A perda do grau de investimento e a pecuária

Por em 13 de setembro de 2015

NOTÍCIAS DO FRONT

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #182, de 13 a 19/set/15)

 

Moçada do lático apertado,

O conhecimento popular prega que “para se construir uma imagem positiva demora-se anos, para perde-la, demora-se dias”. O Brasil demorou 14 anos para conseguir o grau de investimento das agências internacionais e o perdeu em apenas 7 anos. A Agência Standard & Poor’s retirou o “selo de bom pagador” do nosso País. A tragédia estava anunciada…

Um fato que me chamou a atenção: tem um certo político que saiu do poder (aquele que o poder não saiu dele) que agora desdenha a ferramenta de classificação de risco que outrora exaltava (na época em que o País deixara o grau especulativo). Para este político, antes a nota do País “o declarava como sério”, mas agora, esta classificação “não significa nada”.

Caímos para o primeiro grau do “rating especulativo”: saímos de BBB- (investimento) e caímos para o grau BB+ (especulativo), o que quer dizer que o “devedor é menos vulnerável no curto prazo do que os devedores com ratings mais baixos. No entanto, enfrenta grandes incertezas no momento e exposição a condições adversas poderiam levá-lo a uma capacidade inadequada para honrar compromissos”. Uma piadinha circulando na internet diz que este político que citei, no fundo achou bom demais a nova nota do Brasil, afinal de contas, agora dará para “BB+”, hehehe. Nosso vexame virou internacional. E o boi com isto? Vejamos…

 

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

A tendência flat com leve viés positivo segue seu curso. O indicador iniciou a semana passada em R$ 142,79/@ (variando de R$ 140 a R$ 144) e a encerrou em R$ 144,17/@ (variando de R$ 142 a R$ 147), completando a quarta semana seguida de alta numérica da arroba. E de “degrauzinho em degrauzinho”, o número vai “supitando pá riba”.

Cremos que a úlitma sexta-feira com a costumeira baixa liquidez tenha feito o indicador sair um “pouco do trieiro”, pois no físico vimos negócios de R$ 141 até R$ 145 à vista, com apenas uma ocorrência de R$ 146 av, cerca de R$1 abaixo da máxima captada. Na encharcada “terra do tuiuiú” vimos o R$ 135 ap, com negociações pontuais pouco acima disto.

De maneira geral, a oferta de boiadas é restrita e não há o mínimo espaço para quedas de preços, nem especulação para isto. O boi é firme, muito firme mesmo. Isto não quer dizer que igualmente haja previsão de nova “decolagem” de preços.

O agendamento de abate segue estabilizado num nível de (relativo) conforto para a indústria, em que pese não haja oferta em abundância. Via de regra, as escalas estão entre a próxima sexta (18) e a quarta da outra semana (23), com o “DIA D” na segunda, dia 21/set e o placar em 5,5 dias (entre o acordo da venda e o dia do abate).

O STATUS DO BEEFRADAR mantem-se em:

20% queda (leve) : 45% estabilidade : 35% para alta (leve)

 

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

A alta “com freio de mão puxadíssimo” segue no GO. Mas é alta! Esta semana houve uma dicotomia no balcão que mostra agora o R$ 134ap e também o R$ 135ap para o boi não EU, dependendo da empresa. A novidade ruim é que mais uma cortou o ágio EU. O personalité aparece de maneira bem comum ainda (cerca de R$1/@).

As escalas deram mais uma apertadinha, estando agora entre 18 a 22/set, com a média geral na próxima segunda, dia 21/set.

O diferencial de base (GO x SP) flerta com o rompimento da barreira dos R$ 10/@, mas ainda não o fez. Isto seria fundamental para o boi goiano e está por um “beicinho de pulga” para acontecer. De outra sorte, totalmente sem explicação, a vaca segue descolando do boi, pois oscilava entre 4-4.5% de deságio e está chegando a quase 6%. Caso o movimento seja confirmado, e não apenas uma variação pontual, terá sido uma surpresa, não muito bacana.

