A locomotiva pecuária está querendo desemperrar?

Por em 21 de agosto de 2016

NOTÍCIAS DO FRONT (NF2R)

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

(Edição NF2R #230, de 21 a 27/ago/16)

 

Companheiros que carregam o pó da viagem,

Há duas semanas atrás o título do NF2R foi “margens negativas: a locomotiva emperrou”. O pior é que o trem havia emperrado no meio do túnel, pois estava tudo escuro e mergulhado nas trevas do pessimismo, que permeava todos os elos da cadeia pecuária.

Quase todo ano a florada do ipê atrai boas novas para o bovino e 2016 segue este tradicional caminho do mês de agosto. A exuberância do amarelo da floração desta árvore é tamanha que me atrevo a dizer que ela é um verdadeiro “3D natural”. O raio da luminosidade amarela ainda não aniquilou completamente as trevas do túnel onde a locomotiva pecuária está emperrada, mas a fresta de luz já permite enxergar que o túnel escuro tem um fim.

Mas “este ano é diferente” (como diz o jargão das reuniões da alta cúpula das multinacionais) e desta vez o bovino foi iluminado de maneira indireta: não pela melhora no preço da arroba, mas sim no atacado da carne bovina. Falando em fresta de luz, uma janela também está aberta na pecuária. Vejamos qual é!

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Finalmente a coisa se inverteu, porque entre as duas últimas sextas-feiras houve um aumento no preço dos fechamentos da bolsa e uma leve pressão no físico, contrariando a rotina recente das últimas semanas, onde havia pressão em ambos mercados (físico e futuro).

O indicador Esalq/BMF fechou a semana em leve queda pois partiu de R$ 151,00/@ a vista (variando de R$ 150,50 a R$ 151,50) e fechou em R$ 150,02/@ a vista (variando de R$ 147 a R$ 155,50). Em tempo: a máxima captada pelo indicador foi corrigida, conforme alertado no último NF2R. A máxima da semana passada não era “mercado”, como dito no jargão. Estas imperfeições do indicador têm que sumir, para o bem do mercado. Falando nisto, completamos a quinta semana de baixa. Nenhuma “perna de baixa” da arroba, teve mais do que cinco semanas de extensão de 2013 para cá. Atenção!

Quanto ao mercado físico do MS, tivemos preços entre R$ 141 a 142/@ a prazo, mas por vezes, valores maiores, como R$ 141/@ a vista, são vistos pois há frigoríficos com escalas extremamente curtas, com embarque imediato. A maioria está entre a próxima terça/quarta.

Em SP, o grande volume de negócios ocorre no à vista entre R$ 150 a 152/@, mas as ofertas das indústrias começam em R$ 148/@ (a máxima que vemos é de R$ 153/@). Em linhas gerais, o mercado balizou os negócios na banda de baixo do intervalo de negociação que ocorria na semana anterior. Portanto, uma leve pressão, como dissemos.

As escalas paulistas não estão críticas como as do MS, estão mais cumpridas, lá pelos dias 29 (seg) e 30 (ter). Mas seguem no “estilo Belém-Brasília”, em homenagem à famosa rodovia, afinal de contas, assim como a estrada, as escalas de SP estão “longas e cheias de buraco”, hehehe. O status do beefradar, segue focado na estabilidade, mas “carrega” um pouco mais o percentil da alta:

20% de queda | 50% de estabilidade | 30% de alta

 2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Também houve uma pressão adicional em GO o que levou o preço balcão para R$ 137/@ a prazo (com prêmio EU de até R$ 2/@ e “personnalité” de no máximo R$ 1/@). As escalas seguem encurtando mais um pouco, estando agora entre a quarta (24) e a quinta (25).

Outro que não para de encurtar é o diferencial de base, que cravou a média semanal de -R$ 12,2/@. O deságio da @ de vacas permanece próximo de 4%, sem alterações captadas pelo nosso BeefRadar.

3) HORA DO QUILO: “tem que estar na pista”, frase do nosso amigo médico e pecuarista (não necessariamente nesta ordem) Elder Antônio de Anápolis-GO, relatando que após investir tempo na compra de gado de reposição, conversando com todos, incluso caminhoneiros, começou a obter melhores negociações. Ou seja, tem que estar no front. Presença é o nome da sua atitude e muito obrigado pelo exemplo, Dr. Élder!

