Boi gordo em 2016: hora de esperar aumento de preço? Ou reduzir tecnologia?

Por em 8 de novembro de 2015

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

 A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #190, de 08 a 14/nov/15)

 

Aos que carregam o “pó da viagem”,

 

Meus amigos, de agora em diante, na loucura frenética e desenfreada de um mundo com tênue apego aos reais valores da vida, sempre em busca de algo material que condense a felicidade (uma busca insensata pois ela se esquece que o único e verdadeiro tesouro é o interno), do ano de 2015 só resta a contagem regressiva para as festividades de final de ano. Hoje, sábado 07/nov, recebi de um amigo que gosta de pinga a informação que faltam 51 dias para acabar o ano. Apenas uma fagulha de tempo para este nosso mundo maluco. E nesta busca incessante pelo futuro, pipoca o assunto: e o boi gordo em 2016?

Como pano de fundo para estas previsões do futuro de curto prazo estão, em nossa modesta opinião, as palavras “mudança” e “transformação”. Elas são aparentemente sinônimos, mas na realidade são muito diferentes quando se consideram os verdadeiros significados delas no moderno mundo dos negócios.

Vejamos a seguir. Você pode estar achando que os parágrafos acima são desconexos, mas sigamos com a leitura. Eles tem absolutamente tudo a ver.

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

O indicador ESALQ/BMF, na semana recém-encerrada, partiu de R$ 148,25/@ (variando de R$ 146,75 a R$ 150,50) e subiu até R$ 148,51/@ (variando de R$ 147,50 a R$ 149,50). Segue na sua calmaria sem fim, congelado na tendência de estabilidade com leve viés positivo, há meses (graças à Deus, visto a confusão da nossa economia).

No encerramento da semana, o mercado físico paulista concentrava o maior volume dos negócios entre R$ 147 a R$ 149/@ à vista, com R$ 1/@ acima ou abaixo disto de maneira pontual. Pelos lados da “Terra da Guavira”, no MS, o preço manteve-se em R$ 140/@ ap, com escalas para 17/nov (uma semana, com folga).

Em SP, as escalas estão entre 16 a 18/nov, com alguns frigoríficos já sem espaço “dentro do mês”. O “DIA D” ficou em 17/nov, aumentando o placar para 6 dias (entre o acordo da venda e o dia do abate). O agendamento de bois está no maior nível do ano, o que pode levar a alguma tentativa de baixa, que, caso venha, será de pequeno curso, acreditamos. O nível de preço das carnes no atacado, em patamar recorde, por si só impede um movimento mais brusco neste sentido. Depois o ajuste de produção ocorrido no primeiro semestre, as margens estão sustentáveis para os frigoríficos. Isto justifica a coexistência de escala longa sem tentativa de redução de preço. O STATUS DO BEEFRADAR “desceu do muro” e agora aponta para:

30% queda (leve) : 50% estabilidade : 20% para alta (leve)

 

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

A estabilidade permanece sendo aliada do boi goiano e, nesta semana, o balcão trouxe o R$ 138/@ a prazo da semana passada, mas também o R$ 139/@ ap (com prêmio EU de +R$2/@ e personalitè adicional de R$ 1/@).

As escalas seguem com mais folga ainda que na semana passada, estando em geral para perto do dia 19/nov e com maior quantidade de frigoríficos apresentando tranquilidade na compra de bois. Como, na média, o agendamento de bois está maior em GO do que em SP, o diferencial de base, no final da semana, subiu e infelizmente já se aproximou de R$11/@.

Com relação ao deságio das fêmeas em relação aos machos, seguimos ao redor de 5% ou até um pouco menos. A abertura desde deságio é o gatilho que temos que monitorar agora.

