Viabilidade do Confinamento em 2012

Por em 1 de fevereiro de 2012

Se for para arriscar um palpite objetivo para explicar a diferença entre o sucesso ou fracasso no confinamento, o mais evidente seria a capacidade decisória. É a antecipação tanto dos problemas quanto das oportunidades que o negócio apresenta diante das variações do mercado. E olha que durante o ano são muitas as variações. É só acompanhar o mercado pecuário para ver.

Nesse sentido, para se elaborar uma decisão adequada, coerente, é preciso estabelecer critérios de planejamento, que envolvem uma séria de variáveis. Entre elas podemos citar algumas, como: número de animais a serem confinados, peso de entrada e saída, período de confinamento, ganho de peso almejado, alimentos disponíveis e preços, tipo de dieta (baixo concentrado ou alto) e, logicamente, a remuneração da arroba de boi gordo na época de venda. Essas são, portanto, informações básicas para que o pecuarista possa avaliar os custos e resultados do confinamento e decidir, sobre a utilização da tecnologia em menor ou maior escala naquele ano.

Quando falamos em menor ou maior escala é porque, nessa situação, estamos analisando o confinamento como uma estratégia para a entressafra, onde no período seco do ano – e estes têm sido drásticos – parte dos animais é terminada no confinamento, como forma de preservar as pastagens de uma taxa de lotação excessiva, o que resultaria em degradação das mesmas, caso isso acontecesse.

Bom, 2012 promete ser um ano pleno de incertezas e boa volatilidade. A começar pela oferta de animais, exportações, consumo interno, cenário macroeconômico e também variações do preço dos grãos, boi magro e remuneração do boi gordo, a dúvida que fica é: como fica a viabilidade do confinamento em 2012 nos principais estados confinadores? Para responder a essa pergunta temos que realmente simular os custos e resultados do confinamento. Para tanto, vamos analisar (Tabela 1) os preços dos principais insumos nos estados de São Paulo (SP), Minas Gerais (MG), Mato Grosso do Sul (MS), Goiás (GO) e Mato Grosso (MT).

Para o boi magro (12@), a cotação da Bigma Consultoria indicou para hoje em SP o valor de R$1.218,36, para MG R$1.1.31,36, para MS R$1.128,00, para GO R$1.094,52 e para MT R$1.104,60. Em relação ao custo operacional, este foi estimado em R$0,85/cabeça/dia para todos os Estados.

Diante das opções e preços dos insumos para cada estado, procurou-se desenvolver as dietas de mínimo custo e lucro máximo com o programa RLM 3.2. Os animais considerados no cálculo são da raça Nelore, com peso inicial de 360 kg (12@) e final de 515 kg (18,03 @ – RC: 52,5%), tamanho corporal médio, machos não castrados e com desempenho da ordem de 1,60 a 1,68 kg/dia. Com essas informações, realizamos o cálculo do custo da arroba produzida e da arroba engordada no confinamento, conforme podemos visualizar no gráfico 1.

Ao analisarmos o gráfico 1, podemos avaliar que diante de uma maior precificação dos alimentos e também do boi magro para o estado de SP, maiores foram os custos da arroba produzida e também da arroba engordada. Situação contrária foi observada no estado do MT, onde tivemos os menores custos para estas variáveis, respectivamente.

Em relação à composição dos custos operacionais totais no confinamento, no gráfico 2 podemos observar a representação dos mesmos, por estado.

Ao analisarmos o gráfico 2, pode-se observar que quanto maior o preço do boi magro e dos alimentos, maiores foram as participações desses componentes no custo de produção total. Em SP, estado com maior precificação do boi magro e dos alimentos, os alimentos representaram 24,22% e o boi magro 68,70% dos custos totais de produção. Observa-se que, de maneira geral, os alimentos representaram de 22,73% (MT) a 24,71% (GO) dos custos e o boi magro de 67,67% (GO) a 67,90% (MG).

Para o cálculo do lucro operacional (R$/cabeça) consideramos os preços dos alimentos e do boi magro, cotados em 30 de janeiro 2012. Para a remuneração da arroba, consideramos diferentes cenários, partindo de uma remuneração mínima de R$90,00/@ e máxima de R$110,00, com variação de $5,00/@. No gráfico 3 poderemos avaliar a estimativa do lucro operacional diante dessas variáveis.

No gráfico 3, podemos avaliar que com a remuneração mínima de R$90,00/@, em praticamente todos os Estados, com exceção do MT, a operação de confinamento implicou em prejuízo operacional. Com uma remuneração de R$95,00/@, somente no Estado de SP não foi possível viabilizar o confinamento, que para se tornar viável demandaria de uma remuneração mínima de R$100,00/@. Já com o mercado do boi gordo em R$105,00/@, em todos os Estados avaliados o confinamento se tornaria uma atividade interessante do ponto de vista econômico.