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: meu primo trabalha na indústria automobilística e me relatou que “a ANFAVEA (associação dos fabricantes de automóveis) divulga todo dia 7 os volumes de produção de veículos com todos os detalhes por modelos e categorias. Além disso existem outras associações que divulgam previsões, como o SINDIPEÇAS (associação dos fabricantes de autopeças). Também contam com empresas globais que divulgam detalhes sobre previsões, novos lançamentos com datas e volumes, investimentos por montadoras, etc. Uma delas é a LMC auto que é de onde surgem as informações para os planejamentos estratégicos do setor”. E a nossa cadeia? Relatamos diversas vezes problemas com o Indicador de Preços do CEPEA. A idoneidade e competência da Esalq/BMF e das pessoas daquela instituição é inquestionável (não há outro lugar melhor para “gestar” o Indicador). A coleta dos preços está sendo profundamente melhorada, vide o aplicativo recentemente lançado. Ficam duas perguntas: a metodologia não tem que evoluir também, eliminando as variações inexplicáveis (como a máxima a vista do dia 12 e 17/ago)? Porque só uma das três grandes indústrias informa espontaneamente 100% de suas negociações para o CEPEA? A informação é opcional, mas quem pode não querer um mercado com indicadores mais fidedignos? Sugiro você perguntar ao frigorífico que você comercializa seus animais se eles informam o preço ao CEPEA e caso negativo, sugiro você pedir para eles fazerem isto (além de você mesmo informar pelo aplicativo CEPEA Boi, uma obrigação sua). Rumo ao #CEPEA100%. Se temos a Ford, a VW, a Fiat-GM juntas por um mercado transparente, porque não podemos ter o mesmo???

5) BOITOGRAFIAS DA SEMANA (DA ESQUERDA PARA A DIREITA):

* O ipê e nosso amarelo 3D natural com as surpreendentes chuvas de agosto no sudoeste goiano e também em SP e no PR;

* A heterogeneidade da cria estampada (sistemas de produção que desmamam bezerros de 11@ contrastam com fazendas onde as vacas são relegadas a pastos desta condição, uma verdadeira “saga” para as vacas);

* A seca de magnitude extraordinária fez o “capim BR” queimar como nunca vi antes;

20160820 - Ipê20160820 - vacas20160820 - fogo

6) RAPIDINHAS DO BOVINO BRASILEIRO (os sinais importantes do Sr. Mercado):

* As chuvas que aos poucos vão aparecendo em agosto, mostram que o La Niña vai “dando a cara”. Deveremos ter chuvas com boa regularidade no cerrado do Brasil a partir da segunda quinzena de outubro (com aquele tradicional veranico em janeiro ou fevereiro), porém com chuvas mais irregulares do Paraná para baixo. Bom para a safra de verão do cerrado e boas perspectivas para as pastagens do Brasil Central;

* Além da atual política do nosso Banco Central centrada em forçar a inflação para dentro da meta (mantendo os juros elevados), o universo de juros negativos dos países desenvolvidos vem fortalecendo o nosso real, pela estrondosa entrada de capital externo. Com estes fatores internos e externos dando propulsão, a moeda brasileira assume a dianteira da valorização frente ao dólar (18% no ano), o que dificulta as nossas exportações de carne, seja pela perda do volume exportado, seja pela perda de margem da operação, fatores fundamentais para a “queda de apetite” dos frigoríficos pelo boi no segundo semestre. Mas… vieram algumas boas notícias: há rumores de que a China está voltando às compras de carne e também de que os juros dos EUA podem ter um aumento já em setembro, o que faria o dólar se fortalecer no Brasil… Olho atento!

* “Girão X dois giros”: poucas coisas estão mais especuladas no atual momento da pecuária do que o total de animais confinados de 2016. Eu nunca vi confinamento ser suficiente para abastecer o mercado do Brasil, não é à toa que temos a chamada entressafra. Será que este ano, com as hercúleas dificuldades existentes, ele será suficiente??? Podemos discutir a magnitude da queda, mas duvidar que o volume de animais confinados vai cair é como apostar em enchente de agosto. O que estamos vendo por aí é um “girão” de confinamento, apenas. Os boitéis estão cheios em função da dificuldade de confinadores menores confinarem nas suas fazendas, pois havia muita incerteza quanto à disponibilidade de milho e estes players transferiram o risco para os confinamentos maiores, optando simplesmente por pagar diária. Além disto, em razão do diferencial de base aberto, estados vizinhos (como MG e sul de GO), enviaram seus bois para serem confinados em SP, reforçando a oferta agora, fato que tem pressionado o indicador. Portanto, boitéis lotados e da mesma forma, escalas longas (mas no estilo Belém-Brasília), não significam muita coisa nos dias atuais. A provável queda de animais confinados não quer dizer necessariamente que teremos um choque de oferta gigante, pois a demanda interna do consumidor de carne está combalida. Mas, no mínimo, isto continua, junto com a retenção de fêmeas, sendo um importante limitador de todas as tentativas de baixar o preço da arroba em 2016. Olho atento!

 7) O LADO “B” DO BOI: a locomotiva apitou

Se eu encontrasse o gênio da lâmpada, e tivesse apenas um pedido a fazer para a cadeia pecuária, eu pediria hoje: “melhore o consumo de carne no mercado interno”. Eu não pediria aumento da arroba, apesar de desejar profundamente isto, obviamente. Explico: não acredito em sustentabilidade de preços sem sustentabilidade de margem entre os elos da cadeia. E hoje, temos os elos do atacado (frigoríficos) e da engorda (pecuaristas de terminação) sem margens para a condução dos negócios, espremidos pela demanda reprimida (interna e externa). Veja os números: segundo o CEPEA, “a diferença entre os valores da arroba e da carne está em R$ 7,72/@ neste ano, contra R$ 4,34 /@ em todo o ano de 2015, R$ 6,25/@ em 2014, R$ 3,91/@ em 2013 e de R$ 2,19/@ em 2012”, o que mostra a tal falta de sustentabilidade. Relatei neste espaço também que, depois de muitos anos, vi margens negativas na engorda confinada… Por isto a locomotiva emperrou, afetando inclusive os preços da reposição.

