A pecuária está travada igual boca de mula na mão de pé de macaco

Por em 21 de setembro de 2014

NOTÍCIAS DO FRONT

A pecuária Goiana e Brasileira em uma visão de curto, médio e longo prazo, escrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem” (Edição #133, de 21 a 27/SET/14)

Companheiros de lida,

Informo solenemente que o boi gordo continua afundando, mas dentro de um pires (graças a Deus)! Ou seja, estamos em queda apenas quando se analisa o mercado com a frieza dos centavos. Na verdade, estamos estabilizados há cerca de um mês.

Quem não está estabilizada é a temperatura. Pipocaram fotos de termômetros com temperaturas “indecentes de altas”. Pode anotar. A chuva bate em nossas portas. Mas desta vez ela vem para iniciar a maior safra do Brasil, a de capim (após os primeiros 150mm). Segunda já é primavera…

termometro

Se o boi está estabilizado, a pecuária está travada!!! Igual ao título deste. Aliás, você pode medir o nível de sua “caipirice” pelo grau de entendimento deste título. Para quem não entendeu, segue a tradução: peão que não sabe montar um animal é chamado de “pé de macaco”. E o tal, por não saber conduzir as rédeas da mula adequadamente, faz com que o animal fique com a boca travada. A pecuária está igual a boca desta mula, travada! Ninguém quer comercializar. Vamos ver o porquê…

1)      COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Ainda vale a máxima: “no news is good news”. Ou seja, “ausência de notícia é uma boa notícia”. O mercado continua parado no intervalo de preços R$ 127 a R$ 130av em SP, porém agora, com o R$ 130 mais pontual, “não rasgado”. O indicador saiu de R$ 128,74 (variando de R$ 126,50 a R$ 131) e chegou em R$ 128,01 (variando de R$ 126,50 a R$ 130).

De toda forma estes míseros centavos nos levaram à nossa segunda semana de baixa da arroba. As escalas estão entre sexta (26) e segunda (29), mantendo o “DIA D” na SEGUNDA (29), com PLACARde 4 a 5 dias úteis (média de 4,5d entre o dia da venda e do abate).

Enquanto isto, no MS, tudo inalterado para o boi que está de R$ 124 a R$ 125av, com escalas entre quinta e segunda.

A estabilidade é tamanha que a média de mercado de 25/ago para cá (quase 1 mês) é apenas R$ 0,03/@ menor que o fechamento de sexta. Assim, o STATUS DO BEEFRADAR continua: “estabilidade (50%) / alta leve (50%)”.

2)      E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

A mula goiana não abre a boca nem para comer um pequizinho… Tudo travado na mesma: R$ 120av x R$ 122ap, com +R$2 para o boi EU, e sobre preço de até R$1/@ acima da referência citada, pois estão ocorrendo alguns preços “personalizados” para cima.

As escalas que “queriam” encurtar se estabilizaram entre sexta (26) e terça (30), ficando mais para a segunda (29). Já o diferencial de base GO x SP, tal como dito na semana passada voltou um pouco mais, ficando perto de –R$7/@. O deságio da vaca em relação ao boi permanece em aproximadamente –5%, valor esperado.

O STATUS DO BEEFRADAR acompanha o paulista: “estabilidade (50%) /alta leve (50%)”. 

3)      HORA DO QUILO: “QUAL É A TUA OBRA?”, livro de Mario Sergio Cortella que lemos no momento. O que você sente ao ouvir esta pergunta. Você se sente confortável, ou inquieto? Se a sua for a segunda opção, fique tranquilo. Compre o livro e saiba porquê.

E segue uma sobre política, pois está chegando a hora: Agronegócio só apóia Marina se ela reescrever programa – Roberto Rodrigues

4)      O LADO “B” DO BOI:

4.1. O BOI MERGULHA NUM PIRES, JÁ A CARNE NUMA BACIA…

Isto aí, a carne (atacado) veio para baixo. Já se tem notícia na sexta de carcaça casada de boi capão de R$ 7,60/kg, apesar do CEPEA estar em R$ 7,95/kg. E mesmo com enxugamento da produção pela exportação, pela produção até 25% menor em função de abates abaixo da capacidade das plantas e também pela menor quantidade de animais abatidos este ano (vide dados recentes do IBGE), o atacado “não firma”.

