“Colocaram fogo no buraco do tatu, mas parece que não tinha tatu”

Por em 19 de junho de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #221, de 19 a 25/junho/16)

 

Companheiros que carregam o pó da viagem,

No atual mundo mega-conectado e que vive sob o célere e alucinante ritmo dos milissegundos, em que tudo tem que ser automático e instantâneo, vemos muita gente/ empresas “indo para dentro do buraco” de maneira muito rápida. Estas pessoas/empresas, muitas vezes não percebem as mudanças repentinas e continuam com os mesmos comportamentos que os “encaçaparam”. É como se continuassem a cavar, mesmo tendo entrado dentro de um buraco.

Quando se está nesta situação, ou seja, dentro de um poço e cavando, uma atitude inteligente de se fazer é simplesmente parar de cavar! Parece simples e óbvio, mas o autoconhecimento limitado é uma característica que impede a maioria de entender que é preciso mudar atitudes (parar de cavar). A economia de um País funciona como se fosse uma empresa ou em última análise, como se fosse uma pessoa, afinal de contas, ela é resultado do somatório das atitudes econômicas dos cidadãos. Será que a economia do Brasil parou de cavar? E por falar em buraco: cadê o tatu (ou no caso, o boi gordo)? Ele não apareceu, nem mesmo com o fogo (geada)? Vejamos…

 

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Como sempre, iniciamos com a variação semanal (entre sextas-feiras) do nosso indicador Esalq/BMF: partimos de R$ 156,14/@ a vista (variando de R$ 155 a R$ 157,75) e alcançamos R$ 157,88/@ a vista (variando de R$ 155,75 a R$ 160). Finalmente, o indicador aumentou a aderência com mercado físico que vínhamos acompanhando.

Pouca coisa mudou, apesar do frio e da infrutífera tentativa de pressão na arroba feita em algumas regiões do País. Em SP, nosso BeefRadar apurou valores entre R$ 156 a 159/@ a vista, com preços de até R$ 160/@ para animais EU. Na “terra da guavira e do tereré”, a arroba do boi manteve-se ao redor de R$ 143 a R$ 145/@.

O agendamento de bois permanece curto “igual a estribo de anão”, ainda entre a próxima quarta/sexta-feira, mantendo o placar em 2.75d na referência da corretora BMF HAITONG. O status do BEEFRADAR, mantém a direção da alta, mas ajusta a “pressão”, colocando a distribuição de probabilidades para a variação da arroba na semana que se inicia em:

15% de queda | 50% de estabilidade | 35% de alta

 2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

O boi goiano manteve a toada de R$ 142/@ a prazo no boi comum (prêmio EU de R$3/@ e “personnalité” pontual). As escalas também seguem heterogêneas, mantendo a situação descrita no último NF2R: há plantas com menos de uma semana e outras, as abastecidas com bois de contrato, que tem agendamento para um pouco mais de uma semana (na média, estão para quinta, dia 23/junho).

O diferencial de base “GO x SP” marcou a média semanal de R$ 16,50/@, consolidando o movimento lento, mas constante de arrefecimento deste indicador. O deságio da arroba de vaca em relação à arroba do boi, em GO, obteve a média semanal de -4.5%. Não vemos a mínima condição de ele subir nos próximos meses… É daqui, para baixo!

 

3) HORA DO QUILO: “Faça o que você gosta porque o dinheiro vem por acréscimo” (Antônio Celso Barbosa).

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: o gibi de histórias em quadrinhos (ou revistinha, como dizem os mineiros) sobre o qual comentamos na semana passada e que enfoca a questão “gases de efeito estufa x pecuária”, pode ser encontrado no link: http://old.cnpgc.embrapa.br/index.php?pagina=publicacoes/serie/index.html

 

5) BOITOGRAFIAS DA SEMANA

 

5.1) A VACA QUE DESMAMA DOIS BEZERROS/ANO:  foto postada por Gustavo Ferro, da Campo Rações, mostrando uma vaca do rebanho do Sr. Jerônimo Volpato, de São Miguel do Araguaia/GO. A vaca (de 480kg) está prenha, mesmo com uma cria de 8 meses e 325kg ao pé. É um sistema de produção ímpar, que deve ser entendido com parcimônia, mas que mostra o estrondoso potencial da nossa genética, sob o efeito de uma nutrição correta:

20160619 - volpato 2 20160619 - volpato 1

5.2) INTERCORTE, EM SP:  tivemos uma rápida passagem por este evento diferenciado, ocorrido nesta última semana. Além dos amigos, tivemos o prazer de fazer uma palestra para o Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA), oportunidade que agradecemos, em nome da Presidente do grupo, a Teresa Cristina Vendramini:

