Altos retornos, altos riscos

Por em 7 de março de 2015

NOTÍCIAS DO FRONT

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

 (Edição #155, de 08 a 14/MAR/15)

 

Companheiros de lida,

Na economia existe a lei da inversa proporcionalidade entre retorno e risco. Ou seja, quanto maior o risco, maior o retorno de um negócio (e vice-versa). Você topa entrar num negócio de altíssimo risco, para não ganhar muita coisa? Nem eu (sei que você também não), por isto esta lei existe desde que existe a economia e ninguém “dá conta” de revogá-la, nem as medidas provisórias do PT. E o mercado do boi vive esta lei na sua essência atualmente. Esta é a melhor definição do mercado do boi gordo, para você que quer saber do futuro dele.

Para quem achou a lei da inversa proporcionalidade muito pouco sertaneja para retratar a arroba de hoje em dia, e quer uma foto mais no estilo “carcanhá rachado”, aqui vai: o boi gordo tá igual a cruza de cachorro, não “desatrela” de jeito nenhum do patamar de preço que estacionou desde começo de dezembro. Já que é para “sertanejar”, enfiamos o pé na jaca… Se você não gosta muito de por o pé na jaca, então imagina aí um cachorro dentro da canoa, paradiiinho, paradiiinho… Serve também para retratar o mercado bovino de agora.

20150307 - cachorro na canoa

E vamos que vamos. Agora, tenho que explicar o que a tal lei e o “cachorro atrelado” (ou embarcado na canoa) tem a ver com o bovino…

1)      COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Seguimos com a @ “atrelada” ao mesmo nível de preço do início de dezembro/2014. É o retrato do indicador neste momento… Saímos de R$ 144,38/@ (intervalo de preços de R$ 141,50 a R$ 147) e chegamos em R$ 144,14/@ (intervalo de preços de R$ 143 a R$ 145,50).

Seguimos alternando semanas de leves altas, seguidas de leves baixas, numa estabilidade sem fim, graças à Deus, diga-se de passagem, afinal, estamos em plena safra de bois e em nível de preço excelente.

No físico, “no news”, ou seja: mantem-se o R$ 142/@ (frigoríficos grandes) até R$ 145/146 (frigoríficos pequenos), na base à vista, mas com menos dispersão de preços. No MS, segue vigente o R$ 138 a R$ 139/@ av, até o R$ 140/@, ap (mas já já relatos de R$ 140 av, muitíssimo pontual por ora).

As escalas seguem estabilizadas com vagas para abate no dia 12/mar (qui) em média, e portanto o “DIA D” das escalas continua na QUINTA (dia 12) e o PLACAR médio permanece em 3 dias úteis (entre o dia do acordo da venda e o do abate). O STATUS DO BEEFRADAR congelou em:

45% queda (leve) : 45% estabilidade : 10% para alta (leve)

Obs.: o status do BeefRadar é o nosso “pé está na peia”… na nossa escala, uma variação semanal para cima ou para baixo de até R$ 0,75/@ é estabilidade; Variação entre R$ 0,76 a R$ 1,25/@ é uma alta ou baixa leve; Variação entre R$ 1,26 a R$ 2/@ é uma alta ou baixa moderada; Variação acima de R$ 2,01/@ é uma alta ou baixa forte. Mais claro que isto, sem medo de errar no curto prazo, é impossível.

2)      E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Aqui no GO, o cachorro deu um passinho para frente dentro da canoa… Agora, o “preço baliza” do mercado é o R$ 133av x R$ 135ap, com “sobrepreço personalité” de até R$ 1/@ acima da referência citada e bônus EU de +R$2/@.

As escalas diminuíram a diferença com SP, mas ainda levemente melhores, estando para a próxima sexta, em média, mas querendo encurtar. Talvez por isto, o diferencial da base do final da semana, ficou por dois dias abaixo de -R$ 10/@, mas ainda sem chance de diminuir (pelo menos parou de subir). Quem parece querer abrir é a vaca, com um deságio de -6,7% em relação ao macho.

3)      HORA DO QUILO: China… A gente sonha em exportar carne para lá. Tomara que a carne “bombe” do mesmo jeito que o futebol deve “bombar”. Cheguei a uma conclusão: uma das melhores coisas que a pecuária do Brasil poderia fazer é mandar o Roberto Barcellos para a China para ele fazer um churrasquinho para o Presidente Xi Jinping, seguindo o exemplo do futebol. Veja: http://www1.folha.uol.com.br/esporte/2015/03/1599513-obrigatorio-nas-escolas-futebol-vira-plano-de-governo-na-china.shtml

4)      TO BEEF OR NOT TO BEEF: você tem o costume de ler os informes de resultados das empresas que estão na bolsa, como os frigoríficos? Não? Sugiro ler, é um exercício de transparência exigido de quem está neste mercado, como a BMF, mas que vale a pela sempre elogiar a transparência. Não é nada fácil ler e entender isto, mas vale tentar.  http://ri.minervafoods.com/minerva2012/web/conteudo_pt.asp?idioma=0&tipo=40362&conta=28&id=209349

5)      O LADO “B” DO BOI:

5.1.) O MESMO FILME, O MESMO ENREDO, MAS DE NOVO?