 

3) HORA DO QUILO: fora as situações “debaixo do pano”, não existe mais em Goiânia aqueles carros de concessionárias para “leva e trás” de clientes. O motivo: “acordo entre as concessionárias via sindicato para diminuir custos e evitar mais demissões no setor”, segundo o que me disse de viva voz uma funcionária ao negar-me a cortesia. É a crise atingindo o nosso dia-a-dia. É a economia do Front…

 

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: há algumas semanas tive a honra de conversar com o Sr. José da Rocha Cavalcanti. Separei algumas célebres frases da incrível conversa para dividir com a nossa comunidade. Elas, devidamente, merecem uma longa, calma e profunda reflexão. São elas:

  1. “Priorizar escala ou margem? (Em tempos de custos em alta, escala não me parece uma boa opção)”
  2. “O que é melhor? Produzir 10 mil @ gastando 9 mil @ ou produzir 5 mil @ gastando 3 mil @?”
  3. “O custo da arroba produzida via suplementos nutricionais para “acelerar o abate de animais super jovens” não frusta a expectativa de produção @ “líquidas” que geram a sustentabilidade financeira?”
  4. “Animais suplementados (semi ou confinados) tem data pré-fixada de abate: isto é “saudável” para o pecuarista ou frigorifico?”

 

5) FOTO DA SEMANA: uma nova seção! Toda semana colocaremos uma foto ligada ao momento da pecuária. A primeira foi a foto abaixo, de autoria da nosso amiga Débora F. Balbos, clicada na Cidade de Goiás no dia 05/set/2015. Tem tudo a ver com o Dia do Cerrado, comemorado na semana passada.

 

20150913 - NF2R 182 - Foto

 

6) O LADO “B” DO BOI:

 

6.1.) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO

6.1.1) El Niño 2015 mais forte que os anteriores: o frio e a chuva “deram as caras” em setembro, foram cerca de 50 a 100mm no sul/sudeste e entre 25 a 50mm em algumas regiões do centro-oeste, como sul do MS, sudoeste do MT e sul de GO. Se o início da estação chuvosa for confirmado, não será bom para o confinador e teremos pastos mais precocemente, com possíveis reflexos na reposição e no gado gordo… Outra coisa (utilidade pública): troque a palheta do parabrisa da sua camionete. O pó da viagem da seca a deve ter danificado…

6.1.2) Milho mais forte que o boi: nas últimas semanas, o milho está subindo mais que o boi. Do meio de agosto para cá, o indicador do milho subiu 10,5% enquanto que o do boi gordo subiu apenas 2,78%. Já tem boitel reajustando a diária em aproximadamente 9.5%.

6.1.3) Varejo 2015 mais fraco que o de 2014: a margem de comercialização do varejo da carne bovina está menor que no ano passado, mais precisamente, no menor nível desde dez/2014 (Boi&Cia1146, Scot).

6.1.4) Atacado 2015 mais focado que o de 2014: a margem de comercialização do atacado da carne bovina está praticamente em linha com o ano passado, mas com os frigoríficos muito mais focados na manutenção desta margem. Em 2014, o mês de set, foi o último mês de margens equilibradas para os frigoríficos. Como será este ano??? O mercado entra num momento crucial para as indústrias… Eles comentam que o ajuste de produção pode ser retomado em caso de uma disparada do boi. A hora da verdade está chegando…

6.1.5) Reposição 2015 com toada mais “mansa” que a de 2014: pelo menos neste momento (considerando a média anual, a reposição 2015 está bem mais salgada que a de 2014). Após o pico de preços (entre maio e junho) houve uma queda consistente de aproximadamente R$ 250-300/cab e hoje o mercado de reposição se encontra “de lado”. Não acreditamos em uma continuidade do movimento de queda de magnitude importante neste último trimestre. Aliás, caso continue como está, fica de bom tamanho (para o invernista). Cremos que as chuvas possam esquentar mais a demanda (caso venha precocemente, melhorando os pastos). Ademais os bezerros da safra 14/15 já desmamados, vão erando na mão do intermediário… Por outro lado, a relação de troca e a pressão de crédito escasso e mais caro impedem uma nova arrancada do atual e elevadíssimo patamar. Há muito tempo não comprava animais com já ofertados a prazo, mesmo antes de começar a negociação…

6.1.6) Mercado futuro 2015 dando presente de Natal antecipado? O fato é que mesmo sem ter qualquer indício de “arrancada” no passado recente, a bolsa projeta uma alta de quase R$ 6/@ de hoje até o final de novembro… Mesmo sem ter uma demanda que justifique esse caminho… Presente de natal?

 

6.2.) E O GRAU DE INVESTIMENTO x PECUÁRIA?

O Brasil o perdeu por parte de uma das agências internacionais. O “selo de bom pagador” se foi. E o grau de investimento da pecuária, também se foi?