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5.3) BEEFEXPO, EM SP: outro grande evento em SP, onde, além de excelentes palestras, também tivemos o Curso da Carcaça do Boi 777, com o Prof. Flavio do Apta e uma edição especial do Evento Churrascada, consagrado na capital paulista, como uma celebração da carne:

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6) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO

6.1) Milho, em “soft landing” (pouso suave): o indicador do milho caiu durante os 5 pregões desta semana recém-encerrada, traduzindo a entrada da safrinha. Ao todo a queda foi de R$ 2.75/sc e o indicador fechou em R$ 50.62/sc (ainda não responsivo a fortes derretimentos). Se o milho fosse um avião bimotor, diríamos que está pousando com um motor acelerando: está baixando, sem querer baixar. Vamos acompanhando… O mercado futuro indica milho a setembro em R$ 42.68/sc… Será que cai mais R$ 8/sc? Do lado da meteorologia, o La Niña já é dado como certo. Só resta saber a sua intensidade e quando começarão os efeitos sobre a safra americana e sobre a próxima safra de verão no Brasil.

6.2) Milho e feijão com mais companheiros: além da dupla citada, o alho (cotado a mais de R$ 32/kg), atualmente mais caro que o contra-filé bovino (cotado a cerca de R$ 29/kg), vai se juntando ao time dos alimentos com forte alta recente. No “arrasto” estarão vindo também o leite e a dupla de carnes alternativas suíno/frango (estes últimos tem perdido competitividade em relação aos preços da carne bovina nas últimas semanas). Um novo desafio para o atual governo federal: pressão nos alimentos populares!

6.3) Um excelente artigo sobre carne, para apreciadores: veja no link a seguir, uma revisão sobre o tema “carne de qualidade” feita pelo nosso maior especialista, o estimado Prof. Pedro de Felício. Segue: http://library.carnetec.com.br/publication/?i=300408&p=28

6.4) Cota hilton: há cerca de 10 anos o Brasil não preenchia 100% da cota Hilton da exportação, apuração que se encerra no final deste semestre e agora, finalmente devemos conseguir. Sem dúvida, isto representa uma vitória da cadeia pois são exigidas características de qualidade de terminação e de rastreamento para este tipo de venda. Os embarques serão retomados no início de julho e esperamos que seja negociado um volume maior para o próximo período de entregas: entre julho/16 e junho/17. Mais informações no link: http://www.portaldbo.com.br/Revista-DBO/Noticias/Brasil-esta-perto-de-cumprir-100-da-Cota-Hilton/16883

 

7) O LADO “B” DO BOI: não tinha tatu no buraco?

O NF2R da semana passada anunciou a versão pecuária do encontro bíblico de oponentes “Golias x Davi”, que no nosso caso, tem o confronto de dois “Golias”, ou seja, dois fortes gigantes: demanda fraca e oferta fraca. Desta vez, vamos comentar sobre o estágio de preparação no qual ambos se encontram para esta “luta”, a qual definirá o rumo da arroba no segundo semestre de 2016.

Sobre o primeiro Golias, a demanda fraca, entendemos que ela já tenha terminado a sua preparação para a luta e este gigante esteja já na plenitude de sua “forma física”, ou seja: a demanda está totalmente enfraquecida no mercado interno e até mesmo, neste momento, também desacelerando no mercado externo.

Sobre o mercado interno, começam a pipocar opiniões (ainda não unânimes) de que possamos estar passando pelo “fundo do poço”. Estamos há meses com nível de desemprego altíssimo/crescente, com dificuldades fiscais do poder público com sucessivas quedas de arrecadação e quedas nos indicadores de atividade econômica, além da resiliente crise política. Com isto, o preço do atacado da carne obtido pelas indústrias frigoríficas tem ficado muito abaixo do preço pago pela arroba, diferencial este que tem batido todos os recordes negativos históricos.

Só para se ter uma ideia, a carcaça casada do boi sendo vendida a cerca de R$ 8,56/kg (ref. Scot Consultoria), significa dizer que o frigorífico apura com a venda de carne (no estado de SP) o valor de R$ 136,10/@ apenas (valor apurado pela indústria com a venda da carne, convertida em arroba, considerando que a carne fica historicamente em média 6% abaixo do valor pago pela @). De fato, estamos com a maior diferença histórica entre o valor pago pela @ e o obtido com a venda da carne. Os indicadores de margem operacional estão consequentemente nos mesmos patamares (ambos inferiores ao terrível primeiro semestre de 2015). Tanto os frigoríficos que vendem carne com osso, quanto os que vendem carne sem osso tem sentido esta pressão sobre as margens, mas certamente, as indústrias menores e que não exportam, tem sentido mais.

