Recordações de uma infância privilegiada

Por em 17 de dezembro de 2011
Finais de ano sempre trazem recordações de vivências que ficaram perdidas no tempo e com certeza não sou o único a rever a infância com tantas e boas lembranças. Quase todo mundo nascido em meados do século 20, até um pouco mais tarde, participou de brincadeiras de rua ou da zona rural que, raramente, permitimos aos nossos filhos e, agora, negamos aos netos, preferindo levá-los aos parques temáticos para ver golfinhos de piscina saltando fora d´água por um peixe, ou ainda, para brincar com personagens do reino animal criadas para agradar as crianças de meias, tênis, e mãos bem limpinhas, e vender suas réplicas em tamanho reduzido.

No nosso tempo, ninguém parava muito para pensar se os meninos podiam se machucar em suas brincadeiras. Quem não brincou de montar bezerros em currais barrentos e, ao despencar num esbarro ou meia-volta brusca não sujou as mãos e a cara, sem falar na roupa, na urina e na bosta das vacas ali ordenhadas horas antes? Quem não caiu de cavalo que ainda não estava bem domado e não teve vontade de chorar de dor nas partes do corpo que primeiro bateram contra o solo ou em alguma pedra que não deveria estar naquele lugar? Que susto eu levei com o ferimento na testa numa queda em solo inclinado e bastante enlameado pelas chuvas de fim de ano, milho verde sendo moído, e um esforço enorme para não chorar de dor, enquanto umas mulheres costuravam a palha verde e outras punham lenha para queimar debaixo do tacho, onde logo mais estariam cozinhando as pamonhas.

Além de ser fim de ano, uma notícia de jornal sobre a apreensão de galos de briga, seus proprietários e apostadores, numa rinha em Guarulhos, despertou minhas recordações e a vontade de escrever sobre uma de minhas paixões da infância. A principal delas, no mundo animal, era indiscutivelmente pelos cavalos, e mais tarde viriam as vacas que meu pai venerava como um hindu, mas havia também a paixão secundária, menos intensa, porém cheia de dedicação às aves, que hoje denominam "índio combatente", mas que para mim eram simplesmente galinhas e galos índios. A resistência, valentia e a capacidade de multiplicação dessas aves me encantavam.

Engraçado que os combates sangrentos entre galos não despertavam em mim nenhum interesse, tanto é que nunca fui a uma rinha, nem sabia se existia uma na cidade em que vivia, o que eu gostava mesmo era de criar as aves convencionais de granja em gaiolas e as índias soltas no quintal, ir atrás de quem pudesse me ensinar a formular rações para umas e outras, sair à procura dos ingredientes – não havia soja, a proteína vinha da combinação do milho com a farinha de carne -, misturá-los, acompanhar a postura e a chocagem dos ovos. Dias de ninhada eclodindo dos ovos eram de muita alegria, depois o cuidado com os pintinhos que pouco a pouco iam se transformando em frangos e, logo se viam os ensaios das brigas entre eles.

Vez por outra eu comprava um galo ou trocava um por outro com um amigo. O amigo era sempre a mesma pessoa querida da nossa família, que perdera as pernas pouco abaixo dos joelhos num acidente numa serra de serrar toras e que estava tentando se acostumar com as próteses de plástico, reaprendendo a andar, apoiado em um corrimão de madeira. Ele tinha sempre algumas preciosidades vindas não sei de onde, como um galo de pedigree que havia ficado cego de um olho numa rinha e que se encontrava em tratamento, bastante combalido. Mas era um galo em que valia a pena investir uns trocados, porque vinha de uma linhagem de animais muito valentes. Era esse tipo de história que eu ouvia sempre do amigo casado que já tinha filhos, ele sim um bravo, para mim um herói que, com muito esforço, logo aprenderia a andar com suas pernas artificiais, a dirigir também, e ganharia algum dinheiro com uma sorveteria que acabou virando fábrica para atender a uma demanda ampliada.

Algumas vezes colocávamos dois galos para brigar como num treinamento para lutas que jamais aconteceriam, mas ambos usavam biqueiras e proteção de couro sobre as esporas, para evitar que provocassem ferimentos um ao outro. E me dá certo orgulho pensar que já tínhamos os rudimentos de uma consciência sobre os direitos dos animais, que não devem sofrer para o contentamento dos humanos. O mesmo princípio que não me canso de repetir nas aulas, porque vale também para as horas que antecedem ao abate, desde a fazenda até a insensibilização nos matadouros.

Tudo que acabo de escrever sobre as minhas recordações tem muito a ver com o rumo que tomei nos estudos e, depois, na vida profissional. Quanto aos galos índios… Bem, eles estão por aí sendo maltratados em rinhas espalhadas pelo país, brigando por instinto uma luta que não é sua, e é sim uma contravenção penal que precisa ser combatida com rigor, mas a raça índio, que deve ter recebido esse nome pela coloração vermelha que adquire sua pele nas partes em que se lhes retiram as penas, também tem passado seus genes de rusticidade a novas linhagens de aves para produção caipira de frangos grandes e resistentes a doenças.

Quanta coisa se pode aprender brincando, na infância e adolescência; era assim antes e ainda pode ser hoje para quem tem sítio ou quintal e imaginação, muita imaginação.

Feliz Natal!!!!!

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