Negativo. Muito pelo contrário. Sem ser irresponsável de achar que uma situação econômica da atual magnitude não nos atinja. Até o gigante do crescimento de dois dígitos, a China, está cada vez mais rumo a um vôo econômico, mais suave. Portanto, sim, a crise já está nos atingindo. Caso não estivéssemos com uma pressão negativa forte sobre a nossa demanda, com o (baixo) nível atual de produção de animais terminados, o preço atual da @ deveria estar muito acima do (já excelente) nível que vivenciamos. Portanto, a crise econômica é real. Mas, independentemente dela, o grau de investimento se mantém para o nosso segmento pecuário.

Vejamos o exemplo da cria… Segundo o CEPEA, na sua última análise econômica semanal, a margem da cria, na parcial de 2015, é a maior da história daquele levantamento. O CEPEA ressalta os investimentos feitos ao longo de anos, desde 2004, em pastagens, suplementação mineral, genética, etc, os quais permitiram significativos ganhos em produtividade (fora o aumento de preços dos bezerros, dos últimos 20 meses).

E há uma década atrás (ou um pouco mais), a rentabilidade da cria era baixa. Mesmo assim, os investimentos foram feitos e o resultado está sendo colhido na forma de melhoria de performance produtiva, o que aliado ao excelente momento de preços, resultou na margem recorde.

A lição é: o investimento, feito com “pé no chão”, mesmo em momentos de baixos preços deve ser mantido. E não é o caso propriamente dito da pecuária atual. Portanto, os investimentos, para a melhoria da atividade, para a melhoria dos indicadores produtivos e financeiros devem continuar. Isto serve para quem está na atividade…

Agora, para quem quer entrar na atividade, principalmente na cria, não acho que seja o momento ideal para se investir pesado. Esta semana vi um post de uma pessoa querendo comprar 10 mil vacas “numa tacada” só, pessoa de fora da atividade pecuária. Acho que o melhor momento para que este investimento (de ciclo longo) fosse feito, do ponto de vista de retorno, já foi. Não se deve deixar de ponderar o ciclo pecuário para se determinar os melhores momentos em expandir a cria ou a engorda… Um exemplo é o nosso HOJE: enquanto a cria está “podendo reformar a casa, a gente que recria e engorda só está podendo passar uma cal meio raleada no muro, só para dar uma corzinha mais alva”. Ignorar o ciclo pecuário, ao se investir em bovinos, pode ser muito perigoso.

Com esta ponderação acima e a certeza de que investimentos para melhoria dos indicadores produtivos devem ser feitos independente do momento de precificação (desde que feitos com discernimento), a resposta para a proposição do título deste é que NÃO perdemos na pecuária o nosso grau de investimento. E olha que o efeito “Ásia” em termos de preços ainda não foi nem iniciado por aqui… As nossas próximas décadas serão de ouro, o que não nos permite flertar com a “loucura financeira” no curto prazo.

Mas, finalizando, mais importante que a manutenção ou a perda do grau de investimento do País e da sua atividade, eu considero ser o seu próprio “grau de investimento”, o seu próprio “selo de bom pagador”.

Pergunto: você é um bom pagador? Dentro de um curral, vi um sujeito comprar de uma vez um grande volume de gado, a prazo (era um valor bem considerável, para qualquer pessoa física). Ao questionar o vendedor se ele queria ficar com um cheque, o comprador escutou: “Não quero e não precisa. Guarda a sua folha de cheque. Eu prefiro ter todo o meu dinheiro na mão de vocês do que ter um cheque ‘seus’. O cheque pode cair do meu bolso”. Acho que isto é um “selo de bom pagador”. Isto faz a diferença na originação de animais, por exemplo.

E em segundo lugar, pergunto: com toda a sinceridade, você investiria em você, se você fosse o seu próprio chefe (investindo em confiança em você)? Caso você fosse seu gerente de banco, você emprestaria dinheiro a você mesmo?

Caso a resposta seja SIM, continue o que tem feito. Caso seja NÃO, mude. Certamente você não é o único a perceber isto e assim como o Brasil, paga um preço maior que os seus pares em muitas coisas. Mas mude sobretudo porque não é o grau de investimento do seu País, nem o do seu setor que vão necessariamente determinar o nível de seu resultado financeiro, mas sim o seu “próprio grau de investimento”. Minha melhor dica para você próprio não ser considerado como grau especulativo é: invista em conhecimento e networking aplicado ao seu business, ao seu negócio.

Tenha uma semana de tranquilidade, de busca incessante pela evolução pessoal e profissional, com muita saúde e luz.

 

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) &

Ricardo Heise (@boi_invest),

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS: boicom20@gmail.com

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17 Comments

  1. Alvaro

    14 de setembro de 2015 at 9:49

    Bom dia!

