Alianças verticais na pecuária bovina: armadilha ou oportunidade?

Por em 23 de fevereiro de 2010
Alianças verticais na pecuária bovina: armadilha ou oportunidade?

Já ouvi de muitos pecuaristas que é preciso resistir à implantação de processos de integração vertical similares aos existentes na suinocultura e avicultura. Que estes processos transformam produtores em “empregados” da indústria sem registro em carteira.

Mas ao tentarmos comparar a rentabilidade média dos “granjeiros integrados” nas últimas duas décadas versus a rentabilidade média dos “pecuaristas independentes” surgem várias dúvidas.

Obviamente não podemos comparar lucros absolutos de pequenos sitiantes de SC com lucros absolutos de grandes pecuaristas do Centro Oeste. A diferença de capital alocado é imensa e a comparação não faria qualquer sentido.

Mas se compararmos com honestidade a rentabilidade média (lucro auferido em relação ao capital alocado) de pequenos pecuaristas com a de pequenos “granjeiros integrados” veremos que a equação tem sido nitidamente favorável a estes últimos.

Acredito que muitos destes pequenos proprietários rurais só sobreviveram e continuaram na atividade agropecuária graças ao processo de integração com a indústria.

E quando analisamos a rentabilidade de grandes pecuaristas constatamos que a realidade não é muito melhor. Apesar de relativamente segura e líquida a pecuária tem sido tradicionalmente uma atividade de baixo retorno.

Por estas razões acredito que devemos analisar melhor os prós e contras de um processo de integração da cadeia produtiva, evitando os preconceitos.

E a integração vertical no campo não é uma característica apenas da suinocultura e avicultura. A cadeia sucroalcooleira e a cadeia da celulose, para mencionar as mais óbvias, também tem graus de integração vertical consideráveis e são das mais bem sucedidas cadeias produtivas do agronegócio brasileiro.

Em minha opinião a integração vertical em si não é boa ou ruim para os envolvidos. Sempre vai depender dos termos. Mas ao conseguir uma melhor programação da produção a integração tende a reduzir riscos e permitir explorar melhor nichos de mercado, elevando a margem do processo produtivo de forma que os benefícios possam ser distribuídas entre os agentes.

Acredito que a integração ainda não é uma realidade na pecuária bovina nacional pelas dificuldades técnicas de implantar um modelo operacional que permita a celebração de contratos de médio e longo prazo seguros e econômicamente viáveis para todas as partes envolvidas.

Se superarmos estas dificuldades técnicas / operacionais naturalmente venceremos as “desconfianças” mútuas.

E quais são estas dificuldades?

a) um ciclo de produção longo (ao redor de 36 meses), envolvendo muitas vezes duas ou mais etapas, conduzidas em locais e por produtores distintos.
b) falta de padronização do processo produtivo e conseqüentemente falta de homogeneização do produto final. A pecuária bovina ainda esta muito longe, por exemplo, da homogernidade genética dos animais criados numa granja.
c) falta de garantias reais de liquidação dos contratos de integração celebrados.

O que precisamos é discutir conjuntamente como superar estas dificuldades.

0 Comments

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *