É preciso ir além das marcas de carne

Por em 17 de junho de 2012

Tenho pouco a acrescentar ao artigo do Miguel Cavalcanti, seu raciocínio me parece perfeito no que diz respeito à vantagem da fusão dos serviços de classificação de carcaças existentes, quem sabe em empresas prestadoras de serviços. Creio que ninguém irá discordar disso, porque a continuar crescendo essa tendência de criação de marcas de carne com base em raça ou cruzamento, manejo e alimentação, quantos classificadores haverá em cada unidade de abate em mais alguns anos?

Contudo, tenho dúvidas de que esta seja a solução para a não existência de um esquema oficial de classificação e tipificação.  Acho pouco provável, porque os classificadores atuais prestam serviços para as associações e só classificam para elas; e o restante do gado como ficaria? Não é isto o que mais nos interessa, para a implantação definitiva de um esquema oficial que remunere pela qualidade das carcaças conforme a demanda do mercado?

Claro, vai depender do interesse das partes envolvidas, ou seja, fornecedores de gado e frigoríficos terão que pagar pelos serviços e, assim, voltamos ao círculo vicioso. Aliás, esse pagamento por ambas as partes está previsto na Instrução Normativa n.9, de 04 de maio de 2004, assinada pelo ministro Roberto Rodrigues, que não saiu do papel, ou melhor, do Diário Oficial da União, segundo dizem por ausência de pressão dos pecuaristas.

Por isso, creio que será necessária uma negociação entre as partes envolvidas, com a participação ativa do governo dizendo que tem interesse na classificação com critérios padronizados definidos para todos, para publicação oficial de preços de mercado do boi e da carne e de estatísticas de abate, por categoria de sexo-maturidade e acabamento. Também, para conhecer mais a fundo as diferenças regionais, de modo a fazer o fomento de produtividade da pecuária, conforme as necessidades, que podem ser de sanidade, manejo, genética ou de alimentação, como bem colocou o Eduardo Krisztán Pedroso, no Workshop do Beefpoint, dia 15 de fevereiro deste ano.

Uma observação final: imagino que esse dado de capacidade instalada de 70 milhões de cabeças, inclua apenas os matadouros-frigoríficos com SIF, e quem sabe alguns com inspeção estadual ou municipal, porque é praticamente impossível contabilizar a capacidade do abate informal.

No artigo, estimou-se o abate brasileiro em 40 milhões, mas o IBGE com base na pesquisa trimestral de abates (inspeção federal, estadual e municipal) dá 28,8 milhões, em 2011, então a situação de “muito frigorífico para pouco boi” – ociosidade – é ainda pior do que foi revelado no artigo, porque ainda que o abate informal fosse de 11 milhões de cabeças – segundo o IBGE, considerando-se o número de couros, é de 5 a 6 milhões – não daria para contar com essa quantidade para abastecer os frigoríficos inspecionados a menos que a fiscalização para coibir a clandestinidade fosse absolutamente rigorosa.

Independentemente dessas estimativas, o Beefpoint está certo em lutar pela classificação de carcaças em vista dos benefícios que ela trará ao setor da carne. O aumento de produção virá com o tempo e aí será possível pagar ágio a quem produz as carcaças mais desejadas e deságio aos demais.

A título de curiosidade, Rhodes (1960)* conta que o movimento para implantar a tipificação nos EUA ganhou força, na década de 1920, com os provocadores artigos do editor da revista  Breeder’s Gazette, Alvin H. Sanders, que levaram à criação de uma campanha cujo mote era o “Better Beef”, carne de melhor qualidade. Para Sanders, somente a carne gorda de gado tratado com grãos em confinamento merecia ser designada como “Prime beef”, o restante era “tiger beef”, ou ainda, “cat beef”, carne para tigre ou para gato.

Entretanto, temos que ir além do confinamento de alto grão e das marcas de carne, já que a grande maioria dos produtores de gado não confina e tampouco tem acesso às marcas e, assim, ficaria sem os incentivos da indústria. E mais, as marcas, em geral, pressupõem o estabelecimento de vínculos entre fornecedores e indústria, mediante contratos de fornecimento, ou seja, para quem os tiver, a livre negociação em busca de melhores preços torna-se mais difícil senão impossível.

* RHODES, V.J. How the marking of beef grades was obtained. Journal of Farm Economics, v.XLII, n.1, p.133-149. 1960.

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