A pecuária no segundo semestre de 2016: “mercado de extremos”

Por em 25 de julho de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #226, de 24 a 30/julho/16)

 

Companheiros que carregam o pó da viagem,

Temos o costume de apelidar os anos pecuários, quanto à situação geral de mercado. Por exemplo: o ano de 2014 foi chamado por nós de “o ano da colheita” (com a inspiração de Alaor Ávila), afinal de contas, vendemos por um preço em forte alta o estoque barato que havia sido comprado em 2012/2013 (dependendo do sistema de produção). Já o ano de 2015 foi chamado por nós de “o ano da ilha da fantasia”, pois a arroba continuou com ganhos reais bem acima da inflação, ignorando o grave cenário de deterioração político-econômico no qual o Brasil mergulhava.

E qual será o apelido para 2016? O bordão do famoso locutor esportivo, “bem amigos da Rede Globo. Haja coração! É teste para cardíaco”, tem muito a ver com a nossa rota! Viveremos neste segundo semestre um “mercado de extremos”. E isto tem tudo a ver com o apelido do presente ano, o qual será revelado ao final deste.

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

O movimento de pressão seguiu tanto no mercado físico, quando na BMF, porém, agora com intensidade mais alinhada entre ambos: foram cerca de R$ 1 a 1,50/@ de redução, em linhas gerais. O nosso BeefRadar apontou, no encerramento da semana, tentativas de compras entre R$ 151 a 155/@, as quais geraram a maioria dos negócios entre R$ 153 a R$ 155/@ a vista no boi comum de SP (a máxima do boi EU agora é de R$ 157/@ a vista).

Na baliza do indicador Esalq/BMF, partimos de R$ 156,29/@ a vista (variando de R$ 154,50 a R$ 158) e baixamos para R$ 155,76/@ a vista (variando de R$ 152,50 a R$ 158), o que mostra ainda um potencial de redução do indicador, pensando nos negócios que detectamos.

No “Mato Verde e Grosso do Sul”, seguimos quase sem alteração, ou seja, entre R$ 140 a R$ 143/@ e escalas de uma semana, porém com falhas e um pouco mais apertadas que SP.

Falando em escalas, está aí uma coisa difícil de analisar no momento. Digo isto, pois além do ajuste de produção (falhas e pulos de abate), temos bois de termo ajudando a alongar as mesmas. Fora as empresas que citam ter praticamente 15 dias de escalas pelos motivos apontados, o panorama geral mostra que o agendamento de bois encontra-se entre os dias 29/07 (sexta) e 04/08 (quinta). Consideramos o “dia D” na terça (dia 02/08), com o placar de 4.78 dias (referência HAITONG). Pelo mesmo motivo da semana anterior (balizamento do indicador concentrado na banda de cima do intervalo de preços visto no mercado), mantemos o status do beefradar em:

50% de queda | 45% de estabilidade | 5% de alta

 2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

O boi em GO segue mais acomodado do que genro que recebe herança de sogro e, portanto, continua “rodeando” o preço de R$ 142/@ a prazo (com prêmio EU de R$ 2 a 3/@ e “personnalité” pontual). Também ficou complicado de analisar a escala em GO pelos mesmos motivos que os citados para SP, mas podemos dizer que, em geral, há uma semana com folga (dia 02 e 03/ago é um referência comum para bois não EU). Já quanto aos animais EU, há relatos de escalas prontas para muitas quinzenas de agora em diante… Continuou vigente a “conversinha” de deságio (R$ 2/@) para boi de pasto mal acabado…

O deságio da arroba da vaca marcou a média semanal de -4.6%, em leve queda, pois parece ter iniciado o movimento de estreitamento, o qual nos parece ser o caminho natural até outubro/novembro. O diferencial de base de GO sinaliza que deve se mover, também em direção a um estreitamento, ameaçando romper o suporte de –R$ 15/@.