Desta sorte, a chave para o mercado destravar (ou para a locomotiva voltar a andar) é justamente a venda de carne, principalmente no mercado interno (80% do volume do que vendemos, mas é óbvio que uma melhoria da exportação seria igualmente importante e muito bem-vinda).

Na semana passada dissemos: “houve recuperação leve no preço do atacado durante a última semana e melhora nas margens das indústrias”. Pois bem: esta recuperação se intensificou consistentemente no decorrer da semana passada, mesmo num período ruim do mês para a venda de carne (segunda quinzena)!!! O “equivalente carcaça” da Scot Consultoria subiu mais de R$ 6/@ do dia 10/agosto para cá!!!

Certamente já é um reflexo do ajuste de produção (volume menor de carne produzida em função da redução dos abates) e também de uma melhoria (ainda tênue) do mercado consumidor interno, conforme cansamos de anunciar aqui de uns 60 dias para cá. Chama a atenção a valorização do traseiro, além do dianteiro.

Como o boi segue levemente pressionado (justamente pela diminuição do abate), dá para dizer que a margem da indústria frigorífica brasileira está em franca, forte e consistente recuperação de seus níveis, os quais, ainda assim, encontram-se em valores historicamente muito baixos.

Por isto dizemos que não entendemos como caminho natural da arroba uma disparada “amanhã”, por mais que a oferta (baixa) sugira este caminho. A cadeia ainda tem que recuperar muito a margem dos elos posteriores à engorda. Mas… mostra que temos boa chance de ter passado pelo fundo do poço, como temos “batido”. Já temos notícia de frigorífico que estava abatendo 600 cab/dia, estar nos próximos dias voltando ao abate normal, de 1.000 cab/dia. Não é absurdo dizer que se o consumo surpreender (para cima), pode faltar carne num futuro próximo. Ninguém comentou ainda, mas não podemos esquecer de que teremos eleições municipais este ano… O Ricardo Heise astutamente levantou esta lebre esta semana. Quem come carne não é a “federação”, são os ”municípios”, já bem agitados pelo pleito que se aproxima… Quem anda no interior, já percebeu!

Outro ponto a ser destacado é que o varejo acumulou gordura ao longo de 2016, chegando inclusive a recompor o seu mark-up para o maior valor desde 2013, tendo, portanto “colchão” para absorver esta alta do atacado.

Em resumo, com a concomitância do atacado em alta e da arroba pressionada, a margem da indústria frigorífica, que estava na UTI com prognóstico reservado, em estado crítico e respirando com a ajuda de aparelhos, agora, apesar de ainda seguir na UTI, já respira sem ajuda de aparelhos, apresenta evolução muito boa e sinaliza que pode passar ao quarto, caso a evolução prossiga.

Outra boa notícia para destravar a cadeia é que os atuais preços de reposição, com ágios de 23%, 20%, 7% e 1%, respectivamente para bezerros, garrotes de sobreano, bois magros de 12@ e bois magros de 13 a 14@, sinalizam que a janela de compras de reposição também está aberta. É a tal fresta de luz que falamos no início deste.

Enfim, a Olimpíada se foi e tomara que vá também para frente a locomotiva da pecuária. O apito característico da partida, já foi dado. Desejamos que você fique em paz até a próxima semana, sendo um instrumento de luz para aqueles que cruzarem seu caminho, tendo atitudes que honrem a sua família e o poder maior.

Rodrigo Albuquerque (boicom20@gmail.com) &

 Ricardo Heise (r.heise@hotmail.com),

Num trabalho feito a 4 mãos…

 

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CONTATOS PARA AGENDAMENTO DE PALESTRAS:

boicom20@gmail.com

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1 Comentário

  1. Paulo Cesar Bastos

    22 de agosto de 2016 at 13:14

    Prezados Rodrigo Albuquerque/Ricardo Heise

    Bom dia, boa semana e boa lida.
    Valeu, mais um texto instrutivo e produtivo.

    Importante a boa lembrança de vocês:
    Se eu encontrasse o gênio da lâmpada, e tivesse apenas um pedido a fazer para a cadeia pecuária, eu pediria hoje: “melhore o consumo de carne no mercado interno”.

    Sobre o assunto, permitam-me encaminhar algumas considerações.
    Embora o mercado externo seja importante e fundamental para o agronegócio brasileiro é importante saber: o que é aqui produzido aqui será consumido.

    Ler mais no meu artigo de 23 de março de 2010, que, acredito, continua atual.
    MERCADO INTERNO: INOVAR PARA AVANÇAR

    Disponível, acessando:

    http://sites.beefpoint.com.br/mypoint/mercado-interno-inovar-para-avancar/

    Grato pela atenção e daqui da Bahia seguem cordiais saudações sertanejas

    Paulo Cesar Bastos

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