Um sinal interessante é o aumento dos últimos 12 meses do dianteiro ser maior que o do traseiro, fato motivado pela exportação (enxuga dianteiro) e provavelmente pela dificuldade do consumidor pagar cortes de valores mais altos. O consumo migra da carne de primeira para a de segunda e depois para o frango… Não podemos imaginar que o consumo carne não foi atingido após aumentos bem acima da inflação. Veja este levantamento da perda de fôlego de consumo da classe C:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/09/1519374-carro-celular-e-geladeira-sao-cortados-e-mostram-perda-de-folego-da-classe-c.shtml

Com isto, a margem dos frigoríficos atingiram na sexta o menor nível em 4 anos. Acompanhamos diariamente os índices do SCOT e eles mostram uma queda vertiginosa.

Cremos que vai haver reação do boi até o final do ano, até a bolsa precifica isto, colocando não mais o nov, mas sim o dez como o mês de pico de preço. Mas com este atacado cada vez pior, não sabemos o que vai ocorrer. Esperamos uma injeção de glicose na economia com a entrada do “péssimo terceiro salário”.

4.2. “Não sei o que vai ocorrer, é algo novo no mercado”

Esta frase relata o que o mercado espera como consequência da falta de animais de reposição que vivenciamos, frase esta que escutei algumas repetidas vezes no Interconf. Se a consequência é tida como incerta, o conselho que o mercado nos dá, para mim é claro: em tom sacerdotal, ele nos diz: “cuide melhor de seus pastos e da cria”… Vamos listar alguns pontos interessantes para direcionar o pensamento a respeito da reposição:

  • O bezerro antigamente era abundante pois era o fruto final da operação imobiliária que traduzia a realidade da maioria das Fazendas. E este produto, valia pelo seu estoque, numa economia inflacionária e mesmo mal conduzidas, as fazendas tinham seu rumo positivo. Após o plano real, isto acabou e chegou a vez da tecnologia e produtividade (excelente raciocínio do Maurício Palma, no Interconf)
  • Alguns dos principais fatores que explicam a baixíssima oferta de animais de reposição são: ciclo pecuário (alto abate de fêmeas visto em 2013), seca de 2014 e concorrência de terras de pecuária com a agricultura, vide MS e várias outras regiões
  • De mar/14 para cá, o poder de troca do invernista foi extremamente reduzido e o ágio da @ dos animais de todas as 4 categorias de reposição estão extremamente maiores que os dos últimos 3 anos. Respectivamente, para bezerro desmama, bezerro de 12m, garrote de 18m e boi magro, a média de 2011, 2012 e 2013 foi: 22%, 10.2%, 8.6% e 4.6%. Atualmente os mesmos valores são, respectivamente: 35%, 24%, 11% e 7%
  • Alguns estados como GO, estão impiedosos na hora de se repor, e já são vistos goianos procurando gado para compra na BA, MS, MG, MT, TO e até no Maranhão. Em Goiás, leilões estão parados como nunca se viu e até corretores de gado anunciam oferta zero
  • Como consequência, o recorde nominal do bezerro do MS (referência nacional) foi renovado várias vezes recentemente, apontando agora para R$ 1.088,67/cab, de 18/set, mesmo dia do recorde goiano (R$ 1.100,00). Obs.: valores CEPEA
  • Não bastasse a reduzida oferta, “um bom tanto” do pouco que há está sendo represado para venda após outubro e assim as invernadas estão igual a “velório de pobre”, com cerca de 30 a 60% do gado que deveriam ter no início da safra
  • Só fez reposição completa quem tem “2 dinheiros” (sujeito que tem a pecuária como segundo negócio). O sujeito “2 dinheiros” mais ativo, mobilizou capital de sua “outra fonte“ entre março a maio e ganhou muito DIM DIM com a valorização do gado. Mas nos preocupa o sujeito que, por ter menos compromisso e dependência com o negócio pecuária, aceita pagar altíssimos valores de ágio no gado de reposição agora. Isto acaba inflacionando o mercado…
  • O governo já acena com aquecimento da oferta de capital para financiamento de matrizes, provavelmente antevendo um colapso que pode haver no suprimento de carne nos próximos semestres. Tivemos oferta ativa de banco nos ligando para oferecer o produto a taxas subsidiadas

Quanto ao ágio que se pode pagar pela @ de reposição, esta discussão vai longe. Para começo de conversa, a maioria das negociações de gado magro não envolvem uma coisa muito simples e fundamental chamada balança. Até pãozinho de padaria eu compro no peso. Porque não comprar no peso uma compra que facilmente chega a milhares de R$?