3) HORA DO QUILO: licença paternidade de um mês. O mundo está mudando… Você e a sua fazenda estão acompanhando estas mudanças?

http://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2016/07/24/eles-tiveram-licenca-paternidade-de-1-mes-e-dizem-como-foi-cuidar-do-bebe.htm

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: da novela para a vida real: agricultura sintrópica. E um segundo link, de uma fazenda situada em Rondônia (de onde escrevo agora), que recebeu certificação máxima dos programas de boas práticas agropecuárias da Embrapa. Sistemas de produção como estes estão com cada vez mais foco:

http://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2016/07/fazendeiro-de-rondonia-e-exemplo-por-produzir-preservando-natureza.html

http://agendagotsch.com/

5) BOITOGRAFIAS DA SEMANA

 

5.1) A exuberância da ILP: foto linda e surpreendente dos irmãos Nedson e José Rodrigues Pereira, diretores da Associação do Novilho Precoce do MS, mostrando a qualidade do capim verde contrastando com a tradicional cor palha da seca, milagre promovido pela ILP…

20160724 - Nedson

5.2) Duas famílias, um evento: ocorreu no último sábado, 23/julho, em Pimenta Bueno-RO, o 4º Dia da Campo da Família Foroni (Nelore 3B) e da empresa VitaSal (Família Santana). Mais de 470 pessoas (inclusive nós) puderam acompanhar o sólido trabalho feito por estas duas famílias. Agradecemos a oportunidade de aprendizado que estas pessoas e este estado, de singular hospitalidade, nos deram.

20160724 - RO 1 20160724 - RO 2

5.3) Marque na sua agenda: entre 17 a 20/agosto, a região de Mineiros-GO terá uma sequência imperdível de palestras, treinamentos, leilões, etc

20160724 - Lageado

6) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO (os sinais importantes do Sr. Mercado):

* ”nossa a planta frigorífica está com abate de animais EU sem espaço para novos agendamentos até outubro. Teremos que encaixar os animais dos nossos parceiros com cuidado, para que ninguém fique sem espaço na escala”. A frase do comprador do frigorífico contrasta com a atual situação caótica de custos e disponibilidade de comida para confinamento;

* aquela famosa frase “tirem as crianças da sala”, para a meteorologia, no atual momento, deveria ser: “definam a criança da sala”. Explico: durante todo o primeiro semestre, as notícias davam conta de que teríamos a transição de El Niño para La Niña moderada no segundo semestre. Porém, apareceram informações de que a La Niña vem perdendo intensidade, de modo que há probabilidade de que tenhamos um cenário de neutralidade ou até de um El Niño fraco. A consequência: para a América do Norte, significa definitivamente que temos a atual safra de milho/soja praticamente garantida. Para a América do Sul, aumentam as incertezas quanto ao início das chuvas na primavera de 2016 e no primeiro trimestre de 2017. Nada na intensidade de 2016, mas acende uma luz de alerta. Assumir riscos passa a ser certamente mais perigoso.

 

7) O LADO “B” DO BOI

 

Finalizado o primeiro tempo do “teste para cardíaco” do jogo oferta x demanda de 2016, qual o consolidado dos fatos importantes até agora?

Para a cria, começamos o ano no elevado patamar das altas de 2014/2015. Mas, como nos ensinou a vida, “a cura dos altos preços são os altos preços” e esta sina vem se materializando novamente, de modo que o ciclo pecuário segue seu caminho, produzindo uma forte retenção de fêmeas pelo segundo ano consecutivo, fato que deverá fazer aumentar sobremaneira a oferta de bezerros a partir de 2017, ao passo que enxuga a oferta de vacas ao abate, fator decisivo para a manutenção da fase de alta da arroba (embora menos pujante).

Mas, o mercado “pesou” em 2016 de modo que os recordes de preços de bezerros não foram mantidos, notadamente para animais de pior qualidade. Apesar disto, o bem vindo e longo período de margens em recuperação para o setor se mantém, muito embora elas estejam novamente pressionadas (também pelo aumento de custos).

Finalmente, em nossa visão, entendemos que o mercado tenha cedido muito mais em função da demanda retraída (seja em função de pressões climáticas, seja pelo ambiente menos atrativo da arroba bovina) do que pela oferta. A tendência é que esta pressão na cria siga no segundo semestre, pois não vemos espaços para recuperação de preços, capaz de retornar aos níveis de 2015 pelos mesmos motivos do primeiro semestre.

Quanto a recria-engorda, o ano vinha sendo bem positivo, principalmente até abril, quando cravamos o novo recorde nominal da arroba. Apesar de ainda presente, a intensidade da alta da arroba neste ano tem sido menor. Fatores como ágio dos animais de reposição, pressão de aumentos de custos do pacote de tecnologia (principalmente milho) e diferenciais de base mais abertos tem conferido a este elo margens de rentabilidade bem menores que a dos últimos anos. Além disto, o elo tem enfrentado nas últimas semanas um ajuste de produção por parte dos frigoríficos, o qual tem elevado artificialmente as escalas e pressionado o mercado físico, bem como o mercado futuro.

O cenário pesou aqui também! Mas, o suporte do ciclo pecuário expandindo rebanho está a favor da engorda, afortunadamente. O cenário mais provável de preços que é uma variação próxima da inflação (+7%) se mantém. Neste momento, a oferta restrita, principal driver dos últimos anos, cede espaço no comando dos preços para a demanda de carne. Isto mantém a pressão das próximas quinzenas… Joguemos então a toalha da arroba 2016? Falaremos adiante…

O atacado (frigoríficos) também não performa em 2016 no mesmo nível de intensidade de alta de 2014/2015. O dianteiro e principalmente o traseiro tem sentido a pressão de um mercado consumidor em frangalhos, que sinaliza queda de 20 a 25% de consumo. Finalmente a mão pesada da crise atingiu nosso setor. O exitoso ajuste de produção do ano passado, mostra-se necessário novamente em 2016, agora que as margens operacionais do setor atingem os menores valores que se tem notícia. Um alento surgiu, pois nosso mercado interno (responsável por 80% do consumo de nossa produção), atualmente no seu pior nível de demanda histórico, flerta com a estabilidade, sinalizando que deve interromper a sua mais longa série de piora. Esta lenta recuperação, provocada pelo início de nossa recuperação econômica será fundamental para recuperar margens deste elo e permitir que as indústrias tenham condição de voltar a ofertar aos produtores preços em alta, a partir dos níveis atuais. Caso esta recuperação da demanda não ocorra, a chance de os níveis atuais de preço seguirem estáveis, frustrando a alta da entressafra, não é um cenário descartável. Olho atento na demanda, portanto.

Na contramão da “tendência macro” de pressão no setor, o varejo está conseguindo margens melhores que as do ano passado, talvez embutindo no cenário inflacionário um pouco de recuperação de margem via majoração de preços.

As exportações iniciaram 2016 sob grande expectativa, oriunda das aprovações (EUA e China) e reversões de restrições de exportação para vários países, ofuscando os valores numéricos ruins de 2015. Estas expectativas não decepcionaram, notadamente no primeiro trimestre, mas mais recentemente, tornaram-se metas bem distantes. Em volume, o primeiro semestre não foi mal (+ 12.7%), mas a queda de preço (-10.4%) deixou o faturamento a dever (+1%). É inegável a perda de margem e desaceleração recente, fato que coloca um tom mais forte na luz amarela acesa pelo mercado interno aos frigoríficos. Após a definição da continuidade do governo interino, um dólar mais estável deverá ajudar, caso ocorra, bem como a confirmação dos embarques para os EUA (não pelo volume, mas pela imagem). Aliado à fase de retenção do ciclo pecuário, as exportações foram peça fundamental para que a arroba não sucumbisse frente ao deprimente cenário de demanda interna. Esperamos melhora não muito contundente nos volumes embarcados até o final do ano.