É importante lembrar que na entressafra conta-se com uma oferta mais restrita de bois magros. Com isso, é natural que os custos do confinamento aumentem no período, independentemente do Estado em que se localiza o confinamento. Além disso, conforme citado no inicio desse texto, para o pecuarista que usa o cocho como estratégia, dificilmente teremos os animais de 12 @ chegando ao confinamento tão precificados, ou seja, é natural que nos sistemas de recria/engorda ou ciclo completo o boi magro tenha um custo menor de produção, aliás é exatamente essa a vantagens desses sistemas, quando comparado com o confinamento negócio, que parte do principio de comprar os bois e os alimentos no mercado.

Vale a pena olhar para o mercado futuro e ficar “antenado” quanto aos preços dos alimentos, do boi magro e a remuneração do boi gordo, pois são eles que ditam as regras do jogo, independentemente do estado. Aliás, o mercado futuro tem trabalhado com expectativas relativamente pessimistas neste início de ano, quando se considera o preço a ser pago na próxima entressafra. Ao longo da história, já fomos mais otimistas, mas os últimos anos têm mostrado pessimismo em relação ao período seco do ano. Observe:

Tabela 2. Mercado em janeiro: físico futuro em períodos passados.

Um detalhe interessante a se observar: o ágio médio que o futuro desenha para o contrato de outubro nos meses de janeiro é de 6,64%, ou seja, a expectativa “normal” do mercado futuro no início do ano é de que a sazonalidade se faça valer e que o boi gordo se valorize na entressafra.

Outra observação importante é que desde o início da série, os anos mais pessimistas acabaram surpreendendo com valorizações fortes, exceto 2009 e 2011. O contrário também é verdadeiro e basta conferir observando o resultado de 2004, em que o mercado futuro esperava valorização de 14% para a entressafra, que decepcionou e subiu apenas 0,9%. Quem usou o futuro naquele ano certamente ficou satisfeito.

No caso de mercados pessimistas em que a queda se concretizou, temos algumas justificativas. Em 2009, o motivo foi o período pós-crise, que trouxe muita turbulência também ao mercado pecuário. Aliás, foi em 2009 que assistimos mais de 50 plantas frigoríficas entrarem em paralização ou pedido de recuperação judicial. Já em 2011, o reflexo da explosão de preços vista em 2010 trouxe um crescimento de 30% ao volume de animais confinados. A crise internacional e o dólar frouxo também tiraram a atratividade da nossa carne exportada diante dos clientes internacionais e a demanda interna viu dificuldades em expandir diante da inflação forte registrada entre 2010 e 2011.

Dito isso, fica claro que o mercado futuro normalmente aponta algumas oportunidades fabulosas à frente e que podem fazer toda a diferença no planejamento do confinamento.

Hoje, o contrato de boi gordo com vencimento em outubro tem um ágio de apenas 1,75% em relação ao físico. É a quarta menor remuneração desde o início da série histórica, o que pode desestimular quem pensa em confinar e trazer um reflexo de pouca oferta à frente. Sem falar que o ano passado não apresentou boa remuneração, com exceção da segunda semana de novembro. Isso também pesa no momento da decisão. O ponto é que neste momento fica difícil pensar em travar a produção com o mercado futuro. A melhor alternativa indubitavelmente seria o mercado de opções, que além de barrar a queda, permite aproveitar uma possível alta, mas tem um custo maior.

Tabela 3. Ágio do mercado futuro para outubro em relação ao mercado físico em diferentes períodos.

Na tabela acima dá pra enxergar que o início do ano normalmente é menos otimista do que os meses à frente, mas deixa claro também que o planejamento começa agora.

No caso da alimentação, as perdas devido à estiagem trouxeram alta volatilidade e nova preocupação a quem não fez estoque nem travou via bolsa (sem falar em quem ainda não conta com pastagens em boas condições e suplementa com energéticos no cocho). Afinal de contas, ainda estamos em janeiro. Assim sendo, mesmo com uma produção maior os preços continuam altos e interferem negativamente no resultado. Mesmo assim, o milho e a soja precificados na BM&FBovespa já refletem a expectativa de aumento de área plantada para a safra de verão e a safrinha e algumas oportunidades começam a surgir.

Portanto, além do planejamento técnico, é fundamental que se faça o planejamento estratégico a fim de otimizar os ganhos com uma boa negociação, tanto por parte da produção como por parte dos insumos a serem comprados.

8 Comments

  1. Macroideas

    02/02/2012 at 22:07

    Essa tabela de agio esta errada nao tem o custo de carrego que ja foi via selic de 25 por cento e hj eh 10.5. Da a impressao q antes era mole confinar. Erro basico de matematica financeira. Macroideas

  2. Bruno Nunes

    02/02/2012 at 23:18

    Não entendo quase nada, mas gosto de ler. Achei a matéria bem elaborada e lembrei de você. Boa leitura!

  3. Ricardo Viana Lopes

    03/02/2012 at 15:46

    Boa tarde Rogério como vai??

    Primeiro gostaria de parabenizá-lo pelo artigo mas gostaria de lhe fazer uma pergunta:

    Sobre os custos dos insumos, na tabela com preços em R$/t o bagaço de cana não está muito abaixo do preço de mercado???

