Boi gordo e clima em altas temperaturas

Por em 18 de outubro de 2014

NOTÍCIAS DO FRONT

A pecuária Goiana e Brasileira em uma visão de curto, médio e longo prazo, descrita

por quem a vive e “carrega o pó da viagem” (Edição #137, de 19/OUT/14 a 25/OUT/14)

 

Companheiros de lida,

Como diz meu sogro, “urubu tá voando com uma asa e abanando com a outra”. Nesta semana, esqueci a garrafa de refrigerante do curral na camionete, sobre o sol. Ao final da tarde, após o término do serviço, ao perceber o fato, além da “chiadeira da turma”, vi que a garrafa de refrigerante não tinha aguentado o sol de Jussara-GO, “vazou e ficou choca”. A “coca” ferveu dentro do carro e vazou pela tampa. Nunca vi isto… Segundo estudos da NASA, de 1.880 para cá, o ano de 2.014 tem tudo para ser o ano mais quente da história da humanidade. Sexta, 17/out, foi o dia mais quente da história de SP, sendo que dos 10d mais quentes da capital paulista, 5 deles ocorreram em 2.014. O clima está navegando em águas ainda desconhecidas.

calor-ou-frio

Qualquer semelhança entre as altas temperaturas e a alta da arroba, neste momento, pode não ser mera coincidência, pois ambas ocorrem, ao menos parcialmente, em função da baixa chuva deste ano.

O bovino também navega em preços inéditos. A reposição idem. Talvez só a chuva, esperada para os próximos dias, venha amenizar a temperatura no caso dos termômetros. No caso da arroba, talvez nem ela consiga…

No caso da reposição, de maneira inversa, a falta da chuva, começou a ocasionar efeito inverso no preço (redução) pois a falta de água em algumas Fazendas tem levado pontualmente ao aparecimento de alguma oferta, mas ainda sem consistência de redução de preço de maneira generalizada.

O que está mais em crise: falta de chuva, falta de energia de qualidade, falta de política de qualidade ou falta de bovino gordo? E mais duas perguntas básicas: a arroba está em alta, ou em recuperação de preço? Qual seria uma boa meta para a arroba no curto prazo? A primeira pergunta eu não sei responder, mas para as outras duas, veja abaixo as respostas…

1)      COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Tínhamos tido duas semanas com algumas quebras de recordes nominais da arroba (2 ou 3 ocasiões por semana, o que já é muito). Mas uma semana como esta, nunca tinha visto: em TODOS os 5d de mercado houve quebra do recorde nominal.

Saímos com o indicador Esalq/BMF, base SP, à vista, em R$ 131,84/@  (de R$ 129,50 a R$ 134) e chegamos em R$ 133,72 (de R$ 131,50 a R$ 136), uma alta de quase R$2/@ na semana, muito forte, completando a 4ª semana de alta da arroba.

Na sexta, os negócios no físico concentravam-se de R$ 131 a 135/@ av, enquanto que no MS, mantiveram o R$ 128av. Com relação às escalas, elas estão estáveis, entre quinta (23/out) e segunda (27/out), com o “DIA D” na SEXTA (24), e o PLACARem 3 a 5 dias úteis (média de 4d entre o dia da venda e do abate).

O STATUS DO BEEFRADAR permanece em: “estabilidade (50%) / alta leve (50%)”.

 

2)      E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Quanto mais aparece pequi na beira das estradas, menos boi aparece na agenda das escalas. Esta é a rima do bovino em GO. Tem havido pequi demais no acostamento, consequentemente, o boi…

O físico de GO aponta para R$ 124av x R$ 126ap, +R$2 para o boi EU, e sobre preço de até R$1/@ acima da referência citada (preço base Goiânia).

Seguimos com a famosa “ESCALA DENTE DE CACHORRO”, heterogêneas, mas de modo geral, recuaram um pouco, estando entre quinta (23) e sexta (24).