Não, não é o texto da semana passada, é outro… Sim, está dando até “enjôo”, mas é o que está tendo para hoje… Mais uma vez, notícias econômicas fortes e negativas nesta semana. Cada dia um recorde de décadas… Nuvens negras cada vez maiores e mais perto da nossa economia interna, e portanto, do consumo:

*Levy, o infeliz: desencontros da nossa presidente com a nossa “ilha de bom censo” dentro do governo ficam bem evidentes, o que é muito ruim: http://oglobo.globo.com/economia/dilma-diz-que-ministro-levy-foi-infeliz-ao-criticar-desoneracao-da-folha-de-pagamentos-15467785

* Dolar, a nossa nova nota de R$3. Isto coloca competitividade na nossa carne, mas internamente força a pressão do aumento dos custos e da inflação. Veja: http://exame.abril.com.br/mercados/noticias/dolar-sobe-mais-de-1-e-tem-maior-alta-semanal-desde-2008

* Juros sobem a 12,75% e estão no maior nível em 6 anos, o que significa consumo interno com menor força. Freia a inflação (será?) e ajudar a piorar mais o PIB. Mas não tem jeito, é o tal do ajuste: http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/03/na-4-alta-seguida-juros-sobem-para-1275-ao-ano-maior-nivel-em-6-anos.html

* Inflação do Brasil é a sexta maior do mundo, contribuindo com diminuição do poder de compra do consumidor interno: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/03/1599501-taxa-de-inflacao-do-brasil-e-a-sexta-maior-do-mundo.shtml

* Lava Jato deixando uma lista de políticos da Capital Nacional sem dormir, é o “mensalão do petrolão”: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1599600-ministerio-publico-fala-em-pagamento-mensal-no-petrolao.shtml

* Carro para público geral, mas vendido com desconto para funcionário. Será que está fácil para eles? Veja: http://www.chevrolet.com.br/universo-chevrolet/noticias/gm-oferece-desconto-funcionario-consumidor.html

5.2.) RAPIDINHAS DO BOI

* Exportação fev/15: o mês de fevereiro segue janeiro e fecha com exportações em queda na comparação com 2014, sendo de 25,8% em volume e 27,5% em receita. Melhoramos frente à jan/15, mas se março não recuperar frente a 2014, o número do ano começa a ficar comprometido;

* Reposição: forte aumento da oferta de reposição no estado de GO, ainda com pequeno efeito em termos de queda de preço… Será que desta vez, algo muda? Vamos acompanhar.

* Duros na queda: negociações com frigoríficos cada vez mais duras. Mesmo com escalas curtas, não há preços novos. Itens como frete (distância) e diferencial de base nunca foram tão considerados pela indústria na hora de “tomar risco”. Aliás, eles optam por um “chá de boldo quente” do que tomar risco. O motivo disto? Está naquele relatório complicado de entender que falei acima… Você já tomou “chá de boldo quente”? Nem tente…

* BMF: em alta forte e consistente nesta semana, movimento de racionalidade questionável. O tema “BMF” já foi abordado muito bem pelo Miguel em dois e-mails matutinos dele nesta semana. Não vamos aprofundar nisto, principalmente na questão da pequena liquidez da BMF quanto ao boi gordo, o que é um dos fatores que facilita e que propicia a alta.

5.3.) E A TAL DA LEI OU CACHORRO NA CANOA?

Finalizando, nos chama muito a atenção a oportunidade que o fato acima (BMF em alta) está dando para negociar boi nos “meses curtos” (de hoje até maio) e até para a entressafra. A bolsa precifica preço “em linha” (estável) até o mês de maio (até com um pequeno ágio) e em consequência, o mês de outubro também fica aquecido, tendo alcançado mais de R$ 151,50/@ nesta semana. Não sei se estes preços serão realidade até lá no mercado físico, podem ser maiores e podem ser menores, mas, que são remuneradores, isto são. Fato.

Argumentos comuns de quem não quer travar a produção, é de que se isto fosse bom (travas via BMF), o seu uso estaria em alta. Além disto, ao travar, deixa-se de aproveitar parte da alta em anos de firmeza do boi (como o ano passado e este até agora) e que a bolsa seria um mercado onde a maioria é especulador, e não com finalidade produtiva…

Nossa opinião é que a bolsa realmente não é a oitava maravilha do mundo, nem que deve ser usada sempre e como uma ferramenta única e mágica, por todos, irrestritamente. Mas sim, que deve estar presente na sua caixa de “ferramentas comerciais”. Não dá para ter uma caixa de ferramentas só com chave de fenda (venda no spot)!