Balança à parte, há os que preferem comprar boi magro de 12 a 14@ e levá-lo diretamente para o cocho, já travando a venda no ato da compra. Este sistema de produção é completamente inimigo do ágio e se “der taxa”, fica muito seguro. E há os que preferem comprar um animal de 7 a 9@, pagando um razoável ágio nestas arrobas, mas colocando entre 8 a 10@ nestes animais, com uma recria-engorda muito eficiente a pasto. Quem está certo? Ambos! Para nós, diferentes sistemas de produção, pagam diferentes ágios pela @.

O fato é que a reposição com alto ágio deverá envolver uma venda do gado gordo a preços bem altos para que a margem do próximo ciclo de terminação não seja tão comprometida. E é aí que mora a incerteza, considerando a nossa atual economia em recessão e o cenário político em aberto.

A consequência disto tudo é que podemos viver um colapso de oferta de gado pronto para abate no primeiro semestre de 2015. Desta forma, cremos em um ambiente de preços muito firmes no próximo ano, que dever ter como rainha a oferta reduzida (assim como 2016). Se 2014 foi o ano da colheita, 2015 será o ano da semente cara e da oferta reduzida.

Mas, não nos ancoramos na emoção… Uma oferta reduzidíssima (ou em colapso?) nos levaria a preços de @ explosivos no caso de termos uma economia pujante, que não é o nosso caso, definitivamente.

Em um cenário de economia em recessão, penso que a explosão de preços seja substituída por uma excelente “escora” que nos imunizará das mazelas econômicas, nos mantendo em níveis de preços excelentes, certamente com períodos de altas importantes, principalmente quando houver concomitância desta oferta reduzida com uma melhora da demanda do atacado. Infelizmente, o mercado não contabiliza estas ponderações e assume atualmente uma euforia jamais vista, que tem como consequência:

  • O pensamento do vendedor de bezerro: “prá quê vender agora, se o boi vai rasgar? Este meu bezerro de R$ 1.000 tem mais força que um boi gordo”
  • O pensamento do vendedor de garrote: “prá quê vender agora, se eu não acho o bezerro e no final do ano, após as chuvas, a procura pelo garrote vai aumentar, até mesmo por causa do abate do confinamento e do medo do Leão?”
  • O pensamento do vendedor do boi gordo: “prá quê vender agora, se a comida tá barata e matando um boi mais pesado, eu ajudo na reposição?”

Conclusão: a pecuária travou, o que é ruim para ela mesma. Mas o mercado vai corrigir isto, pode ter certeza. E ele poderá quebrar este ciclo por onde? Pela carne? Mas aí, depende da nossa combalida economia… Pouco provável… Pelo bezerro? Só em 2016/2017, pois tem ciclo longo… O garrote fica no meio e não tem este poder. A outra ponta, o gado gordo, ainda é a mais fácil, pois é possível, em algum momento entre agora e o final de outubro, haver uma leve melhora na oferta, fato que, neste momento de margens extremamente reduzidas da indústria, pode trazer consequências importantes. Mercado de extremos responde fortemente a pequenas variações. E o timing disto, ao nosso ver, pode ser o clima, com o recomeço das chuvas… Após isto, deve vir nova perna de alta. Vamos aguardar…

A mula e o mercado precisam caminhar e de preferência, de boca livre e sem “pé de macaco”! Que Deus nos proteja nesta semana que se inicia.

Rodrigo Albuquerque & Ricardo Heise,

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

Contatos:

Twitter @fazendaburitis, boicom20@gmail.com

Twitter @boi_invest , r.heise@hotmail.com

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