimos tempos. Isto, por si, é um impeditivo para altas no indicador Esalq/BVMF, mas este fato não tem impedido a trajetória de alta do início de 2016 da arroba paulista. E indica não ser um bom momento para venda, nos estados citados;

6.3) A China crescendo menos, o mesmo filme: saiu o número de 2015, e o crescimento de 6.9% no PIB chinês é o menor em 25 anos. Isto tem incomodado os mercados mas não tira a expectativa de venda de carne bovina para aquele o País asiático, pois a qualidade do crescimento está maior que antes, o que favorece o consumo de produtos mais nobres, como as proteínas animais;

6.4) O petróleo em baixa, o mesmo filme: há quem diga que o óleo bruto descendo a ladeira dos seus preços faz mais estragos para o Brasil que a China crescendo menos. Mais um link interessante: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/01/1732846-preco-do-petroleo-afeta-mais-o-brasil-que-ritmo-da-china-diz-trabuco.shtml

6.5) O dólar em alta, o mesmo filme: e dá-lhe inflação. Este dólar ainda “não achou um teto”:

http://economia.uol.com.br/cotacoes/noticias/redacao/2016/01/21/dolar-sobe-e-fecha-a-r-4166-novo-recorde-desde-criacao-do-real-em-1994.htm

6.6) O milho, ainda definindo o seu filme: no link a seguir, um bom esclarecimento a respeito do milho: http://www.portaldbo.com.br/Agro-DBO/Noticias/Area-de-milho-safrinha-deve-crescer-9-/15173. Entre redução da área plantada para a safra de verão (-8%), aumento da área para a safrinha (+9%) e incertezas quanto a produtividade desta safrinha em razão da mudança de El Niño para La Niña, ficamos com a perspectiva de menor disponibilidade do cereal para o mercado interno, de agora até o segundo semestre. Isto representa uma bomba de hidrogênio para a agroindústria de suínos/aves, como está no link a seguir (http://blogs.canalrural.com.br/kellensevero/2016/01/20/aurora-milho-acima-de-r-40-quebra-agroindustria-de-sc/). Ao nosso ver, o milho, mantendo este enredo de preço aquecido, representa um bom fator de firmeza para o boi, pois poderá haver menor concorrência com as proteínas alternativas e menor procura pelo confinamento, em função dos altos custos. A Assocon retratou redução de 5% de animais confinados em 2015… Vamos aguardar os números para 2016, ansiosamente.

 

7) DERRAMA NO PASTO, PINGA NA ESCALA

Neste momento, no meio da segunda quinzena de janeiro, estamos vendo a carne no atacado ceder, o que é normal e até esperado.

Além de estarmos no “meio de mês”, o mercado interno sente a menor demanda. Até que demorou um pouco para sentir este impacto, principalmente porque nos últimos 10d, a carne bovina perdeu competitividade para o frango e o suíno, ambos em queda de preços mais acentuada da virada do ano para cá.

O preço do atacado cedeu, após 15/jan, mas a @ manteve a sua firmeza e até aumentou a toada da alta. Este aumento da firmeza do bovino ocorreu concomitantemente às chuvas, que potencializaram o padrão resiliente de oferta restrita, seja por dificultar o embarque (vide o diálogo retratado no início deste), seja por opção do produtor (pastos sustentando bons ganhos em um ambiente firme de preços e com limitações de manejo, são fatores que com frequência, fazem o pecuarista optar por represar embarques). Por isto a frase do título deste NF2R. Obs.: uma “estiadinha” pode afrouxar pontualmente o mercado, ou amenizar esta pressão de alta, por “desovar” possíveis vendas represadas que tinham que ser feitas por conta de caixa das fazendas.

A junção dos dois movimentos (queda do atacado e firmeza da @) derrubou um pouco a margem das indústrias nesta segunda quinzena, mas nada que lembre o terrível movimento de perda de rentabilidade vivenciada pelos frigoríficos no primeiro trimestre do ano passado e que acabou deflagrando um enorme ajuste de produção. De toda forma, estamos de olho.