 

3) HORA DO QUILO: valeu a mobilização. Vejam o link a seguir… O programa do Novilho Precoce do MS não foi suspenso!!! Vale agora lembrar que há um prazo relativamente curto (30d) para a reestruturação do programa, o que é sem dúvida, muito interessante: http://famasul.com.br/assessoria_interna/governo-de-ms-cria-grupo-de-trabalho-para-reestruturar-o-programa-de-incentivo-fiscal-ao-novilho-precoce/39229/

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: continuamos com o pedido para quem negocia bois com frigoríficos: cadastrar-se no CEPEA e acima de tudo, informar as negociações feitas. Para tanto, basta enviar via e-mail (boicepea@cepea.org.br) o seu nome, telefone e e-mail preferencial para contato. Com tais informações, o CEPEA poderá entrar em contato com cada um de vocês e convidá-los para participar do levantamento de preços da arroba diário. Um cadastro simples será preenchido pelo próprio telefone e então você, pecuarista, passará a ser consultado diariamente sobre as efetivações, sejam elas de reposição ou de animais para abate. Esse cadastro é necessário também para que as informações do agente sejam consideradas pelo sistema CEPEA. O Cepea se compromete em manter sigilo das informações fornecidas pelos participantes do levantamento. Ressalto que é muito importante o cadastro e o fornecimento de tais informações, para que os indicadores de preços da arroba sejam fidedignos. Só para se ter uma ideia, de como isto é difícil de ser feito, vejam, nas palavras do Coordenador do Projeto, o Prof. Sergio De Zen, a situação de SP: “Temos 120 mil produtores de boi, segundo o Ibge. Destes, 73 mil vendem menos de 20 cabeças ano e representam menos de 3 % do mercado, 45 mil vendem entre 20 e 350 animais ano, com uma média de 2 negócios, representam 60 % do volume de abate e o restante do abate tem origem em 1800 produtores. Então para obter um negócio quando um pesquisador pega o telefone tem menos de 0,5% de acertar. Por isso a colaboração dos produtores é fundamental”. Conto com a comunidade NF2R!!!

 

5) FOTO DA SEMANA:

 

  • Foto de Alaor Ávila Filho, Fazenda Panorâmica do Turvo, em Indiara-GO, de capim com 50mm de chuvas acumuladas (há sete dias sem chuva), “pedindo 4 UA/há. A sequência de construção do solo foi: soja de 2002 a 2005; Mombaça 2006 até hoje, adubado pelo menos 1 vez por ano durante 3 anos; depois disso aumentaram-se as adubações para 2 até 5 vezes ao ano; nos últimos 3 anos além de adubo, foi aplicado resíduo orgânico (4t/há) e em 2015, calcário e gesso. Nesta safra não foi adubado. Tem hoje 4.07 UA/há, sendo 200 garrotes de 275 kg em 30 há”. Veja:

20151107 - Alaor

  • Foto de Beto Zillo, ILPF da Fazenda Santa Silvia, município de Marilia-SP:

20151107 - Beto Zillo

  • Foto de Mateus Arantes, bife ancho de fêmea menor que 24 m (dente de leite), com 6 mm de gordura e 4,7 de marmoreio, só a pasto e sem grãos na alimentação. Incrível o que a seleção para qualidade de carne pode fazer:

20151107 - Carne Mateus

  • Foto de Rafael Ruzzon, de Rochedo-MS, do produtor Jeronimo Machado, que tem a descrição: “colhendo daqui 115 dias… Pensei em usar o mesmo raciocínio para os bezerros! Vale a reflexão”. Veja:

20151107 - Ruzzon

  • Foto de Luis Henrique, novilhas em engorda, em Guaxupé-MG:

20151107 - Tiririca

 

6) AUMENTO DE PREÇO: O PROBLEMA É QUE ESTA SOLUÇÃO, VIROU UM PROBLEMA

 

Na semana passada traçamos o terceiro raciocínio “estilo benchmark” entre a pecuária e o setor imobiliário. Deixamos claro que no imobiliário, os próximos anos serão caracterizados pela mudança do driver que comanda o eixo de criação de valor (lucro) daquele negócio. Até aqui, se considerarmos o período de tempo entre 2005 e 2014, o eixo de criação de valor era externo. Bastava ter um imóvel na planta, e na entrega das chaves, vender e colher o lucro. Mas de 2015 em diante, a mola propulsora de lucro no negócio imobiliário passou a ser interna, ou seja, o próprio gestor tem que criar o lucro. A gestão tem que ser ativa, conforme ensinamentos da Empiricus.

Como dissemos, algo muito semelhante está sendo proposto para a pecuária, e está começando pela recria/engorda em 2016 (a tendência é que, com o tempo e o caminhar do ciclo pecuário, isto chegue até a cria, lá para 2017/2018). Este é um cenário provável, ainda em início de ocorrência e que tem como ponto marcante: margens mais apertadas (resultados operacionais menores).

Com isto, o questionamento de que temos um problema de preço, vem à tona, afinal de contas, se estamos tendo problema de margem, o preço poderia corrigir isto!

De fato, poderia mesmo, ou até quem sabe, poderá não corrigir completamente, mas pelo menos atenuar o problema de margens apertadas da recria/engorda de 2016, caso haja uma retomada das exportações, impulsionadas pelo dólar. E isto não está difícil de ocorrer, visto que os nossos importadores (muito dependentes do petróleo) não compraram muita coisa em 2015 e isto pode melhorar (achamos inclusive que efetivamente melhorará), vide o exemplo do milho, bombando agora, impulsionado pelo dólar.

Mas, historicamente, toda a vez que as margens ficaram ruins, a saída esperada para o conserto do imbróglio pecuário sempre foi esperar um aumento de preços. Porém, as coisas mudaram e com o nível de margem cada vez menor, quando analisamos a tendência das últimas décadas, e de intensificação cada vez maior, da mesma forma que o investidor imobiliário, o investidor pecuário, tem que assumir o leme, ou melhor, as rédeas deste negócio! Em outras palavras, como diríamos no “goianês” da Serra Dourada, antes, “tínhamos prazo” para esperar o preço subir. Mas, as coisas mudaram e como está no título deste sub-item, o nosso atual problema é que a solução histórica (aumento de preço) virou um problema, por não a podermos mais esperar. Assim, a única saída é assumir o eixo de criação de valor!

Esta questão de o próprio investidor comandar a criação de valor, tem um mestre mundial cujo nome é Warren Buffett. Ele é um mega player do mercado de ações, muito conhecido mundialmente e que faz investimentos em um mercado de risco explícito, mas mesmo assim, via de regra ele não tem perdas ao longo dos anos. E qual seria o segredo dele, então??? Simples assim: ele compra barato! Quem compra barato, mesmo errando, acerta, o que faz esmaecer as limitações dos investimentos, até dos mais incertos. Como nos ensinou o Felipe Miranda da Empiricus: “o preço que se paga determina uma grande (enorme, gigantesca!) parte do retorno de um investimento”.

E o que ocorreu com o bezerro e o garrote de 2014 para cá? Resp.: um estrondoso salto, que conferiu à cria, talvez a melhor série histórica de rentabilidade! Ah, isto é ótimo!!! A cria ficou muitas décadas sem fazer dinheiro (ninguém “ganha” dinheiro, mas sim “faz”). Está tudo certo, portanto! Ela precisa de oxigênio (lucro) também! Colaboraram para isto além do ciclo pecuário (alto abate de fêmeas até 2013), a ILP e ILPF, o ciclo completo, a mais rápida adoção de tecnologia por parte da engorda e etc…

Mas, independentemente dos motivos explicitados acima, que causaram uma forte e necessária correção do preço do bezerro, o “affordability” dele caiu! Esta palavra inglesa quer dizer “o quanto o cliente pode pagar”. E se você fizer a conta de trás para frente, você vai ver que o ciclo de engorda 2015/2016 terá redução de margens, a não ser que haja uma profunda e importante correção de preços para cima.

Como, simplesmente, não mais podemos esperar por esta saída (aumento de preços), seja pelo nível de intensificação do nosso negócio atualmente, seja pelas péssimas perspectivas econômicas do nosso País para este e para o próximo ano, seja porque a pecuária já vive um ciclo de alta muito pujante, resta-nos mais uma vez imitar o mercado imobiliário e assumir as rédeas do eixo de criação de valor e fazer uma gestão ativa do nosso negócio.

Metade da resposta da pergunta do título deste NF2R já temos: em 2016, não é hora de ficar esperando aumento de preços. E a segunda metade da resposta, tem a ver com a gestão ativa, citada agora!