Com a arrancada do boi em SP, o diferencial de base GO x SP abriu para a média semanal de –R$8,50/@, o que sinaliza que pode haver melhoras de preço por aqui. Para o diferencial  boi x vaca, nada de novo (-5%).

 

3)      HORA DO QUILO: “Terra ruim, caminhão velho e amante. Três boas coisas para ‘quebrar’ do cidadão” (cultura popular).

 

4)      O LADO “B” DO BOI:

4.1. A FARRA DO BOI X MILHO

Atingimos a relação de troca de 6 sacas de milho para cada @ de boi gordo, nível muito aberto com base nas médias históricas. Já falamos aqui antes.

Começam a surgir os primeiros comentários sobre a possível estanca da sangria desta relação de troca, isto em função mais do milho do que do boi. Estimativas apontam para redução de 20% da safra de verão no PR, p.ex. Além disto, o plantio da safra de verão está atrasado pela falta de chuvas de outubro, o que compromete a safrinha. Há também a questão de uso de safrinha de soja no MT, que pode ser proibido, mas houve em 2014. Estes fatores, altistas para o milho, estão “brigando” com os baixistas, como a exportação do BR patinando, estoque de passagem alto nos escassos armazéns (o que força a venda) e a colheita do EUA. De toda a forma, comentários de possível esgotamento desta relação de troca tão aberta começam a aparecer. A BMF pode ser uma estratégia boa. Esta sexta, o milho despertou de sono profundo e teve alta de quase R$1/sc!!

4.2. AUMENTO DO CONSUMO DE DIESEL DO CATIREIRO…

Nos livros, vemos 4 categorias de produtores de gado: criador, recriador, terminador e o de ciclo completo. Mas o Front do mercado adiciona mais um: catireiro ou gambireiro. É o cidadão que se aproveita de distância entre comprador e vendedor (um dos 4 citados acima) e se insere no meio destas figuras, sendo um intermediário comercial. Muito comumente não possui imóvel rural e trabalha com o aluguel de terras.

Com o cenário de reposição escassa em regiões antes abundantes, estamos vendo este integrante da cadeia viajando até 1.500km para comprar animais, visto que os negócios no raio habitual estão travados, pois os vendedores continuam “pedindo preços que não cabem”. Isto reflete um novo cenário na comercialização. Creio que isto levará a equalização do preço de bezerros e garrotes no País, pois o movimento de compras distantes, aquecerá a demanda e o preço de regiões até então de menor procura.

Da mesma forma que afirmaram saber o PIB da prostituição de países como a Inglaterra (1% do PIB) e Itália, nem imagino como(?!?), eu também afirmo que o consumo de diesel pelo catireiro está em alta…

4.3. A FARRA DO OVO X PRESSÃO ARTERIAL

Após um longo período, coincidentemente ou não, após o secretário da Dilma falar em trocar a carne pelo ovo, houve alta de 13% em uma semana no preço da caixa de 30dz das granjas… O fato é que ocorreu melhora na demanda, o que subiu o preço de quem produz e também do atacado. O tiro saiu pela culatra, mesmo porque, pelo jeito, este tal do ovo abaixa a pressão da Dona Presidenta!!!

4.4. BOAS NOTÍCIAS DA ECONOMIA?

“Pior do que tá não fica”. Este parece ser o lema da economia em 2014. Temos nos esforçado para não sermos encarados como pessimistas, mas as notícias que aparecem neste campo são só ruins… A muito tempo procurava notícias econômicas positivas, pois está cansando o mar de lama neste assunto. E finalmente apareceu…

Não que não tenhamos pela frente um “2015” lotado de correções, de dificuldades. Não que estejamos bem, afinal de contas, só há 4 países de economia significante no mundo atualmente em recessão técnica e nós estamos entre eles. Mas, para quem está muito mal, com 2 trimestres negativos, em recessão técnica, ao ver que as vendas do varejo assim como o índice de atividade econômica, ambos de agosto, melhoraram, dá algum ânimo, pois há indícios que o segundo semestre será melhor que o primeiro. Para quem ia ficar no negativo, um 0 x 0 para a ser interessante… Além disto, o mundo deve crescer entre 3 e 3,5% este ano… Uma luz no final do túnel, principalmente para quem está muito preocupado com a demanda, um fator limitador para o boi gordo no final de 2014 e em 2015. Escute o áudio sobre isto: http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/carlos-alberto-sardenberg/CARLOS-ALBERTO-SARDENBERG.htm