    Rodrigo, ótimo comentário sobre a perda do grau de investimento, e obrigo para dicas deixada na matéria, vou levar para o meu trabalho..

  2. Geraldo Barreto

    14 de setembro de 2015 at 13:27

    Excelente artigo. Ponderado, realista e até estimulante.

  3. Jean Vieira

    14 de setembro de 2015 at 14:04

    Excelente artigo do Rodrigo!
    É assunto pra se pensar na varanda da fazenda no final de semana! O quanto devemos e “podemos” verticalizar nosso negócio? O que não podemos ignorar em hipótese alguma? MARGEM LÍQUIDA, RETORNO SOBRE O INVESTIMENTO A MÉDIO E LONGO PRAZO!

  4. Bianchi

    14 de setembro de 2015 at 15:22

    Rodrigo,

    Parabéns pelo artigo e continue nos brindando com preciosas informações.

    Abraço,

    Bianchi – Connan

  5. Maria Emilia

    14 de setembro de 2015 at 15:28

    Excelente analise, que ajuda a ajustar planejamentos.
    Att Maria Emilia
    Faz Curumim

  6. João Paulo Gonçalves

    14 de setembro de 2015 at 18:06

    Parabéns Rodrigo,
    apesar de todos acontecimentos e incertezas ,a pecuária se mantem de pé !Gostamos e acreditamos nesse negócio , vamo que vamo!!
    Abraço ,
    Coromandel, Minas Gerais

  7. Ricardo de Sá Vieira

    14 de setembro de 2015 at 19:13

    Parabéns pelo belíssimo artigo, analise profunda sobre o senário econômico, sobre o grau de risco brasil e da pecuária a nível nacional e internacional, muito bom mesmo e nos orienta em como agir neste momento. Obrigado e continue com suas contribuições a pecuária brasileira.
    Abraco,
    Ricardo de Sá Vieira – Fazenda Terra Santa – Castanheiras – RO.

  8. ricardo weiler

    15 de setembro de 2015 at 10:11

    Muito bom!.
    Gostei do final.
    Continue…..

  9. Emiliano Cassettari

    15 de setembro de 2015 at 12:10

    Parabéns pelo artigo.

  10. José da Rocha Cavalcanti

    15 de setembro de 2015 at 13:07

    Olá Rodrigo,
    A honra foi minha de poder contar com sua atenção e seu tempo para nossa conversa.
    Muito obrigado por ajudar a divulgar minhas reflexões em prol de uma pecuária sustentável financeiramente.
    Parabenizo você e o Ricardo Heise pela dedicação de estar sempre tentando desvendar o “que não está escrito nos informativos” para passar como informação para quem quer fazer uma pecuária lucrativa.
    Um abraço

    • Rodrigo Albuquerque

      21 de setembro de 2015 at 1:26

      Sr José da Rocha, ler respostas como a do Sr. me fazem acreditar que o caminho é longo, mas a direção escolhida é certa. Muito obrigado!

    • Ricardo Heise

      21 de setembro de 2015 at 13:33

      Obrigado Sr Jose, é sempre um prazer escrever com o Rodrigo os informativos, muito obrigado pelo elogio, ainda mais vindo so Sr.
      Grande abraço.

  11. Leonardo

    15 de setembro de 2015 at 17:09

    Artigo estupendo, maravilhoso. Que possamos contar sempre com esses momentos de reflexão.

  12. Umberto

    15 de setembro de 2015 at 18:17

    Parabens, mercado do boi e da carne foi muito bem colocado, na minha opinião a crise já se alastrou pela pecuária pois o custo de produção aumentou muito devido ao dólar e aquele poder de compra que tínhamos principalmente ano passado já esta sendo queimado aos poucos.

  13. Caio Borges

    15 de setembro de 2015 at 19:16

    Parabéns Rodrigo!

    Há bem pouco tempo venho acompanhando o site e a cada leitura feita é um mundo de informações, dicas, reflexões, conclusões. Sou um apaixonado pela atividade e pessoas como você me fazem ter ânimo para estudar cada dia mais. Um abraço e bom trabalho!

  14. Jackson Capistrano

    18 de setembro de 2015 at 14:37

    Meus Parabéns pelo artigo!
    De grande valia!

    Att,

    Jackson Capistrano
    FAZ. CATARINENSE
    Sinop-MT

  15. Luiz Carlos Kogi Kumagai

    20 de setembro de 2015 at 10:15

    Muito bom o artigo, gostei.

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