Vamos lá… Temos, de fato, feito a “gestão ativa” do nosso negócio do ponto de vista produtivo. Este ano, face ao aumento do ágio do bezerro, frigoríficos citam aumentos de 1.5@ em carcaça de machos abatidos, o que está até trazendo para eles problemas operacionais e comerciais. Mas é o caminho que foi trilhado frente a este novo panorama de mercado! De fato, o aumento da tecnologia e produtividade tem sido compensador, como nos mostrou, p.ex., a Agrocunsult recentemente. Somente a tecnologia fez possível a recria-engorda ter resultado de lucro operacional por hectare superior à cria em 2015, ao elevar a produtividade para 12 a 18@/há ou mais (dados do Maurício Palma, apresentados na conferência fechada da Elanco em 01/out/15).

Aí vem a questão crucial: com o recente aumento dos custos de produção, principalmente do milho, está levando muitos a pensar, ou até mesmo “tirar o pé do acelerador” em termos do uso de tecnologia, principalmente nutrição para engorda. É a segunda parte da pergunta do título deste… Isto vale a pena?

A relação de troca @/sc de milho nunca foi tão boa. Muitos momentos deste 2015, foram 6sc/@. Hoje, na faixa de 4.3 a 4.5, caiu, mas ainda acima da média histórica. Realmente é tentador “remover” tecnologia neste momento. Mas, me parece um caminho obscuro ou ao menos perigoso.

O sujeito comprou um bezerro/garrote caro (comprou uma Ferrari) e agora quer economizar no custeio (na gasolina)? Corre o risco de ficar a pé, apesar de ter uma Ferrari na mão.

A questão agora não é tecnologia! A tecnologia está disponível para todo mundo (o boi 777 é realidade, embora não homogênea ainda). A questão agora é eficiência, pois teremos margens menores. Margens menores são amigas da tecnologia, pois acho que a tecnologia é muito mais dispensável num ambiente de margens altas (como me relembrou o Maurício Palma). O desafio é que o uso de tecnologia, sem eficiência, é um empurrão para o buraco, pois aumenta os custos, na maioria das vezes.

Creio que só deve reduzir tecnologia que não souber operá-la ou então tiver feito a escolha da tecnologia errada…

No link a seguir, nas palavras do Alcides da Scot Consultoria, fica claro que preço não é o nosso problema atualmente: http://famasul.com.br/assessoria_interna/ciclo-de-alta-com-os-dias-contados-preve-especialista-em-circuito-pecuario-famasul/39259/

O problema é que ele (preço) por muitas décadas foi a ÚNICA solução. Mas agora, não, agora a solução é eficiência. E assim, a segunda parte da resposta, da pergunta do título deste NF2R, em nossa humilde opinião, é “não”! Não é hora de diminuir tecnologia!!! Pergunte ao agricultor se ele tem coragem de plantar soja sem adubo, mesmo com margem estreita… A pecuária está ficando mais parecida com agricultura. O problema é que pecuária otimizada é muito mais difícil que agricultura e além disto, ainda tem menor cultura de gestão de risco!

Portanto, ao nosso ver, é hora de ser bom no uso da tecnologia, independentemente do nível que se tenha empregado no sistema de produção… É hora de “separar os meninos dos homens”, como prega o ditado popular.

E, para se ter eficiência, ajuste fino e equilíbrio (entre ganho por área e individual), atitudes necessárias no novo cenário, é preciso mais que mudança. É necessário transformar-se. Você já mudou o seu sistema de produção, eu tenho a certeza, mas você o transformou???

Como nos ensinou o Luiz Claudio Binato (Obra: “O modelo do pensador”), mudança é simplesmente você sair de uma situação e ir para outra, mas transformação, é você sair de uma situação e ir para onde você quer ir!!!

Mudar o sistema de produção já fizemos, já o intensificamos, mas isto é pouco! Precisamos nos transformar em bons gestores, em gestores que entregam bons resultados produtivos (tarefa que somos mestres, diga-se de passagem), mas sempre acompanhados de bons resultados financeiros (o que só se consegue aliando produção e gestão). Não vamos ficar esperando preços e nem reduzir tecnologia! Há muito a fazer!

Que venha muita transformação na sua vida, e que você tenha tempos de calmaria, mesmo no mar revolto das margens que se aproxima! Nos encontramos aqui na próxima semana, se assim Deus nos permitir. Abraços…

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) &

Ricardo Heise (@boi_invest),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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