4.5. A ARROBA ESTÁ EM ALTA?

É CLARO… CLARO QUE NÃO. UÉ? Não? Resp.: não! Nunca é demais lembrar que só teremos alta da arroba a partir de R$ 134,94, valor do pico de 2010 deflacionado, segundo o CEPEA. Até lá, estamos recuperando o valor que já tivemos em 2010. Já estamos bem perto dele. Só falta R$ 1,22/@. Quase nada. Quem sabe não o atingimos nesta próxima semana?

Este é o referencial de curto prazo a ser buscado pela arroba neste momento. O mercado está maduro… Quase igual a manga, que ameaça começar a cair do pé…

4.6. A ARROBA E CARNE IGUAL ÁGUA E ÓLEO EM 2014?

Como já dissemos aqui, no pico de preços de 2010 até 2013, a arroba e o atacado da carne (principal produto vendido pelo frigorífico) trabalhavam como  “2 canos de garrucha”. A carne na frente, puxando a arroba, juntinhos. Em 2014, eles “brigaram”, estão igual a “água e óleo”, não se misturam, um para cima (o boi) e o outro (carne) de lado ou para baixo. O bovino está tendo um comportamento de mercado irracional, com a sua alta ignorando as restrições impostas pela demanda. Desta forma, a “Festa do Telhado” do Rogério Goulart, foi parar na cumeeira, numa semana com cinco quebras de recordes nominais e quase o recorde real.

Com estas altas recentes da @, a reposição também marcou novos recordes, pois é mais um incentivo para as categorias de bezerros e garrotes, mesmo estas estando com preços esticadíssimos e fora de qualquer baliza anterior.

Também em função destas altas recentes da @, a margem da indústria frigorífica despencou, principalmente nos últimos 30 dias. Tomando como base dados da Scot: o Equivalente Scot Desossa (que reflete a margem do frigorífico de mercado interno que vende carne em cortes + couro + sebo + miúdos + derivados + subprodutos) caiu de 21% para 17,4% (a média histórica é de 21,1%, desde 2007). Imaginávamos que na segunda semana do mês, haveria possibilidade da indústria tirar um pouco da fervura do mercado da arroba, por motivos de oferta mais concentrada de saída de confinamento… Ocorre que está havendo uma migração de venda de out para nov/dez, em função da postergação da chuva, da comida barata e dos preços futuros de nov/dez (perto de R$ 138/@). Desta forma, ficou mais difícil para os frigoríficos amenizarem agora a temperatura do mercado. Porém, esta migração pode concentrar a venda num nível até maior e consequentemente mais perigoso, lá na frente.

Por outro lado deverá haver um hiato de oferta entre o confinamento e as primeiras boiadas de pasto, ainda mais com esta chuva de outubro que só deverá aparecer com constância no finalzinho do mês…

Se o “boi é a cachaça do pecuarista, o mercado está dando porre prá valer”. O álcool da bebida primeiro inibe os neurônios inibidores do cérebro. Sem os “inibidores”, a euforia se instala e domina o cabloco, que fica valente… É o que estamos vivendo na pecuária. A consequência desta euforia é a “síndrome do retrovisor”, uma espécie de “síndrome abstinência em relação ao boi”… Todo mundo quer entrar no boi agora, dos peões/funcionários de Fazenda, aos garçons de beira de estrada (esta semana presenciamos isto) e até os canavieiros de SP (veja o link: http://www.pecuaria.com.br/info.php?ver=16608&utm_source=feedburner&utm_medium=twitter&utm_campaign=Feed%3A+pecuariacombr+%28Pecu%C3%A1ria.com.br+-+Not%C3%ADcias%29 ).