Em segundo lugar, quem trava, o faz porque sabe que o negócio efetivado é um bom negócio, mas sobretudo que também pode não ser o melhor negócio sempre. É uma quebra do paradigma: “vender no maior preço do ano é importante?” A resposta: não! Basta ver as empresas de consultoria em gestão: o preço de venda é um péssimo balizador para se determinar quem faz mais R$/há/ano. Ou seja, as fazendas top 10% do ponto de vista de resultado financeiro, não tem o melhor preço de venda.

Logo, se ao se travar o boi e ocorrer perda de captura de preço, isto não tem relação direta com o seu resultado financeiro, necessariamente. O que tem relação direta é o nível de gestão e produtividade. Agora pergunto: porque não se aliar gestão e eficiência comercial? Não se pode ser rico (ser comercialmente eficiente) e saudável  ao mesmo tempo (ser produtivo e ter boa gestão)? Ou tem que se escolher entre a riqueza e a saúde??

E sobre a possibilidade de conviver com especuladores… Digo que isto é “absoluta e totalmente” saudável. Isto é o bálsamo. Basta ver o mercado americano e o crescente uso da bolsa de Chicago, potencializado pelo “zoológico de liquidez” que eles tem por lá, elevando os contratos diários comercializados para a média de 50.000, e em crescimento contínuo desde 1964.

De novo, nada de encarar a BMF como varinha mágica. Mas ela não pode faltar na sua caixa de ferramentas comerciais, sobretudo por desconhecimento. Isto é inadmissível.

Mas o que a lei da inversa proporcionalidade entre risco e retorno tem a ver com o nosso cachorro sentado na canoa (o boi gordo estável em um nível alto de preços)? É o seguinte, vou resumir em uma frase, que foi consenso no maravilhoso evento de Confinamento do Coan, na semana passada: em 2015 o cenário do boi é ainda de alta, mas com altos riscos (frase da excelente palestra da Lygia Pimentel). Nada mais natural: preços (e retornos) mais altos, acompanhado de riscos mais altos.

E qual é o risco para o boi? O risco é econômico e político. Econômico pela falta de equilíbrio de preços ao longo da cadeia e pela macroeconomia do País. Político? Sim, pois a crise política agrava a crise econômica (e a Lava-Jato promete).

Se você não depende do lucro dos seus animais e aceita/pode trabalhar sem lucro ou até com um certo nível de prejuízo, acho que deve “por a faca nos dentes”, esquecer que a bolsa/termo/travas existem e ir para o risco total, afinal de contas, altos riscos, altos ganhos (e dá-lhe sangue nos olhos).

Mas, se você vive de pecuária, ou seja, do lucro que cada animal seu te dá, acho que tem que ter outra definição, pelo menos com uma parte de sua produção. Há várias soluções para isto, desde soluções bem conservadoras até outras com um tanto de risco envolvido.

Vale tudo, só não vale ter uma caixa de ferramentas comerciais incompleta, esquecer da lei da inversa proporcionalidade entre risco e retorno e ficar desconfortável com o nível de risco escolhido por você para a sua pecuária.

Nunca teste a profundidade de um rio com os dois pés (nunca deixe de gerenciar seus riscos), a menos que você saiba nadar (a menos que lucro não seja fundamental para você).

Tenha uma ótima semana, produtiva e com equilíbrio entre corpo, mente, espírito, trabalho e família.

Obs.: esta semana, através de um honroso convite da FAEG, vamos rodar com eles uns 2.000km dentro do estado de GO dando 4 palestras sobre o boi gordo, nas cidades listadas no link a seguir. Sintam-se convidados: http://gatheros.com/eventos/faeg/encontros-regionais-de-pecuaria-de-corte-2015.html.

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis)

&

 Ricardo Heise (@boi_invest),

 

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS EM 2015: boicom20@gmail.com

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2 Comments

  1. cesar Augusto Seronni

    8 de março de 2015 at 15:33

    Rodrigo, parabéns pela sua sábia exposição!
    É notícia que o preço do bezerro nos EUA aumentou muito denotando alta no preço da carne no mercado internacional e alguns acreditam num valor de R$170,00 a @ no mercado interno.
    Gostaria que analisasse também neste aspecto.
    Att. Cesar

    • Rodrigo Albuquerque

      16 de março de 2015 at 12:21

      Prezado Cesar, não comentamos valores, mas sim tendências. O R$ 170/@ pode virar realidade, mas acho a probabilidade baixa. O motivo que cita não tem relação direta com o nosso preço (não competimos pelos mesmos mercados dos EUA), apesar de ser sim um fator de sustentação. Grato, Rodrigo

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