Cadê o ágio do outubro que estava aqui? A bolsa comeu…

Por em 15 de agosto de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #229, de 14 a 20/ago/16)

 

Companheiros que carregam o pó da viagem,

Nos últimos dias, escutei ou li frases como estas: “nunca antes na história deste País, o sul do Pará esteve tão seco” (José Abel); “tive relatos de bezerros vendidos por R$ 600,00/cab no PA porque o vendedor não tinha mais água em seus pastos”; “na região da Fazenda do meu Pai, na Bahia, houve morte de 60 a 80% das pastagens. Tivemos que vender 95% do nosso gado devido à estiagem”. De fato, a seca de 2016 é realmente uma das mais severas das últimas décadas. Negligenciar este fenômeno climático extremo seria uma insanidade, num país que abate 90% do seu gado proveniente de Fazendas em que os pastos são o “coração do sistema” (que o diga a atual pressão experimentada pelo mercado de reposição). Falta de pasto e mais recentemente também de falta de água pipocam. Se não bastasse isto, o fogo e a fumaça passaram a fazer parte do nosso dia a dia (várias regiões de GO apresentam o céu típico do final de setembro/início de outubro).

Falando em fogo… Imagine um incêndio dentro de uma panela de pressão. Este é o retrato do mercado pecuário de hoje, um mercado de extremos. E, na semana passada, resolveram apagar este fogo com gasolina. Adivinha… Isto tem tudo para não dar certo…

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Já está ficando sem graça de tão repetitivo. Da mesma forma que na semana passada, “novamente tivemos pressão forte na bolsa, acompanhada de pressão leve no físico”. Numericamente, partimos de R$ 151,87/@ a vista (variando de R$ 149,50 a R$ 154) e descemos até R$ 151,00/@ a vista (variando de R$ 150,50 a R$ 151,50) com relação ao indicador Esalq/FMF. A previsão de estabilidade do NF2R da semana passada se confirmou porque o intervalo de negociação do mercado físico paulista, apurado pelo nosso BeefRadar, ficou inalterado (preço entre R$ 150 a R$ 154/@, com máxima de R$ 155/@, à vista).

Mas, numa sexta-feira de poucos negócios, o impensável ocorreu com a máxima captada pelo CEPEA (a qual ficou quase R$ 2/@ abaixo do nível de mercado), o que fez o indicador recuar de maneira equivocada, em nossa opinião. Um fato muito ruim para a saúde dos negócios da BMF! Até quando isto ocorrerá? Informemos todos os nossos negócios via app CEPEA Boi, pelo amor de Deus!

Nada de novidade no MS quanto ao preço (R$ 140 a 142/@ a prazo e notícias de boi de R$ 143/@ no sul do Estado), mas quanto às escalas, vemos claramente um encurtamento. Mesmo com infinitos “pulos de abate”, as escalas estão entre 18 a 22/ago (a maioria não fechou a semana). Em SP, estamos com agendamento entre o dia 17 (quarta) e o dia 22 (segunda), recuando o “dia D” para quinta (dia 18). Mesmo com a intensificação dos pulos de abate (redução da produção), as escalas encurtaram sensivelmente. A verdade é esta!

Nota-se um aumento muito grande da especulação no mercado porque os frigoríficos tentaram baixar o físico de SP na manhã da última sexta, sem sucesso. À tarde, as notícias de preços nos valores vigentes até então, começaram a aparecer novamente. Portanto, seguimos com o status do beefradar, focado na estabilidade:

20% de queda | 55% de estabilidade | 25% de alta

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Também de maneira idêntica à semana passada, o preço balcão “padrão” baixou mais R$ 1 e passou para R$ 139/@ a prazo (com prêmio EU de até R$ 2/@ e “personnalité” de no máximo R$ 1/@). Continuam as ofertas R$ 2/@ a menos para bois “mal-acabados”, bem como a opção de indústrias ficarem “fora das compras” para bois EU. As escalas estão entre a quarta (17) e a segunda (22), mas há relatos de agendamentos mais longos para bois EU.

Por último, quanto ao diferencial de base, a média semanal ficou em -R$ 13,4/@ e o deságio para as vacas ameaça estreitar, ficando próximo de 4%, fato esperado para a época.

3) HORA DO QUILO: “Se você está torcendo para o mercado ir para um lado, você está do lado errado do mercado” (Rogério Goulart, na Carta Pecuária #645)

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: recentemente a pesquisadora da Embrapa Mariana de Aragão Pereira postou em um aplicativo de mensagens um resumo interessante sobre comunicação com o consumidor, baseado em um evento no qual compareceu. A nossa cadeia tem cometido erros graves quanto a este assunto. Seguem excelentes dicas para enfrentarmos os frequentes ataques que sofremos: “Não aceite provocação.  Isso rende mais publicidade negativa. Crie sua estória. Pratique a sua estória e aproveite toda oportunidade de contar a sua estória. Escolha suas palavras.  Quão gráficas são elas? Seja honesto e encare de frente o mercado. Os consumidores não são estúpidos. Eles podem não conhecer os termos técnicos mas sabem o que querem. Converse numa linguagem apropriada para a oitava série. Não defenda sem análise crítica seu ponto de vista e reconheça quando alguém contrário tem um ponto defensável. Quando nos calamos, outros falam por nós. Não adianta a gente ficar conversando entre nós mesmos. Temos que falar com os políticos que investem dinheiro público na cadeia, temos que falar com o consumidor que compra nosso produto e até com aquele que não compra”.

5) BOITOGRAFIAS DA SEMANA

5.1) As cores da seca, por Luis Caires:

20160815 - Caires

5.2) Os ensinamentos para a cria, evento do nosso amigo Ricardo Passos, esta semana em GO:

20160815 - Alta 3 20160815 - Alta 2 20160815 - Alta 1

6) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO (os sinais importantes do Sr. Mercado):

* Na contramão da toada das margens da cadeia pecuária, o varejo trabalha atualmente com a maior margem de comercialização desde 2013, certamente, embutindo “recuperação de margens” nos aumentos de preço que a carne experimenta desde 2014. Além disto, este elo tem comprado carne do atacado a preços mais em conta. Acredite: o varejo está recompondo margens! Podia deixar para depois, para fazer girar mais a nossa mercadoria, no momento em que a cadeia mais precisa;

* desde o pico nominal de preços da arroba bovina de 2016, ocorrido no início de abril, tivemos 18 semanas. Medido pela variação do indicador de SP entre as sextas-feiras, contabilizamos 13 semanas em queda e 5 em alta. Ao todo o mercado físico perdeu aproximadamente R$ 7,50/@ enquanto o futuro recuou R$ 15/@ (base outubro). Estas são as quase inacreditáveis marcas, atingidas no fechamento da semana passada, a quarta seguida em queda. Uma observação: faz mais de três anos que as quedas sequenciais do mercado da arroba se limitam ao máximo de cinco semanas. Ou seja: com relação à extensão da atual “perna de baixa” da arroba, estamos no limite do nosso histórico recente… Vamos conferir!

* Já falamos aqui algumas vezes que vários indicadores econômicos indicam um arrefecimento da nossa crise. Segue uma nova matéria, bem clara neste sentido:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/06/previa-do-pib-do-banco-central-tem-estabilidade-em-abril.html. Repare que o Índice de Atividade Econômica do BC (dito como uma prévia do PIB) do mês de abril, apresenta queda de 4.99% quando comparado com o mesmo mês do ano passado. Mas a variação frente ao mês anterior (março/16) aponta para uma alta marginal de 0,03%. Claramente, entramos numa zona de estabilidade, onde a demanda tende a parar de piorar e a experimentar uma leve recuperação. Olho atento.

 7) O LADO “B” DO BOI: cadê o ágio de outubro que estava aqui?

Na última semana foi dito aqui a frase “o boi achou um fundo” e isto tem se mostrado verdadeiro, sobretudo no físico. Mas, em compensação, a bolsa registra quedas bem acima das projeções dos mais pessimistas.

Na mesma “toada”, o mercado de animais de reposição também enfrenta queda acentuada, fomentada sobretudo:

* pela pressão de clima (seca que leva a falta de pasto, falta de água de bebida para os animais, ocorrências de queimadas, além da questão de elevação do custo de produção da engorda pela frustração da safrinha de milho, fato que faz retrair os compradores);

* pela pressão de demanda: compradores estão retraídos, assustados pelas incertezas quanto ao mercado da arroba na entressafra (além do alto custo de engorda, citado acima).

Em Goiás, por exemplo, nas duas últimas semanas, as ofertas de boi magro de 13 a 14@, comprados “no peso” da fazenda do vendedor, caíram de R$ 145 – R$ 150/@ para os atuais R$ 137 – R$ 140/@. Mesmo assim, a margem da engorda confinada que antes era negativa em 1,16%, agora é negativa em 1,58%. Em outras palavras, as importantes quedas do mercado de reposição não têm conseguido compensar as quedas dos preços futuros.

Nesta semana, o mercado futuro perdeu completamente a baliza mínima e o mês de outubro encerrou a sexta cotado à R$ 152,00/@ (preço SP). Há muito tempo não ocorria, mas agora a bolsa indica preços em queda até setembro e um segundo semestre com preços médios de R$ 151,82/@, ou cerca 2% menor que a média do primeiro semestre de 2016. Uma entressafra sem ágio, ou pior, com deságio combina com a margem negativa do confinamento e com a queda dos animais confinados que todos estão prevendo?

O movimento dos preços da arroba na bolsa, dizem alguns analistas de mercado, antecipa o físico e neste sentido, ultimamente a bolsa tem sido muito usada (pelas indústrias) justamente para pressionar o mercado da arroba do mês presente.

A questão do câmbio realmente tem jogado para baixo as perspectivas de melhorias profundas na exportação, fator muito importante neste ano em que a nossa demanda interna está combalida. Sabemos também que as margens dos frigoríficos atingiram números dramaticamente baixos nos últimos meses. Tudo bem… Mas será que não está havendo descolamento da bolsa com a realidade?

Vejamos o caso das proteínas alternativas. O frango e o suíno estão em alta, respectivamente, nos maiores preços desde out/14 e out/15, acumulando altas de 10 a 12% neste mês, de modo que atingimos a menor diferença entre as carnes alternativas e a carne bovina desde maio. Ambos tem disponibilizado menor oferta e também repassando aumento nos custos. Pois bem, a carne bovina tende a fazer o mesmo movimento, no seu devido tempo, em função da menor dependência de milho que as carnes alternativas e da característica temporal mais extensa para ajustar (reduzir) a produção, quando comparados à dupla concorrente (frango/suínos). Obs.: informações adaptadas de Scot Consultoria e CEPEA.

A redução da produção de carne bovina está a todo vapor e se intensificando… Estamos com alta ociosidade nos frigoríficos, principalmente nas indústrias menores. Normalmente, em agosto, inicia-se um movimento de valorização da carcaça casada do atacado bovino, ainda mais com o Dia dos Pais no seu início. E aqui trazemos uma excelente notícia: houve recuperação leve no preço do atacado durante a última semana e melhora nas margens das indústrias, que ainda se encontram em níveis historicamente baixos, mas estão novamente demonstrando que iniciam uma ascenção!

Do lado da oferta, temos montado o cenário necessário para uma recuperação de preços da arroba (vislumbramos oferta crítica adiante). Vamos ver se a demanda confirma o início de uma leve e tênue recuperação, a qual já anunciamos aqui repetidas vezes, mas agora, possivelmente com o seu início deflagrado. Ainda temos que confirmar este movimento, mas tudo indica que ele se iniciou.

É fato que toda e qualquer recuperação de preços de arroba para os meses da entressafra depende muito de uma melhora no cenário de demanda, sobretudo interna, a qual encontra-se ainda profundamente retraída.

Potencialmente, portanto, a alta da entressafra pode não ser explosiva como sugere a pressão de oferta crítica que está a caminho, mas esta derrubada da bolsa na intensidade ocorrida me soa como tentar apagar o fogo de um mercado que está incendiando, jogando gasolina sobre as labaredas. Haverá muita pressão no curto-médio prazo e isto tem tudo para “dar grozope” no quarto trimestre, ainda mais se a economia e o consumo iniciarem a sua recuperação, fato no qual acreditamos.

Que você tenha tido um excelente Dia dos Pais, de preferência com muito carinho, amor e churrasco. Até a próxima, se assim Deus nos permitir…

 

Rodrigo Albuquerque (boicom20@gmail.com) &

 Ricardo Heise (r.heise@hotmail.com),

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

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