Bom… Falamos em inflação, China, petróleo, milho, chuva, diferencial, reposição, mas e daí? O que isto poderá fazer em termos de impacto na nossa safra?

No “secar do bagaço”, os fortes eventos ocorridos de meados de dezembro para cá com os preços do milho (para cima) e com o volume de chuvas (acima das expectativas), devem mexer com a safra de animais para abate e isto deve ser analisado com cuidado (especialmente num País que abate 90% de seus animais tendo como base as pastagens).

Vamos lá então… Um possível cenário para os próximos meses poderá ser:

* Ocorrência da La Niña, com interrupção de chuvas mais precocemente (em abril);

* Manutenção do preço do milho em níveis altos, deixando o abate (pouso) do bovino via confinamento mais difícil (somente “por instrumentos”, pois o cereal aquecido funcionaria como uma nuvem “camada baixa e cima do aeródromo confinamento 2016”). Obs.: estudos preliminares precificam a @ produzida em confinamento cerca de 30% acima dos níveis comumente vistos ano passado, tornando a calculadora o principal “instrumento” para viabilizar este pouso no confinamento;

* Continuidade da pressão de custos em alta, especialmente o de suplementação, por conta do milho, mas também por conta da alta do dólar;

* Manutenção da projeção da atual curva de preços da @ para 2016, feita pela leitura dos ajustes da BVMF dos próximos meses. Obs.: a curva dos preços, projeta valores em ascenção até maio, o que estimula produtores a reter boiadas nos pastos no curto prazo.

Se este cenário se concretizar, deveremos ter consolidada a tendência de baixa oferta de animais para abate no primeiro trimestre, pois existirá concomitância de bons ganhos de peso à pasto e preços em alta, favorecendo a retenção dos animais nos pastos. Entretanto, estes animais terão que ser “desovados” por volta de maio, especialmente pela questão de confinamento com custo mais elevado e a consequente menor atratividade da operação. Isto pode levar mais produtores a abater seus animais no final da safra de pasto, mesmo que mais leves do que na última safra. Ainda mais se a menor procura para o garrote de cocho arrefecer a relação de troca, pelo menos um pouco.

Portanto, apesar de que provavelmente o ano de 2016 tenha um padrão de oferta restrita em linhas gerais, poderá haver condições para termos uma pressão maior de entrega de animais para abate no final de safra de pasto.

A atual curva da BVMF pode ser, portanto, uma boa oportunidade para hedge (desde que a sua conta “feche”), e que ainda não está sendo usada pelos participantes do mercado, visto que atualmente não há “posição líquida vendida” por parte dos frigoríficos (seja por “tomarem o risco” dos hedges efetuados, seja por não terem tido demanda por hedge por parte dos pecuaristas, como muito bem analisou o Leandro Bovo no último relatório Boi & Companhia).

Será que este cenário todo vai se concretizar? Minha melhor resposta: “sei lá”! Mas o que eu sei com certeza, é que não dá para jogar sem ter estratégia, e quem tem alguma, sai na frente, pois quem não tem a sua, passa a ser parta da estratégia de quem tem.

Além de estratégia, o que vale no nosso jogo é bola na rede (ou seja, venda com lucro). Artilheiro (pecuarista) competente, bota a bola para dentro (vende com lucro), mesmo que seja um gol de bico, de canela, não muito bonito (mesmo que seja com lucratividade um pouco menor). Este ano, dificilmente será um ano de marcar gol de placa, de vencer por goleada (vender com altas taxas de lucro).

Em 2016, cuidado para não “virar um Dodô”, aquele centroavante que fazia pouquíssimos gols pois marcava apenas os bonitos. Este ano, estou querendo muito mais ser o “Serginho Chulapa”, que marcava a maioria dos seus gols de bico ou de canela, mas não desperdiçava nenhuma oportunidade e era especialista em jogo “catimbado” e com o gramado molhado, exatamente como está o “nosso campo” (pastos encharcados)!!! Até a próxima, se Deus nos permitir!!!

 

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) &

Ricardo Heise (@boi_invest),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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