Neste momento, estamos também com vendas externas em desaceleração, embora ainda superiores a 2015. A demanda dos compradores diminuiu, particularmente devido a problemas com a China. São relatados também dificuldades de excesso de tempo para formação de cargas devido à nossa produção interna reduzida. O dólar, operando em valor mais baixo, também tem representado alguma dificuldade, embora, esta não seja, em nossa visão a maior preocupação, pois acreditamos que o governo não irá deixar o dólar cair livremente (este áudio da Mara Luquet é bem esclarecedor sobre o tema “câmbio”: http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/mara-luquet/2016/06/14/HOUVE-UM-ALIVIO-APOS-FALA-DE-GOLDFAJN-SOBRE-TAXA-DE-CAMBIO.htm).

Em resumo: não dá para a demanda ficar pior. Provavelmente estamos mesmo no fundo do poço deste quesito, que é um dos dois que formam os preços. Vivemos os dias da “demanda tiririca, pois pior do que está não fica”! Mas, paradoxalmente, isto é uma boa notícia! A “demanda tiririca”, justamente por estar péssima, dá os primeiros sinais de que pode estar parando de piorar! É o tal: aparentemente a demanda pode estar parando de cavar o seu buraco! Veja: no final de maio, a Abras (Associação Brasileira dos Supermercados) disse que “as vendas dos supermercados brasileiros estão se estabilizando depois de um período de retração que começou no ano passado … a perspectiva para o restante deste ano ainda não é otimista a ponto de se esperar crescimento de vendas ante 2015, mas … a queda na demanda dos consumidores parece ter chegado ao fim”. O conteúdo do link a seguir da jornalista de economia Miriam Leitão vai de encontro a esta declaração, ao anunciar que o índice de vendas no varejo restrito do IBGE referente ao mês de abril, veio com variação positiva ante março, alta “puxada” pelas compras em hipermercados (http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/miriam-leitao/2016/06/14/MELHORES-RESULTADOS-DAS-VENDAS-DE-VAREJO-NAO-SAO-GARANTIA-DA-RECUPERACAO-ECONOMICA.htm). Como o Alexandre Mendonça de Barros havia dito no Confinar, os “alimentos são os primeiros que voltam a serem consumidos, após período de restrição”. Em resumo: a visão pessimista diz que o nível de demanda interno e externo está ruim. Os otimistas preferem a visão de que parece estar parando de piorar…

Do outro lado, temos o nosso “segundo Golias”, a oferta fraca. Se por um lado, a demanda já “colocou todas as cartas na mesa”, a oferta ainda pode piorar mais. Recentemente, o evento seca antecipada já tinha se configurado como um forte motivo para fazer o boi aparecer nas escalas mais fortemente, mas não conseguiu. Agora, o frio intenso, acompanhado de geadas, nos sinalizou que não devemos ter mesmo como reverter esta oferta pequena. O frio e a geada foram o “fogo” no buraco do tatu, comentado no título deste. E o tatu que não saiu da toca, na nossa analogia foi o boi gordo que não apareceu, pelo fato de não existir em grande volume.

Cremos que há enormes possibilidades de um agravamento da oferta em julho, fato até, em certa medida, já precificado pela BMF (o próximo mês tem cerca de R$ 4/@ de ágio sobre o mês presente). O indicador Esalq/BMF deu uma puxada e terminou a semana mais aderente ao mercado físico e ajudou a “empurrar um pouco para cima” toda a curva dos meses futuros. Entendemos que este movimento deve significar uma nova temporada de vendas em conta gotas (iniciamos isto no final da última semana para o nosso gado. Seja bem-vindo à temporada de travas, novamente).

Para o mercado futuro “ir mais um pouco acima”, precisamos de novidades de preços no mercado físico, as quais por sua vez, vão depender de um aumento do stress de oferta. Se o preço da arroba de julho em diante fosse um bimotor, seria o mesmo que dizer que estamos decolando com um motor somente (o motor da oferta reduzida), visto que o motor da demanda está emperrado literalmente.

Mesmo que haja tendência de um aquecimento da arroba nos próximos meses, visto que a demanda já se encontra “madura” e a oferta tende a piorar mais, não perca de vista as margens mais apertadas dos elos subsequentes. Por isto, recomendamos não perder de vista estes preços mais aquecidos dos próximos meses no caso de sua margem se tornar atrativa com os mesmos.

Deixamos você por aqui, esperando que até o próximo NF2R, sua jornada seja facilitada pelas escolhas felizes e dotadas de sabedoria. Lembre-se: “as metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito” (Roberto Shinyashiki).

 

Rodrigo Albuquerque (boicom20@gmail.com) &

 Ricardo Heise (r.heise@hotmail.com),

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS: boicom20@gmail.com

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