    Esse questionamento vem do fato de que eu também ando acompanhando o mercado e fui fazer algumas pesquisas de preço deste insumo para confinamento e o mínimo preço que encontrei nas usinas era de cerca de R$ 70,00/t chegando até a casa dos R$ 100,00/t, principalmente pelo fato deste insumo estar sendo usado para a produção de energia nas usinas.

    Muiot obrigado pela oportunidade e iniciativa de podermos discutir tão importante assunto.

    Obrigado.

    • Rogerio Marchiori Coan

      04/02/2012 at 12:36

      Boa tarde Ricado,

      Obrigado pelos comentários.
      O preço do bagaço de cana de cru foi tomado nas regiões de Jaboticabal, Pereira Barreto, Lins e Andradina. Nessas praças pecuárias, o valor que aferirmos foi da ordem de R$25,00 a R$40,00. Acredito que dependendo do frete, os preços realmente atinjam patamares mais elevados,

      De toda forma, esse artigo será atualizados quinzenalmente e com isso estaremos atualizando as informações e com certeza podemos ter outros preços em um futuro não muis distante, pois atualmente o mercado pecuário ainda não está demandando de bagaço para compor dietas…

      Um grande abraço.

  4. Paulo Carvalho

    03/02/2012 at 16:58

    Boa tarde Ligia, muito legal o estudo feito junto com o Coan, parabens.

    Uma sugestão era ter uma opção para mostrar o impacto que o GMD tem em cima do custo, fazendo uma escala como o do valor da @ quanto maior o GMD menor o custo da @ produzida…

    Na formação do custo operacional diario, vcs colocaram a depreciação nele?

    Att
    Paulo Carvalho
    Arca Agropecuária

    • Rogerio Marchiori Coan

      04/02/2012 at 12:37

      Boa tarde Paulo,

      Como está? Espero que tudo bem.

      Estaremos desenvolvendo um simulador de custos e resultados do confinamento e com isso poderemos simular essas variáveis.

      Um abraço.

  5. Lygia Pimentel

    04/02/2012 at 14:17

    Prezado senhor Macroideas,

    Agradecemos o comentário e nos prontificamos a respondê-lo.

    A confusão entre análise econômica e financeira é comum. O custo de carrego não precisou ser embutido pois não houve posicionamento efetivo na BM&F. Além disso, consideramos apenas a precificação do contrato de outubro na comparação, o que não necessitaria rolagem ou outra operação que incluísse custos operacionais no caso de uma compra especulativa, por exemplo.

    Neste caso, a comparação foi feita entre o mercado físico em janeiro e o que o mercado futuro indicava para o contrato de outubro também em JANEIRO. Portanto, não há de se considerar o custo de carrego nessa comparação, pois ele ainda não tem como ser precificado. Apenas para lembrar, o carrego é o passivo empregado para manter o ativo em carteira e seu custo depende do ativo em questão, podendo incluir despesas com a operação, seguros envolvidos, custo de armazenagem, juros, impostos e custo para a obtenção de crédito. Outro lembrete importante é que ele não é necessariamente pautado pela SELIC.

    Como neste exemplo não consideramos a operação realizada, apenas a comparação entre a expectativa do futuro e o físico, ambos comparados em um mesmo momento, as variáveis envolvidas no custo de carrego de um possível posicionamento na BM&F para travar a produção estariam incluídas no custo de produção, indicador fundamental e sobre o qual discorremos no início do texto. Em outras palavras, caso a operação tivesse sido executada, entraria no cálculo dos custos.

    A dificuldade ou facilidade em confinar (e que doravante chamaremos “resultado do confinamento”) não é estabelecida pelo ágio que o mercado futuro precifica, mas pela margem gerada entre esse e o custo de produção.

    Portanto, se o custo no período foi maior do que o preço + ágio, este seria considerado um ano difícil para a pecuária. O contrário também é verdadeiro. Isso significa que mesmo em anos de ágios maiores historicamente, o pecuarista teve dificuldades em recolher uma boa margem devido ao alto custo registrado no período, o que mostra que a pecuária não é moleza mesmo, nem mesmo em anos de ágio maior. Um exemplo disso é 2006, fundo do poço para o ciclo pecuário anterior e que contava com 18% de ágio entre o mercado físico em janeiro e o que o futuro apontava para outubro também em janeiro.

    Temos um estudo sobre finanças e gostaríamos de enviá-lo ao senhor por correio. Se puder, entre em contato através de nossos e-mails para que possamos despachá-lo. Tentamos contatá-lo, mas o endereço de e-mail fornecido pelo senhor é inválido.

    Cordialmente,

    Lygia Pimentel

  6. Lygia Pimentel

    04/02/2012 at 14:32

    Olá, Paulo!
    Obrigada pelo comentário, é muito gentil!

    Sua sugestão é excelente, e como disse o Rogério, temos um projeto para incluirmos vários estudos através de simulação, inclusive comparativamente à curva de GPD.

    A depreciação sempre é incluída em nossos cálculos. Aliás, reforço que é um item fundamental no cálculo dos custos. Sem ela, consumimos nosso patrimônio ao longo dos anos sem percebermos, por isso é importante que seja incluída para chegarmos a um resultado o mais próximo da realidade possível.

    Grande abraço,

    Lygia Pimentel

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