Do couro sai a correia.

Por em 25 de agosto de 2011
Conhecem a frase título deste artigo? Creio que a maioria de vocês deve estar familiarizado com ela ou já escutou alguém pronunciando-a por ai. Mas não se preocupem caros leitores, não irei explicar a origem ou a definição deste dito popular neste post, quero mesmo é que vocês guardem este conceito na cabeça por enquanto e continuem lendo este texto, a frase fará mais sentido no decorrer dele.

Acompanhando meu perfil no twitter dia destes, notei uma conversa curiosa entre dois perfis que sigo relacionados ao mercado pecuário, o primeiro publicou uma foto de uma balança eletrônica de carcaças em um frigorífico, onde provavelmente estava ocorrendo uma sessão de abate de bois e escreveu: – "Aqui está o segredo do frigorífico!" Em resposta a esta publicação o segundo perfil questionou: – "Que é isso?o programinha que roba peso da carcaça? ajusta o peso real e peso pago ao produtor?" Respondendo a este questionamento, o primeiro afirmou: – "Esse mesmo." Conversa no mínimo estranha, não?

Para dizer a verdade, para mim e acredito eu, para 99% dos profissionais que tem a pecuária de corte como atividade e negociam diretamente com frigoríficos, esta conversa não é novidade, pelo contrário. As discussões em torno de problemas relacionados as questões de pesos nas balanças dos frigoríficos é tão antiga quanto os primeiros frigoríficos e não serei eu a entrar nesta questão tão polêmica. O que me chamou a atenção para a conversa transcrita foi a frugalidade com que o assunto foi tratado, a naturalidade. Como se a adoção desta prática fosse institucionalizada entre as empresas do setor e aceita passivamente entre os pecuaristas.

Além disso, o termo "Segredo do frigorífico" me levou mais ainda a refletir. Nada contra a conversa entre os dois perfis, acredito que discussões bem fundamentadas e a liberdade de expressão são bases fundamentais para se construir uma sociedade melhor e tal. O que fiquei pensando a respeito do conteúdo do que foi escrito esta relacionado muito mais com o negócio em si.

Para quem não esta familiarizado com o modelo de negócios de um frigorífico, pode soar estranha esta explicação, o frigorífico é uma indústria de desmonte, onde os inputs são os bois ou vacas encaminhados para o abate e os outputs servem de base para dezenas de cadeias industriais, que vão da mais óbvia, a de alimentos até a inusitada indústria de extintores de incêndio. O frigorífico faz o abate, o desmonte da carcaça e a venda de todos os produtos e subprodutos obtidos nesta operação. Simples!

Como sempre, falar é bem mais fácil do que fazer. A dificuldade em operar e gerenciar esta quantidade enorme de entradas e saídas é imensa e justifica todos os investimentos em logística, sistemas de integração operacionais, softwares, mesas de gestão de risco financeiras, verticalização, marketing, programas de relacionamento com fornecedores, certificações internacionais, etc. que foram e continuam sendo feitos pelas empresas do setor. Além disso, o ambiente organizacional específico onde os frigoríficos atuam, ensanduichados entre milhões de pecuaristas e um varejo cada vez mais concentrado, é um dos piores possíveis de se atuar. Operando nestes negócios e acreditando em seus modelos, as empresas de diversos tamanhos criaram enormes engenharias financeiras para se capitalizar, financiar e viabilizar suas expansões e modernizações, cada uma no seu ritmo e tempo.

Vendo desta forma, é no mínimo ingênuo imaginarmos que as empresas do setor baseiam seus modelos de negócio em um simples "programinha que roba peso da carcaça" …. concordam? Se o segredo de operar um frigorífico for realmente este, qual seria a justificativa para todos os investimentos que visam capturar margens mínimas de ganhos e toda a evolução pela qual o setor vem passando, podemos concluir então que as empresas que entraram em recuperação judicial nestes últimos anos não estavam operando seus programinhas de balança de forma eficaz? Não dá para acreditar nisso, acho muito pouco provável.

Concordo com o debate em torno de questões como peso, rendimento de carcaça e toalete nas indústrias. Isso foi vital para estreitar os relacionamentos entre vendedores e compradores, já gerou e vai gerar muitos frutos positivos na relação entre frigoríficos e pecuaristas, com certeza. Mas não posso concordar com a afirmação de que a eficiência operacional ou o "segredo" de um negócio tão complexo como uma indústria frigorífica possa ser mérito de um simples software que ajusta pesos. Lembrem-se do início do texto, faz mais sentido concluirmos que as eficiências das empresas do setor estão mais ligadas as suas habilidades em explorar suas vantagens comparativas e aos seus investimentos nas diversas áreas chave do negócio, isso sim é o verdadeiro segredo, é ai que se encontra a verdadeira criação de valor.

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