Tipificação de Carcaças: uma boa idéia que simplesmente não funciona

Por em 1 de março de 2010
Tipificação de Carcaças: uma boa idéia que simplesmente não funciona

Ouço a anos sobre a necessidade de implantarmos um processo de tipificação de carcaças no Brasil similar aos processos existentes em outros países grande produtores de carne, mas muito pouco ou nada se avançou nesta direção.

Apesar da idéia de pagar-se melhor por produtos de qualidade ser a princípio bem aceita por quase todos, sua implantação concreta é bem mais difícil.

Lógico que há aspectos técnicos da tipificação que precisam ser equacionados, mas não é este equacionamento a grande dificuldade. Um ou mais comitês técnicos foram criados para elaborar uma norma de classificação das carcaças, mas nunca chegaram a bom termo por falta de interesse suficiente.

Tivemos apenas algumas experiências isoladas de frigoríficos, que infelizmente não prosperaram.

E mesmo estas poucas experiências isoladas, enquanto duraram, não empolgaram os pecuaristas. O que sempre ouvi era que os prêmios pagos não justificavam os investimentos necessários para alteração do processo produtivo nas fazendas.

Afinal quais as reais dificuldades de se adotar a tipificação no Brasil?

A primeira hipótese é que afinal os consumidores não estão dispostos a pagar mais pela carne.

Mas é uma hipótese bastante simplista, pois o processo de tipificação em si não onera significativamente o processo de produção. Consiste basicamente na capacitação de funcionários dos frigorífcos e na implantação de um sistema de registro dos diferentes tipos de carcaças dos animais abatidos. 

E a princípio o preço médio da carne não seria significativamente afetado, só segmentado. O que provavelmente ocorreria é que os frigoríficos pagariam mais pelos animais de melhor qualidade e menos pelos de pior qualidade.

E esta segmentação permitiria que o consumidor orientasse melhor a produção. Simplesmente se o consumidor médio ainda não souber diferenciar carnes de qualidade elegerá carnes mais baratas. E assim cada tipo de consumidor enviará, através de suas ações de compra, sinais concretos para o mercado de quanto esta disposto a pagar pelo produto que deseja e naturalmente oferta e demanda por cada tipo de carne tenderiam a um equilíbrio.

A segunda hipótese é de falta de homogeneização mínima dos lotes de animais, impedindo o tratamento industrial / segregação das carcaças de maneira economicamente viável. O trabalho de “pescaria” de algumas poucas carcaças boas dentre carcaças ordinárias não garante uma escala mínima regular e é caro. Esta "pescaria" pode até auferir algum ganho adicional ao frigorífico, mas certamente não será significativo e não haverá qualquer tipo de repasse ao produtor.

Acredito realmente que ainda falte homogeneização dos lotes, mas simplesmente sem uma política de incentivo atraente o produtor não mudará seu processo produtivo para oferecer maior homogeinidade. Portanto a segunda hipótese apesar de verdadeira não é causa do problema e sim o sintoma.

Talvez as maiores dificuldades estejam no sistema de produção e distribuição adotados pela industria frigorífica e de comercialização adotado pelo varejo. Sem dúvida a segmentação exige ajustes industriais, investimentos em logística e marketing. E a industria ou o comércio só segmentarão a oferta de um produto se acreditarem que com isto elevarão seus ganhos. Talvez elas simplesmente não acreditem no retorno destes investimentos.

Portanto as perguntas são:

a) será que já há demanda suficiente por carnes de qualidade para justificar a implantação de um programa amplo de tipificação de carcaça ou este ainda é um produto de “butique” no Brasil?
b) O que pode ser feito para incentivar este tipo de demanda?
c) Qual o incentivo economico necessário para o produtor ajustar seu processo produtivo de forma a passar a entregar um volume maior que o atual de animais capazes de produzir carcaças superiores?

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