As carnes concorrentes vêm mostrando desde 2015 excelente posição de competitividade frente à carne bovina. Entretanto, a posição complicada do principal ingrediente (milho) deverá fazer os preços subirem (principalmente do frango), fato que deve ter especial importância no segundo semestre, quanto à precificação da carne bovina, revertendo potencialmente parte do nosso problema de consumo. A base sustentadora disto é a questão de disponibilidade definitivamente complicada do cenário interno de milho, motivado pelo baixíssimo estoque de passagem 2016/2017, o qual deverá manter o cenário de preços aquecidos, independentemente da posição externa (ainda mais com as incertezas climáticas citadas anteriormente, revigoradas agora).

Por fim, o envelope que embala todos estes elos, o cenário político-econômico, deve ter definição favorável, esperamos. Isto significaria, baseados nos recentes indicadores de mercado e na expectativa dos players, a manutenção do atual governo interino. Neste sentido, a retomada econômica deve ser iniciada, com a introdução das reformas esperadas, iniciando a reversão do complicadíssimo cenário de demanda interna de carne bovina.

Esta é a ”mesa tática” que situa em nossa visão a perspectiva para o segundo tempo do mercado bovino em 2016. E voltando à pergunta que ficou sem resposta pouco acima: devido a este clima pesado que se instalou no mercado de trinta dias para cá, devemos “jogar a toalha” das perspectivas da arroba entre julho a dezembro/2016? A resposta é não! Para aqueles que já jogaram, lembro que temos algumas situações insustentáveis na cadeia, as quais deverão gerar acomodações importantes num futuro próximo, tais como:

* as indústrias frigoríficas não devem operar nas atuais margens mínimas históricas, por muito tempo. O ajuste de produção (restrição de volume produzido), após ter sido levado completamente a cabo, deverá melhorar o equilíbrio financeiro destas operações. Até lá, os produtores terão que engolir um remédio amargo. Esperamos que seja breve;

* as operações de engorda do segundo semestre estão insustentavelmente pressionadas pelo aumento de custos (milho), pela queda das cotações da bolsa e pela questão climática terrível já instalada e que está, além de tudo isto, novamente sob os holofotes da incerteza com o enfraquecimento da La Niña. Caso os três fatores acima venham acompanhados de uma leve melhora (interna e externa) da demanda, poderemos ter uma reversão das expectativas de preços, não no sentido de explosão, mas de recuperação dos níveis de preços futuros antes já navegados.

* estamos passando por um mercado de extremos, vide o preço do milho citado, vide a margem operacional dos frigoríficos e da engorda, vide a perspectiva de volume de gado acabado para o 4º trimestre e por aí vai.

Por estas e outras, afirmamos: ainda tem muita água por passar debaixo desta ponte, o que torna o ano de 2016 digno do apelido: “ano da eficiência e da imprevisibilidade”. O nosso futuro de curto prazo está mais opaco do que nunca. Desta forma, o remédio para esta situação é: opere focado em margem e não em preço!

Estamos passando, portanto, por um enorme teste cardíaco! Não se esqueça de programar um check-up de sua saúde física (pois seu corpo demanda), de sua saúde gerencial (pois seu negócio demanda), da saúde dos seus relacionamentos (sua família demanda) e, por derradeiro, de sua saúde religiosa (seu espírito demanda). Até a próxima, se assim Deus nos permitir… Sairemos desta crise fortalecidos!

Rodrigo Albuquerque (boicom20@gmail.com) &

Ricardo Heise (r.heise@hotmail.com),

Num trabalho feito a 4 mãos…

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS: boicom20@gmail.com

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1 Comentário

  1. luiz roberto zillo

    25 de julho de 2016 at 13:03

    Qual o Apelido deste ano?

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