Todo mundo só está olhando para o preço do retrovisor do curto prazo. De fato, o bezerro de R$ 1.000,00 “está na boca do povo”. Esta fase de euforia do álcool que vive atualmente a pecuária está colocando a carroça na frente dos bois na bolsa, dando um ágio jamais visto frente ao indicador, até para o mês presente. São fatos inéditos no mercado e sujeito a movimentos de preços abruptos, como dissemos na semana passada. De fato, a volatilidade do mercado futuro já está chamando a atenção, como falamos aqui na semana passada (“emoção garantida”).

O que as pessoas esquecem é que os movimentos de preços são cíclicos. Até os novos entrantes atingirem a eficiência operacional de quem está a tempos no negócio, já poderá ter sido iniciada a segunda fase de ação do álcool (da nossa cachaça, o boi) no sistema nervoso central (no mercado da @), que é a inibição dos neurônios excitadores. Sem os “excitadores”, instala-se a depressão, e o bêbado chora no final da festa. Traduzindo para o mercado, lá na frente, voltaremos aos preços sem ebulição, e depois em queda… Cuidado, “macaco que muito pula, leva chumbo”.

A boa notícia é que a fase da depressão (de preços) tem menores chances de ocorrer em 2015, em função das “forças da pecuária” já citadas aqui (falta de bezerros/garrotes de hoje se traduz na falta de bois gordos de amanhã). Fev/15 segue cotado no futuro à R$ 139/@ em SP.

Entretanto, lembre-se! Se for beber (se for engordar o bovino) não dirija (não comercialize irresponsavelmente).

Que Deus nos proteja nesta semana que se inicia!

Rodrigo Albuquerque & Ricardo Heise,

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

Contatos:

Twitter @fazendaburitis, boicom20@gmail.com

Twitter @boi_invest , r.heise@hotmail.com

6 Comments

  1. Miguel Cavalcanti

    20 de outubro de 2014 at 3:51

    Rodrigo e Ricardo, meus parabéns e muito obrigado. Mais uma vez a coluna semanal de vocês é leitura obrigatória para quem quer entender melhor o mercado do boi gordo. Abraços, Miguel

  2. ALFREDO TEIXEIRA LOUZEIRO FILHO

    20 de outubro de 2014 at 10:00

    Entre 130 a 135

  3. Ruy Armelin

    20 de outubro de 2014 at 12:08

    Bem, acho que a arroba está em alta, pois se for para deflacionar, os valores da década 1970 talvez nunca venham a ser igualados(200 a 250).
    Também ressalto que tenho escrito sobre ser “0timista” nesse aspecto desde o começo do ano, embora não seja vidente, porque não custa sê-lo e ajuda no “confronto” com os frigoríficos
    Em seminário recente argui um palestrante dos mais conceituados hoje no mercado sobre o “teto”de preços: recomendou vender tudo à 130 pois não via possibilidades de alta além desse valor. Contrapus que a possível alta do dólar e as compras maciças da Rússia dariam “gás” aos preços até o fim desta ano.
    Hoje, dentro das minhas perspectivas otimistas, arrisco 140. È aguardar para ver.

    • Rodrigo Albuquerque

      25 de outubro de 2014 at 17:59

      Acertar o teto é pura especulação! Melhor é saber seus custos e definir a margem que se quer.

  4. luiz roberto rehder

    20 de outubro de 2014 at 21:03

    boa noite, é sempre bom falar com companheiros de boiada, ainda mais nesta proza de ALTA, parabens pelos comentários são de grde valia, tenho alguns animais e já vendi a 130 e aguardo os 140 até final de novembro ou dezembro.
    Abraços e mais uma vez obrigado.

  5. Marcos Simões

    20 de outubro de 2014 at 23:58

    Acredito e trabalho com um olho na cotação do dólar e outro no preço da arroba em dólar. Isto por acreditar que quem determinará o preço da arroba é o mercado externo, já que o interno tem uma demanda muito intável

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